De volta ao normal

Imagem – Pixabay
Foram semanas estranhas, estas. Foi-nos pedido para fazermos o esforço de mudar os nossos hábitos. Para mudarmos a forma de estar, de interagir. Estranhámos, mas tentámos.
A princípio não sabíamos bem como fazer, mas até nos fomos habituando.
Era estranho olhar para as ruas, pegar no telemóvel e ver aquelas imagens.
Sugeriram-nos até que desligássemos os telemóveis, mas isso pouco pegou. Precisávamos partilhar as fotos, mandar mensagens para perceber como os amigos estavam a lidar com aquilo tudo.
Não muito bem, pelo menos não todos. Foi uma mudança muito abrupta.
Ir ao supermercado foi a experiência mais estranha para mim. Custava-me entender a organização das prateleiras e distinguir as marcas e os preços. Online é muito mais fácil fazê-lo. E foi uma aventura manobrar o carrinho. Enchi vários sacos e pareceu-me quase impossível arrumá-los no carro. Como farão os funcionários das entregas? Parece-me um talento!
Caminhar na rua até soube bem, embora tanto espaço aberto me tenha causado alguma ansiedade. Estou contente por poder voltar aos meus passeios curtos.
Já marcámos uma sessão de zoom para podermos falar mais naturalmente.
Estamos todos cansados de tantas semanas fora de casa. Com saudades da segurança das nossas quatro paredes. E da facilidade de abrir o computador e tratar de tudo à distância de um clique.
Hoje encomendei almoço no meu restaurante favorito. Devem ser eles a tocar à campainha.
E assim, finalmente, a vida volta ao normal.
 
© Isa Lisboa
 
[Texto resultante de um desafio de escrita]

Palco

Imagem -Pixabay
O palco está vazio. Não há atores, não há histórias, a ensinar-nos a vida através da imaginação.
Também não há público. Nem nas cadeiras do teatro, nem nas ruas da Realidade.
Dir-se-ia Tragédia grega, que traria espanto das cadeiras, mas não é.
O eco do silêncio ensurdece as paredes, as cortinas tornam-se pesadas com o pó.
O palco sente falta do Teatro, o Teatro sente falta do Palco.
 
© Isa Lisboa
 
27 Março, Dia Mundial do Teatro

 

Poesia

Poesia
(Des)construtora de almas
Estás nos imortais versos
De folhas amareladas
E nas novas páginas
Sem papel, digitais.
Rimas
Mas também não rimas
Como eu.
Refugias-te em letras
Músicas
Símbolos visíveis.
Mas escondes-te à vista,
No vento que passa
Na flor que abre
Na água que corre
Sem rumo.
Como a minha caneta
A experimentar
Rabisco
Deixo sair, os dedos vão
Andando, escorregando
Por entre palavras
Sem sentido.
Tento juntá-las. Dispersas
Algumas
Quem disse
Que precisa ter sentido?
Se para o poeta tem,
Deve vir de algum
Pedaço d’alma.
O artista cria
Nem ele sabe o quê
Por vezes.
Só sabe que aquele mármore,
Pedaço de barro,
Tela em branco,
Quer ser outra coisa.
Assim é o poeta
A tinta desliza no papel
E algo surge
A que chamamos Poema.

© Isa Lisboa

21 Março, Dia Mundial da Poesia

Equilíbrio

Imagem – Elisa Riva, http://www.pixabay.com
O equilíbrio é difícil obter e fácil de perder.
A corda parece firme e nós achamos que já sabemos que nos equilibrar lá. E até sabemos. Mas às vezes escorregamos.
E não vale a pena lamentar, culpar.
Por vezes é inevitável.
O que importa é recomeçar. Subir de novo para cima da corda, concentrar, focar e encontrar de novo e o equilíbrio.
Não é a corda que é bamba, somos nós: Mas é porque somos humanos.

