Sentido de orientação

Há alguns anos atrás, quando comecei a conduzir, percebi que tenho maus sentido de orientação. Pelo menos enquanto conduzo; muito embora a pé, encontre mais facilmente o caminho.

Com o avançar da tecnologia, fui-me socorrendo das mais populares “app’s” de localização no telemóvel. Também me tornei um pouco dependente destes truques.

E isso notou-se quando, há dias, fiquei sem bateria na viagem de regresso.

Na viagem da manhã, fui seguindo as indicações, descontraidamente, e sem prestar muita atenção ao percurso. Como não é uma zona que conheço bem, não podia agora fiar-me na minha memória. Por isso, naquele momento, não sabia muito bem como encontrar o caminho para voltar para casa.

Mas, parada, não valia a pena ficar.

Arranquei e fui andando. Aqui e ali via pequenos pontos de referência e depois comecei a encontrar placas que me indicavam que o caminho parecia o certo.

Finalmente, cheguei a uma estrela que já conhecia bem.

Quando me vi nessa estrada, subitamente dei-me conta de que a havia encontrado, sobretudo, seguindo a minha intuição.

Aquela minha vozinha que fala do fundo.

Aquela vozinha que, quando eu me silencio para a ouvir, muito me diz. Aquela vozinha que sempre me ensina como voltar para casa.

© Isa Lisboa

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2020: Onde estão os carros voadores?

É certo: Não estamos a viver um filme futurista do século passado. Nem skates que flutuam, chips por debaixo da pele, nem carros voadores.

Ainda assim, dizem, o futuro está a chegar. Dizem-no as casas inteligentes, as assistentes pessoais do telemóvel e robots com nome próprio e os primeiros carros sem condutor.

Quando eu nasci, a TV era a preto e branco e, quando eu queria mudar de canal, não tinha controlo remoto – precisava levantar-me e mudar o canal no aparelho. Um dos canais. Alguns anos depois, quando a TV já era a cores, vieram mais dois.

Houve um tempo em que eu via na TV os Jogos sem Fronteiras. Hoje, após a explosão da internet, o mundo tem cada vez menos fronteiras. Talvez as pessoas tenham descoberto novas fronteiras, especialmente entre pessoas. Também descobriram algumas nelas próprias, mas encontraram formas novas de as ultrapassar.

Também nesse tempo das minhas memórias, o telefone estava preso à parede e discávamos o número para onde ligar. Hoje, nós e os telemóveis estamos menos presos aos mesmos lugares. E ainda bem: viajar é preciso. Especialmente, é preciso viajar para fora de nós.

E hoje podemos viajar sem sair do lugar. O mundo (quase) todo está à distância de um clique. Também o está a sala de cinema ou uma refeição levada a casa. Habilidades do nosso smartphone. Smarts são também alguns watches. E os novos carros, já ligados ao phone, o smartphone.

Estão mais inteligentes, os carros. Mas ainda não voam. E por acaso acho isso uma pena, especialmente quando estou no meio de uma qualquer fila de trânsito.

É provável que também as haja no ar, quando os carros voarem. Sim, porque os carros ainda não voam, mas tudo indica que estão a ganhar asas. E tudo indica que sempre iremos querer ir a algum lugar.

Foi essa vontade de ir, de descobrir, que nos trouxe aqui. A este futuro sem carros voadores, mas com tantas coisas fantásticas!

Também com bastantes e novos desafios, é certo. Mas o vento que travou algumas caravelas, também empurrou outras para lá do Cabo Bojador.

Por isso, talvez eu ainda veja auto-estradas no céu e conduza um carro alado!

© Isa Lisboa

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Imagem: pixabay.com

Recuperar

Halloween

Samhain

Dia dos mortos

Dia de Todos os Santos

Estas são as celebrações que acontecem por estes dias,  com pontos em comum, desde os simbolismos às teorias sobre a origem.

Para mim, este momento do ano representa o encararmos do nosso lado mais fantasmagórico, monstruoso e sombrio. E perceber que esse lado também faz parte de nós e é também bonito, à sua maneira.

É também uma transição, neste caso para os dias frios que aí vêm e os dias em que o corpo e o espírito pedem recolhimento, para nos alimentarmos da colheita que fizemos. É um momento que acredito que todos precisamos aproveitar, o deste recolher da alma.

É também um momento em que, segundo a tradição, a linha entre o mundo visível e o invisível fica mais ténue. É um bom momento para também olharmos para estas duas partes de nós e entender o quanto estão juntas ou separadas e quais partes de nós precisam ser recuperadas.

Recuperar. Recuperemos forças, aproveitemos o frio, o vento e o sol tímido, esperemos a chuva. É o momento em que a natureza adormece, sem no entanto deixar de se mostrar presente. E no interior de tudo o que nos rodeia, a vida pulsa. Talvez a um ritmo mais calmo. A seiva corre nas árvores, os animais enroscam-se num cantinho, protegidos do frio. 

Recuperar.

© Isa Lisboa