Um gesto

Há alguns anos atrás, num momento difícil da minha vida, sentei-me num banco de uma carruagem de metro acompanhada de todos os pensamentos negativos que na altura me povoavam a mente.

A certa altura, esses pensamentos começaram a querer transformar-se em lágrimas e, como a maioria das pessoas faria, tentei contê-las a todo o custo.

Mas não consegui.

Agora, olhando para trás, acho que deixei de resistir em parte porque o metro estava quase vazio e achei que ninguém ia sequer reparar. Nessa altura, as pessoas ainda não viajavam com os olhos fixos no telemóvel. Mas viajavam com o olhar fixo num ponto perdido. Por isso, parte de mim deve ter achado que ninguém iria reparar. E a outra parte de mim, naquele momento, não queria saber se alguém reparava ou não.

Na verdade, alguém reparou.

A certa altura, uma senhora veio ter comigo e ofereceu-me um lenço de papel.

Talvez esta história fosse muito mais bonita se eu dissesse que naquele momento todos os meus problemas se dissolveram. Mas não foi assim. Foi preciso mais algum tempo para isso.

No entanto, aquele pequeno gesto foi um sinal de que podemos ter fé nas pessoas. E por isso, foi um sinal para ter também fé em mim mesma.

Olhando agora para trás, a esta distância, vejo que essas lágrimas também me ensinaram que não faz mal deixar as lágrimas cair. Desde que não nos afoguemos nelas.

As lágrimas podem ajudar-nos a lavar o coração. Mas se nos agarrarmos demais a elas, podem antes cristalizá-lo.

Cristalizá-lo não com o sal, mas com a dor.

Por essa razão, quando me oferecem um lenço de papel, eu aceito.

         © Isa Lisboa

Art 388© Benoit Courti (ArtPics)

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És um patinho, um cisne, ou…?

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É bem conhecida a história do patinho feio. Um patinho bem diferente dos outros, de quem os irmãos se riam e que cresceu triste e a sentir-se sozinho. Até que um dia vê no lago um conjunto de belas e majestosas aves. No final da história, percebe- se que o patinho feio é, afinal, um cisne. Um belo cisne!

Muitas pessoas já se identificaram com esta história em algum momento das suas vidas. Ou seja, já muitas pessoas se sentiram patinhos feios, diferentes, deslocadas, não aceites.
E, lembrando-se da história do patinho feio, anseiam pelo dia em que se tornarão um cisne. Um belo cisne.

Também foi assim que interpretei esta história durante algum tempo. Como a história de um patinho que era feio e se tornou belo.

Mas com o tempo entendi que o patinho só era feio porque não era um patinho. Sentia-se diferente e deslocado porque não estava onde pertencia. Não estava no seu lar e estava a tentar ser alguém que não era. E não se tornou num cisne – apenas percebeu que sempre tinha sido um cisne e decidiu seguir o seu bando verdadeiro.

Não se tornou mais belo. A sua beleza revelou-se e veio ao de cima quando ele descobriu quem era. E quando decidiu aceitar quem sempre tinha sido.

E tu, pronta(o) para descobrires quem és?

© Isa Lisboa

Mas vale a pena…

«Ernest Hemingway disse: “O mundo é um lugar maravilhoso e vale a pena lutar por ele.” Concordo com a segunda parte.»
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“Seven” é um filme sobre o lado cru e feio da vida, no filme simbolizado pelos sete pecados mortais.

Sim, o mundo nem sempre é um lugar maravilhoso. Sim, o mundo tem pessoas que cometem erros, pessoas que lucram de forma indevida, pessoas que agem com agenda própria, lucrando à custa dos outros. Sim.

Mas sim, o mundo também tem pessoas que são solidárias, pessoas que se preocupam. Mas sim, o mundo também tem heróis anónimos.

Por isso, sim, o mundo é um local pelo qual vale a pena lutar.

© Isa Lisboa

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Agora

“O Paraíso é onde estou.”

