Preciso ganhar o Euromilhões

 

 

Costumo dizer em tom de brincadeira:

 “Concluí que preciso ganhar o euromilhões. O único problema é… que eu não jogo!”

 De há uns tempos para cá, começo a ouvir a minha vozinha interior a responder a esta minha piada. E ela responde: “Bela desculpa!”

Como tenho uma descrença algo vincada nos jogos de apostas, imaginei que a minha vozinha estaria a tentar dizer-me algo menos literal que “Joga no euromilhões!”

E realmente, tenho na minha vida um ou outro euromilhões, que quero ganhar, mas… Mas tenho dúvidas e tenho medos.

E depois ganho coragem e decido que é hora de começar a jogar no euromilhões.

Geralmente, é quando mais estou decidida na minha tarefa, que as coisas começam a complicar.

Porque é aí que acontece algo que faz retornar as dúvidas e o medo.

Pode ser alguém que encontramos, que já tentou ganhar o euromilhões e não conseguiu. Pode ser alguém que nunca tentou e que tem uma lista preparada e estruturada com todas as razões pela qual não é bom, seguro, saudável ou talvez politicamente correcto, jogar no euromilhões.

Pode ser ainda – e é aí que tudo fica mais difícil – alguém de quem gostamos. Alguém de quem gostamos que nos diz que não, que não é um bom caminho para nós jogarmos no euromilhões. E aí fica tudo mais difícil. Porque é mais difícil contrariarmos alguém de quem gostamos.

A nossa voz interior diz “sim”, e a voz dessa pessoa diz “não”. E entã, a somar às dúvidas e aos medos, vem o conflito. O conflito interior. Como o resolver?

Uma das chaves é entender a motivação. A motivação da outra pessoa. É certo que algumas das pessoas que nos desencorajam não o fazem pelo mais nobre dos motivos. Mas quando falamos daquelas pessoas próximas, daquelas pessoas que gostam de nós, a situação geralmente é diferente.

Acontece que essas pessoas também têm medo. E têm medo não só por elas, mas também por nós. E querem proteger-nos. E é por isso que tentam demover-nos e, é preciso dizê-lo, desmotivar-nos de fazer certas coisas. Tentam desmotivar-nos de apostar.

A questão ligada a este verbo – apostar – é tanto podemos ganhar, como perder.

Quem gosta de ti, não quer que tu percas. Por isso, não quer que tu apostes.

Mas aí entras tu. És sempre tu a chave.

És tu quem tem que responder a um conjunto de perguntas:

 – “Vale a pena o risco?”

– “O que é o pior que pode acontecer?”

– “Se o pior acontecer, conseguirei lidar com as consequências?”

Se as respostas a estas perguntas te trouxerem tranquilidade e segurança, então… está na altura de fazeres a tua aposta; o que te parece?

Eu quero ganhar o meu Euromilhões e não vou desistir de encontrar a minha chave vencedora.

 

 

E tu, qual é o teu Euromilhões?

© Isa Lisboa

 

 

A este propósito, partilho uma pequena anedota, sobre jogos e sobre algo mais:

“Um homem rezava a Deus: “Meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria! Eu gostava tanto, mas tanto, de ganhar a lotaria! Por favor, meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria!”

O homem rezou a Deus desta forma, durante dias, vários dias seguidos.

Até que Deus decidiu responder ao homem: “Meu filho, se queres mesmo ganhar a lotaria… ao menos joga!”

 

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Cegueira emocional

 

Para quem não sabe falar inglês, deixo um pequeno resumo do vídeo acima:

Trata-se da história de um casal, em que o homem pergunta à mulher se pensou no seu pedido de casamento. Ela responde-lhe que não pode casar com ele, porque é cega, e porque quer ver o futuro de ambos juntos. Ela diz que precisa ter os olhos dela.

Na cena seguinte, é a mulher quem vai ter com ele, e muito feliz, diz-lhe que poder ver é a sensação mais fantástica do mundo. Ele pergunta-lhe se agora ela já pode casar com ele e abraça-a, desajeitadamente. Nessa altura, ela percebe que ele não vê e, revoltada, diz-lhe que não pode casar com alguém que é cego e sai.

Numa terceira cena, ela encontra por acaso um envelope, ao arrumar as coisas da mesa. Dizia na parte de fora “Para quando tiveres os teus olhos.”. Ela abre o envelope e dentro tem, assinado pelo ex-namorado, um bilhete que diz: “toma bem conta dos meus olhos”.

Como o comentador, Jay Shetty, explica de seguida, este vídeo não é sobre cegueira física, mas sim sobre cegueira emocional. Sobre a forma quando julgamos as pessoas, especialmente quando a nossa situação muda para melhor e não conseguimos ver o outro lado, o lado do outro.

