Sobre Isa Lisboa

Se acreditasse poder definir-me numa só palavra, diria que a Isa Lisboa é uma escritora. Como são precisas muitas, direi que sou tudo o que vejo.

Conto sem nome

Uma cara de idade indefinida saudou-me. Os seus olhos pareciam indolentes pela inexpressividade. Uma ruga despontava na testa, levando a supor ser um homem de meia idade. Pálpebras encovadas, mas de cansaço, pareceu-me. Sim, eram olheiras de uma noite mal dormida. Ou talvez de uma vida mal dormida, ocorreu-me. A cabeleira farta caía sobre a testa, também ela lhe parecendo exausta, assim, ali. Reparando nesses cabelos desavindos, puxou-os para o lado. Preguiçosos, não queriam ir. À segunda tentativa, desistiu de se ajeitar. Parecia que tanto fazia.
Estranhei esta atitude. Andava a antecipar este encontro já há alguns dias. Esperava um homem enérgico, talvez com algum distanciamento, mas não com esta indiferença. À sua maneira, construíra um pequeno império. O seu nome era conhecido por toda a cidade. As empresas em que participava e fizera crescer, eram mais do que se imaginava. Um polvo no mundo empresarial daquela cidade do interior.
Normalmente discreto, não gostava de dar entrevistas. Fora uma surpresa enorme quando o chefe lhe entregara aquele trabalho.
“Foi o Presidente da Câmara que me convenceu. Ele acha que esta entrevista será boa para divulgar a cidade.” – Disse o empresário, como que respondendo-lhe. – “Não tenho jeito para isto, só sou bom com números!”
Fazendo uma pausa, acrescentou: “E também não tenho muito tempo!”
Ali estava, afinal, o feitio pelo qual era conhecido.
Endireitei-me e respondi: “Claro, não lhe tomo muito tempo!”
Agarrei-me ao meu bloco de notas e sentei-me na cadeira que me indicou.
“Em primeiro lugar, agradecemos muito a sua disponibilidade para esta entrevista.”
Levantou-me o sobrolho e tamborilou os dedos no tampo da mesa.
“Certo” – pensei eu – “Vamos direto ao assunto!”
Fui percorrendo cada uma das perguntas que tinha preparado e tirei notas com a mesma precisão clínica com que me eram respondidas.
Cheguei àquela parte do meu bloco de notas marcada com um ponto de interrogação. Enquanto preparava a entrevista, fiquei com dúvidas sobre se devia fazer aquelas perguntas. E agora tinha ainda mais.
“É tudo?” – Cortou.
Engoli em seco, respirei fundo e pus o meu melhor sorriso. “Só mais duas perguntinhas.”
Ficou calado, aguardando.
“Gostaria de saber o que o levou a escolher o curso de gestão quando foi para a faculdade. Esperava nessa altura construir tudo o que construiu?”
De novo o sobrolho levantado. De novo, o meu melhor sorriso, a tentar ser encorajadora.
“Era um curso com boas saídas, e era um trabalho digno, foi uma escolha óbvia. Claro que na altura não imaginava ainda onde podia chegar, mas imaginei que podia fazer muitas coisas. E parece ter sido um bom investimento, de facto.”
Esta resposta quase respondia à minha última pergunta. Mesmo assim, arrisquei:
“E qual era o seu sonho de criança? Ser bombeiro, piloto de aviões?”
A sua expressão ficou parada e o meu coração também parou, com a possibilidade de ter estragado a entrevista naquele momento.
Olhou para o lado, respirou fundo.
“Nessa altura, eu queria ser pintor. Gostava muito de desenhar o que via. E dar até formas diferentes à realidade. Cheguei a pintar algumas telas!”
“E essas telas ainda existem?” – Arrisquei de novo.
“Talvez, no sótão dos meus pais!”
“E porque parou? Talvez pudesse ter mantido essa paixão como hobby…”
“Porque a paixão não cabe na realidade. Não se mede. Não vale a pena inventar, no final das contas, o que podemos descrever vale sempre mais!”
Pareceu ir até outro mundo enquanto dizia estas palavras, mas voltou a si. Olhou para o relógio e perguntou: “Creio que já terminámos as suas duas perguntas!”
Vi que tinha perdido o momento e acenei. Agradeci mais uma vez a entrevista e preparei-me para ir embora.
Fez-me sinal para esperar. “Estas duas últimas perguntas não farão parte da entrevista! Off the record, é como dizem?”
“Claro, se assim o deseja.”
Ia insistir, mas a sua expressão retornara à do início da entrevista.
Parecia que, por um momento, tinha voltado a ser menino. Mas o adulto voltara. Voltara o adulto cansado. Cansado de uma vida inteira.
Agora tenho a certeza que era isso.

