“Abranda e aproveita a vida. Não é apenas a paisagem que perdes por ires muito depressa – também deixas de perceber para onde estás a ir e porquê.”
Eddie Cantor (1892-1964)
A luz do trovão

O trovão só faz barulho porque temos medo dele; mas depois vem a luz.
E porque a luz só momentaneamente nos ilumina, logo nos esquecemos de que o medo nos mostrou a luz.
Ou talvez nos esqueçamos porque vemos o quanto a luz é poderosa, rápida e indestrutível.
E aí fala de novo o medo, temos medo que a luz entre em nós, do que poderá destruir em nós. Ignoramos o coração que nos sussurra que há planícies que precisam ser devastadas, seja pelo fogo renovador ou pela água purificadora.
O medo esconde-nos que o trovão vem do alto, é um grito que no fundo queremos ouvir, o rugido de leão que em nós habita.
Fomos feitos para o ouvir, do início o procuramos, sabemos que também nós somos som que procura o silêncio, para em luz se manifestar.
© Isa Lisboa
Grata, Ano Velho. Aqui estou, Ano Novo.
Aproxima-se o final do ano e, como tal, marca-se o final de um ciclo. A ideia de final de ciclo é comum numa passagem de ano. Geralmente temos tendência para fazer uma retrospectiva do ano que passou e tomar as famosas resoluções para o ano seguinte. Para melhorar tudo aquilo que correu menos bem.
Este ano, dizem as correntes místicas, encerra vários ciclos. Um de 9 anos, segundo a numerologia (2+0+1+6=9). Um novo ciclo, 1, um novo início, espera-nos em 2017. Um de 36 anos, segundo a astrologia, em que o astro regente deixará de ser o sol e passará a ser Saturno. Passaremos de um ciclo regido pela individualidade, eu sou o centro (tal como o sol o é do sistema solar) para um ciclo regido por um planeta que nos pedirá mais amadurecimento e mais trabalho interior.
Em ano de tão grandes fins de ciclo, parecem soprar ventos favoráveis a que encerremos capítulos da nossa vida, para que outros comecem.
Temos facilidade em comer as doze passas pedindo um desejo por cada uma. Um desejo de algo novo. Mas assim como a memória não é elástica e, para que novas memórias se instalem, outras terão que ser substituídas, assim também acontece na nossa vida a outros níveis. Para que coisas novas entrem na nossa vida, precisamos arranjar espaço para elas. E só o conseguiremos se libertarmos o que já não necessitamos mais na nossa vida. Pensem numa gaveta que abrem e encontram cheia. Na outra mão, seguram algo que querem guardar lá dentro. Se tentarem colocar, não vai caber. Ou talvez até ainda caiba, mesmo mesmo à justa. Mas aí tanto esse novo item como os anteriores, ficam sem espaço, demasiado juntos uns aos outros. De cada vez que tentarem abrir a gaveta, travarão uma luta com os objectos que querem sair. E uma luta ainda maior travarão ao tentar fechar de novo a gaveta. Como se aqueles objectos – que estavam tão juntinhos e cabiam à justa – tivessem aumentado de tamanho e quisessem sair.
Também a minha vida já teve momentos em que se encontrava como essa gaveta. Atafulhada. Agarrada àquilo de que já não precisava, mas a querer coisas novas. É fácil perceber que, um dia, não se consegue arrumar mais nada. Felizmente, consegui arrumar a tal gaveta antes que o espaço fosse irrespirável.
E não pensem que agora está sempre tudo arrumado, impecável. Não está. Mas é tão mais fácil respirar, agora que o espaço é maior, agora que aprendi a libertar.
Neste fim de ciclos, dou por mim a pensar no que preciso agora libertar. Algumas coisas são mais difíceis de deixar ir. Por vezes não sabemos como o fazer. Se deixamos ir, dói. Se deixamos ficar, dói.
Então olhei para trás e percebi que um dos pilares que me ajudou a libertar-me de situações dolorosas foi a gratidão.