Este enquadramento fez-me sentido, mas não consegui deixar de ficar a pensar um pouco naquilo que o homem fez. E não consegui deixar de sentir que também ele errou. Talvez vos pareça estranho, visto que, afinal, é ele a vítima desta história, o injustiçado…

Mas, olhando mais de perto, vejo que ele abdicou de uma parte essencial dele mesmo para que outra pessoa se sentisse completa. Abdicou de uma parte essencial dele próprio, para a dar a uma pessoa que não se amava a ela própria da maneira que era.  Por isso, pergunto-me, não seria ele também cego emocionalmente? Pois como poderemos fazer os outros inteiros, se nós próprios estamos despedaçados?

© Isa Lisboa

 

 

Intermitências

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Sou eu

Mas já não sou

Quanto mudou

Nas intermitências

De esquecer

E de deixar ir…

Leve,

Sei que ainda há

A libertar.

Decidida

Tranquila.

De mim

Não mais abdicarei.

O que a mais habita

Não ficará

Passo a passo, a seu tempo

Se irá

Quando olhar para trás

Será mais um degrau

Da história que quem fui

Da escada que subi

Para chegar a quem sou.

© Isa Lisboa

Dúvidas

Ainda sobre o tema da (Des)Crença, pergunto-me o papel da descrença.

Sou uma grande adepta do positivismo, do andar para a frente, esperando o melhor; e também (talvez principalmente) do pensar fora da caixa.

Olhar para além do óbvio, acreditar para além do que é racional, seguir o que o coração sente.

No entanto, também me questiono. Também paro para pensar se tomei a atitude correta, se estou a fazer o caminho certo, ou se devo mudar de direcção.

E também duvido de mim própria. Digo, no sentido de me questionar a mim mesma, se as minhas crenças ainda são verdadeiras, se respeito todos os meus valores, sobre as razões que me puxam e sobre as que me empurram.

Duvidar de nós mesmos é uma expressão com carga negativa. E, num sentido, é-o. É-o quando não acreditamos em nós, quando não acreditamos que conseguimos fazer algo, sentir algo, chegar a algum lado.

Mas duvidar de nós mesmos, no sentido de nos questionarmos, de fazermos uma auto avaliação sobre o nosso mundo interior… Essa dúvida, que é, na realidade, um questionamento, é boa.

Porque dessa auto avaliação podem surgir novas perspectivas acerca de nós mesmas(os). Talvez nem todas boas, a princípio, mas todas necessárias ao nosso crescimento.

 © Isa Lisboa

 

Igor Morski

Imagem: Igor Morski

 

Egoísta!

“Hoje não posso. Eu sei que costumo fazê-lo sempre que o pedes. Amanhã talvez possa, mas hoje não posso mesmo.

Não, hoje eu não posso. Hoje eu não posso ficar. Hoje eu não posso parar e ficar aqui e ouvir-te.

Hoje tenho um compromisso com alguém muito importante: eu mesma!”

Talvez estas palavras vos tenham chocado. Talvez estejam a chamar-me de egoísta, revoltados ao imaginar-me a dizer estas palavras a alguém. E ainda mais revoltados ao imaginarem-se a vocês mesmos a dizer estas palavras a alguém.

Claro que precisamos estar lá para os outros, ajudá-los naquilo que nos for possível. E muitas vezes a única coisa que é possível é isso mesmo: ouvir. Estamos cada vez menos disponíveis para ouvir o outro, para realmente ouvir. Ouvir a dor, a mágoa, até para ouvir as alegrias. Quando alguém não diz aquilo que esperamos (ou queremos) ouvir, então ouvimos pouco. Fechamos os ouvidos e ainda mais o coração.

Mas estamos também cada vez menos disponíveis para nos ouvir a nós mesmos. Para ouvir as nossas próprias dores e mágoas e os nossos próprios anseios e sonhos. Abafamos tudo isso por detrás de tudo o que temos que fazer. Amordaçado por detrás de tudo o que temos que fazer, fica tudo o que precisamos fazer. O que precisamos fazer por nós.

E então deixamo-nos esquecer, e deixamos que o ruído se sobreponha. E deixamos que os nossos ouvidos oiçam apenas os outros. Ouvimos até que as palavras se acabem.

E deixamos de dizer não, porque é egoísta dizer não. É egoísta não ter tempo para todos os que nos procuram. É egoísta não ter uma palavra de conforto. E lá dentro de nós mesmos, há uma parte que grita também: és egoísta, és egoísta porque não me ouves. És egoísta porque não tens tempo para mim. És egoísta porque exiges tudo de mim. És egoísta porque não me confortas.

