Recuperar

Halloween

Samhain

Dia dos mortos

Dia de Todos os Santos

Estas são as celebrações que acontecem por estes dias,  com pontos em comum, desde os simbolismos às teorias sobre a origem.

Para mim, este momento do ano representa o encararmos do nosso lado mais fantasmagórico, monstruoso e sombrio. E perceber que esse lado também faz parte de nós e é também bonito, à sua maneira.

É também uma transição, neste caso para os dias frios que aí vêm e os dias em que o corpo e o espírito pedem recolhimento, para nos alimentarmos da colheita que fizemos. É um momento que acredito que todos precisamos aproveitar, o deste recolher da alma.

É também um momento em que, segundo a tradição, a linha entre o mundo visível e o invisível fica mais ténue. É um bom momento para também olharmos para estas duas partes de nós e entender o quanto estão juntas ou separadas e quais partes de nós precisam ser recuperadas.

Recuperar. Recuperemos forças, aproveitemos o frio, o vento e o sol tímido, esperemos a chuva. É o momento em que a natureza adormece, sem no entanto deixar de se mostrar presente. E no interior de tudo o que nos rodeia, a vida pulsa. Talvez a um ritmo mais calmo. A seiva corre nas árvores, os animais enroscam-se num cantinho, protegidos do frio. 

Recuperar.

© Isa Lisboa

 

 

Acender uma vela na escuridão

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Em tempos que falta a luz, resta-nos acender uma vela, para cortar um pouco da escuridão.  Para nos permitir ver que ainda há um caminho, mesmo que não seja tempo de caminhar.

Acender uma vela em nós mesmos pode revelar-se a tarefa mais difícil que encontramos. Mas só assim saberemos o tamanho da escuridão.

E a escuridão dá medo, lembrando quando éramos crianças e os monstros se escondiam, à noite, nos cantos mais escuros da casa.

Crescemos, e a escuridão passa para aqueles momentos da vida em que tudo parece impossível, irreal e surreal.

Mas na verdade, a escuridão é a perda da esperança e a perda da fé em nós mesmos.

E a escuridão é também a cegueira de não querermos olhar para nós mesmos e ver. Ver os passos que demos e nos levaram ali. Ou os passos que não demos agora para sair.

Porque é preciso muito mais coragem para aceitarmos a nossa quota-parte no nosso destino, do que o é para amaldiçoarmos a escuridão.

Aquele canto escuro, onde nos escondemos, enrolados sobre nós próprios, com pena de nós mesmos… Esse canto, é a verdadeira escuridão, a que escondemos dentro de nós.

E se nos apegarmos demasiado a esse canto, facilmente nos esquecemos de que a escuridão não existe sem a luz: antíteses complementares que se completam.

Basta um passo, basta lembrar, acreditar. Acreditar na luz que nunca se extingue. Mas também acreditar na escuridão que sempre a acompanha.

E, sobretudo, acreditar, lembrar, assumir, que a escolha entre uma e outra, é sempre e só, apenas tua. Em cada momento, em todos os momentos. Não escolhes só uma vez, porque a vida está sempre a pôr-te à prova.

A vida põe-te à prova para que possas reclamar um prémio: a tua essência, o teu ser mais puro, quem tu és. A vida põe-te à prova para que te descubras. E para que quando te encontres te possas reinventar. Hoje, amanhã, quando for.

O que vais escolher, agora?

© Isa Lisboa

A vida é um modelo matemático?

No ramo da matemática que estudei, o passado explica o presente e ajuda a antecipar o futuro. Mas em todos os modelos matemáticos existe alguma dose de incerteza, e nunca podemos dizer que algo acontecerá com certeza absoluta. “Não temos uma bola de cristal.”

Também a vida é assim. Mesmo quem a queira transformar num grande modelo matemático, prevendo tudo… Não consegue.

O passado pode condicionar-nos ou até perseguir-nos. Mas o passado é apenas um livro de memórias com o qual aprendemos a escrever o futuro.

E a tal dose de incerteza está sempre lá presente. Precisamos conceder a nós mesmos uma margem de erro. Ou um intervalo de confiança, se preferirem.

Quantas vezes uma linha recta se transforma num círculo? Porque o fim da linha existe, mesmo que a dada altura do percurso não o consigamos ver.

A boa notícia é que, caso a linha se tenha transformado num nó, podemos sempre desatá-lo. E desenhar a forma geométrica que queremos agora.

© Isa Lisboa

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Imagem: http://www.pixabay.com

Mudar de sapatos

Durante um tempo da nossa vida, precisamos mudar constantemente de sapatos. Com os pés em crescimento, depressa aquele número deixa de nos servir e temos que usar outro. Depois o corpo pára de crescer e aquele tamanho de sapatos deverá ser o nosso para o resto da vida.

E, se não tivermos cuidado, começamos a acreditar que tem que ser assim com tudo na vida.

Começamos a não ver as oportunidades de crescer, a deixá-las passar ao lado. A dizer – pior: a acreditar – que já não é para nós. Não queremos experimentar sapatos novos, porque aqueles assentam tão bem e são tão confortáveis.

Mais grave ainda, compramos cremes e outras panaceias para ajudar com as bolhas e calos, recusando-nos a admitir que é aquele par de sapatos que as está a causar. E os sapatos começam a apertar e a apertar, dificultando o caminhar. Podem até provocar um ligeiro, praticamente imperceptível, coxear.

Mas acreditamos que é preciso continuar, que tem que ser assim, que não há alternativa, que…

A pergunta que se impõe é: porquê? Porque é que tem que ser assim? Porque não podes descalçar-te e ficar um tempo a sentir a terra debaixo dos teus pés? Até decidires o que queres calçar agora. Depois podes até querer outros sapatos.

Às vezes a vida é assim. Porque não?

 © Isa Lisboa

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