A gratidão é uma palavra que contém muita beleza. E, quando a sentimos enchemo-nos de paz e de leveza. Diz um outro princípio místico, da filosofia reiki, “Só por hoje, sou grata(o)”.
Se pensarmos bem, com a mente sem “pré-conceitos”, todos os dias conseguimos encontrar um motivo pelo qual sermos gratas(os). Talvez seja um detalhe “apenas”. Mas no nosso dia são-nos oferecidos pequenos momentos de felicidade. Um sorriso. O sol que desponta e nos traz um pouco de luz. Uma palavra simpática. Um gesto inesperado de alguém. Uma palavra de força. Na confusão do dia-a-dia, nem sempre prestamos atenção a esses pequenos, mas grandes, motivos de gratidão. Principalmente quando estamos focados na fila de trânsito, no metro que parou, na chuva, no ar carrancudo da pessoa que passou, etc, etc, etc…. Mas esses momentos existem, e podemos vê-los quando começamos a ver.
Encontrados estes pequenos momentos de gratidão, chega o mais difícil. Porque descobertos estes momentos, é fácil ser grata(o) por eles.
Mas e ser grata(o) aos maus momentos, às dificuldades, àquelas alturas em que parece que a vida nos atira para o chão e nos dá uma valente paulada… Por esses momentos, e pelas pessoas que os possam ter protagonizado, é muito difícil sentir gratidão. Não é, de todo, esse o primeiro sentimento que assalta quando as recordações vêm.
Mas porquê sentir gratidão pelo que de mau nos acontece? Porque “aquilo” nos ensinou algo. Por vezes é difícil perceber o que foi, mas se formos ao fundo do tema, conseguimos perceber. Conseguimos perceber quem éramos naquela altura e quem somos depois que ultrapassámos aquele mau momento. E na diferença entre essas duas “pessoas”, percebemos no que foi que evoluímos e no que foi que mudámos e o que aprendemos. Em quê somos melhores pessoas e mais leves e mais felizes.
E porque precisámos passar por uma situação má para aprender, perguntam vocês?
E conseguiriam ter mudado e aprendido se a vida não vos tivesse dado esse apertão, pergunto eu?
Por outro lado, se não vêm diferença alguma, pode acontecer que realmente nada tenha mudado. Também pode acontecer que a mudança vos tenha tornado pessoas mais fechadas, mais amargas e mais infelizes. Quando uma dessas coisas acontece – acredito eu – a vida volta e volta, e continua a dar-nos a mesma paulada até que tenhamos aprendido o que precisamos. A vida é um professor que nunca desiste dos seus alunos.
E com estes pensamentos, aqui estou, à beira deste fim de ciclo(s). Pronta para cometer novos erros e levar novas lições da vida, certamente. Mas também pronta e decidida a deixar para trás os antigos erros e para guardar as lições aprendidas.
E expectante quanto ao que os novos inícios me reservam.
E venham bons feelings! 😉
© Isa Lisboa

Um sonho de Natal

Imagem: http://www.pixabay.com
A última reunião da agenda estava encerrada, tudo havia corrido como Alexandre havia planeado, a promoção que tanto merecia parecia-lhe estar agora mais próxima.
Relia o último e-mail do dia. “Send”.
Arrumou as pastas no sítio certo, na segunda feira voltaria a abri-las.
Há poucos minutos, Inês ligara-lhe, avisando que o esperava em casa mais cedo, este ano toda a família estaria presente na Ceia de Natal. Todos…excepto Diogo…
Já estava tudo organizado para a Noite de Natal, o melhor catering estava assegurado e todas as prendas já lhe haviam sido entregues e arrumadas na bagageira do seu Audi. Isabel tinha sido inestimável, como sempre. A Inês adorava-a, com a sua ajuda consegue sempre organizar a ceia perfeita em cada ano. E também fica sempre encantada com os presentes que ela escolhe. Este ano encomendou um quadro, de um daqueles artistas emergentes. Espero que goste, pergunto-me porque quer embelezar a parede, quando costuma preferir adornos para si… Edmundo Bram… Algo no nome desse artista lhe parecia estranhamente familiar, mas porque seria? O telefone tocou de novo.
