Humores universais e como nos unem

Imagem: pixabay.com

Falei recentemente sobre uma piada que encontrei no Linkedyn, ligada ao teletrabalho. Já vi essa piada multiplicada, mostrando várias expressões usadas por quem teletrabalha e usa sistemas de vídeo – conferência para comunicar com os colegas.

Desta vez, fiquei a pensar no quanto somos parecidos. As frases estavam em inglês, mas eu e os meus colegas portugueses dissemo-las muitas vezes.

Numa mesma situação, as dificuldades e as reacções à mesma, parecem ser iguais, ou, pelo menos, muito parecidas.

Também durante a quarentena, muitos vídeos de humor a retratar a situação, mostram reações semelhantes em várias partes do mundo, pelo menos para aquelas pessoas que vivem em condições semelhantes.

Porque as circunstâncias da vida também condicionam estas reacções. Mas isso seria tema para uma grande reflexão, por si só.

Hoje apeteceu-me escrever sobre estes pedaços de humor universal que encontrei. Porque não é o humor que é universal, são as nossas emoções.

E, a esse nível, talvez estejamos todos no mesmo barco. Mesmo que a intensidade das emoções possa ser diferente, quer saibamos lidar melhor ou pior com elas, equilibrá-las mais ou menos, este período trouxe ao de cima muitas emoções. Talvez algumas desconhecidas para muitas pessoas.

No final das contas, ninguém estava realmente preparado para lidar com esta situação e tivemos que nos adaptar muito rapidamente a uma situação nova.

Por isso, se o ecrã congela, se a ligação de internet falha ou se tens que repetir tudo o que disseste, porque te esqueceste de ligar o microfone… se calhar não faz mal. Até porque se podem fazer boas piadas sobre isso.

© Isa Lisboa

Cegueira emocional

 

Para quem não sabe falar inglês, deixo um pequeno resumo do vídeo acima:

Trata-se da história de um casal, em que o homem pergunta à mulher se pensou no seu pedido de casamento. Ela responde-lhe que não pode casar com ele, porque é cega, e porque quer ver o futuro de ambos juntos. Ela diz que precisa ter os olhos dela.

Na cena seguinte, é a mulher quem vai ter com ele, e muito feliz, diz-lhe que poder ver é a sensação mais fantástica do mundo. Ele pergunta-lhe se agora ela já pode casar com ele e abraça-a, desajeitadamente. Nessa altura, ela percebe que ele não vê e, revoltada, diz-lhe que não pode casar com alguém que é cego e sai.

Numa terceira cena, ela encontra por acaso um envelope, ao arrumar as coisas da mesa. Dizia na parte de fora “Para quando tiveres os teus olhos.”. Ela abre o envelope e dentro tem, assinado pelo ex-namorado, um bilhete que diz: “toma bem conta dos meus olhos”.

Como o comentador, Jay Shetty, explica de seguida, este vídeo não é sobre cegueira física, mas sim sobre cegueira emocional. Sobre a forma quando julgamos as pessoas, especialmente quando a nossa situação muda para melhor e não conseguimos ver o outro lado, o lado do outro.

Este enquadramento fez-me sentido, mas não consegui deixar de ficar a pensar um pouco naquilo que o homem fez. E não consegui deixar de sentir que também ele errou. Talvez vos pareça estranho, visto que, afinal, é ele a vítima desta história, o injustiçado…

Mas, olhando mais de perto, vejo que ele abdicou de uma parte essencial dele mesmo para que outra pessoa se sentisse completa. Abdicou de uma parte essencial dele próprio, para a dar a uma pessoa que não se amava a ela própria da maneira que era.  Por isso, pergunto-me, não seria ele também cego emocionalmente? Pois como poderemos fazer os outros inteiros, se nós próprios estamos despedaçados?

© Isa Lisboa