Poema sem sentido

Nasceu pássaro
Perdeu as asas
Por falta de uso;
Tentou cantar
Mas não era ave canora
Esse ofício não ia ter;
Não sabia nadar
Peixe não poderia todavia ser;
Correr também não conseguia
Para a savana não havia de ir.

Fincou-se então ao chão
Falou com a terra
Bem alto lhe pediu,
A terra acedeu.

Árvore ali nasceu
Dá abrigo e sombra,
A quem asas tem
E a voar quer aprender.

© Isa Lisboa

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Arte: “Desejo”, de Carlos Saramago
http://carlos-saramago.blogspot.pt/

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Aurora

O mundo todo ainda dorme

Mais por dentro

Que por fora

E eu, acordada pelo improvável

Deixo-me levar pelo orvalho

Espero que o laranja surja

Estico os braços

Talvez tocar o céu

A medo ainda

Deixo as pétalas abrirem-se

E declaro:

“Sim, quero amanhecer!”

© Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado

 

Recordando um início

Hoje partilho convosco um início desta minha aventura chamada escrita. Digo um início, porque comecei a escrever bastante antes. Mas foi em 2011 que eu, Isa Lisboa, nasci. E nasci para o “mundo” no blog “Instantâneos a preto e branco”. O primeiro post foi retirado de um dos meus cadernos, que ia enchendo de palavras e palavras, tentando deixar uma parte de mim falar. E as palavras foram estas:

Estou no meu carro, a conduzir na auto-estrada. Túnel. Não sei porquê, mas chama-me a atenção o tecto do túnel, noto a simetria crua e simples das imagens que se sucedem. Fim do túnel.
De novo uma estrada à minha frente. Sinto-me invadida por um torpor, que não sei se é sono ou a paz comigo mesma que de repente sinto. Sinto vontade de seguir em frente, mas mudo de direcção maquinalmente, dirijo-me para casa.
Aqui está escuro, preciso de mais luz. Melhor. No rádio continuam a passar as músicas que me transportam para trás, às recordações que tenho e às que não tenho. E dou por mim a não sentir falta das recordações que não tenho, porque agora tenho outras.
Chego a casa, livro-me de tudo e deito-me, sem certezas, mas com respostas, certas ou não, talvez amanhã saiba melhor. Se não for amanhã, não é importante, saberei. Vou apagar a luz e recordar a viagem.
Isa Lisboa
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Podem ler o post original em: <://instantaneospretobranco.blogspot.com/2011/03/tunel.html

Gratidão por tudo o que esta aventura me trouxe!

Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

Menino-Sonho

Em menino tinha um sonho

De construir uma fábrica

De sonhos;

E sonhos distribuir.

Do sonho

Não se esqueceu

O menino grande.

Tijolo a tijolo

A fábrica ergueu.

Peça a peça

Construiu suas máquinas.

Pedaço a pedaço

Encontrou matéria-prima.

Um a um

Sonhador a sonhador

Aos sonhos que via

Vida ele deu.

Deu-os a todos

Tantos.

Feliz

Por seu sonho realizar.

De fabricar sonhos

Nunca se ia cansar.

Um dia saía

Mais um sonho terminado;

E na rua ali ao lado

Um dos sonhos

Ali

Esquecido

Como se nunca tivesse sido;

Apanhou-o:

Estava coçado

Com a roupa rota

O seu sonhador

Havia-o abandonado.

Mais à frente

Outro

Ainda quase não tinha sido usado;

Com ambos no regaço

Mais órfãos encontrou

Levou-os de volta à fábrica,

E chorou…

Menino sonhador não sabia

Que muitos são os homens

Que esquecem

Seus sonhos de menino,

Ainda mais os que os temem

E deles fogem,

Quando os encontram.

Menino sonhador

Não mais fabrica sonhos;

Agora procura

Sonhos perdidos

E meninos que não cresceram.

.

© Isa Lisboa

Dores de crescimento

Cresci

Com a velocidade

De um foguetão

Prestes a implodir

E das cinzas que

Restaram

Me fiz explosão.

Do fogo

Me acendi a mim mesma

Calor

Luz

Dor.

Também dor.

Da dor cresci.

É sempre assim.

Se soubermos

Entender

Aceitar

Abraçar.

Abraçar a vida.

Abraçar a mim mesma.

Aprendi a ser por mim.

Cresci.

Abraçada a mim mesma

Cresci

E me fiz coragem.

De segurar o coração

Na própria mão

E deixá-lo doer.

Doer para bater.

O sangue flui

E a vida retoma

As lágrimas secam

E tudo muda

Muda num segundo

Ou numa vida

Tudo é eternidade

Para sempre

Cresci.

© Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado