Quem ganhou a discussão?

Há algum tempo, numa loja, presenciei uma discussão entre mãe e filha. Estava na caixa e no balcão elas tinham dois vasos de flores. Quando a funcionária da loja passou o código de barras, aperceberam-se de que o preço das plantas era diferente. De imediato, a mulher mais nova reclamou. A funcionária da loja explicou que uma das plantas era, efectivamente mais cara, e que até poderiam confirmar, pois as plantas estavam expostas na caixa ao lado.

“Então não levamos!” – respondeu logo a primeira. Mas a mãe reagiu de imediato, pegando logo no vaso e dizendo “Não, não, mas eu quero levar esta planta, porque gosto dela.”

A discussão teve mais algumas trocas de palavras, em que a filha opinava que era uma estupidez levar uma planta tão cara, e a mãe opinava que ia levar na mesma.

Fiquei um pouco a observar esta troca de palavras e a pensar o quanto aquela discussão não tinha nada a ver com a planta propriamente dita.

Pareceu-me antes ser uma disfarçada luta de poder, uma luta para ter razão e impor a sua própria opinião.

Talvez a mãe não gostasse assim tanto da planta e noutras circunstâncias não a levasse. Talvez a filha não achasse o preço assim tão elevado e noutras circunstâncias até a comprasse para a mãe.

Talvez. Não posso saber. Mas o que acredito é que, naquele momento, o Orgulho foi quem ganhou a discussão.

© Isa Lisboa

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O ciclo do grito

O ciclo do grito é algo de que ouvi falar numa série de comédia – “How I met your mother”.

Revi este episódio específico há pouco tempo e tive vontade de escrever sobre este fenómeno que já observei na vida real.

Diz-se que a ficção imita a vida real. Neste caso, em que o meio usado é a comédia, a mensagem, a meu ver, passa de forma mais eficaz… Mas desvio-me do assunto.

Neste episódio, umas das personagens lida, ou tenta lidar sem sucesso, com a prepotência do seu chefe que constantemente grita com ele. Outra das personagens, o seu amigo Barney, fala-lhe do ciclo do grito. Diz-lhe que quando uma pessoa grita com outra, a segunda pessoa deverá depois ir gritar com outra, como forma de se libertar da frustração e assim por diante.

E durante a maior parte do episódio, Barney tenta convencer o amigo Marshal a fazer parte desse ciclo do grito, o que o amigo não queria fazer. Quando o tenta – sendo uma comédia – os resultados são o oposto do esperado. Porque a pessoa com ele gritou, um empregado de restaurante onde jantam, já cansado de tantos clientes mal-humorados e prepotentes, grita com ele.

Na primeira vez em que vi este episódio, pensei em duas coisas: uma que o ciclo do grito é bem real, que muitas pessoas entram neste ciclo, de forma consciente ou inconsciente.

Ouvem gritos do patrão, engolem a injustiça. Ou ouvem gritos de uma pessoa próxima e preferem não levantar ondas. Mas depois ao chegarem a casa, gritam com a família, ou então chegam ao trabalho e descarregam em quem podem.

A outra coisa em que pensei é se o ciclo será sempre um círculo fechado ou se, como naquele episódio, há sempre alguém que escolhe não perpetuar este ciclo vicioso. Não gritando, mas também recebendo toda a frustração e raiva acumulada de quem gritou antes com a pessoa que gritou. E antes, e antes, e antes…

Bom, na verdade, pensei em três coisas. Também pensei que já me senti como o Marshal, a personagem que não queria fazer parte do ciclo do grito. Sabendo que não queria entrar nesse ciclo, mas, ao mesmo tempo, sem saber bem como lidar com os gritos.

E agora, na segunda vez que vi este episódio, percebi que como foi que, a pouco e pouco, fui fazendo essa aprendizagem.

Eu não queria gritar porque não queria dar a alguém algo que eu não gostava e que eu sentia que não fazia bem a ninguém. Mas, por outro lado, estava a aceitar que outras pessoas me dessem os seus gritos. E estava a aceitar parte do que esses gritos me diziam.

