Bang!

Quadrada. Com arestas. Que se encontram em ângulos precisos. Com um igual do outro lado. E do outro também. Medidas certas. Apuradas à melhor geometria.

Pode até começar assim, e há quem não saia dessa forma.

Mas em dada altura, há quem procure a forma da pirâmide. Depois a esfera. Ainda talvez presos à ideia da geometria.

Mas por vezes, para lá, muito para lá, há um relâmpago luminoso. Surge forma nova, geometria reinventada.

Assim o Homem descobriu o fogo, inventou a roda, viajou até à lua.

Até o próprio Universo terá nascido de um simples pensamento fora da caixa…: Bang!

Isa Lisboa

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Mais fácil dizer que (não)pensar

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Há pessoas excessivas. Algumas excedem-se no vestir, outras nos prazeres, outras no drama, ou no pouco drama.
E há quem tenha excesso de pensamento. Usando um anglicismo, pessoas que se embrenham no overthinking.
Como outros excessos, o overthinking traz consigo uma boa sensação a início. Alimenta o cérebro complexo, cheio de perguntas, e cheio de cenários. E cheio de coisas que quer entender.
Enquanto alimenta no sentido de nutrir, tudo está bem. Descobrem-se coisas novas, tomam-se decisões ponderadas, seguras.
O problema é o “over”. Como em tudo.
Quando os pensamentos são tantos que o cérebro fica exausto. Quando os cenários que se apresentam são tão diversos, que não consegues tomar uma decisão. Quando vês tanto caminhos, que não consegues mover-te por nenhum.
Como sair desse ciclo? Abrandar, focar, relaxar.
Sem nenhuma ordem pré-definida, porque umas alimentam as outras.
É preciso começares a estar atent@ aos teus pensamentos, começares a perceber quando eles começam a correr como loucos pelo teu cérebro. E a pouco e pouco, reduzires a velocidade. Ao teu ritmo. Escolhe o teu método, o que mais te ajuda. Meditação, respiração consciente, uma caminhada, uma corrida, ouvir música. Abranda. Começa a abrandar.
Ficas ansios@ porque achas que não é suficiente. Mas é. Relaxa um pouco. Respira. Hoje é suficiente. Talvez amanhã consigas mais. Respira. Relaxa os ombros, o pescoço.
Volta a atenção para algo de bom. A maneira como o sol te aquece, ou a maneira como como o vento refresca a tua pele. Os pensamentos vão continuar a vir. Procura os melhores. Volta a tua atenção para esses. Foca-te.
Não te digo que ignores os maus pensamentos. Entende o que eles te dizem, mas não te deixes enrolar neles. Não deixes que te estendam uma armadilha e não te deixem sair.
Escolhe os teus pensamentos, escolhe a tua ementa mental. Não deixes que os teus pensamentos se imponham a ti e que sejam eles a decidir como te sentes, o que consegues fazer e o que não consegues.
Talvez sejas sempre excessiv@. Mas equilibra-te. Sê excessiv@ de uma forma que seja boa para ti. Que te dê energia. Que te dê força. Impulso.
Encontra a direcção do teu excesso. Usa-o a teu favor. Escolhe.

© Isa Lisboa

 

Phobia

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Cobras, serpentes, jibóias. Tinha pavor desses bichos horripilantes. Nunca tinha estado frente a frente com um desses bichos. Mas aquelas imagens eram suficientes.

Bichos sem pernas, sem braços, por ali a rastejar, a arrastar a terra, as folhas mortas. Escondem-se entre os arbustos e aparecem tão repentinamente como desapareceram. Deixam só as marcas ondulantes na terra batida. E talvez uma ferida numa perna incauta.

Não, ainda bem que nunca se tinha cruzado com um daqueles bichos!

E havia quem os mantivesse como animais de estimação! Que horror!

Nunca se tinha cruzado com um deles. E não tinha vontade nenhuma de o fazer.

Mas desde que lhe entregaram os bilhetes, que não conseguia dormir decentemente. Mesmo na noite anterior, acordara tantas vezes durante a noite, que perdera a conta.

