Um sonho de Natal

A última reunião da agenda estava encerrada, tudo havia corrido como Alexandre havia planeado, a promoção que tanto merecia parecia-lhe estar agora mais próxima.
Relia o último e-mail do dia. “Send”.
Arrumou as pastas no sítio certo, na segunda feira voltaria a abri-las.
Há poucos minutos, Inês ligara-lhe, avisando que o esperava em casa mais cedo, este ano toda a família estaria presente na Ceia de Natal. Todos…excepto Diogo…
Já estava tudo organizado para a Noite de Natal, o melhor catering estava assegurado e todas as prendas já lhe haviam sido entregues e arrumadas na bagageira do seu Audi. Isabel tinha sido inestimável, como sempre. A Inês adorava-a, com a sua ajuda consegue sempre organizar a ceia perfeita em cada ano. E também fica sempre encantada com os presentes que ela escolhe. Este ano encomendou um quadro, de um daqueles artistas emergentes. Espero que goste, pergunto-me porque quer embelezar a parede, quando costuma preferir adornos para si… Edmundo Bram… Algo no nome desse artista lhe parecia estranhamente familiar, mas porque seria? O telefone tocou de novo.
“Sim, querida, estou a sair do escritório, não te preocupes, chegarei a tempo.” … “Eu também, um beijo”.
Alexandre dirigiu-se ao seu carro e sentiu-se a relaxar quando se sentou nos seus bancos de pele e se preparou para rodar a chave na ignição. A viagem até casa foi um prazer, como ele adorava conduzir!
Chegou a casa ainda a tempo de vestir algo mais confortável.
Ouvia já os convidados a chegar, a tia Matilde já inundava a sala com os seus reparos à roupa de Inês. Quando começámos a namorar, a tia Matilde olhava para mim com ar desconfiado, dizia-me que parecia não ir a lado nenhum…. Bom, depois desse fraco vaticínio, Inês já não devia preocupar-se com a sua opinião… Espero que a Lurdes chegue depressa, é a única que consegue acalmar um pouco os ânimos da irmã.
São o verso e o reverso de uma mesma medalha, um pouco como eram Alexandre e o seu irmão.
“Não”, pensou logo Alexandre, porque era a segunda vez que a recordação de Diogo o assaltava.
O seu irmão não estava ali, tal como não estava quando Alexandre conseguiu o estágio na consultora, no dia em que conseguiu reunir coragem para se declarar a Inês, no dia em que casaram. E não estaria cá daqui a 7 meses, não iria conhecer o sobrinho.
Ainda ninguém sabia, finalmente esperavam um filho!
Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz da sua mãe, que o chamava. Estava na hora de descer.
A irmã e os seus sobrinhos gémeos também já haviam chegado. As crianças tinham uma alegria contagiante, à qual Alexandre nunca conseguia resistir. Talvez ele e Inês também pudessem ter gémeos, pensando na tendência genética da família.
A noite decorreu, todos estavam felizes. Quando já tinham voltado para casa, Alexandre sentou-se por um pouco. Apagou as luzes da casa e dirigiu-se ao quarto. Inês já dormia, Alexandre escorregou por entre os lençóis e olhou para Inês. Como continuava linda. Mudou o look ao longo dos anos, mas aquela curvinha no queixo, continua lá… Ficou um pouco a ouvir a sua respiração leve e adormeceu também.
Acordou cedo e sentiu vontade de ir até ao jardim. Vestiu um casaco e foi até lá, a pé. Dirigiu-se ao banco que procurava e sentou-se a olhar para a água da fonte, que se renova, sendo sempre a mesma… Sentiu um pequeno barulho e um jovem aproximou-se de si e sentou-se. Alexandre sentiu que estava a ficar louco, aquele rapaz parecia Diogo!
“Não estás louco, sou eu, o Diogo!” “Não pode ser, tu foste embora!” “Mas voltei” “Não, não podes ser tu, estás na mesma, não envelheceste, como eu!” “O Peter Pan também não envelheceu quando fugiu para a Terra do Nunca” “Porque dizes sempre esses disparates? Não és o Peter Pan, não eras uma criança quando partiste! Não foram fadas que te levaram, foram os teus próprios pés!” “Não, mas fugi porque não queria crescer, não da mesma forma que tu querias! Fui em busca do meu caminho, precisava descobrir-me” “E encontraste-te?” “Encontrei-me, mas vejo que tu estás a perder-te” “O que queres dizer com isso? Estou óptimo!” “Sim, sei tudo isso, sei que conseguiste tudo o que sonhaste, a tua carreira está em ascensão, casaste com a Inês, mostraste à família dela que estavam enganados a teu respeito.” “Sim, sabes que casámos?” “Sei sim… Ontem à noite pensavas que ela está cada vez mais bonita… Ficaste surpreendido com esse pensamento, não foi? Há quanto tempo não olhas para ela, apenas olhar, ver os movimentos dela, ouvi-la falar, como gostavas de fazer quando estávamos no liceu. Lembras-te que ela gostava de ler poesia? Que lhe compravas livros que não tinhas coragem de lhe oferecer? E agora? Quando foi a última vez que saíste do teu escritório para lhe comprar um livro? E tu, quando foi a última vez que foste ao teatro, adoravas ir ver os clássicos…? O teu filho vai nascer, ainda te lembras como andar de bicicleta, como jogar à bola, correr pelo jardim quando chove? Lembra-te, se não lhe ensinares tudo isso, com quem vai ele aprender? Terás que o trazer a este jardim, e sentares-te com ele neste banco, e falares-lhe de ti, de quando te sentavas aqui com o teu irmão gémeo, a fazer planos para o futuro. Lembras-te de tudo o que querias ser?”
Alexandre acordou de repente, o sonho perturbou-o. Levantou-se e foi até à garagem, procurou nas caixas que estavam no canto e encontrou… Ainda estavam em bom estado. Dirigiu-se à sala e estava lá Inês a pendurar o quadro. “Quero dar-te o teu presente, o teu presente a sério. Já têm dez anos, mas são teus, comprei-os um a um para ti, mas guardava-os sempre, com medo de te os oferecer, com medo de que o presente fosse pequeno para ti.” Inês leu os títulos um a um, folheou os livros calmamente e sorriu. “Adoro! Adoro-te” “Lês para mim?” “Claro”. Alexandre sentou-se. Olhou para o quadro pendurado na parede, muito bom, realmente. Edmundo Bram… De repente, lembrou-se! Era o nome com que Diogo assinava os seus esboços… Será que Diogo regressou mesmo da Terra do Nunca? Talvez sim, mas hoje era Alexandre que não iria permitir-se crescer. Inês continuava com a sua curvinha no queixo, a sua voz era melodiosa e linda como sempre. E esperava o seu filho. E Alexandre esqueceu-se das pastas que deixou no escritório. Logo à noite iria ver quais as peças de teatro que iriam estrear. E amanhã iria comprar uma bola de futebol.