Foi por aí que comecei. A não aceitar, ou melhor, a declinar, as sensações que esses gritos meu causavam. A não deixar entrar na minha mente as coisas negativas que os gritos diziam sobre mim. A reconhecer o quanto daqueles gritos NÃO eram eu.

Ao responder, comecei a deixar de levantar a voz para me fazer ouvir. Passei antes a aumentar a segurança na voz ao defender-me. Ao dizer a minha verdade.

E, a pouco e pouco, percebi que isso era mais forte. E que diminuía os gritos à minha volta, porque diminuía o eco que os gritos faziam na minha mente.

Por isso, hoje em dia, sinto-me confortável com o meu lugar fora do ciclo do grito.

Sei que o que não quero receber e também estou tranquila com a minha decisão do que não quero dar.

© Isa Lisboa

Colheita

Os ciclos da natureza são bem conhecidos. Existe a época de semear, de crescer, de amadurecer, de colher e, finalmente, de descansar e regenerar. As quatro estações retratam estes ciclos, ainda que não sigam à risca o calendário gregoriano.

As plantas e o seu cultivo são um bom exemplo destes ciclos. E, na agricultura, sabe-se que cada planta tem a sua época de plantio. Mas existem algumas plantas que podem ser plantadas em mais que uma estação do ano.

Também nós, humanos, somos assim, como as plantas. Algumas coisas na nossa vida precisam esperar pela altura certa para serem plantadas. Mas outras há que podemos ir plantando, quando a terra e a temperatura se afiguram boas, ou seja, quando a oportunidade o pede.

Mas certo é que não devemos plantar na época do descanso. Nessa altura, o frio não permitirá que a semente germine. E o nosso cansaço poderá levar-nos a lançar a semente à terra, sem ver. Sem ver aonde lançamos a semente. E sem respeitar o espaço entre uma semente e outra. O espaço que irá permitir às plantas do futuro respirar, crescer e alargar.

A época de descanso é a época em que fazemos uma pausa. Para recuperar forças, mas acima de tudo, para recuperar da época da colheita. E precisamos deste intervalo quer a colheita tenha sido má, quer a colheita tenha sido boa. Precisamos deste intervalo quer seja para saborear os frutos, quer seja para lamber as feridas.

Certo é também que tens que plantar. Se não plantares, não colherás. Ficarás limitada aos frutos que aparecerem. Frutos de alguma semente perdida no vento, ou de alguma semente que alguém deixou para trás. E esses frutos matam a fome, mas não alimentam. E tu queres alimentar-te, não é? Não te chega matar a fome, calar o estômago. Queres trincar um fruto doce e sumarento, queres lambuzar-te. Queres comer aquele fruto de que gostas mesmo, descobri-lo como uma criança desfruta de um gelado.

É isso que queres colher? Então tens que plantar. Mãos à obra. Arregaça as mangas e começa. Tens que cuidar da terra, escolher as melhores sementes, tens que ir buscar água fresca para regar e fertilizante para ajudar.

E depois… tens que ter paciência. Algumas espécies de plantas começam a brotar rapidamente, mas por outras tens que saber esperar. Esperar que brotem, que cresçam, que deem flor e, finalmente, o fruto. E quantas vezes os primeiros frutos não são pequeninos, e apenas um ou dois? Algumas demoram a carregar de frutos. Mas se provares esse primeiro fruto, sentirás já o doce sabor, o néctar que tanto procuras.

Tens que ter paciência. Continuar a cuidar da tua árvore, regá-la, fertilizá-la, tirar-lhe as folhas mortas. Tens que a mimar, falar-lhe, dizer-lhe o quão importante ela é para ti. O quanto queres provar do seu fruto. O quanto lhe estás grata(o) por ela estar, neste momento, a fabricar os frutos que vais colher. Tu não vês, mas a seiva que circula no caule dessa árvore, vai ser um pedaço do fruto no futuro. Vai ser um fruto grande, sumarento, doce. O fruto que vais colher.

Tem paciência. Fertiliza. Rega. Planta.

Já plantaste hoje?

© Isa Lisboa

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Observando formigas

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Imagem: http://www.pixabay.com

Vi duas formigas na parede da minha cozinha. Uma subia e outra descia. Exactamente na mesma linha recta. A meio do percurso encontraram-se frente a frente. Pararam brevemente, talvez nem por um segundo.