E agora, via cobras em todo o lado. Tatuada no braço do vizinho, na t-shirt do miúdo a passear no parque, no anúncio outdoor ao fundo da rua.
Cobras, cobras, cobras!

Já estava a antecipar, imaginou vezes sem conta se conseguia fugir. Se conseguiria ser rápida o suficiente. E se pisasse uma sem querer? E se ela se enrolasse à perna e não quisesse sair?

Asseguravam-lhe que estava segura, que as cobras andavam na sua vida, longe dos humanos.

Mas toda a gente sabe que no campo há cobras. Escondidas, mas estão lá.

Falta um dia e tem que ir fazer a mala.

Roupa, pijama, pasta de dentes, escova de cabelo, sapatos. Repelente? Será que resulta? Não, isso é para insetos.

Calças de ganga. Das mais grossas que há no armário. Botas. Sempre hão-de proteger melhor.

Não há volta a dar. Tem que ir. Fecha a mala, coloca-a perto da porta. Para se lembrar que tem que ir.

Veste o pijama e tenta dormir. Contar carneiros, talvez ajude. Puxa o cobertor até às orelhas e enrola-se sobre si mesma. Fecha os olhos, precisa de dormir, pede que o sonho venha.

Acorda entremunhada. A princípio não percebe que som é aquele. É o despertador. Parece que afinal adormeceu logo. Ainda bem, ao menos recuperou energia.

Levanta-se e dirige-se ao chuveiro. Um duche tem sempre o poder de a despertar e. ao mesmo tempo, relaxar.

Já vestida, pega na mala e puxa-a para a rua. Ainda bem que tem rodinhas, assim parece-lhe menos pesada.

O João já lhe ligou, estão à espera dela.

A coragem ainda quis faltar-lhe, mas aquele telefonema lembrou-a de que tinha que ir. Estavam à espera dela, e, se ela se atrasasse, todos perdiam a viagem.

A culpa era dela. Nunca falara aos amigos daquele medo. Como podiam eles adivinhar o que aquele presente de aniversário significava para ela? “Uma oportunidade para enfrentares o teu medo.” – sussurrou-lhe uma vozinha.

Oportunidade ou não, agora não importava. Ali estavam eles, os seus amigos. Todos sorridentes, cheios de energia e prontos para a viagem. A Carolina também tinha calçado botas pesadas. Estavam ambas preparadas para dar passos largos na caminhada. A viagem decorreu cheia de risadas, como era habitual com aquele grupo.

Só quando chegaram à estrada da casa que alugaram, se lembrou das cobras. Os arbustos na entrada pareciam ser um esconderijo prometedor.

À espera deles estava o caseiro, com as chaves da casa e as instruções sobre como aproveitarem a semana. Havia vários sítios onde podia ir e várias atividades que podiam fazer.

Toda a gente estava entusiasmada e todos tinham imensas perguntas. Mas ela só tinha uma: “Há cobras?”

Engoliu a pergunta, mas quando o caseiro saiu, foi atrás dele. Puxou-lhe pela manga e fez a pergunta, temendo a resposta: “Há, sim, há por aí algumas”. Sorriu. “Mas não se preocupe, menina, elas têm mais medo de si, do que a menina delas.”

Aquela frase pareceu-lhe irreal, como podia ser? Perguntou antes: “E como sei que há uma por perto?”

“Ouve-se o som dela a fugir pelo chão, não se preocupe!”

E, com o mesmo sorriso, o caseiro foi embora.

Voltou para casa. Como estavam todos cansados da viagem, estavam já todos a escolher as camas. Seria mais uma noite sem dormir?

Conseguiu dormir, mas dos sonhos, não se livrou. Cobras a rastejar e a aparecer inesperadamente.

Bem, pelo menos se encontrasse alguma, não estaria sozinha. Iam sair todos em grupo, alguém chamaria ajuda, caso ela fosse atacada.

