Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado

Circle of Life

We were once beautiful

Knew Mother Earth’s womb

Was Home

Somewhere

The knowledge was lost

That she gave birth to us

To Her we will return

In a never-ending

Circle of Life:

First we must be planted

As tiny seeds

And then burst from the ground

Until we can grow up

As long as our branches

Can be seen

And then,

When we can see the sky

We will also be ready

To be Mother’s of Life.

© Isa Lisboa

 

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Imagem: Autor não identificado

Para reflectirmos – O Anel do rei

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“Houve certa vez um rei sábio e bom que já se encontrava no fim da vida.

Um dia, pressentindo a iminência da morte, chamou o seu único filho, que o sucederia no trono, e tirou um anel do dedo.

– Meu filho, quando fores rei, leva sempre contigo este anel. Nele há uma inscrição. Quando viveres situações extremas de glória ou de dor, tira-o e lê o que está escrito.

O rei morreu e o filho passou a reinar no seu lugar, usando sempre o anel que o pai lhe deixara.

Passado algum tempo, surgiram conflitos com um reino vizinho que desencadearam uma terrível guerra.

À frente do seu exército, o jovem rei partiu para enfrentar o inimigo. No auge da batalha, vendo os companheiros lutarem e morrerem bravamente, num cenário de intensa dor e tristeza, mortos e feridos agonizantes, o rei lembrou-se do anel. Tirou-o e aí leu a inscrição:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ

E ele continuou a luta. Venceu batalhas, perdeu outras tantas, e no fim saiu vitorioso.

Retornou então ao seu reino e, coberto de glórias, entrou em triunfo na cidade. O povo o aclamava.

Nesse momento de êxito, ele se lembrou de novo de seu velho e sábio pai. Tirou o anel e leu:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ”

 

Nudez d’alma

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Jaume Plensa exhibition at the Yorkshire Sculpture Park, Tony Hisgett

As árvores de Inverno têm uma beleza especial.

Contra o frio do Inverno, as árvores mantêm-se de pé, com os galhos nus, despojados de flores, frutos e das folhas que poderiam servir de agasalho. É na estação mais fria que elas se despem de tudo, oferecendo a sua pele aos elementos. Totalmente exposta e sem protecção.

No entanto, nós, humanos, nem nos momentos de Primavera estamos muitas vezes dispostos a deixar os nossos casacos protectores. Protegemos tudo, com tudo o que podemos.

As árvores oferecem-nos a lição de que é necessário largar as folhas secas, que já serviram o seu propósito noutras estações. Se as árvores não deixassem ir as folhas secas, elas ficariam ali eternamente, e as folhas verdes que se escondem por debaixo não poderiam nunca nascer. Tão pouco haveria espaço para as flores e para os frutos. Não haveria espaço para nova vida.

Se em nós não deixarmos que os ventos, as chuvas e as outras (aparentes) intempéries levem as folhas secas, ficaremos apenas com folhas mortas a adornar-nos. Talvez nos sintamos seguros com elas. Estarão mortas, mas já as conhecemos. Ou então, apegámo-nos à história de cada uma daquelas folhas, a como as vimos crescer, a como crescemos com elas. Por vezes ainda, recusamo-nos a ver a sua cor acastanhada, recusamo-nos a ver até quando elas já começam a desfazer-se na nossa mão. Mas tal como as árvores, se folhas houver que insistam em agarrar-se, virá um vento mais forte que as levará definitivamente. Ou então, se nos agarrarmos demais a ela, acabaremos também nós por amarelecer, ficar de alma acastanhada e finalmente esboroarmo-nos nas mãos de quem poderíamos ser.

Mas se, pelo contrário, permitirmos que a vida flua em nós e através de nós, que o passado fique no passado e o futuro seja bem vindo, então teremos a oportunidade de ganhar novas folhas. De nos olharmos ao espelho e de nos reconhecermos de novo, àquele Eu feliz, forte, que luta, que sabe o que quer, alegre e de bem com a vida.

Custa largar, mas vale a pena. Pela leveza, pela alegria, por tudo o que vamos (re)descobrindo.

Despe-te das folhas secas. Dá a tua pele ao frio do Inverno. Dá medo, sim. Mas vai como medo na mesma. A Primavera espera-te do outro lado do medo.

© Isa Lisboa

Grata, Ano Velho. Aqui estou, Ano Novo.

Aproxima-se o final do ano e, como tal, marca-se o final de um ciclo. A ideia de final de ciclo é comum numa passagem de ano. Geralmente temos tendência para fazer uma retrospectiva do ano que passou e tomar as famosas resoluções para o ano seguinte. Para melhorar tudo aquilo que correu menos bem.

Este ano, dizem as correntes místicas, encerra vários ciclos. Um de 9 anos, segundo a numerologia (2+0+1+6=9). Um novo ciclo, 1, um novo início, espera-nos em 2017. Um de 36 anos, segundo a astrologia, em que o astro regente deixará de ser o sol e passará a ser Saturno. Passaremos de um ciclo regido pela individualidade, eu sou o centro (tal como o sol o é do sistema solar) para um ciclo regido por um planeta que nos pedirá mais amadurecimento e mais trabalho interior.

