Monólogos da Desalinhada

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No meu primeiro blog, Instantâneos a preto e branco, publiquei alguns poemas e prosas poéticas, que reuni nos “Monólogos da Desalinhada”.

Estes monólogos foram escritos ao longo do tempo. De um tempo que já passou. São escritos de uma desalinhada, que se encontrou, caminhando fora da linha.

Estou a celebrar o mês do meu aniversário, por isso tenho mais um presente para dar, até ao final de Abril. Se quiseres receber uma cópia destes textos reunidos, só precisas de:

  • Seguir o blog, a minha página do Facebook ou Instangram;
  • Deixar um comentário indicando que queres receber os “Monólogos da Desalinhada”;
  • Por mensagem privada nas redes sociais ou através do e-mail blog@isalisboa.com, indicar-me o e-mail para o qual posso enviar-tos (coloca no assunto “Quero receber os Monólogos da Desalinhada!”

Obrigada por estarem aí!

Isa Lisboa

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Poema sem sentido

Nasceu pássaro
Perdeu as asas
Por falta de uso;
Tentou cantar
Mas não era ave canora
Esse ofício não ia ter;
Não sabia nadar
Peixe não poderia todavia ser;
Correr também não conseguia
Para a savana não havia de ir.

Fincou-se então ao chão
Falou com a terra
Bem alto lhe pediu,
A terra acedeu.

Árvore ali nasceu
Dá abrigo e sombra,
A quem asas tem
E a voar quer aprender.

© Isa Lisboa

desejo, carlos saramago

Arte: “Desejo”, de Carlos Saramago
http://carlos-saramago.blogspot.pt/

Menino-Sonho

Em menino tinha um sonho

De construir uma fábrica

De sonhos;

E sonhos distribuir.

Do sonho

Não se esqueceu

O menino grande.

Tijolo a tijolo

A fábrica ergueu.

Peça a peça

Construiu suas máquinas.

Pedaço a pedaço

Encontrou matéria-prima.

Um a um

Sonhador a sonhador

Aos sonhos que via

Vida ele deu.

Deu-os a todos

Tantos.

Feliz

Por seu sonho realizar.

De fabricar sonhos

Nunca se ia cansar.

Um dia saía

Mais um sonho terminado;

E na rua ali ao lado

Um dos sonhos

Ali

Esquecido

Como se nunca tivesse sido;

Apanhou-o:

Estava coçado

Com a roupa rota

O seu sonhador

Havia-o abandonado.

Mais à frente

Outro

Ainda quase não tinha sido usado;

Com ambos no regaço

Mais órfãos encontrou

Levou-os de volta à fábrica,

E chorou…

Menino sonhador não sabia

Que muitos são os homens

Que esquecem

Seus sonhos de menino,

Ainda mais os que os temem

E deles fogem,

Quando os encontram.

Menino sonhador

Não mais fabrica sonhos;

Agora procura

Sonhos perdidos

E meninos que não cresceram.

.

© Isa Lisboa

Dores de crescimento

Cresci

Com a velocidade

De um foguetão

Prestes a implodir

E das cinzas que

Restaram

Me fiz explosão.

Do fogo

Me acendi a mim mesma

Calor

Luz

Dor.

Também dor.

Da dor cresci.

É sempre assim.

Se soubermos

Entender

Aceitar

Abraçar.

Abraçar a vida.

Abraçar a mim mesma.

Aprendi a ser por mim.

Cresci.

Abraçada a mim mesma

Cresci

E me fiz coragem.

De segurar o coração

Na própria mão

E deixá-lo doer.

Doer para bater.

O sangue flui

E a vida retoma

As lágrimas secam

E tudo muda

Muda num segundo

Ou numa vida

Tudo é eternidade

Para sempre

Cresci.

© Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado

Arestas

Sou uma aresta

Tu e ele também

Juntos formamos um vértice

Unidos a outros

Novo vértice somos

Assim juntos, elo invisível

Para além do sólido que se forma

Somos parte

Dessa grande geometria.

Apenas éramos rectas

Talvez, algumas, infinitas

Sem saber de onde vínhamos

Nem para onde íamos.

Conhecemos a finitude

Mas ganhamos um novo plano

Outra dimensão

Esses onde agora somos sólido

Forte, mais forte

Se uma cair, também outra

Poderá cair

Mas se uma fraqueja

Outra a sustém

Até a força voltar.

E o matemático olha e sonha

Talvez um dia

Cubos, pirâmides, paralelepípedos

Até esferas

Todos se saibam juntar

Ainda

E assim expandir a geometria

Criando novo sólido

Sonha chamar-lhe

Harmonia.

.

© Isa Lisboa


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Intermitências

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Sou eu

Mas já não sou

Quanto mudou

Nas intermitências

De esquecer

E de deixar ir…

Leve,

Sei que ainda há

A libertar.

Decidida

Tranquila.

De mim

Não mais abdicarei.

O que a mais habita

Não ficará

Passo a passo, a seu tempo

Se irá

Quando olhar para trás

Será mais um degrau

Da história que quem fui

Da escada que subi

Para chegar a quem sou.

© Isa Lisboa

Encolhida

Vida perdida

Morte adiantada

Caminhando

Sobre pernas esquecidas

A vida segue

Fingindo que ainda existe

Passa ao lado

Do destino

Fingindo não o ver

Ou demasiado adormecida

Passa sem parar

Sequer ponderar

Quem

Como

Poderia ser

Fugir à dor dói

Libertar-se ainda mais

O medo é grilheta

O grito afoga-se

Sem ar na garganta

O coração…

Lentamente esmorece

A alma encolhe-se

Protegida espera

Que agarres a vida

Sejas quem és!

© Isa Lisboa

Vera Chimera

Imagem: Vera Chimera

Do fim ao princípio

No dia em que nasci

Foi aquele em que morri

A noite em que me fui

Foi a aurora do primeiro grito

Ou assim o via

Quando acreditava

Que Tempo havia

E que o Fim

Era Antítese

Do Princípio

Olhos não tinha ainda

Para ver

Que caímos à terra

Apenas para árvore

Renascer

E que antes que a matéria

Se torne noutra forma

Aquilo que a habita

Havemos de tocar

Nascemos para entender

Que o destino somos Nós

E o caminho

Nada mais é que

Ser!

© Isa Lisboa

Vadim Stein 11

Foto: Vadim Stein