© Isa Lisboa

Texto publicado originalmente no blog “Instantâneos a preto e branco”

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Memórias de Natal

Costumava ir com a minha mãe cortar um pinheirinho para o Natal, e depois apanhar musgo para fazer o presépio. Inevitavelmente voltava destas aventuras com a roupa um pouco molhada e com as mãos impregnadas de terra e resina. Mas com o meu sorriso de criança bem aberto.

Seguia-se a colocação da árvore no sítio mais bem escolhido. As luzes, as fitas de Natal com muitas cores, bolas e sinos brilhantes, uma estrela de papelão colorido.

Depois, espalhava o musgo pelo chão, juntava os pedaços num puzzle perfeito. Precisava de um manto verde extenso, o espaço parecia ser sempre curto para colocar todos os participantes do presépio. A cabana onde colocava o berço, com uma estrutura improvisada cada ano, e coberta com os pedaços de musgo mais bonito. Aos Reis Magos, juntavam-se o pastor, com as suas ovelhas brancas, o pescador ao lado de uma ponte… e se existia uma ponte, era preciso retirar um pedaço de musgo para transformar um simples plástico azul ou um velho espelho num rio. Ao fundo, o castelo, que estava num monte, também ele construído com o que existia à mão, e coberto por musgo, mantendo o efeito. A ligar estas personagens, umas mais improváveis que outras, um caminho de neve, inventado com produtos da despensa lá de casa.

As prendas aconchegavam-se ao lado da árvore. Sentia uma imensa curiosidade infantil que me levava a pegar nas prendas, sentir o formato, abaná-las. Tentava perceber o que se escondia dentro do papel de fantasia, mas nunca abria as prendas antes do tempo. Gostava da antecipação, deste pequeno jogo de adivinhação.

Lembro-me bem deste pequeno combate que travava com a minha curiosidade, com a vontade de descobrir o mistério. E do cheiro a terra molhada, não o cheiro a terra molhada do verão, a terra molhada que vinha agarrado ao musgo e o cheiro a pinhal que ficava na minha sala. Tudo isso dava mais brilho ao conjunto.

Lembro-me do aroma dos fritos de abóbora, a minha missão em criança era a de adoçá-los com canela e açúcar, que misturava meticulosamente, procurando a dose certa de cada um. E lembro-me do cheiro do café,  que ainda não podia provar. Anos depois, apenas gostava daquele café com os doces de Natal.

