Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Solitude

Solitude

Palavra estranha

A alguns desconhecida

É aqui junto ao mar

Que melhor a saboreio

Deixo-a pousar

Na palma da minha mão

O vento levanta-a

E ela rodeia-me

No abraço de quem

Me conhece

Descansa em mim

E eu descanso nela

Como duas velhas amigas

A ouvir o mar.

© Isa Lisboa

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Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio:

http://tubodeensaio-laboratorio.blogspot.pt/2015/01/solitude.html

Queimar e Arder

Podemos queimar em lume brando por um tempo, mas chega um momento em que temos que arder como a Fénix.

Permitir que o fogo consuma as penas, a carne, até os ossos.

Ser cinza, depois de ter sabido o que é voar.

Permanecer cinza, até que venha o sopro que nos fará novamente ave.

© Isa Lisboa

Pier Toffoletti

Arte: Pier Toffoletti

Terramotos da alma

Talvez os terramotos da alma sejam bastante semelhantes aos da terra.

Num momento o chão está calmo e as flores crescem. Mas de repente, vem o inesperado abalo e a terra rasga-se, abrindo um buraco no caminho.

Se os terramotos que abrem a terra libertam energias contidas; será que os terramotos da alma servem para nos abrir o coração? Para o rasgar de tal forma que aquela Luz especial possa lá entrar?

A alma é sábia, a mente nem sempre o é. Pode, respondendo à dor, abrir fendas ainda maiores. Ou tapá-las com terra pouco nutrida, em pazadas apressadas.

A alma pede que se cicatrizem as feridas com Luz e Amor. E para ouvirmos a alma, por vezes precisamos sentar-nos à beira do epicentro do choque, deixar a terra tremer e tragar tudo o que tiver que ser.

E levantarmo-nos quando parar de tremer.

De entre as cinzas se verá que houve fogo renovador e que novos caminhos se abriram por entre as labaredas.

© Isa Lisboa

Lost in Madness

 

Rosto Anónimo

Rosto Anónimo. Rostos.

Sonho. Sonhos.

Um perdido. Um por cumprir. Um fechado na mão.

Para não fugir.

O passado nas costas.

O futuro à frente dos olhos.

O relógio grita: Tic Tac Tic Tac!

As costas pesam.

Os olhos correm.

O dia espera. A noite é curta. Já foi.

O passado corre atrás.

Corre atrás do futuro.

E o presente, Rosto Anónimo?

© Isa Lisboa

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Circle of Life

We were once beautiful

Knew Mother Earth’s womb

Was Home

Somewhere

The knowledge was lost

That she gave birth to us

To Her we will return

In a never-ending

Circle of Life:

First we must be planted

As tiny seeds

And then burst from the ground

Until we can grow up

As long as our branches

Can be seen

And then,

When we can see the sky

We will also be ready

To be Mother’s of Life.

© Isa Lisboa

 

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Imagem: Autor não identificado

Matemásia

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Uma experiência em “matematiquês”

 

Matemática não é poesia

Disseram-me outro dia

Discordei. Sem esta dicotomia

Aqui eu não estaria.

 

O poeta pediu-me emoção,

O matemático demonstração.

 

Na caneta peguei

Daquela geometria,

Eu lembrei logo,

Em que um círculo é uma recta;

Digam-me se tal exercício

Não é fora da caixa pensar!

E que dizer das paralelas

Que caminham lado a lado

Até ao sem fim,

Nunca se tocando,

Maior amor impossível

Só o Romeu e a Julieta!

E na onda do romance

Ainda aquela equação

Em que x explica y,

Que um não se acha

Sem se achar o outro.

Mais, que maior mistério

O daquele conto

Em que x termina

Tendendo para mais infinito;

Até podia ser

Para menos infinito

O Mundo que fica apenas

Do outro lado.

 

E somando letras

Subtraindo palavras

Assim se faz a metáfora,

Uma rima que divide os versos

Ou até não:

Se uma simples constante

Marca o ritmo do poema

Quando a variável entra

Talvez até em soneto se transforme.

 

Quem pode afirmar ainda

Que matemática e poesia

Pura antítese são?

Duas faces da minha alma

O contradizem

A Emoção e a Demonstração.

© Isa Lisboa

Aritmética temporal

Olhei o relógio e,

Subitamente,

A hora chegou

E no segundo seguinte

Já passou

O tempo que assim corre

Não é percebido

Pelo tolo sentir

Todos os minutos

Foram somados

E a aritmética temporal

Dita, sem dúvidas,

Já todos são

Inevitavelmente

Passado!

Deles resta a memória

Do ponteiro, Tic

Que avança

Vai já ali

Onde há pouco era futuro.

Vens

Ou ficas aí?

 .

© Isa Lisboa

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