© Isa Lisboa

Vacina

Foram anos de investigação, anos de desânimo.
Na anterior pandemia Covid19, esta pandemia veio ao de cima de forma alarmante. Na verdade, esta doença já existia há muitos anos, mas a humanidade parecia adormecida a ela.
Via-se, no entanto, alguma esperança. Nem todos pareciam ter sido acometidos desta fatalidade invisível e aparentemente assintomática.
Notou-se com o coronavírus, na indiferença às mortes, indiferença igualada à registada face ao aumento da pobreza. Duas tragédias que andaram de mãos dadas, mas que poucos viam, entrincheirados do seu lado das certezas e das soluções únicas.
O mundo cientifico acordou com uma animadora notícia: a vacina há tanto procurada foi encontrada.
Depois de descoberta a vacina para o vírus e atingida a imunidade de grupo, a humanidade começou a aperceber-se lentamente do mal que lastrava entre nós. Escondido, mascarado, desculpando-se com a pandemia.
Aqueles que foram, a custo, mantendo a imunidade decidiram juntar-se. Procuraram cérebros que pudessem ajudar. Alguns deles, eles próprios acometidos pela doença, aceitaram, ainda assim, a tarefa. Seduzidos talvez pelo desafio.
A investigação decorreu durante anos e os primeiros testes foram aprovados no ano passado. Renascia a esperança para o ser humano. A esperança de recuperarmos aquela centelha essencial. A esperança para uma sociedade justa, humana, equilibrada.
Hoje, todas as farmacêuticas do mundo anunciaram que estão prontas para começar a produzir a vacina e a distribuí-la.
Serão primeiro inoculados os mais necessitados. Começarão pelas pessoas com mais altos cargos de poder. Aquelas que mais precisam ser curadas, de forma a começarem a dar o exemplo pelo seu comportamento.
Mas a expectativa é que chegue a todos, até que deixe de ser necessária.
Até que recuperemos a imunidade de grupo, e nos curemos da falta de empatia. Rejubilemos.

© Isa Lisboa

[Texto resultante de um desafio de escrita, que consistia em escrever um artigo / notícia sobre a descoberta de uma vacina conta o que eu considere ser um dos problemas da humanidade.]

Maria

Foto pixabay.com
Todas as mulheres da minha família se chamam Maria. Pois é, até parece estranho, não é?
Não, não nos confundimos umas às outras. Nasce sempre só uma. A cada geração nasce só uma cachopa. A minha foi logo a primeira, veio antes dos irmãos.
Eu vim no meio, fiquei ali meio esquecida no meio dos gaiatos. A minha Maria despachou-se logo, e até me ajuda a manter os irmãos na linha.
Não, nunca nos fez confusão. Uma vez um doutor veio cá à aldeia e fez assim muitas perguntas. Ficou muito curioso. Disse que era capa de ser dos genes.
Disso dos genes não sei. Sei que sempre deu jeito. As cachopas não conseguem fazer o trabalho pesado que os homens conseguem. E há muito desse para fazer por aqui.
Sim, sempre nasceram todos bem. E rápido. Vieram todos cheios de pressa para o mundo. Só desta vez é que demorei muito. Foram muitas horas. E eu já estava tão cansada. O médico disse que tinha que me operar, abrir-me a barriga e tirar de lá o meu bebé. O bebé estava torto.
Ai, se fosse nos tempos mais antigos. Uma geração podia ter ficado sem Maria. Mas sempre tivemos sorte e madrinhas que eram boas parteiras. A minha avó perdeu um menino assim. E ela quase se foi também. O menino não respirava. Naquele tempo, sabia-se que podia acontecer. Eram desgraças que se esqueciam. E de que só se falava nos dias tristes.
Mas eu fui ao hospital e o médico operou-me. Lembro-me de tudo até certa altura e acho que depois desmaiei.
Quando acordei, o Alfredo estava a falar com o médico. Estava meia assarapantada, mas percebi que tinha acontecido alguma coisa.
Tenho uma má notícia e uma boa, disse o médico.
Ora diga-me já a má, que é melhor despachar isso.
Usou umas palavras complicadas, mas eu percebi o que era “complicações no parto”. E percebi que tiveram que me cortar por dentro e que não podia ter mais meninos. Olhei para o Alfredo e não percebi bem se estava amofinado ou aliviado.
Pois claro, aliviado! Há muitas bocas para alimentar e os miúdos ainda não conseguem todos ajudar na jorna.
Eu não sabia o que pensar, e o pensamento só estava à volta da sala, à procura do meu bebé.
Entrou uma enfermeira com um embrulhinho ao colo. E aqui está a boa notícia, disse o médico. A sua menina, que foi uma grande guerreira.
Olhei para o Alfredo e ele acenou que sim com a cabeça. Nasceu-nos outra cachopa. Que nome lhe vamos pôr agora, Maria?
A enfermeira deu-ma para os braços e eu olhei para ela, ainda a tentar perceber. O outro médico havia de ficar ainda mais espantado. Disse-me qualquer coisa sobre os genes não mentirem.
Ela olhou para mim e agarrou-me no dedo com a mãozita. Com uma força grande, aquele bocadito de gente.
Uma guerreira, repetiu o médico. E foi-se embora.
Fiquei eu, o Alfredo e a menina.
Como a vamos chamar, Maria?
Oh Alfredo, eu quero chamar-lhe Vitória!
Quer saber porquê? Porque tenho cá para mim que ela vai ser uma guerreira toda a vida. É a última da família, mas ao mesmo tempo também foi a primeira.
O senhor até veio cá para escrever sobre ela e tudo. Sabe o que eu acho? Não há-de ser só o senhor! Ainda se vai escrever mais sobre a minha Vitória!
“Também me parece, D. Maria. Mas eu agora já tenho tudo o que precisava. Depois venho cá trazer-lhe o jornal, quando sair. Agora vou deixá-la descansar. A si e à Vitória.”