E assim muitas vezes deixamos que a nossa mente encha até ao limite, absorvidos pelos vários problemas que nos surgem. Absorvidos pelas queixas, exigências e solicitações. E esquecemo-nos da pessoa que talvez naquele momento precise de mais ajuda: nós mesmos.

E ajudar a nós mesmos não é um acto de egoísmo, é um acto de amor-próprio. Um acto de auto-ajuda. E de amor aos outros. E de ajuda aos outros.

Porque como poderemos confortar os outros, se não nos sentimos confortados? Como poderemos ser um ponto de apoio, se nos sentimos sempre sem forças? Como poderemos puxar alguém para cima, se nos deixarmos cair?

Como poderemos dar aquilo que não temos? Só ganhando-o por nós mesmos.

© Isa Lisboa

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Sentimentos dos nossos dias

A solidão senta-se ao meu lado no banco do metro, escondida por baixo de olhos aparentemente apenas sonolentos.

Caminha na mesma rua que eu, transportada por pernas cansadas.

De onde vem, para onde se dirige, é por vezes difícil de entender. Quase tão difícil como reconhecê-la ali tão perto. Entre os transeuntes.

 © Isa Lisboa

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(In)certezas

Sempre fui diferente. Por várias razões que não irei hoje explorar.

Mas por ser diferente, também sentia, da parte de algumas pessoas, uma reacção diferente.

E isso, para mim, era difícil. De alguma forma, sentia que me estava a ser negado o direito de ser quem era.

Nada mais errado! As reacções exteriores a nós nunca nos impedem de sermos quem somos, apenas as interiores o fazem.

É verdade que todos queremos aceitação por parte dos nossos pares. E isso é humano. Mas também é certo que a aceitação parte de nós mesmos. A partir do momento em que tu te aceites, verdadeira e completamente, então a opinião dos outros sobre ti passa a ser aquilo que verdadeiramente é: uma visão alternativa sobre ti. Uma visão com a qual tu podes discordar completamente ou com a qual podes até concordar. E, se concordares, está nas tuas mãos mudares aquilo que em ti ainda não és tu.

Vou dizer-te uma coisa que é ao mesmo tempo fantástica e assustadora: a partir do momento em que te aceites completamente, sem julgamentos, apenas com a consciência do que em ti é bom e é mau; a partir desse momento, és livre!

E quando te souberes livre, verás que não és diferente, que és apenas e simplesmente tu. Diferente será apenas um adjectivo, que por vezes ouves aplicado a ti. Mas que já não será um não, um gesto de exclusão, uma mão que te empurra para fora da fronteira (que não existe).

O que antes ouvias como um grito dirigido a ti, passas a entender como um grito de defesa. Porque quem ataca quem é diferente, defende-se. Atacamos quem é diferente porque temos medo. Quem é diferente lança dúvidas sobre as nossas (in)certezas.

E das nossas dúvidas, achamos que devemos defender-nos. Até percebermos que a dúvida é apenas uma porta. Podemos abri-la e descobrir novos caminhos. A trilhar. Podemos abri-la e fechá-la definitivamente, agora sem incertezas. Seja como for, a pergunta trará uma resposta.

Depois de girares, então, a maçaneta de conheceres o que em ti é diferente… quem sabe, talvez percebas que, afinal, estás apenas a viver.

E a ser!

© Isa Lisboa

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És um patinho, um cisne, ou…?

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É bem conhecida a história do patinho feio. Um patinho bem diferente dos outros, de quem os irmãos se riam e que cresceu triste e a sentir-se sozinho. Até que um dia vê no lago um conjunto de belas e majestosas aves. No final da história, percebe- se que o patinho feio é, afinal, um cisne. Um belo cisne!

Muitas pessoas já se identificaram com esta história em algum momento das suas vidas. Ou seja, já muitas pessoas se sentiram patinhos feios, diferentes, deslocadas, não aceites.
E, lembrando-se da história do patinho feio, anseiam pelo dia em que se tornarão um cisne. Um belo cisne.

Também foi assim que interpretei esta história durante algum tempo. Como a história de um patinho que era feio e se tornou belo.

Mas com o tempo entendi que o patinho só era feio porque não era um patinho. Sentia-se diferente e deslocado porque não estava onde pertencia. Não estava no seu lar e estava a tentar ser alguém que não era. E não se tornou num cisne – apenas percebeu que sempre tinha sido um cisne e decidiu seguir o seu bando verdadeiro.

Não se tornou mais belo. A sua beleza revelou-se e veio ao de cima quando ele descobriu quem era. E quando decidiu aceitar quem sempre tinha sido.

E tu, pronta(o) para descobrires quem és?

© Isa Lisboa