Amanhã

Amanhã vai ser como uma manhã de Abril. Vou renascer. Vou abrir os olhos e inspirar, tal como se fosse a primeira vez. Com curiosidade e com vontade de agarrar tudo aquilo que de novo se me apresenta.
Enquanto o mundo renasce, também eu vou reinventar-me.
Não, talvez o mundo não renasça amanhã, não é mesmo Abril; é quase Inverno. É suposto a vida dormir e não renascer…
Mas o mundo é cheio de surpresas. Segue os seus ciclos, mas ainda assim surpreende-nos.
Não obstante, amanhã é o meu dia. Não sei se estou preparada. Até acho quer não. Tenho borboletas no estômago. Devem ser pássaros, que as asas batem forte. É a antecipação. A antecipação que comprova que amanhã é dia.
Podia encolher-me num canto ou fugir para longe. Parte de mim, quer fazê-lo. Continuar assim. É confortável. Seguro.
Mas a outra parte de mim sabe que não dá. Não dá para virar a cara, todo o meu corpo quer avançar, todo o meu corpo quer que seja amanhã. Não sei o que me traz amanhã. Mas sei que é novo e que o preciso.
Talvez os sons, as cores, os cheiros pareçam demasiado a início e me assustem.
Mas depois vão tornar-se descobertas. E eu gosto de descobrir. Pegar, tocar, cheirar, ouvir, saborear.
Está na hora de voltar a descer para o mundo. As convulsões já as sinto. É a vida a avisar-me que vou renascer.
Amanhã vai ser como uma manhã de Abril.
 

© Isa Lisboa

Falta pouco

Filha de mim

De mim orfã

Não sei onde me encontro

Nem se me perdi

À volta, nada vejo

Nada oiço

Nada sinto.

O meu corpo está fechado

Sobre si mesmo

Enconchando a alma,

Dentro de pedra dura.

Qual ouriço,

Criei espinhos protectores,

Perfuram-me a pele,

Ainda não endureceu.

Falta pouco.

© Isa Lisboa

On the edge

Imagem: pixabay.com

This is me again

On the edge of myself

As if a stranger

Asking for shelter.

The trip is long

It always is

But departure calls

Whenever

A road reaches an end

Even though there is

No sign

Past and future

Merge

But they are alike

And one must go

Without the other.

Moving along

This is me again

On the edge of myself.

© Isa Lisboa

Quebrar ou Superar

broken-1391025_1920Imagem: http://www.pixabay.com

Naquele momento, instante, segundo – sentimos. Naquela fração de tempo antes de a corda partir – nós sentimos. Sentimos que a corda vai partir.

E depois que o fio se rompeu, cabe a nós escolher. Escolher se vamos quebrar ou se vamos superar.

Pode parecer que nem sempre temos escolha. Às vezes é muito difícil. Tudo te empurra para quebrar. As emoções fervem, o corpo dói e o espírito sente-se fraco.

Como podem pedir-te que subas uma montanha, depois de fazeres uma maratona? É quase cruel.

Mas o que importa é aquela pergunta crucial: queres estar aí; és feliz aí onde estás, a sentir-te como te sentes?

Não?

Então tens que superar. Tens que subir a montanha. Por muito que aches que vai custar. E vai mesmo. Vão doer-te músculos que não sabias que tinhas. A tua mente vai querer parar, poupar-te. É esse o primeiro instinto.

Mas não te esqueças do teu instinto de viver. De seres feliz. De seres plen@.

Tu sabes que queres chegar ao cimo da montanha.

Então põe-te a caminho! Um passo de cada vez.

 

© Isa Lisboa

Porque escrevo?

Escrevo

Para que a alma se solte

Das amarras

Que o corpo tem.

Para que os ruídos inventados,

Em silêncio se transformem,

Deixem de ser o grito

O que se impõe

Sobre o silêncio que não entendo

Escrevo

Para que a Vida

Me saia pelos dedos.

© Isa Lisboa

 

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Imagem: pixabay.com

Vulgar ladrão

Chryssalis

Medo.

Vulgar ladrão.

Com um suspiro

Prendes ao chão.

Dizes-te seguro

Mas seguro só tu

Pois patrão te tornas

Um olhar, uma palavra

Dúvida semeada

Vida petrificada.

Suores frios

Coração acelerado

É do que te alimentas.

Não vivem sem ti

Queres fazer crer

Que proteges,

Vulgar mentiroso.

Proteges de viver

E assim, lentamente

Matas!

© Isa Lisboa

Impiedoso Tempo

O Tempo passa

E é impiedoso

Mas para quem

O deixa passar

Apenas.

Não o deixes passar

Passa com ele

Vive-o!

Verás que não passa

Afinal

Só soma!

Tu cobras o Tempo

Mas ele nada te deve

Limitou-se a ser

Medida inexacta

Daquela vida

Que escolheste

Não viver

Que ficou esquecida

Nos planos do Tempo.

No que deixaste

Para amanhã

Para qualquer dia

Para quando der.

Tu deixaste.

E o Tempo passou.

Passou por ti.

Por aquela vida.

Aquela que não viveste.

Ocupad@. Tão ocupad@.

Não há tempo.

Pois não.

Quando deixas passar

O Tempo consome-se

Tu consomes-te.

Febril.

Como aquela Black Friday

Imperdível.

Tens que conseguir a

Melhor pechincha

Fica tão bem

Na sala de estar.

Ganhaste.

Chegaste primeiro.

E o Tempo?

Amanhã.

Amanhã logo se vê.

Ontem não tive Tempo.

Hoje

Não sei que é este lugar

Onde cheguei…

Vim andando

E não sei bem onde é.

Não sei bem

Quem sou

Quanto Tempo se perdeu

Não sei bem

Quanto de mim

Eu não fui.

Tempo.

Ainda há?

 

© Isa Lisboa

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Acendermo-nos uns aos outros

Pessoas-luz. Uma expressão que de vez em quando encontro, nos textos que leio.

É fácil perceber o que quer dizer. As pessoas que têm uma luz própria e que a partilham connosco, mesmo sem nós pedirmos. Pessoas que nos fazem sentir um pouco mais leves, que nos lembram de respirar e de largar por um pouco aquele momento carregado que lembramos.

Pessoas que sabem que uma vela não se gasta mais depressa por acender outra.

Desengane-se quem pensa que as pessoas-luz não têm escuridão dentro de si. Têm. São humanas também.

Também têm frustrações, pensamentos negativos. Também sentem raiva, também se sentem derrotadas. Por vezes. Todos sentimos isso, em algum momento da nossa vida. Em momentos. A escuridão também existe, a escuridão também é normal.

O que não é normal, o que não é saudável para nós, é que nos apeguemos a essa escuridão. Que nos agarremos a ela como se fosse a única forma de viver.

As pessoas luz procuram a luz. Porque sabem que não é fácil mantê-la. E que a escuridão tem um lado sedutor, que nos quer agarrar a ela quando a encontramos.

As pessoas luz não são iluminadas. Procuram manter-se iluminadas. Procuram repetidamente o que as acenda. Procuram acender os outros, e também quem as acenda.

Acendamo-nos uns nos outros e sejamos todos, cada um à sua maneira, pessoas-luz.

© Isa Lisboa

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