 

© Isa Lisboa

Porque existem Marias e porque existem Vitórias, marquemos o Dia Internacional da Mulher!

Será que a culpa se casa?

Há dias numa reunião de trabalho, um colega brincou, dizendo “a culpa disto tudo é da Susete!”
Ri-me interiormente porque, no meu anterior trabalho, os meus colegas usavam muito esta frase. Tornou-se tal a tradição de dizer esta frase que, no meu último dia na empresa, recebi de presente uma tshirt que não me deixa esquecer que a culpa é minha.
Ao ouvir a frase repetida, dei por mim a perguntar se será verdade que a culpa morre sempre solteira ou se decidiu casar-se comigo. Mesmo que eu não tenha dito o famigerado “Sim!”.
Isto da culpa é um casamento difícil de manter. E dificilmente é um casamento feliz. Quer digamos sempre “Sim”, quer digamos sempre “Não”.
Se assumirmos sempre as culpas de tudo, somos aquela pessoa do casal que ama sempre pelos dois. Se formos a que sempre atira a culpa para o outro lado… bom, existe uma certa probabilidade de recebermos um pedido de divórcio, em algum momento.
É por isso que prefiro a palavra “responsabilidade”.
Ser responsável é tomar decisões e assumir os efeitos dessas decisões. É sermos crescidos, viver tanto com o que pode vir de bom, como de mau. E procurar corrigir os efeitos maus, na totalidade das nossas possibilidades. Também é conseguir viver com o facto de que, às vezes, não conseguiremos reparar o que correu mal.
Se a culpa morreu solteira, desejo que a responsabilidade encontre um casamento feliz e duradouro.

© Isa Lisboa

Criando asas

Por vezes a vida apresenta-nos desafios. A resposta pode ser saltar e construir as asas na descida. Mas também pode ser parar e reflectir, de forma a encontrar a melhor forma de os ultrapassar.

E o que tudo isto tem de divertido é que ambas as reações podem estar certas, dependendo do contexto.

É por isso que a vida tem o seu quê de difícil e o seu quê de entusiasmante. Enquanto o coração se agita, estamos realmente a viver. E isso só pode ser bom.

Isa Lisboa