Sobre Isa Lisboa

Se acreditasse poder definir-me numa só palavra, diria que a Isa Lisboa é uma escritora. Como são precisas muitas, direi que sou tudo o que vejo.

360º graus

Sempre com pressa,

Corre dentro do globo

Volta ao início.

 

© Isa Lisboa

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O ciclo do grito

O ciclo do grito é algo de que ouvi falar numa série de comédia – “How I met your mother”.

Revi este episódio específico há pouco tempo e tive vontade de escrever sobre este fenómeno que já observei na vida real.

Diz-se que a ficção imita a vida real. Neste caso, em que o meio usado é a comédia, a mensagem, a meu ver, passa de forma mais eficaz… Mas desvio-me do assunto.

Neste episódio, umas das personagens lida, ou tenta lidar sem sucesso, com a prepotência do seu chefe que constantemente grita com ele. Outra das personagens, o seu amigo Barney, fala-lhe do ciclo do grito. Diz-lhe que quando uma pessoa grita com outra, a segunda pessoa deverá depois ir gritar com outra, como forma de se libertar da frustração e assim por diante.

E durante a maior parte do episódio, Barney tenta convencer o amigo Marshal a fazer parte desse ciclo do grito, o que o amigo não queria fazer. Quando o tenta – sendo uma comédia – os resultados são o oposto do esperado. Porque a pessoa com ele gritou, um empregado de restaurante onde jantam, já cansado de tantos clientes mal-humorados e prepotentes, grita com ele.

Na primeira vez em que vi este episódio, pensei em duas coisas: uma que o ciclo do grito é bem real, que muitas pessoas entram neste ciclo, de forma consciente ou inconsciente.

Ouvem gritos do patrão, engolem a injustiça. Ou ouvem gritos de uma pessoa próxima e preferem não levantar ondas. Mas depois ao chegarem a casa, gritam com a família, ou então chegam ao trabalho e descarregam em quem podem.

A outra coisa em que pensei é se o ciclo será sempre um círculo fechado ou se, como naquele episódio, há sempre alguém que escolhe não perpetuar este ciclo vicioso. Não gritando, mas também recebendo toda a frustração e raiva acumulada de quem gritou antes com a pessoa que gritou. E antes, e antes, e antes…

Bom, na verdade, pensei em três coisas. Também pensei que já me senti como o Marshal, a personagem que não queria fazer parte do ciclo do grito. Sabendo que não queria entrar nesse ciclo, mas, ao mesmo tempo, sem saber bem como lidar com os gritos.

E agora, na segunda vez que vi este episódio, percebi que como foi que, a pouco e pouco, fui fazendo essa aprendizagem.

Eu não queria gritar porque não queria dar a alguém algo que eu não gostava e que eu sentia que não fazia bem a ninguém. Mas, por outro lado, estava a aceitar que outras pessoas me dessem os seus gritos. E estava a aceitar parte do que esses gritos me diziam.

Foi por aí que comecei. A não aceitar, ou melhor, a declinar, as sensações que esses gritos meu causavam. A não deixar entrar na minha mente as coisas negativas que os gritos diziam sobre mim. A reconhecer o quanto daqueles gritos NÃO eram eu.

Ao responder, comecei a deixar de levantar a voz para me fazer ouvir. Passei antes a aumentar a segurança na voz ao defender-me. Ao dizer a minha verdade.

E, a pouco e pouco, percebi que isso era mais forte. E que diminuía os gritos à minha volta, porque diminuía o eco que os gritos faziam na minha mente.

Por isso, hoje em dia, sinto-me confortável com o meu lugar fora do ciclo do grito.

Sei que o que não quero receber e também estou tranquila com a minha decisão do que não quero dar.

© Isa Lisboa

E ao que parece… já lá vão 3 anos!

Pois é, o tempo passa e, ao que parece, já lã vão três anos!

Faz hoje 3 anos que o meu livro Invernos, Sonhos e Andorinhas foi lançado. Este é um aniversário especial, porque marca o dia em que dei a conhecer este meu muito especial projecto. Mas a “idade”deste livro começa antes. Começa ainda antes de eu ter terminado de o escrever. Antes de ter começado a escrevê-lo. Começa quando comecei a sonhá-lo.

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Mas hoje é o aniversário do lançamento do livro, e por isso gostaria de agradecer a todas as pessoas que me apoiaram e incentivaram a escrevê-lo e a todas as pessoas que estiveram presentes na Biblioteca Municipal de Sintra (fotos aqui). Também a todos os que leram o livro e aos que me deram a sua opinião sobre ele, que partilharam comigo qual o seu conto favorito e quais as mensagens que o Invernos, Sonhos e Andorinhas vos transmitiu. Agradeço a todas as pessoas que me têm ajudado a divulgar o livro e que acreditaram e acreditam em mim e na minha escrita.

Obrigada por fazerem parte deste sonho!

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Isa

Colheita

Os ciclos da natureza são bem conhecidos. Existe a época de semear, de crescer, de amadurecer, de colher e, finalmente, de descansar e regenerar. As quatro estações retratam estes ciclos, ainda que não sigam à risca o calendário gregoriano.