“Sim, querida, estou a sair do escritório, não te preocupes, chegarei a tempo.” … “Eu também, um beijo”.
Alexandre dirigiu-se ao seu carro e sentiu-se a relaxar quando se sentou nos seus bancos de pele e se preparou para rodar a chave na ignição. A viagem até casa foi um prazer, como ele adorava conduzir!
Chegou a casa ainda a tempo de vestir algo mais confortável.
Ouvia já os convidados a chegar, a tia Matilde já inundava a sala com os seus reparos à roupa de Inês. Quando começámos a namorar, a tia Matilde olhava para mim com ar desconfiado, dizia-me que parecia não ir a lado nenhum…. Bom, depois desse fraco vaticínio, Inês já não devia preocupar-se com a sua opinião… Espero que a Lurdes chegue depressa, é a única que consegue acalmar um pouco os ânimos da irmã.
São o verso e o reverso de uma mesma medalha, um pouco como eram Alexandre e o seu irmão.
“Não”, pensou logo Alexandre, porque era a segunda vez que a recordação de Diogo o assaltava.
O seu irmão não estava ali, tal como não estava quando Alexandre conseguiu o estágio na consultora, no dia em que conseguiu reunir coragem para se declarar a Inês, no dia em que casaram. E não estaria cá daqui a 7 meses, não iria conhecer o sobrinho.
Ainda ninguém sabia, finalmente esperavam um filho!
Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz da sua mãe, que o chamava. Estava na hora de descer.
A irmã e os seus sobrinhos gémeos também já haviam chegado. As crianças tinham uma alegria contagiante, à qual Alexandre nunca conseguia resistir. Talvez ele e Inês também pudessem ter gémeos, pensando na tendência genética da família.
A noite decorreu, todos estavam felizes. Quando já tinham voltado para casa, Alexandre sentou-se por um pouco. Apagou as luzes da casa e dirigiu-se ao quarto. Inês já dormia, Alexandre escorregou por entre os lençóis e olhou para Inês. Como continuava linda. Mudou o look ao longo dos anos, mas aquela curvinha no queixo, continua lá… Ficou um pouco a ouvir a sua respiração leve e adormeceu também.
Acordou cedo e sentiu vontade de ir até ao jardim. Vestiu um casaco e foi até lá, a pé. Dirigiu-se ao banco que procurava e sentou-se a olhar para a água da fonte, que se renova, sendo sempre a mesma… Sentiu um pequeno barulho e um jovem aproximou-se de si e sentou-se. Alexandre sentiu que estava a ficar louco, aquele rapaz parecia Diogo!
“Não estás louco, sou eu, o Diogo!” “Não pode ser, tu foste embora!” “Mas voltei” “Não, não podes ser tu, estás na mesma, não envelheceste, como eu!” “O Peter Pan também não envelheceu quando fugiu para a Terra do Nunca” “Porque dizes sempre esses disparates? Não és o Peter Pan, não eras uma criança quando partiste! Não foram fadas que te levaram, foram os teus próprios pés!” “Não, mas fugi porque não queria crescer, não da mesma forma que tu querias! Fui em busca do meu caminho, precisava descobrir-me” “E encontraste-te?” “Encontrei-me, mas vejo que tu estás a perder-te” “O que queres dizer com isso? Estou óptimo!” “Sim, sei tudo isso, sei que conseguiste tudo o que sonhaste, a tua carreira está em ascensão, casaste com a Inês, mostraste à família dela que estavam enganados a teu respeito.” “Sim, sabes que casámos?” “Sei sim… Ontem à noite pensavas que ela está cada vez mais bonita… Ficaste surpreendido com esse pensamento, não foi? Há quanto tempo não olhas para ela, apenas olhar, ver os movimentos dela, ouvi-la falar, como gostavas de fazer quando estávamos no liceu. Lembras-te que ela gostava de ler poesia? Que lhe compravas livros que não tinhas coragem de lhe oferecer? E agora? Quando foi a última vez que saíste do teu escritório para lhe comprar um livro? E tu, quando foi a última vez que foste ao teatro, adoravas ir ver os clássicos…? O teu filho vai nascer, ainda te lembras como andar de bicicleta, como jogar à bola, correr pelo jardim quando chove? Lembra-te, se não lhe ensinares tudo isso, com quem vai ele aprender? Terás que o trazer a este jardim, e sentares-te com ele neste banco, e falares-lhe de ti, de quando te sentavas aqui com o teu irmão gémeo, a fazer planos para o futuro. Lembras-te de tudo o que querias ser?”
