Sobre Isa Lisboa

Se acreditasse poder definir-me numa só palavra, diria que a Isa Lisboa é uma escritora. Como são precisas muitas, direi que sou tudo o que vejo.

Carta do Pai Natal

grunge-1750261_960_720

Este texto foi escrito originalmente para o blog Tubo de Ensaio, e descreve uma carta que o Pai Natal poderia escrever-nos!

Oh, Oh, Oh!
Olá, meninos adultos!!
Lembram-se de mim? Não, não estou a falar da figura no centro comercial, ou nos filmes de Hollywood ou impressa nos papéis de embrulho para o Natal…
Pergunto se se lembram de mim, o pai Natal, aquele a quem escreviam cartas a pedir um presente, o que estacionava o trenó no telhado e descia pela chaminé abaixo. O velhinho das barbas, eu mesmo!
Eu sei que alguns de vocês se lembram de mim. Vocês, que sorriem quando vêm as luzes de Natal a acenderem-se. E vocês, que voltam a ser crianças quando fazem a árvore de Natal e enquanto escolhem os enfeites. E vocês, que ao oferecerem presentes no Natal, sentem aquele calor no coração, igual ao que eu sinto na noite de Natal.
A vocês, eu poderia escrever, mas eu sei que vocês sabem que eu vos visito todos os Natais, e que vos deixo algo para afagar esse espírito que têm no coração. E vocês sabem também que estão dentro do meu coração.
Na realidade, esta carta é para os meninos adultos que já não se lembram de mim e, especialmente, para aqueles que nunca me escreveram.
Talvez alguns de vocês já se achem grandes demais para acreditar no Pai Natal e por isso não queiram perder tempo com todas essas coisas.
Bom, confesso-vos que isso me deixa um bocadinho triste… Porque o vosso lado criança é uma das melhores coisas que existem dentro de vocês. Não se lembram como eram felizes quando podiam ir brincar ou quando acreditavam que criaturas mágicas se escondiam no vosso jardim ou no vosso quarto? Lembram-se do que sentiam no Natal quando ouviam o “Oh, Oh, Oh”? Bem sei que agora há a azáfama toda, a correria para comprar todas as prendas antes do dia 24 – algumas no dia 24 – a preocupação a olhar para o extrato do Multibanco antes de ir comprar a seguinte. E depois, ainda falta comprar a comida para a ceia de Natal e preparar tudo. E, e, e…
E se parássemos só por um bocadinho? Pergunta-te: porquê toda essa preocupação? Não podes comprar o presente caro que querias? A pessoa a quem ias comprar vai ficar triste? Tu ficarás triste? Porquê? Já te perguntaste? Experimenta, pelo menos este ano, uma coisinha: compra o presente que podes comprar, mas compra algo que sabes que a outra pessoa vai gostar. Pode até ser algo simples. Se não puderes comprar, faz-lhe algo. Aposto que vai ser uma prenda ainda mais especial.
E, acima de tudo, não te esqueças do mais importante de tudo: ao ofereceres o presente, acompanha-o de um abraço sincero, sentido.
Se não puderes comprar ou fazer mais nada, esse pode até ser o único presente. Pode parecer-te pouco. À outra pessoa pode também parecer pouco a princípio. Mas… e se eu disser que esse presente irá deixar uma marca mais duradoura que qualquer um que possas embrulhar? Parece-te estranho, eu sei. Mas porque não tentas? Mas tenta de coração aberto, de outra forma não me darás oportunidade de mostrar que tenho razão.
Peço-te apenas um pequeno acto de fé. E nem é em mim, é em ti.
Depois me dirás… Ou não digas, se não o quiseres. Guarda o que sentires para ti. Mas depois não te esqueças desse pequeno fogo que te aqueceu o coração. E busca-o no resto do ano. Chama-o tantas vezes quantas as que quiseres e conseguires…!
Talvez no próximo ano já acreditem um pouco mais em mim. Ou talvez não. Mas eu ficarei feliz se já acreditarem um pouco mais em vocês!
Vou aproveitar ainda esta carta para falar também com outros meninos-adultos. Aqueles que não gostam das prendas que recebem e que, por isso, já desistiram de mim.
Entendo que às vezes seja frustrante pedir uma coisa e receber outra. Mas, sabem, eu gosto de dar prendas úteis. Úteis no sentido de ajudarem a conseguir algo – que devem sempre ser vocês a conseguir – ou no sentido de vos ensinarem algo.
Sei que não é assim que se entendem alguns presentes, à primeira vista. Mas agora que leram esta revelação, digam-me lá se, olhando para trás, não receberam presentes que traziam estas benesses atrás?
É esse o meu desafio: da próxima vez que receberem algo de que não gostem tanto, perguntem a vós mesmos o que pode aquele presente ensinar-vos ou trazer de bom, ao fim de um tempo!
E, finalmente, ainda há quem, por vezes, receba o famoso pedaço de carvão. Pois é, parece um presente pequeno, inútil e sem graça. Ainda por cima é associado aos meninos que se portam mal. Mas eu tenho a dizer-vos que não é essa a intenção. Eu não quero castigar-vos. O pedaço de carvão é apenas uma mensagem… Se um pedaço de carvão está apagado e sem vida, também é verdade que ainda não é cinza. E que com um pedaço de calor e um pouco de fogo, voltará finalmente à vida e ele próprio a produzir fogo e calor. E assim são também vocês. Assim somos todos nós, com o potencial de sermos chama viva. É esse o desafio que vos deixo, caso encontrem um pedaço de carvão no sapatinho: que o reavivem com a vossa luz. E não me digam que não a têm, porque têm! Pode até estar diminuída e mal se ver, mas não está extinta. E basta um pequeno sopro para que ela se reavive.
E isto vale para todos vocês, meninos-adultos. Mesmo para os que não receberam carvão. Nunca se esqueçam da vossa luz!
E para que ela se fortaleça, já acendi a luz do Natal e mando-a para todos, para que ilumine o vosso coração e lá viva durante todo o ano!
Feliz Natal!