Quase automaticamente, uma desviou-se ligeiramente para a esquerda e a outra ligeiramente para a direita.

E seguiram o seu caminho.

Estas duas formigas fizeram-me pensar nos humanos.

Quantos estariam dispostos a mudar ligeiramente a sua rota? E quantos insistiriam, frente a frente, que aquela estrada era sua, sem se moverem um milímetro? Parados, cada vez mais longe do seu destino?

Como seres humanos, temos esta dificuldade em ajustar a rota. Mas tal como na história dos dois barcos, por vezes a vida prova-nos que essa insistência é na realidade, obstinação, e que não estamos a querer ver todos os aspectos do que nos rodeia.

O obstácuilo à frente pode na verdade não ser um obstáculo. Pode estar lá apenas para iluminar melhor a rota e nos ajudar a ver que o caminho em que nos movemos não é na realidade o caminho. Não é o nosso caminho.

E, nesse momento, precisamos parar na nossa corrida para o nosso destino e ajustar a rota.

Precisamos parar para chegar mais depressa.

© Isa Lisboa

Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

Árvores, ervas e tempestades

Esta semana recordaram-me a palavra “resiliência”.

Resiliência é diferente de Resistência. Embora nalgumas circunstâncias, seja necessário apelarmos à nossa capacidade de resistência, na maioria das vezes é a resiliência quem nos pode ajudar a chegar ao final do dia, uma dia de cada vez.

Foneticamente, a diferença entre estas duas palavras é subtil.

Na prática, é-o menos; mas, por outro lado, é uma diferença nem sempre fácil de entender. Gosto da analogia das árvores e das ervas para perceber esta diferença.

É uma analogia que li em artigos relacionados com a filosofia oriental.

Ela fala das árvores, de como são robustas, com os seus fortes e largos troncos. Por oposição, as ervas possuem caules finos, menos fortes.

No entanto, perante uma forte tempestade de vento, as árvores podem acabar por ser arrancadas pela raiz ou até o seu tronco ser quebrado a meio. Por outro lado, ao acabar a tempestade, encontraremos as ervas curvadas em direcção ao chão, mas intactas. E, ao terminar a tempestade elas levantam-se lentamente.

É esta a diferença entre Resistência e Resiliência. As árvores mostram-nos a resistência e as ervas a resiliência.

As árvores, ao usarem toda a sua força e pujança para lutar contra o vento resistindo-lhes, acabam por se ir deixando desgastar pelas investidas do vento. E quando o vento ataca durante mais tempo do que aquele que elas conseguem aguentar, elas perecem.

Por outro lado, as ervas usam a flexibilidade do seu caule para se curvarem. Este verbo tem uma conotação negativa, mas neste caso vejo-o de outra forma. As ervas inclinam-se ao sabor do vento, aceitando a tempestade, sabendo que nada podem fazer contra ela, que o vento só parará de soprar quando assim o quiser. Ao aceitarem a adversidade, não gastam as suas energias numa luta que não poderiam ganhar – pois se até algumas das fortes árvores são ao chão! Ao curvarem-se, deixam que o vento passe por cima de si. Talvez o vento as magoe, ainda assim. Mas através da paciência e da sua capacidade de se manterem flexíveis (flexíveis, não moles), elas conseguem sobreviver ao vento.

Também nas tempestades da vida precisamos escolher se somos árvores ou ervas. Se decidimos lutar, sem direcção, sem saber a força daquele inesperado inimigo. Se lutamos apenas porque sempre nos ensinaram a ficar de pé, firmes, fortalezas inexpugnáveis.

Ou se somos, naquele momento, ervas. Se nos agarramos a quem somos, à nossa força interior. Se usamos a nossa força interior para suportar as investidas do vento. Deixar que ele nos faça baixar, mas não que nos quebre. Sentir a dor do vento a tentar passar por nós, a magoar-nos a pele. Sentir a força do vento, mas agarrarmo-nos à nossa vontade. Lembrarmo-nos de que a tempestade não dura sempre. E que esta também não vai durar.