Alexandre acordou de repente, o sonho perturbou-o. Levantou-se e foi até à garagem, procurou nas caixas que estavam no canto e encontrou… Ainda estavam em bom estado. Dirigiu-se à sala e estava lá Inês a pendurar o quadro. “Quero dar-te o teu presente, o teu presente a sério. Já têm dez anos, mas são teus, comprei-os um a um para ti, mas guardava-os sempre, com medo de te os oferecer, com medo de que o presente fosse pequeno para ti.” Inês leu os títulos um a um, folheou os livros calmamente e sorriu. “Adoro! Adoro-te” “Lês para mim?” “Claro”. Alexandre sentou-se. Olhou para o quadro pendurado na parede, muito bom, realmente. Edmundo Bram… De repente, lembrou-se! Era o nome com que Diogo assinava os seus esboços… Será que Diogo regressou mesmo da Terra do Nunca? Talvez sim, mas hoje era Alexandre que não iria permitir-se crescer. Inês continuava com a sua curvinha no queixo, a sua voz era melodiosa e linda como sempre. E esperava o seu filho. E Alexandre esqueceu-se das pastas que deixou no escritório. Logo à noite iria ver quais as peças de teatro que iriam estrear. E amanhã iria comprar uma bola de futebol.
© Isa Lisboa
Texto publicado originalmente no blog “Instantâneos a preto e branco”
Memórias de Natal

Imagem: http://www.pixabay.com
Costumava ir com a minha mãe cortar um pinheirinho para o Natal, e depois apanhar musgo para fazer o presépio. Inevitavelmente voltava destas aventuras com a roupa um pouco molhada e com as mãos impregnadas de terra e resina. Mas com o meu sorriso de criança bem aberto.
Seguia-se a colocação da árvore no sítio mais bem escolhido. As luzes, as fitas de Natal com muitas cores, bolas e sinos brilhantes, uma estrela de papelão colorido.
Depois, espalhava o musgo pelo chão, juntava os pedaços num puzzle perfeito. Precisava de um manto verde extenso, o espaço parecia ser sempre curto para colocar todos os participantes do presépio. A cabana onde colocava o berço, com uma estrutura improvisada cada ano, e coberta com os pedaços de musgo mais bonito. Aos Reis Magos, juntavam-se o pastor, com as suas ovelhas brancas, o pescador ao lado de uma ponte… e se existia uma ponte, era preciso retirar um pedaço de musgo para transformar um simples plástico azul ou um velho espelho num rio. Ao fundo, o castelo, que estava num monte, também ele construído com o que existia à mão, e coberto por musgo, mantendo o efeito. A ligar estas personagens, umas mais improváveis que outras, um caminho de neve, inventado com produtos da despensa lá de casa.
As prendas aconchegavam-se ao lado da árvore. Sentia uma imensa curiosidade infantil que me levava a pegar nas prendas, sentir o formato, abaná-las. Tentava perceber o que se escondia dentro do papel de fantasia, mas nunca abria as prendas antes do tempo. Gostava da antecipação, deste pequeno jogo de adivinhação.
