Monólogos da Desalinhada

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No meu primeiro blog, Instantâneos a preto e branco, publiquei alguns poemas e prosas poéticas, que reuni nos “Monólogos da Desalinhada”.

Estes monólogos foram escritos ao longo do tempo. De um tempo que já passou. São escritos de uma desalinhada, que se encontrou, caminhando fora da linha.

Estou a celebrar o mês do meu aniversário, por isso tenho mais um presente para dar, até ao final de Abril. Se quiseres receber uma cópia destes textos reunidos, só precisas de:

  • Seguir o blog, a minha página do Facebook ou Instangram;
  • Deixar um comentário indicando que queres receber os “Monólogos da Desalinhada”;
  • Por mensagem privada nas redes sociais ou através do e-mail blog@isalisboa.com, indicar-me o e-mail para o qual posso enviar-tos (coloca no assunto “Quero receber os Monólogos da Desalinhada!”

Obrigada por estarem aí!

Isa Lisboa

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Caixa alguma

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Caixa alguma

In Monólogos da Desalinhada

Isa Lisboa

Vozes

Estava eu a seguir em frente, já quase sem pensar.

E então ouvi a voz, daquelas no nosso ombro. E logo de seguida, outra ainda, como que a responder-lhe.

“Pára e escolhe uma curva!”, dizia-me uma. “Continua, estás bem”, a outra.

“Não, não estás, sabes que não é esta a estrada que queres seguir, sabes que em frente não é a tua direcção”; “

É sim, nunca ouviste dizer que para a frente é que é caminho?”

“Tu sabes que não é, sabes que caminhas por hábito. Não é a tua natureza, precisas de descoberta”

“Descobertas? Ora, onde é que isso te levou antes?? Na realidade, o que encontraste?”

E então, parei…

E na realidade, parecerá que nada encontrei nas minhas descobertas, mas quando olho o caminho para trás, vejo-me de novo como exploradora e sinto saudades da minha mochila de nómada.

Decido então encarar o medo, digo-lhe olhos nos olhos que vou com a coragem.

Como medo que era, calou-se ao primeiro olhar decidido e ali ficou, na berma da estrada, talvez à espera de outro transeunte.

 © Isa Lisboa

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Recordando um início

Hoje partilho convosco um início desta minha aventura chamada escrita. Digo um início, porque comecei a escrever bastante antes. Mas foi em 2011 que eu, Isa Lisboa, nasci. E nasci para o “mundo” no blog “Instantâneos a preto e branco”. O primeiro post foi retirado de um dos meus cadernos, que ia enchendo de palavras e palavras, tentando deixar uma parte de mim falar. E as palavras foram estas:

Estou no meu carro, a conduzir na auto-estrada. Túnel. Não sei porquê, mas chama-me a atenção o tecto do túnel, noto a simetria crua e simples das imagens que se sucedem. Fim do túnel.
De novo uma estrada à minha frente. Sinto-me invadida por um torpor, que não sei se é sono ou a paz comigo mesma que de repente sinto. Sinto vontade de seguir em frente, mas mudo de direcção maquinalmente, dirijo-me para casa.
Aqui está escuro, preciso de mais luz. Melhor. No rádio continuam a passar as músicas que me transportam para trás, às recordações que tenho e às que não tenho. E dou por mim a não sentir falta das recordações que não tenho, porque agora tenho outras.
Chego a casa, livro-me de tudo e deito-me, sem certezas, mas com respostas, certas ou não, talvez amanhã saiba melhor. Se não for amanhã, não é importante, saberei. Vou apagar a luz e recordar a viagem.
Isa Lisboa
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Podem ler o post original em: <://instantaneospretobranco.blogspot.com/2011/03/tunel.html

Gratidão por tudo o que esta aventura me trouxe!

Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

Fronteiras das emoções

 

Art pics Christos Lamprianidis

Foto: Christos Lamprianidis, via Art_Pics (Facebook)

 

Encontrei-me, perdendo-me. E também me perdi, encontrando-me. As fronteiras das nossas emoções não se demarcam a caneta. Tão pouco a lápis as conseguimos muitas vezes desenhar.

Nunca saberemos o que é o amor, até que o nosso coração se abra, sabendo que tanto a dor como a felicidade podem entrar.

E nunca saberemos o que é a felicidade, se não estivermos dispostos a sentir a dor. A dor também nos ensina a vida; e apaziguá-la ensina-nos a contactar com a nossa humanidade.

Somos paradoxos. Frágeis nas nossas fortalezas auto erguidas. Fortes, nas nossas fragilidades olhadas nos olhos.

Encontrei-me, olhando-me. Desviando os olhos, dou um passo para me perder.

Só fazendo um mapa poderei apagar as falas fronteiras. E o Caminho far-se-á um passo após o outro, nas pontes entre mim.

© Isa Lisboa

O Caminho do Eu

Uma vez percorrido o Caminho do Eu, temos tendência a achar que a viagem foi cumprida.
Mas assim como o rio que atravessamos hoje não será amanhã o mesmo, também este Caminho muda após feita a primeira viagem.
É um Caminho que devemos atravessar uma e outra vez, libertando novas camadas de quem não somos. Ou descobrindo novas manifestações de quem somos.
Aceitar a jornada nem sempre é fácil, e mais difícil é perceber que só no silêncio interno podemos encontrar o percurso a seguir.
Habituados a tudo planear, custa aprender a deixar a Sabedoria da Vida fluir e tomar conta de nós.
Resistimos, queremos categorizar em certo e errado. Queremos categorizar-nos em certo e errado.
Mas só quando aceitamos que o que é É, É, só aí o Caminho se abre. Só aí nos conseguimos ver plenamente, sem julgamentos, esquecidos do pecado da imperfeição.
Despidos de expectativas, sobre nós e sobre o Mundo, estamos então leves o suficiente para percorrer o Caminho.
Para nos libertarmos das camadas protectoras, por debaixo das quais a nossa verdadeira voz se esconde, amordaçada.
E, passo a passo, a nossa Voz voltará a ouvir-se.
Nós voltaremos a ouvir-nos.

© Isa Lisboa

Swan song by Zena Holloway

Imagem: Swan song, by Zena Holoway

Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Queimar e Arder

Podemos queimar em lume brando por um tempo, mas chega um momento em que temos que arder como a Fénix.

Permitir que o fogo consuma as penas, a carne, até os ossos.

Ser cinza, depois de ter sabido o que é voar.

Permanecer cinza, até que venha o sopro que nos fará novamente ave.

© Isa Lisboa

Pier Toffoletti

Arte: Pier Toffoletti