Sermos erva, protegendo o essencial de nós, sentarmo-nos a aprender a força do vento, a aprender a nossa própria força e a recuperá-la, a aumentá-la. Tocando o chão, sentindo não que caímos, mas que tocamos novamente no pó de que fomos feitos. Tocando o chão que nos dá a vida e sustenta. Resiliência.

Neste momento, é hora de seres árvore ou de seres erva?

© Isa Lisboa

Heavy Winter by Mikael Sundberg
Foto: Heavy winter, by Mikael Sundberg

Construíndo aviões

“A Madre Teresa de Calcultá estava a visitar uma fábrica na Índia quando viu, num canto, um homem a cantorolar alegremente enquanto juntava parafusos.

«O que está a fazer?» – perguntou. «Estou a construir aviões» – respondeu ele – «Aviões» – perguntou ela – «Sim.» – disse o homem – «sem estes minúsculos parafusos o avião não pode voar.»

 

“Não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com amor.”

Madre Teresa de Calcutá

 

Retirado do livro “O poder da paciência”, M. J. Ryan

Descobri esta pequena história no livro “Canja de galinha para a alma”, de Jack Canfield Mark Victor Hansen e Amy Newark.

E hoje lembrei-me dela por causa de uma pergunta que me tem surgido ultimamente, nas entrelinhas de alguns textos que leio. A pergunta é:

“E se o teu propósito de vida for viver uma vida com propósito?”

Esta pergunta, formulada mais ou menos desta forma, ouvi-a num dos podcasts de Pedro Vieira e Micaela Oven.

É uma pergunta pertinente.

Todos nós procuramos um sentido para a nossa vida, mais ou menos intensamente.

Algumas pessoas sonham com fama, outras com grandes feitos, algumas com uma grande carreira; muitas são as formas.

E tudo isso está bem.

Mas também penso na quantidade de pessoas, presentes na minha vida actualmente ou que por ela já passaram, e que me mostram constantemente como pequenas coisas são grandes.

Desde crianças, aprendemos a chamar de heróis todos aqueles que têm super poderes e usam uma capa e um símbolo ao peito.

Mas fui aprendendo que, apesar de não conhecer ninguém que saiba voar, tenha força sobre humana, consiga ficar invisível ou tenha outro super poder, ainda assim, conheço muitos heróis.

São heróis todos aqueles que fazem a vida de quem os rodeia um pouco melhor. E, para o fazer, por vezes o único acto heróico de que precisam é um sorriso. Algo tão simples como um sorriso. Ou como dar a mão. Ou sentar-se a ouvir por 5m. Parar e dar atenção ao outro.

Todos aqueles que têm a capacidade de ter um gesto incondicional em relação a alguém todos esses, são heróis. 

E todos eles estão a construir aviões, a partir de parafusos. 

Porque, ao agirem de acordo com aquilo que a humanidade tem de melhor, estão a contribuir para um mundo melhor.

E isso, para mim, é cumprir um propósito de vida.

© Isa Lisboa

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Preciso ganhar o Euromilhões

 

 

Costumo dizer em tom de brincadeira:

 “Concluí que preciso ganhar o euromilhões. O único problema é… que eu não jogo!”

 De há uns tempos para cá, começo a ouvir a minha vozinha interior a responder a esta minha piada. E ela responde: “Bela desculpa!”

Como tenho uma descrença algo vincada nos jogos de apostas, imaginei que a minha vozinha estaria a tentar dizer-me algo menos literal que “Joga no euromilhões!”

E realmente, tenho na minha vida um ou outro euromilhões, que quero ganhar, mas… Mas tenho dúvidas e tenho medos.

E depois ganho coragem e decido que é hora de começar a jogar no euromilhões.

Geralmente, é quando mais estou decidida na minha tarefa, que as coisas começam a complicar.

Porque é aí que acontece algo que faz retornar as dúvidas e o medo.

Pode ser alguém que encontramos, que já tentou ganhar o euromilhões e não conseguiu. Pode ser alguém que nunca tentou e que tem uma lista preparada e estruturada com todas as razões pela qual não é bom, seguro, saudável ou talvez politicamente correcto, jogar no euromilhões.