Saiu com este estado de espírito, mas voltou relaxada. O dia tinha sido mesmo bom. E nem vestígios de cobras. E, sem encontros inesperados, foi como a semana decorreu.

Na manhã da partida, saiu para apanhar um pouco de sol e da brisa matinal. Aquela semana tinha sido mesmo muito boa. Havia de ali voltar.

E foi no meio daqueles pensamentos que ouviu um som. Um arrastar. Crshh, crshhhh.

Levantou-se, sobressaltada e olhou à volta. Lá estava ela: uma cobra. Sem pernas, sem braços, a arrastar-se, a ondular-se pelo chão, a arrastar as folhas, a levantar poeira. Uma cobra!

Abriu a boca para gritar e nessa altura, a cobra olhou para ela. O grito ficou preso, com o terror.

Mas esvaiu-se, ao ver a velocidade com que a cobra rastejou dali para fora, para longe dela.

Deitou fora o ar que estava a conter, e olhou à volta, a certyificar-se. Nem sinal da cobra.

Afinal, o caseiro tinha razão.

© Isa Lisboa

In the Bookshelf – Os herdeiros da terra

Os Herdeiros da Terra, de Ildefonso Falcones é a continuação da história A Catedral do Mar. Volta a levar-nos à Barcelona Medieval, levando-nos numa viagem histórica, ao mesmo tempo que nos envolve num drama que envolve várias personagens. Voltamos a encontrar por pouco tempo Arnau Estanyol, o herói do primeiro livro. Neste, o herói é Hugo Llor, um rapaz de 12 anos que vai vendo a sua vida mudar, muitas vezes ao sabor dos caprichos de quem ocupa o poder.

Na sua vertente histórica, à semelhança do primeiro livro, somos transportados para uma realidade dura, em que a vida humana parecia valer pouco, pelo menos aos olhos ocidentais do século XXI. Uma realidade em que a justiça se fazia com métodos de tortura e com execuções sangrentas. Também uma realidade de crenças religiosas com que se influenciava o rumo da vida, fosse por influências, fosse por perseguições religiosas.

Na sua vertente de romance, no início senti que algumas coisas da vida de Hugo Llor estavam inspiradas na do seu mentor Arnau Estanyol, mas depois esta personagem começa a ganhar os seus próprios contornos, embora mantenha sempre presente um ensinamento base de Miser Arnau: “Não te curves perante ninguém!”.

Tenham ou não lido o primeiro livro, para quem gosta de romances históricos (e não só), fica esta sugestão de leitura.

 

© Isa Lisboa

Humana

Não acredito

Em falsos deuses

Tão-pouco

Em falsos não-deuses.

Difícil que seja

Todavia

Distinguir

Uns de outros

Leigos disfarçados

De sábios

Sábios disfarçados de leigos.

Tantas verdades

Perigosamente dogmas

Ilusões

Que prometem fazer-te

Escapar-lhes…

Humana apenas

Nada mais ofereço.

 

© Isa Lisboa

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Branco

-“Foi-te dada uma parede em branco.” – Começou a Voz, em tom inquietantemente calmo. – “Quando, mais tarde, as tuas mãos tinham força e os teus olhos podiam ver, foram-te dadas tintas e pincéis. No espírito de criança curiosa, foste experimentando as cores uma a uma, entusiasmada com o resultado de algumas, perguntando-te quanto ao contraste entre outras. Não te preocupavas se a parede estava a ficar bela, se estava parecida com as paredes do lado. Era a tua parede. Era a parede em que começavas a ver-te reflectida.”

Estas memórias eram assustadoras e dolorosas, os olhos pareciam querer verter lágrimas, respondendo ao coração que estava apertado com as palavras duras ditas por aquela voz meiga. Eram memórias difusas, que já a tinham assaltado nos momentos de silêncio. Aqueles momentos de que fugia, imersa no ir, no vir, no fazer, no acenar da cabeça enquanto sorria.

Dizia a si própria que eram memórias inventadas, ditas pela sua imaginação.