 

© Isa Lisboa

 

Foto: pixabay.com

In the bookshelf – Fernando Pessoa, o romance

Hoje este Pessoa partilha convosco um romance sobre o “original” Fernando Pessoa.

É um romance biográfico, de Sofia Louro, que nos apresenta uma visão do homem, e de como ele se entrelaça com o poeta e com cada um dos seus heterónimos.

Este livro está na minha estante e é sem dúvida um dos que tenho vontade de reler um dia mais tarde. Ao ler, podia imaginar o poeta e os seus poemas a surgirem. Mas, acima de tudo, podia imaginar o homem comum, envolto em dilemas, medos, sonhos, projetos. Além do génio de Pessoa, este livro fala-nos sobre a sua humanidade.

E vocês, costumam ler biografias ou romances biográficos?

© Isa Lisboa

 

Falta pouco

Filha de mim

De mim orfã

Não sei onde me encontro

Nem se me perdi

À volta, nada vejo

Nada oiço

Nada sinto.

O meu corpo está fechado

Sobre si mesmo

Enconchando a alma,

Dentro de pedra dura.

Qual ouriço,

Criei espinhos protectores,

Perfuram-me a pele,

Ainda não endureceu.

Falta pouco.

© Isa Lisboa

Promoção natalícia!

Livro Invernos, Sonhos e Andorinhas

Um dos livros que o Pessoa acompanha na minha estante é o meu livro de contos, Invernos, Sonhos e Andorinhas.

É um livro inspirado em situações e pessoas que comigo se cruzaram. O que observo foi transformado em histórias curtas, com personagens curiosos, mas que talvez reconheçam.

Aqui podes encontrar detalhes e opiniões sobre o livro.

E como é Natal, porque não oferecer um livro de presente?

E eu também tenho uma oferta para vocês:

Para encomendas até 31/12/2020, poderás adquirir o livro por apenas 10€, e ainda ofereço os portes de CTT, em Portugal!

Frase da semana – Escolhas

Foto: pixabay.com

“As escolhas verdadeiramente difíceis não se centram no certo versus o errado. Envolvem o certo versus o certo. São dilemas genuínos, precisamente porque cada lado está firmemente enraizado num dos nossos valores básicos e intrínsecos: A verdade versus lealdade, o indivíduo versus a comunidade. o curto prazo versus o longo, a justiça versus a misericórdia.”


 – Rushworth M. Kidder, How Good People MakeTough Choices: Resolving The Dilemmas of Ethical Living

Humores universais e como nos unem

Imagem: pixabay.com

Falei recentemente sobre uma piada que encontrei no Linkedyn, ligada ao teletrabalho. Já vi essa piada multiplicada, mostrando várias expressões usadas por quem teletrabalha e usa sistemas de vídeo – conferência para comunicar com os colegas.

Desta vez, fiquei a pensar no quanto somos parecidos. As frases estavam em inglês, mas eu e os meus colegas portugueses dissemo-las muitas vezes.

Numa mesma situação, as dificuldades e as reacções à mesma, parecem ser iguais, ou, pelo menos, muito parecidas.

Também durante a quarentena, muitos vídeos de humor a retratar a situação, mostram reações semelhantes em várias partes do mundo, pelo menos para aquelas pessoas que vivem em condições semelhantes.

Porque as circunstâncias da vida também condicionam estas reacções. Mas isso seria tema para uma grande reflexão, por si só.

Hoje apeteceu-me escrever sobre estes pedaços de humor universal que encontrei. Porque não é o humor que é universal, são as nossas emoções.

E, a esse nível, talvez estejamos todos no mesmo barco. Mesmo que a intensidade das emoções possa ser diferente, quer saibamos lidar melhor ou pior com elas, equilibrá-las mais ou menos, este período trouxe ao de cima muitas emoções. Talvez algumas desconhecidas para muitas pessoas.

No final das contas, ninguém estava realmente preparado para lidar com esta situação e tivemos que nos adaptar muito rapidamente a uma situação nova.

Por isso, se o ecrã congela, se a ligação de internet falha ou se tens que repetir tudo o que disseste, porque te esqueceste de ligar o microfone… se calhar não faz mal. Até porque se podem fazer boas piadas sobre isso.

© Isa Lisboa

Onde está este Pessoa

Sou fã de Fernando Pessoa e tenho aqui em casa esta versão desse grande poeta.

Ele está na minha estante, a acompanhar alguns dos livros que já partilhei convosco.

Querem conhecer alguns desses livros? Vão passando por cá, e podem ir conhecendo a minha estante 😉

Este Fernando Pessoa foi executado pela @kukla.pt. Passem pela página e vejam os fantásticos trabalhos que têm lá!

Isa Lisboa