Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

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Menino-Sonho

Em menino tinha um sonho

De construir uma fábrica

De sonhos;

E sonhos distribuir.

Do sonho

Não se esqueceu

O menino grande.

Tijolo a tijolo

A fábrica ergueu.

Peça a peça

Construiu suas máquinas.

Pedaço a pedaço

Encontrou matéria-prima.

Um a um

Sonhador a sonhador

Aos sonhos que via

Vida ele deu.

Deu-os a todos

Tantos.

Feliz

Por seu sonho realizar.

De fabricar sonhos

Nunca se ia cansar.

Um dia saía

Mais um sonho terminado;

E na rua ali ao lado

Um dos sonhos

Ali

Esquecido

Como se nunca tivesse sido;

Apanhou-o:

Estava coçado

Com a roupa rota

O seu sonhador

Havia-o abandonado.

Mais à frente

Outro

Ainda quase não tinha sido usado;

Com ambos no regaço

Mais órfãos encontrou

Levou-os de volta à fábrica,

E chorou…

Menino sonhador não sabia

Que muitos são os homens

Que esquecem

Seus sonhos de menino,

Ainda mais os que os temem

E deles fogem,

Quando os encontram.

Menino sonhador

Não mais fabrica sonhos;

Agora procura

Sonhos perdidos

E meninos que não cresceram.

.

© Isa Lisboa

Dores de crescimento

Cresci

Com a velocidade

De um foguetão

Prestes a implodir

E das cinzas que

Restaram

Me fiz explosão.

Do fogo

Me acendi a mim mesma

Calor

Luz

Dor.

Também dor.

Da dor cresci.

É sempre assim.

Se soubermos

Entender

Aceitar

Abraçar.

Abraçar a vida.

Abraçar a mim mesma.

Aprendi a ser por mim.

Cresci.

Abraçada a mim mesma

Cresci

E me fiz coragem.

De segurar o coração

Na própria mão

E deixá-lo doer.

Doer para bater.

O sangue flui

E a vida retoma

As lágrimas secam

E tudo muda

Muda num segundo

Ou numa vida

Tudo é eternidade

Para sempre

Cresci.

© Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado

Arestas

Sou uma aresta

Tu e ele também

Juntos formamos um vértice

Unidos a outros

Novo vértice somos

Assim juntos, elo invisível

Para além do sólido que se forma

Somos parte

Dessa grande geometria.

Apenas éramos rectas

Talvez, algumas, infinitas

Sem saber de onde vínhamos

Nem para onde íamos.

Conhecemos a finitude

Mas ganhamos um novo plano

Outra dimensão

Esses onde agora somos sólido

Forte, mais forte

Se uma cair, também outra

Poderá cair

Mas se uma fraqueja

Outra a sustém

Até a força voltar.

E o matemático olha e sonha

Talvez um dia

Cubos, pirâmides, paralelepípedos

Até esferas

Todos se saibam juntar

Ainda

E assim expandir a geometria

Criando novo sólido

Sonha chamar-lhe

Harmonia.

.

© Isa Lisboa


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Intermitências

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Sou eu

Mas já não sou

Quanto mudou

Nas intermitências

De esquecer

E de deixar ir…

Leve,

Sei que ainda há

A libertar.

Decidida

Tranquila.

De mim

Não mais abdicarei.

O que a mais habita

Não ficará

Passo a passo, a seu tempo

Se irá

Quando olhar para trás

Será mais um degrau

Da história que quem fui

Da escada que subi

Para chegar a quem sou.

© Isa Lisboa