Como podia ser, como podia aquela parede ter sido branca um dia? E como podia ter recebido tanta cor assim, sem a rejeitar, cuspi-la para fora de si? Como poderia ser possível que tenha sido a sua mão, a sua própria mão a segurar os pincéis que deram tanta cor ao que agora era só cinza, um único tom de cinza?

Não, não podia ser. A Voz enganou-se. Ou estava a tentar enganá-la, a Voz. Porquê não sabia, mas só podia ser isso. Ou talvez ainda estivesse apenas a conhecer a insanidade… Diziam que ela se aproximava inesperadamente, que a confundiríamos facilmente com realidade…

Colocou a almofada por cima da cabeça, não queria ouvir mais nada. “Não, não te quero ouvir!”, gritou mentalmente.

A Voz calou-se, tão repentinamente como havia surgido no ar.

A medo, retirou a almofada da cabeça, confirmou que só silêncio havia sobrado.

Agora tudo lhe parecia ainda mais irreal, insano…

Olhou à volta e confirmou que nada havia e nada se ouvia. Fora tudo fruto da sua imaginação, era a justificação plausível. Era a única.

Dormir. O melhor era dormir.

Aconchegou-se nos lençóis e fechou os olhos. Ao fim de um minuto, o corpo lembrou-a de que estava cansado. O corpo queria dormir, mas a mente não.

Ao fim de algumas horas, finalmente, o corpo ganhou a luta.

Quando acordou, abriu os olhos, olhou para o tecto e a primeira palavra que o despertar lhe sussurrou foi…

“… Azul …”

© Isa Lisboa

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Quantos passos além da dor?

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Quantos passos precisamos dar para superar a dor? Não tenho um número certo, mágico. Mas sei que é preciso dar um passo de cada vez. E o primeiro, parece-me a mim, é aceitar a dor. Aceitar que está a doer e tudo aquilo que está a fazer doer.

Se ignorares a dor, ignoras tudo o que ela te está a dizer. Ignoras a experiência má e tudo quanto ela te pode ensinar, quanto te pode preparar para o futuro.

O melhor é sempre se não doer. Mas dói sempre, em alguma altura. Somos feitos de carne mole e de nervos sem aço. E é por isso que, nalguma altura, vai acabar por doer. E não é no corpo, é no coração, ou no lugar onde descansam as emoções. Aí é onde dói a sério.

Podes até dizer ao mundo que não dói, que foi só um entalão, coisa pouca,

Mas de ti mesm@ não escondas nada, não te enganes, não finjas que não vês a pele rasgada. Se não, a ferida fica por curar, anda ali naquele impasse, de prestes a infectar, ou, quem sabe, prestes a gangrenar.

Para curares a ferida, tens que olhar para ela e ver exatamente quanto de ti ela dilacerou. Só assim percebes o caminho que tens pela frente.

Depois disso, vêm os próximos passos. Escolhe o teu penso rápido, o desinfectante e o teu cicatrizador. Podes precisar de um analgésico. Mas escolhe-o bem. Doseia-o ainda melhor. Demasiado analgésico mascara a dor.

Escolhe a tua panaceia e aplica-a.

Mas não tenhas pressa. Seja quantos passos precisares dar para superar a tua dor – dá um passo de cada vez. E não saltes nenhum. A seu tempo, deixa de doer, e a ferida cicatriza.

 

© Isa Lisboa

Annonymous pain

There is

An annonymous pain

That one you feel

When a part of you dies

Greater than the pain;

When you are the one

To inflict

The final

Merciful

Stroke.

There are times

The sword must be risen

We know it

Don’t want it

But it has to be done.

That one dead limb

Must be eliminated

The fight

Is for survival

Of the best in you

Of the light

Hidden in the dark.

We face the choice

Of letting go

Cutting loose

Until there’s

Nothing left

But who you were in the beginning

.

.

.

Do you remember who you were in the beginning?

Do you remember

Who you were

Before the pain?

Do you remember what caused the pain?

 

© Isa Lisboa

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