São estas recordações que ainda me fazem gostar tanto do Natal, ainda que já use menos fitas e que o meu presépio seja agora mais pequeno. Mas só os acessórios de Natal diminuíram. Continuo a enfeitar o cantinho da minha sala – agora no meu apartamento da cidade – com o mesmo sorriso de antes, com a mesma ansiedade para ligar as luzes e vê-las a piscar, a mostrar que o Natal vem aí. Continuo a misturar a canela com o açúcar…

É talvez a lembrança da Felicidade pura de quando somos crianças. Mas também a Felicidade que ainda consigo ver nos adultos nesta altura.

É uma altura em que as pessoas são mais solidárias, mais disponíveis para estar um pouco com os outros. Dizem alguns que nesta altura todos fazem num mês o que deviam fazer durante todo o ano, e que é uma época de consumismo. Sim, isso também é verdade, mas ainda vejo o espírito verdadeiro de Natal em algumas pessoas. Ainda existem pessoas que sabem que um abraço, um sorriso, uma mão, um ombro, uma palavra simpática, valem infinitamente mais que um presente embrulhado. E é isso que faz o Natal e é por isso que gosto genuinamente desta altura do ano.

E em cada noite de Natal, mesmo agora já crescida, consigo por um momento lembrar-me daquela criança loira, sentada no chão, a olhar para as luzes de Natal a piscar, simplesmente e apenas feliz.

Deixo aqui o meu simples desejo de Natal: que nos lembremos de como uma pequena luzinha nos pode fazer felizes, nem que seja apenas por uma noite.

© Isa Lisboa

Texto publicado originalmente no blog “Os dias em que olho o mundo”

Eu ainda acredito no Pai Natal

“Eu ainda acredito no Pai Natal!” – é uma frase que me tenho ouvido a mim mesma dizer nas últimas semanas. É uma frase que digo habitualmente nesta altura do ano, perante reacções faciais que variam entre o “Que tolice!” e o mais sorridente “Só tu!”

Provavelmente, por aí, as reacções foram semelhantes. Pois que sentido fará que uma adulta como eu, ainda acredite no velhinho das barbas brancas?

Perante uma pergunta semelhante feita por alguém que ainda há pouco tempo acreditava no Pai Natal, tentei explicar que o Pai Natal não tem que descer pela minha chaminé e deixar uma prenda lá em casa. O Pai Natal em que eu acredito é a motivação do velhinho que percorre os céus, todos os natais, com o propósito de “apenas” fazer todos os meninos do mundo felizes. O Pai Natal em que eu acredito é um símbolo do espírito de Natal.

E porque acreditas num símbolo que não vês, foi a pergunta seguinte.

E fez-me pensar. Realmente, cada vez mais nos tornámos em “S. Tomé”, cépticos a tudo o que não vemos, não tocamos e não entendemos. Esta altura do ano tem muito de visual, desde as luzes que enfeitam a árvore em casa às luzes mais chamativas dos centros comerciais, de onde podem sair as prendas coloridas. Prendas que, afinal não é o Pai Natal que traz, mas antes os pais, os irmãos, os filhos, etc, etc… Afinal, não são os duendes que, durante meses, fabricam os brinquedos e as prendas que são colocadas debaixo da árvore de natal. Afinal, o Pai Natal não atravessa o globo numa noite só, distribuindo presentes. Afinal, o trenó é o porta bagagem do carro de família…

Esta é uma imagem que talvez se possa classificar como “dos tempos modernos”, mas eu acho que também aqui há algo que não se vê. Mas que podemos ver, se quisermos.

Os duendes fazem as peças dos brinquedos, uma a uma. Constroem o brinquedo, um de cada vez. Cada brinquedo para o menino ou menina que o pediu. Colocam-nos cuidadosamente no saco do Pai Natal. E o Pai Natal entrega-o meticulosamente na casa de cada criança, sabendo exactamente o nome da pessoa que o receberá e imaginando o seu sorriso aberto, ao desembrulhar a prenda.

Pergunto eu, porque é que cada um de nós não pode ser esses duendes, comprando cada presente para a pessoa, pensado no que a pessoa irá gostar? Porque é que cada um de nós não pode ser o Pai Natal, entregando o presente e dando mais que apenas o que está lá embrulhado? Dando um pouco de si, do que sente, pondo um pouco do que sente a embrulhar também o presente.

Eu acredito nisso. Acredito nisso que não se vê, o amor que podemos colocar em tudo o que fazemos e em tudo o que damos.

E é por isso que eu ainda acredito no Pai Natal.

© Isa Lisboa