És um patinho, um cisne, ou…?

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É bem conhecida a história do patinho feio. Um patinho bem diferente dos outros, de quem os irmãos se riam e que cresceu triste e a sentir-se sozinho. Até que um dia vê no lago um conjunto de belas e majestosas aves. No final da história, percebe- se que o patinho feio é, afinal, um cisne. Um belo cisne!

Muitas pessoas já se identificaram com esta história em algum momento das suas vidas. Ou seja, já muitas pessoas se sentiram patinhos feios, diferentes, deslocadas, não aceites.
E, lembrando-se da história do patinho feio, anseiam pelo dia em que se tornarão um cisne. Um belo cisne.

Também foi assim que interpretei esta história durante algum tempo. Como a história de um patinho que era feio e se tornou belo.

Mas com o tempo entendi que o patinho só era feio porque não era um patinho. Sentia-se diferente e deslocado porque não estava onde pertencia. Não estava no seu lar e estava a tentar ser alguém que não era. E não se tornou num cisne – apenas percebeu que sempre tinha sido um cisne e decidiu seguir o seu bando verdadeiro.

Não se tornou mais belo. A sua beleza revelou-se e veio ao de cima quando ele descobriu quem era. E quando decidiu aceitar quem sempre tinha sido.

E tu, pronta(o) para descobrires quem és?

© Isa Lisboa

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Inexplicável

vladimir kush

Imagem: Vladimir Kush

Sento-me

Naquela cadeira

Sento-me para descansar

 

Pessoas vêm

De todas as direcções

Cruzam-se

Inexplicável

Que não choquem

Que não se atrapalhem

 

Inexplicável

Que não se vejam

 

Inexplicável

Que eu não as veja

Ainda que reconheça

Em alguns rostos

Cansaço maior que o meu

 

Inexplicável

Eu aqui, nesta cadeira

Como se os muros nascessem connosco

Ao invés de serem construídos…

 

© Isa Lisboa

O Caminho do Eu

Uma vez percorrido o Caminho do Eu, temos tendência a achar que a viagem foi cumprida.
Mas assim como o rio que atravessamos hoje não será amanhã o mesmo, também este Caminho muda após feita a primeira viagem.
É um Caminho que devemos atravessar uma e outra vez, libertando novas camadas de quem não somos. Ou descobrindo novas manifestações de quem somos.
Aceitar a jornada nem sempre é fácil, e mais difícil é perceber que só no silêncio interno podemos encontrar o percurso a seguir.
Habituados a tudo planear, custa aprender a deixar a Sabedoria da Vida fluir e tomar conta de nós.
Resistimos, queremos categorizar em certo e errado. Queremos categorizar-nos em certo e errado.
Mas só quando aceitamos que o que é É, É, só aí o Caminho se abre. Só aí nos conseguimos ver plenamente, sem julgamentos, esquecidos do pecado da imperfeição.
Despidos de expectativas, sobre nós e sobre o Mundo, estamos então leves o suficiente para percorrer o Caminho.
Para nos libertarmos das camadas protectoras, por debaixo das quais a nossa verdadeira voz se esconde, amordaçada.
E, passo a passo, a nossa Voz voltará a ouvir-se.
Nós voltaremos a ouvir-nos.

© Isa Lisboa

Swan song by Zena Holloway

Imagem: Swan song, by Zena Holoway

Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado