Dúvidas

Ainda sobre o tema da (Des)Crença, pergunto-me o papel da descrença.

Sou uma grande adepta do positivismo, do andar para a frente, esperando o melhor; e também (talvez principalmente) do pensar fora da caixa.

Olhar para além do óbvio, acreditar para além do que é racional, seguir o que o coração sente.

No entanto, também me questiono. Também paro para pensar se tomei a atitude correta, se estou a fazer o caminho certo, ou se devo mudar de direcção.

E também duvido de mim própria. Digo, no sentido de me questionar a mim mesma, se as minhas crenças ainda são verdadeiras, se respeito todos os meus valores, sobre as razões que me puxam e sobre as que me empurram.

Duvidar de nós mesmos é uma expressão com carga negativa. E, num sentido, é-o. É-o quando não acreditamos em nós, quando não acreditamos que conseguimos fazer algo, sentir algo, chegar a algum lado.

Mas duvidar de nós mesmos, no sentido de nos questionarmos, de fazermos uma auto avaliação sobre o nosso mundo interior… Essa dúvida, que é, na realidade, um questionamento, é boa.

Porque dessa auto avaliação podem surgir novas perspectivas acerca de nós mesmas(os). Talvez nem todas boas, a princípio, mas todas necessárias ao nosso crescimento.

 © Isa Lisboa

 

Igor Morski

Imagem: Igor Morski

 

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(Des)Crença

Há pouco tempo, disseram-me “és, definitivamente, mágica!”. Veio esta afirmação a propósito de uma palestra de desenvolvimento pessoal em que a pessoa participou. Nessa palestra, os participantes eram convidados a auto avaliarem-se, de 0 a 10, quanto à sua crença em si próprios e nos outros.

Com base neste binómio, construíam-se quatro grupos de pessoas, sendo os mágicos, aquelas pessoas que acreditam em si mesmas, nas suas capacidades e nos seus recursos, mas também acreditam nos outros, nas suas capacidades e nos seus recursos.

Achei o exercício interessante e fiz essa auto análise.

À primeira vista, concordei com a avaliação que me propuseram. No entanto, identifiquei áreas da minha vida em que caibo melhor num dos outros grupos.

No final da reflexão, acabei por concluir que essas áreas são também aquelas em que neste momento sinto mais necessidade de me compreender melhor, de mudar e de me auto desenvolver.

Como que a testar essa minha auto análise, alguns dias depois, num contexto diferente, alguém me disse que sentia em mim um sentimento de descrença.

E, não concordando, também não fui capaz de discordar. Porque esse sentimento existe em determinados momentos e situações.

Por outro lado, não sou uma crente incondicional.

Acredito no melhor das pessoas, no melhor da humanidade e da vida.

Mas também acredito no pior. Não que já tenha visto o pior, mas já me cruzei com pessoas em quem perdi a crença. Que me fizeram (e fazem ainda, algumas) perder a fé momentaneamente.

No fundo, acredito que todos e cada um de nós tem a capacidade inata e natural de ser feliz, de ser alegria, de ser o melhor que o ser humano tem. Mas também acredito que nem todos desejam tomar essa opção ou que estejam preparados para isso.

Creio que é aí a minha falta de fé: acreditar no potencial de todos, mas não acreditar que todos irão escolher realizá-lo.

Será isso mau? Será isso bom?

Acredito: não é bom nem mau, antes pelo contrário.

 © Isa Lisboa

 

 

A.Araujo Santoyo

Imagem: A. Araújo Santoyo

 

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado

Inquiridor

“Passando pelo inquiridor enquanto ele rezava, vieram o aleijado, o pedinte e o exausto. Ao avistá-los, o Santo homem embrenhou-se ainda mais nas suas orações e exclamou:

«Meu Deus, como é que um criador tão misericordioso pode ver estas coisas e mesmo assim não fazer nada?»

E vindo de um grande silêncio, Deus disse: «Fiz qualquer coisa. Fiz-te a ti.»

Autor não identificado

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Foto: Suri

O rio

As águas do rio correm violentas. Mas correm para a frente, não posso resistir-lhes. Não quero.

O tempo de estar sentada na margem do rio foi. Mas já não é mais. Há sempre um tempo. Um tempo para cada lugar.

As águas do rio assustam, sei que não as conseguirei controlar, talvez me atirem de uma margem à outra, ao longo do caminho. Talvez me atirem aos seixos do fundo. Mas seguirei. Estou decidida.

Vou chegar, não sei onde, o rio é que sabe. Ao mar, certamente, mas não sei a qual.

Só me interessa que poderei então provar o sal.

© Isa Lisboa

Alexey Zaycev

Imagem: Alexey Zaycev

 

Orientação

Trazia sempre uma bússola consigo. No entanto, andava sempre perdido.

Um dia encontrou um livro de História. Sobre o tempo dos navegadores. De como encontravam terra usando uma bússola e seguindo as estrelas.

Então decidiu comprar um barco.

A partir daí nunca mais precisou de uma bússola para encontrar o caminho.

© Isa Lisboa

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