Pode ser ainda – e é aí que tudo fica mais difícil – alguém de quem gostamos. Alguém de quem gostamos que nos diz que não, que não é um bom caminho para nós jogarmos no euromilhões. E aí fica tudo mais difícil. Porque é mais difícil contrariarmos alguém de quem gostamos.

A nossa voz interior diz “sim”, e a voz dessa pessoa diz “não”. E entã, a somar às dúvidas e aos medos, vem o conflito. O conflito interior. Como o resolver?

Uma das chaves é entender a motivação. A motivação da outra pessoa. É certo que algumas das pessoas que nos desencorajam não o fazem pelo mais nobre dos motivos. Mas quando falamos daquelas pessoas próximas, daquelas pessoas que gostam de nós, a situação geralmente é diferente.

Acontece que essas pessoas também têm medo. E têm medo não só por elas, mas também por nós. E querem proteger-nos. E é por isso que tentam demover-nos e, é preciso dizê-lo, desmotivar-nos de fazer certas coisas. Tentam desmotivar-nos de apostar.

A questão ligada a este verbo – apostar – é tanto podemos ganhar, como perder.

Quem gosta de ti, não quer que tu percas. Por isso, não quer que tu apostes.

Mas aí entras tu. És sempre tu a chave.

És tu quem tem que responder a um conjunto de perguntas:

 – “Vale a pena o risco?”

– “O que é o pior que pode acontecer?”

– “Se o pior acontecer, conseguirei lidar com as consequências?”

Se as respostas a estas perguntas te trouxerem tranquilidade e segurança, então… está na altura de fazeres a tua aposta; o que te parece?

Eu quero ganhar o meu Euromilhões e não vou desistir de encontrar a minha chave vencedora.

 

 

E tu, qual é o teu Euromilhões?

© Isa Lisboa

 

 

A este propósito, partilho uma pequena anedota, sobre jogos e sobre algo mais:

“Um homem rezava a Deus: “Meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria! Eu gostava tanto, mas tanto, de ganhar a lotaria! Por favor, meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria!”

O homem rezou a Deus desta forma, durante dias, vários dias seguidos.

Até que Deus decidiu responder ao homem: “Meu filho, se queres mesmo ganhar a lotaria… ao menos joga!”

 

Cegueira emocional

 

Para quem não sabe falar inglês, deixo um pequeno resumo do vídeo acima:

Trata-se da história de um casal, em que o homem pergunta à mulher se pensou no seu pedido de casamento. Ela responde-lhe que não pode casar com ele, porque é cega, e porque quer ver o futuro de ambos juntos. Ela diz que precisa ter os olhos dela.

Na cena seguinte, é a mulher quem vai ter com ele, e muito feliz, diz-lhe que poder ver é a sensação mais fantástica do mundo. Ele pergunta-lhe se agora ela já pode casar com ele e abraça-a, desajeitadamente. Nessa altura, ela percebe que ele não vê e, revoltada, diz-lhe que não pode casar com alguém que é cego e sai.

Numa terceira cena, ela encontra por acaso um envelope, ao arrumar as coisas da mesa. Dizia na parte de fora “Para quando tiveres os teus olhos.”. Ela abre o envelope e dentro tem, assinado pelo ex-namorado, um bilhete que diz: “toma bem conta dos meus olhos”.

Como o comentador, Jay Shetty, explica de seguida, este vídeo não é sobre cegueira física, mas sim sobre cegueira emocional. Sobre a forma quando julgamos as pessoas, especialmente quando a nossa situação muda para melhor e não conseguimos ver o outro lado, o lado do outro.

Este enquadramento fez-me sentido, mas não consegui deixar de ficar a pensar um pouco naquilo que o homem fez. E não consegui deixar de sentir que também ele errou. Talvez vos pareça estranho, visto que, afinal, é ele a vítima desta história, o injustiçado…

Mas, olhando mais de perto, vejo que ele abdicou de uma parte essencial dele mesmo para que outra pessoa se sentisse completa. Abdicou de uma parte essencial dele próprio, para a dar a uma pessoa que não se amava a ela própria da maneira que era.  Por isso, pergunto-me, não seria ele também cego emocionalmente? Pois como poderemos fazer os outros inteiros, se nós próprios estamos despedaçados?

© Isa Lisboa