Fronteiras das emoções

 

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Foto: Christos Lamprianidis, via Art_Pics (Facebook)

 

Encontrei-me, perdendo-me. E também me perdi, encontrando-me. As fronteiras das nossas emoções não se demarcam a caneta. Tão pouco a lápis as conseguimos muitas vezes desenhar.

Nunca saberemos o que é o amor, até que o nosso coração se abra, sabendo que tanto a dor como a felicidade podem entrar.

E nunca saberemos o que é a felicidade, se não estivermos dispostos a sentir a dor. A dor também nos ensina a vida; e apaziguá-la ensina-nos a contactar com a nossa humanidade.

Somos paradoxos. Frágeis nas nossas fortalezas auto erguidas. Fortes, nas nossas fragilidades olhadas nos olhos.

Encontrei-me, olhando-me. Desviando os olhos, dou um passo para me perder.

Só fazendo um mapa poderei apagar as falas fronteiras. E o Caminho far-se-á um passo após o outro, nas pontes entre mim.

© Isa Lisboa

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O Caminho do Eu

Uma vez percorrido o Caminho do Eu, temos tendência a achar que a viagem foi cumprida.
Mas assim como o rio que atravessamos hoje não será amanhã o mesmo, também este Caminho muda após feita a primeira viagem.
É um Caminho que devemos atravessar uma e outra vez, libertando novas camadas de quem não somos. Ou descobrindo novas manifestações de quem somos.
Aceitar a jornada nem sempre é fácil, e mais difícil é perceber que só no silêncio interno podemos encontrar o percurso a seguir.
Habituados a tudo planear, custa aprender a deixar a Sabedoria da Vida fluir e tomar conta de nós.
Resistimos, queremos categorizar em certo e errado. Queremos categorizar-nos em certo e errado.
Mas só quando aceitamos que o que é É, É, só aí o Caminho se abre. Só aí nos conseguimos ver plenamente, sem julgamentos, esquecidos do pecado da imperfeição.
Despidos de expectativas, sobre nós e sobre o Mundo, estamos então leves o suficiente para percorrer o Caminho.
Para nos libertarmos das camadas protectoras, por debaixo das quais a nossa verdadeira voz se esconde, amordaçada.
E, passo a passo, a nossa Voz voltará a ouvir-se.
Nós voltaremos a ouvir-nos.

© Isa Lisboa

Swan song by Zena Holloway

Imagem: Swan song, by Zena Holoway

Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Queimar e Arder

Podemos queimar em lume brando por um tempo, mas chega um momento em que temos que arder como a Fénix.

Permitir que o fogo consuma as penas, a carne, até os ossos.

Ser cinza, depois de ter sabido o que é voar.

Permanecer cinza, até que venha o sopro que nos fará novamente ave.

© Isa Lisboa

Pier Toffoletti

Arte: Pier Toffoletti

Terramotos da alma

Talvez os terramotos da alma sejam bastante semelhantes aos da terra.

Num momento o chão está calmo e as flores crescem. Mas de repente, vem o inesperado abalo e a terra rasga-se, abrindo um buraco no caminho.

Se os terramotos que abrem a terra libertam energias contidas; será que os terramotos da alma servem para nos abrir o coração? Para o rasgar de tal forma que aquela Luz especial possa lá entrar?

A alma é sábia, a mente nem sempre o é. Pode, respondendo à dor, abrir fendas ainda maiores. Ou tapá-las com terra pouco nutrida, em pazadas apressadas.

A alma pede que se cicatrizem as feridas com Luz e Amor. E para ouvirmos a alma, por vezes precisamos sentar-nos à beira do epicentro do choque, deixar a terra tremer e tragar tudo o que tiver que ser.

E levantarmo-nos quando parar de tremer.

De entre as cinzas se verá que houve fogo renovador e que novos caminhos se abriram por entre as labaredas.

© Isa Lisboa

Lost in Madness

Imagem: Autor não identificado

 

A luz do trovão

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O trovão só faz barulho porque temos medo dele; mas depois vem a luz.

E porque a luz só momentaneamente nos ilumina, logo nos esquecemos de que o medo nos mostrou a luz.

Ou talvez nos esqueçamos porque vemos o quanto a luz é poderosa, rápida e indestrutível.

E aí fala de novo o medo, temos medo que a luz entre em nós, do que poderá destruir em nós. Ignoramos o coração que nos sussurra que há planícies que precisam ser devastadas, seja pelo fogo renovador ou pela água purificadora.

O medo esconde-nos que o trovão vem do alto, é um grito que no fundo queremos ouvir, o rugido de leão que em nós habita.

Fomos feitos para o ouvir, do início o procuramos, sabemos que também nós somos som que procura o silêncio, para em luz se manifestar.

 © Isa Lisboa

Em maresia

Era manhã e havia orvalho na janela. Havia ainda flocos do sol que nasceu, vislumbrou. Ela estava sentada num banquinho, os braços apoiados na mesa de madeira. A casa ainda dormia, assim como o mundo.

As abas do pijama alvo moveram-se ao ritmo da porta que retiniu. Sabia que não era o vento; e não sabendo ao certo quem esperava, levantou-se para o receber.

Empurrou a porta devagar e entrou, sorriso á frente. Tinha a pele de muitas luas e os olhos de muitos sóis. Estendeu-lhe uma oferta.

Vendo que estava embrulhada em maresia, aceitou-a com cuidado. Quando ia agradecer, viu-o desaparecer calmamente no nevoeiro. Sem entender, entendeu. O presente era para abrir.

Encontrou um par de asas, que lhe serviam na perfeição.

Agora já era noite, mas ainda assim levantou voo. Voou na direcção do mar, porque não?

O cheiro da maresia guiava-a e a memória de casa persistia. Não era uma memória vã, era mais antiga que ela própria, e só para a lembrar, acordara nessa manhã.

Voou até ver. Quando viu, soube, e quando pousou os pés na areia, já não era manhã, nem noite.

 

© Isa Lisboa

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Imagem: Mila Marquis

Imagem: mila_marquis-1068×1068

 

Para além de

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Imagem: pintrest

Insuspeito, por debaixo de uma ferida, algo se esconde. A maior parte das vezes, se não sempre, esconde-se algo de novo, renovador e cheio de boas possibilidades.

É por isso que temos que permitir que a ferida sare.

Para, livres da dor e do que parece ser tão feio, podermos finalmente ver o que se escondia lá debaixo.

© Isa Lisboa

Gigantes

Que maior gigante haverá que aquele que pequeno se vê?

Pois que maior dádiva haverá, que sabendo correr, se abrande a marcha? Se pegue nas mãos que se abrem e se levem ao longo do caminho? O caminho que já se sabe ser belo, mas que outros precisam descobrir. Que maior dádiva, que ver alguém crescer?

Quem se tendo aproximado das nuvens, se volta de novo à Terra, nela finca raízes; porque será que vem, senão para distribuir a luz que descobriu? Que maior generosidade há, que partilhar a felicidade e a glória mostrando o caminho, o caminho ao alcance de todos.

Os gigantes não cabem na terra, e por tal, pequenos nascem, para a todos mostrar como podem crescer. Na escuridão acordam, para lembrar como acender a luz e a outros mostrar a lanterna acesa.

Que maior gigante haverá, que a criança que quer crescer?

 © Isa Lisboa

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