Em ano de tão grandes fins de ciclo, parecem soprar ventos favoráveis a que encerremos capítulos da nossa vida, para que outros comecem.

Temos facilidade em comer as doze passas pedindo um desejo por cada uma. Um desejo de algo novo. Mas assim como a memória não é elástica e, para que novas memórias se instalem, outras terão que ser substituídas, assim também acontece na nossa vida a outros níveis. Para que coisas novas entrem na nossa vida, precisamos arranjar espaço para elas. E só o conseguiremos se libertarmos o que já não necessitamos mais na nossa vida. Pensem numa gaveta que abrem e encontram cheia. Na outra mão, seguram algo que querem guardar lá dentro. Se tentarem colocar, não vai caber. Ou talvez até ainda caiba, mesmo mesmo à justa. Mas aí tanto esse novo item como os anteriores, ficam sem espaço, demasiado juntos uns aos outros. De cada vez que tentarem abrir a gaveta, travarão uma luta com os objectos que querem sair. E uma luta ainda maior travarão ao tentar fechar de novo a gaveta. Como se aqueles objectos – que estavam tão juntinhos e cabiam à justa – tivessem aumentado de tamanho e quisessem sair.

Também a minha vida já teve momentos em que se encontrava como essa gaveta. Atafulhada. Agarrada àquilo de que já não precisava, mas a querer coisas novas. É fácil perceber que, um dia, não se consegue arrumar mais nada. Felizmente, consegui arrumar a tal gaveta antes que o espaço fosse irrespirável.

E não pensem que agora está sempre tudo arrumado, impecável. Não está. Mas é tão mais fácil respirar, agora que o espaço é maior, agora que aprendi a libertar.

Neste fim de ciclos, dou por mim a pensar no que preciso agora libertar. Algumas coisas são mais difíceis de deixar ir. Por vezes não sabemos como o fazer. Se deixamos ir, dói. Se deixamos ficar, dói.

Então olhei para trás e percebi que um dos pilares que me ajudou a libertar-me de situações dolorosas foi a gratidão.

A gratidão é uma palavra que contém muita beleza. E, quando a sentimos enchemo-nos de paz e de leveza. Diz um outro princípio místico, da filosofia reiki, “Só por hoje, sou grata(o)”.

Se pensarmos bem, com a mente sem “pré-conceitos”, todos os dias conseguimos encontrar um motivo pelo qual sermos gratas(os). Talvez seja um detalhe “apenas”. Mas no nosso dia são-nos oferecidos pequenos momentos de felicidade. Um sorriso. O sol que desponta e nos traz um pouco de luz. Uma palavra simpática. Um gesto inesperado de alguém. Uma palavra de força. Na confusão do dia-a-dia, nem sempre prestamos atenção a esses pequenos, mas grandes, motivos de gratidão. Principalmente quando estamos focados na fila de trânsito, no metro que parou, na chuva, no ar carrancudo da pessoa que passou, etc, etc, etc…. Mas esses momentos existem, e podemos vê-los quando começamos a ver.

Encontrados estes pequenos momentos de gratidão, chega o mais difícil. Porque descobertos estes momentos, é fácil ser grata(o) por eles.

Mas e ser grata(o) aos maus momentos, às dificuldades, àquelas alturas em que parece que a vida nos atira para o chão e nos dá uma valente paulada… Por esses momentos, e pelas pessoas que os possam ter protagonizado, é muito difícil sentir gratidão. Não é, de todo, esse o primeiro sentimento que assalta quando as recordações vêm.

Mas porquê sentir gratidão pelo que de mau nos acontece? Porque “aquilo” nos ensinou algo. Por vezes é difícil perceber o que foi, mas se formos ao fundo do tema, conseguimos perceber. Conseguimos perceber quem éramos naquela altura e quem somos depois que ultrapassámos aquele mau momento. E na diferença entre essas duas “pessoas”, percebemos no que foi que evoluímos e no que foi que mudámos e o que aprendemos. Em quê somos melhores pessoas e mais leves e mais felizes.

E porque precisámos passar por uma situação má para aprender, perguntam vocês?

E conseguiriam ter mudado e aprendido se a vida não vos tivesse dado esse apertão, pergunto eu?

Por outro lado, se não vêm diferença alguma, pode acontecer que realmente nada tenha mudado. Também pode acontecer que a mudança vos tenha tornado pessoas mais fechadas, mais amargas e mais infelizes. Quando uma dessas coisas acontece – acredito eu – a vida volta e volta, e continua a dar-nos a mesma paulada até que tenhamos aprendido o que precisamos. A vida é um professor que nunca desiste dos seus alunos.

E com estes pensamentos, aqui estou, à beira deste fim de ciclo(s). Pronta para cometer novos erros e levar novas lições da vida, certamente. Mas também pronta e decidida a deixar para trás os antigos erros e para guardar as lições aprendidas.

E expectante quanto ao que os novos inícios me reservam.

E venham bons feelings! 😉

© Isa Lisboa

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