Lembro-me bem deste pequeno combate que travava com a minha curiosidade, com a vontade de descobrir o mistério. E do cheiro a terra molhada, não o cheiro a terra molhada do verão, a terra molhada que vinha agarrado ao musgo e o cheiro a pinhal que ficava na minha sala. Tudo isso dava mais brilho ao conjunto.
Lembro-me do aroma dos fritos de abóbora, a minha missão em criança era a de adoçá-los com canela e açúcar, que misturava meticulosamente, procurando a dose certa de cada um. E lembro-me do cheiro do café, que ainda não podia provar. Anos depois, apenas gostava daquele café com os doces de Natal.
São estas recordações que ainda me fazem gostar tanto do Natal, ainda que já use menos fitas e que o meu presépio seja agora mais pequeno. Mas só os acessórios de Natal diminuíram. Continuo a enfeitar o cantinho da minha sala – agora no meu apartamento da cidade – com o mesmo sorriso de antes, com a mesma ansiedade para ligar as luzes e vê-las a piscar, a mostrar que o Natal vem aí. Continuo a misturar a canela com o açúcar…
É talvez a lembrança da Felicidade pura de quando somos crianças. Mas também a Felicidade que ainda consigo ver nos adultos nesta altura.
É uma altura em que as pessoas são mais solidárias, mais disponíveis para estar um pouco com os outros. Dizem alguns que nesta altura todos fazem num mês o que deviam fazer durante todo o ano, e que é uma época de consumismo. Sim, isso também é verdade, mas ainda vejo o espírito verdadeiro de Natal em algumas pessoas. Ainda existem pessoas que sabem que um abraço, um sorriso, uma mão, um ombro, uma palavra simpática, valem infinitamente mais que um presente embrulhado. E é isso que faz o Natal e é por isso que gosto genuinamente desta altura do ano.
E em cada noite de Natal, mesmo agora já crescida, consigo por um momento lembrar-me daquela criança loira, sentada no chão, a olhar para as luzes de Natal a piscar, simplesmente e apenas feliz.
Deixo aqui o meu simples desejo de Natal: que nos lembremos de como uma pequena luzinha nos pode fazer felizes, nem que seja apenas por uma noite.
© Isa Lisboa
Texto publicado originalmente no blog “Os dias em que olho o mundo”
Eu ainda acredito no Pai Natal

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“Eu ainda acredito no Pai Natal!” – é uma frase que me tenho ouvido a mim mesma dizer nas últimas semanas. É uma frase que digo habitualmente nesta altura do ano, perante reacções faciais que variam entre o “Que tolice!” e o mais sorridente “Só tu!”
Provavelmente, por aí, as reacções foram semelhantes. Pois que sentido fará que uma adulta como eu, ainda acredite no velhinho das barbas brancas?
Perante uma pergunta semelhante feita por alguém que ainda há pouco tempo acreditava no Pai Natal, tentei explicar que o Pai Natal não tem que descer pela minha chaminé e deixar uma prenda lá em casa. O Pai Natal em que eu acredito é a motivação do velhinho que percorre os céus, todos os natais, com o propósito de “apenas” fazer todos os meninos do mundo felizes. O Pai Natal em que eu acredito é um símbolo do espírito de Natal.
E porque acreditas num símbolo que não vês, foi a pergunta seguinte.
E fez-me pensar. Realmente, cada vez mais nos tornámos em “S. Tomé”, cépticos a tudo o que não vemos, não tocamos e não entendemos. Esta altura do ano tem muito de visual, desde as luzes que enfeitam a árvore em casa às luzes mais chamativas dos centros comerciais, de onde podem sair as prendas coloridas. Prendas que, afinal não é o Pai Natal que traz, mas antes os pais, os irmãos, os filhos, etc, etc… Afinal, não são os duendes que, durante meses, fabricam os brinquedos e as prendas que são colocadas debaixo da árvore de natal. Afinal, o Pai Natal não atravessa o globo numa noite só, distribuindo presentes. Afinal, o trenó é o porta bagagem do carro de família…
Esta é uma imagem que talvez se possa classificar como “dos tempos modernos”, mas eu acho que também aqui há algo que não se vê. Mas que podemos ver, se quisermos.