S. Nicolau

© Isa Lisboa

Anúncios

Quem ganhou a discussão?

Há algum tempo, numa loja, presenciei uma discussão entre mãe e filha. Estava na caixa e no balcão elas tinham dois vasos de flores. Quando a funcionária da loja passou o código de barras, aperceberam-se de que o preço das plantas era diferente. De imediato, a mulher mais nova reclamou. A funcionária da loja explicou que uma das plantas era, efectivamente mais cara, e que até poderiam confirmar, pois as plantas estavam expostas na caixa ao lado.

“Então não levamos!” – respondeu logo a primeira. Mas a mãe reagiu de imediato, pegando logo no vaso e dizendo “Não, não, mas eu quero levar esta planta, porque gosto dela.”

A discussão teve mais algumas trocas de palavras, em que a filha opinava que era uma estupidez levar uma planta tão cara, e a mãe opinava que ia levar na mesma.

Fiquei um pouco a observar esta troca de palavras e a pensar o quanto aquela discussão não tinha nada a ver com a planta propriamente dita.

Pareceu-me antes ser uma disfarçada luta de poder, uma luta para ter razão e impor a sua própria opinião.

Talvez a mãe não gostasse assim tanto da planta e noutras circunstâncias não a levasse. Talvez a filha não achasse o preço assim tão elevado e noutras circunstâncias até a comprasse para a mãe.

Talvez. Não posso saber. Mas o que acredito é que, naquele momento, o Orgulho foi quem ganhou a discussão.

© Isa Lisboa

pair-707506__340

“És feito daquilo que amas!”

“És feito daquilo que amas!”

Esta frase “entrou-me pelos olhos adentro” enquanto conduzia numa rua de Lisboa. Estava escrita num outdoor, era um slogan publicitário sobre a cidade.

À parte a publicidade, a frase chamou-me a atenção, pela sua verdade simples e abrangente.

Por um lado tudo aquilo que amamos, acaba por nos ajudar a definirmo-nos. Mas também, e principalmente, aquilo que amamos é o que nos faz viver uma vida plena, é o que nos faz levantar da cama e adormecer à noite em paz.

Ter na nossa vida algo que nos apaixona, algo que nos entusiasma, que faz sentir aquela pequena ou grande adrenalina, é algo que para mim é essencial.

Nem sempre conseguimos dedicar-nos a esse amor tanto quanto queremos, os desafios diários parecem uma constante interminável.

Mas se esquecermos essa parte de nós – a que se entusiasma, a que vibra, a que quer fazer, avançar, criar – aí criamos mais tempo. Mas criamos mais tempo para outros desafios diários, para mais stress. Stress não é apenas ter muitas coisas para fazer. É, acima de tudo, ter que as fazer sem prazer, por obrigação, porque alguém nos está a pressionar ou porque nós próprios nos estamos a pressionar. E tudo isso só nos suga a energia. Só nos vai subtraindo, um pouco a cada dia.

Por isso é tão importante que encontres – e faças – espaço para aquilo que mais amas.

Porque aquilo que amas é quem tu és.

© Isa Lisboa

Celebrando S. Martinho

chestnuts-3398024__340

Hoje é dia de comer castanhas e de provar o vinho novo. Mas não só. Também é dia de celebrar a generosidade e a compaixão.

Diz a lenda de S. Martinho que este, quando era soldado, regressava a casa no meio de uma tempestade, e viu um mendigo cheio de frio na beira da estrada, a pedir esmola. Não tendo mais que lhe dar, o soldado Martinho desembainhou a espada e cortou o seu manto a meio, dando metade ao mendigo para que se aquecesse. Nesse momento, a tempestade ter-se-à dissipado e apareceu um sol radioso no céu – um Verão de S. Martinho.

Hoje, convido-vos a que,. enquanto comemos castanhas, pensemos de que formas podemos integrar (mais) a compaixão e a generosidade nas nossas vidas. Sem esquecer da auto-compaixão.

Bom dia de S. Martinho!

Isa Lisboa

Bookshelf – The minotaur takes a cigarette break

o-minotauro-faz-uma-pausa-para-fumar.jpg

Continuando a partilhar um pouco das minhas leituras, deixo-vos hoje um livro que posso classificar como intrigante. Esta é uma edição em inglês, e, traduzindo o título à letra, venho falar de “O Minotauro faz uma pausa para fumar”. 

A personagem principal é ele mesmo: o Minotauro. O temível. O que guardava o labirinto e se banqueteava com sacrifícios humanos.

Vive agora uma vida comum, num trabalho normal, imerso na humanidade contemporânea. Tentando deixar o passado para trás, procura manter os chifres baixos e a cauda escondida. 

Será mesmo este livro sobre uma criatura mítica? Ou sobre tantas e tantas pessoas reias?

Se já leram, deixem os vossos comentários sobre a obra 🙂

Isa Lisboa