As plantas e o seu cultivo são um bom exemplo destes ciclos. E, na agricultura, sabe-se que cada planta tem a sua época de plantio. Mas existem algumas plantas que podem ser plantadas em mais que uma estação do ano.

Também nós, humanos, somos assim, como as plantas. Algumas coisas na nossa vida precisam esperar pela altura certa para serem plantadas. Mas outras há que podemos ir plantando, quando a terra e a temperatura se afiguram boas, ou seja, quando a oportunidade o pede.

Mas certo é que não devemos plantar na época do descanso. Nessa altura, o frio não permitirá que a semente germine. E o nosso cansaço poderá levar-nos a lançar a semente à terra, sem ver. Sem ver aonde lançamos a semente. E sem respeitar o espaço entre uma semente e outra. O espaço que irá permitir às plantas do futuro respirar, crescer e alargar.

A época de descanso é a época em que fazemos uma pausa. Para recuperar forças, mas acima de tudo, para recuperar da época da colheita. E precisamos deste intervalo quer a colheita tenha sido má, quer a colheita tenha sido boa. Precisamos deste intervalo quer seja para saborear os frutos, quer seja para lamber as feridas.

Certo é também que tens que plantar. Se não plantares, não colherás. Ficarás limitada aos frutos que aparecerem. Frutos de alguma semente perdida no vento, ou de alguma semente que alguém deixou para trás. E esses frutos matam a fome, mas não alimentam. E tu queres alimentar-te, não é? Não te chega matar a fome, calar o estômago. Queres trincar um fruto doce e sumarento, queres lambuzar-te. Queres comer aquele fruto de que gostas mesmo, descobri-lo como uma criança desfruta de um gelado.

É isso que queres colher? Então tens que plantar. Mãos à obra. Arregaça as mangas e começa. Tens que cuidar da terra, escolher as melhores sementes, tens que ir buscar água fresca para regar e fertilizante para ajudar.

E depois… tens que ter paciência. Algumas espécies de plantas começam a brotar rapidamente, mas por outras tens que saber esperar. Esperar que brotem, que cresçam, que deem flor e, finalmente, o fruto. E quantas vezes os primeiros frutos não são pequeninos, e apenas um ou dois? Algumas demoram a carregar de frutos. Mas se provares esse primeiro fruto, sentirás já o doce sabor, o néctar que tanto procuras.

Tens que ter paciência. Continuar a cuidar da tua árvore, regá-la, fertilizá-la, tirar-lhe as folhas mortas. Tens que a mimar, falar-lhe, dizer-lhe o quão importante ela é para ti. O quanto queres provar do seu fruto. O quanto lhe estás grata(o) por ela estar, neste momento, a fabricar os frutos que vais colher. Tu não vês, mas a seiva que circula no caule dessa árvore, vai ser um pedaço do fruto no futuro. Vai ser um fruto grande, sumarento, doce. O fruto que vais colher.

Tem paciência. Fertiliza. Rega. Planta.

Já plantaste hoje?

© Isa Lisboa

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Bookshelf – Até ao fim

Descobri Vergílio Ferreira na escola, com “Aparição”. No meses seguintes, devorei vários outros títulos deste autor, pedidos emprestados na Biblioteca Municipal. Já na faculdade, comprei alguns títulos, que guardei em conjunto com aquele primeiro livro do autor.

Hoje venho partilhar convosco um pouco do livro “Até ao Fim”, deixando-vos com um excerto que considero que nos leva a várias reflexões, mesmo lido isoladamente.

© Isa Lisboa

“Não me ponhas o pão com água, oh não, Tina. Cresci muito. Durmo já noites de homem. Nem botija no Inverno? Cresci já até aos ombros viris, tenho já a voz grossa, o que digo agora nela tem o peso do mundo, Tina. Estou já cheio de responsabilidades, tu não podes imaginar. Lutas ódios maldições. E os sonhos, que também pesam. E a estafa para atingir o futuro. E os desastres falhanços humilhações. E essa coisa esquisita dos «problemas de consciência». Não me perguntes o que isso seja, que também não sei bem, Tina. E os ideais com que embandeira a loucura. E o quotidiano que é chato por sua intrínseca natureza e que tem também o seu direito. E mesmo o amor, só é bom enquanto não é ou quando já não. como todas as coisas. E esta chatice absurda de só se gostar a valer do que nunca pode existir. E não me ponhas essa cara pasmada de quem viu o demónio em feitio de cabra à meia-noite, porque tudo o que te digo tem uma verdade solar como um dia de canícula. Ah, cresci demais para poderes existir. Em todo o caso não posso ainda existir todo para largar tudo de mão. Uns anos ainda, Tina. Estou bem confuso da vida – enquanto a sonata me envolve ainda de melancolia. Tenho a alma enregelada, se tu fosses ainda a botija. Estou cheio de horrores adultos e seria bom vir ainda de ti a pacificação.”

Vergílio Ferreira, in Até ao Fim

Até ao fim