Os duendes fazem as peças dos brinquedos, uma a uma. Constroem o brinquedo, um de cada vez. Cada brinquedo para o menino ou menina que o pediu. Colocam-nos cuidadosamente no saco do Pai Natal. E o Pai Natal entrega-o meticulosamente na casa de cada criança, sabendo exactamente o nome da pessoa que o receberá e imaginando o seu sorriso aberto, ao desembrulhar a prenda.
Pergunto eu, porque é que cada um de nós não pode ser esses duendes, comprando cada presente para a pessoa, pensado no que a pessoa irá gostar? Porque é que cada um de nós não pode ser o Pai Natal, entregando o presente e dando mais que apenas o que está lá embrulhado? Dando um pouco de si, do que sente, pondo um pouco do que sente a embrulhar também o presente.
Eu acredito nisso. Acredito nisso que não se vê, o amor que podemos colocar em tudo o que fazemos e em tudo o que damos.
E é por isso que eu ainda acredito no Pai Natal.
© Isa Lisboa

Imagem: http://www.pixabay.com
Invernos, Sonhos e Andorinhas ao encontro dos leitores no HFF

No próximo dia 13-12-2016 estarei, até às 20h, no Hospital Professor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), a divulgar o meu livro Invernos, Sonhos e Andorinhas.
Se passarem lá por perto, aproveitem para adquirir o livro com uma dedicatória personalizada!
Por cada livro vendido neste evento, a Associação Fernandinhos e Companhia receberá o valor de 2€. Contribuam também para esta causa, através da compra do livro, ou dos meios que tiverem ao vosso alcance!
Caso não tenham essa oportunidade, podem ainda fazer a vossa encomenda de um livro autografado por mesnagem privada aqui na página do facebook ou para o e-mail: encomendas@isalisboa.com!
Abraços, da Isa Lisboa
Um presente diferente! :)
Este ano gostarias de oferecer um presente de Natal diferente?
Felizes e doces sonhos!

Descubram aqui as opiniões de quem já leu!
Larga a pedra
“São horas de largar a pedra.” – li logo pela manhã.
De imediato me lembrei de um exercício proposto no “Livro do Perdão”, de Desdmond Tutu. Esse exercício propunha-nos que durante um certo período de tempo (talvez um mês, não sei precisar) fechássemos uma pedra na mão e andássemos com ela para todo o lado e fizéssemos o que fizéssemos.
Não levei efectivamente o exercício da teoria à prática, mas imaginei-me a pegar na tal pedra e andar com ela por aí. Para tomar banho, vestir, tomar o pequeno-almoço. Conduzir, apanhar o metro, ligar o computador no trabalho, trabalhar, atender o telefone, voltar para casa, fazer o jantar, continuar a segurar a pedra nas horas de lazer e, finalmente, adormecer com ela.
Não seria mesma nada agradável! E, para além disso, certamente que os nossos movimentos habituais ficariam bastante condicionados; não seriam, certamente, executados com a mesma eficiência, com a mesma rapidez ou com o mesmo prazer. E tudo por causa de uma pequena pedra.
Como talvez já tenham percebido, neste exercício, a pedra representa as nossas mágoas e ressentimentos. Aquelas que carregamos todos os dias connosco, até aonde quer que vamos. E que carregamos no nosso coração. Todos os dias, já sem questionarmos a presença delas ali. Ou o seu efeito.
E tal como a pedra, esses sentimentos pesados condicionam o nosso dia-a-dia, o que fazemos, o que dizemos, como o fazemos e dizemos. Acima de tudo, condicionam a nossa felicidade. E quanto maior a pedra, mais pesada também a nossa vida se torna. Como se, constantemente, empurrássemos um enorme pedregulho encosta acima.
E quanto mais nos agarramos à pedra, maior ela se torna, alimentada pelos nossos próprios pensamentos. E mais íngreme se torna a caminhada.
Não tenho dúvidas sobre os benefícios do exercício do perdão. E também não tenho dúvidas sobre a dificuldade do exercício.
Mesmo quando queremos largar a pedra e sabemos que podemos ser muito mais felizes sem aquele peso; a verdade é que não é fácil deixar ir.
A parte de nós que foi magoada sente-se traída. Sente que, ao perdoar, está a dizer que tudo o que se passou estava bem.
Pois eu digo: não estava bem. Sentiste-te magoada(o) com uma palavra, uma atitude, uma situação? Então olha essa memória de frente e reconhece cada uma das emoções que sentiste. Chama-as pelos nomes, sem brandura, tudo nu e cru. Humilhação, vergonha, diminuição, desilusão. Todos esses e outros palavrões são permitidos. Olha. De frente. Tudo. O que sentiste.
Vou dar-te um aviso justo: este exercício é ainda mais difícil do que o da pedra na mão. Porque vais reviver tudo. E vais reviver com todas as camadas que já puseste em cima para tentares encarar tudo de forma diferente. Tudo o que puseste em cima para tentares esquecer, vai começar a cair. E já não vais mais conseguir disfarçar a mágoa, a raiva. Já não vais conseguir dizer “Não foi nada, já passou!”
Vai ser duro.
E vai ficar mais duro ainda: vais olhar para ti mesma(o) e vais perceber que tu também estavas lá. Vais perguntar-te como pudeste permitir que alguém te tratasse daquela forma. É nessa altura que vais perceber que carregas duas pedras na mão. E que uma delas és tu. Vais perceber que precisas perdoar-te a ti mesma(o).
Essa é a pedra mais difícil de largar.
Talvez nessa altura já terás começado a entender que as atitudes do “outro” tiveram uma causa, que foram o reflexo daquilo que a pessoa sentia em relação a si própria. Mas e então as minhas acções? O que a minha própria atitude diz de mim?
Posso dizer-vos que já fiz este caminho, que ainda o estou a fazer relativamente a algumas situações. E não posso garantir que não tenha que o fazer novamente. Também vos posso dizer – como já disse – que não é fácil. Mas tenho feito este caminho. Como consegui perdoar-me a mim mesma? Repetindo várias vezes a máxima “Apenas podes fazer o melhor que consegues, com aquilo que tens no momento e com aquilo que sabes.”
Se ainda não consegui livrar-me de todos os pesos, é apenas porque ainda estou no processo. Estou a trabalhar. E vou largar a pedra. E vou ficar mais leve.
E tu, que estás a ler, e entendeste cada palavra do que escrevi – tu também vais ficar mais leve.
© Isa Lisboa

Imagem: Autor não identificado
Em maresia
Era manhã e havia orvalho na janela. Havia ainda flocos do sol que nasceu, vislumbrou. Ela estava sentada num banquinho, os braços apoiados na mesa de madeira. A casa ainda dormia, assim como o mundo.
As abas do pijama alvo moveram-se ao ritmo da porta que retiniu. Sabia que não era o vento; e não sabendo ao certo quem esperava, levantou-se para o receber.
Empurrou a porta devagar e entrou, sorriso á frente. Tinha a pele de muitas luas e os olhos de muitos sóis. Estendeu-lhe uma oferta.
Vendo que estava embrulhada em maresia, aceitou-a com cuidado. Quando ia agradecer, viu-o desaparecer calmamente no nevoeiro. Sem entender, entendeu. O presente era para abrir.
Encontrou um par de asas, que lhe serviam na perfeição.
Agora já era noite, mas ainda assim levantou voo. Voou na direcção do mar, porque não?
O cheiro da maresia guiava-a e a memória de casa persistia. Não era uma memória vã, era mais antiga que ela própria, e só para a lembrar, acordara nessa manhã.
Voou até ver. Quando viu, soube, e quando pousou os pés na areia, já não era manhã, nem noite.
© Isa Lisboa

Imagem: Mila Marquis
Imagem: mila_marquis-1068×1068