Voltaire

 

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Voltaire, nesta pequena frase, fala-nos sobre o momento mais importante das nossas vidas. Aquele que nunca mais vai repetir-se, que não teremos oportunidade de voltar a viver. E esse momento é este. Agora. Neste instante. Agora.
Em teoria, parece simples. Viver o momento. Carpe Diem!
Mas a verdade é que os vários instantes da nossa vida são povoados por todas as recordações do passado e por todas as expectativas em relação ao futuro.

Como seres cada vez mais rápidos e cada vez mais envolvidos numa sociedade instantânea, temos naturalmente dificuldades em nos desligarmos do que foi e do que será. E temos tendência a deixar que ambos nos envolvam em excesso. Excesso de passado e excesso de futuro. E, nesse frenesim, muitas vezes não apreciamos o momento. Um sorriso que nos dão. Ou um que podíamos oferecer.

Desligamo-nos deste momento, pensando no que aconteceu, como poderia ter acontecido e o que poderíamos ter feito diferente.

E depositamos as nossas esperanças de felicidade naquele futuro, em que tudo será risonho e exactamente como nós queremos.

Mas a verdade é que não conseguimos controlar o futuro, assim como não podemos fugir do passado. Temos que semear o primeiro e aceitar e libertar o segundo.

E, no meio destes tempos, viver o que se nos oferece: o Hoje. Talvez seja bom ou talvez seja mau. Mas é o que realmente temos. Por isso, vivamo-lo.

Afinal, é para viver que estamos cá. É para viver que estamos cá hoje.

© Isa Lisboa

E se Deus fosse um de nós

“E se Deus fosse um de nós, apenas um estranho no autocarro, a tentar chegar a casa?”

Esta é uma das perguntas que uma conhecida música de Allanis Morisette nos faz.
Sempre me fez pensar, esta música. E se, de facto, assim for? Bom, na realidade, eu acredito que assim é.
Percepciono a presença de Deus no vento que aqui passa e na água que corre ao lado. No calor do sol e nas árvores frondosas que agora me protegem dele. Acredito que a presença de Deus está à nossa volta, em todas as manifestações vivas e inanimadas que nos rodeiam a cada passo que damos. Quando respiramos, quando pegamos numa pedra, quando caminhamos com os pés descalços na terra… Se o fizermos com os olhos do espírito abertos, poderemos sentir a Força que a tudo liga, a Roda que tudo movimenta, a Sabedoria que tudo construiu.
E se em tudo existe Deus, porque não pode existir no estranho que se senta à minha frente? Como uma pequena centelha separada e unida algo maior que si próprio.
Somos uma espécie ávida por criar, construir, ser. Mas ainda assim, assusta-nos pensar que o poder da nossa própria vida esteja ao nosso alcance e que possamos estar mais perto de Deus do que as visões do Céu nos permitem.
“E se Deus fosse um de nós, chamá-lo-ias pelo nome?” – pergunta também Alanis?
E se Deus fosses também tu, chamar-te-ias pelo nome?

© Isa Lisboa

 

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Foto: Pintrest

 

Eu, pecadora, me confesso

Vou partilhar uma história que ouvi há algum tempo.

Uma mulher estava no meio de uma multidão em círculo. Estava ajoelhada, chorava e pedia piedade. Pedia piedade aos homens que a rodeavam com pedras na mão.

Entretanto, um homem atravessa a multidão, ajoelha-se ao lado dela e ajuda-a a levantar-se. A seguir diz algumas palavras, finalizando com a poderosa frase: “Aquele que de entre vós nunca pecou, que atire a primeira pedra.”

Esta é uma passagem da bíblia amplamente (re)conhecida tanto por cristãos como por não cristãos.

A bíblia descreve que, nesse momento, um por um, os homens começaram a largar as pedras ao chão. Maria Madalena e Jesus ficaram sozinhos, todos os “juízes” se afastaram.

Esta é a história original.

Na história que me contaram, Jesus puxa Maria Madalena por um braço e diz-lhe: “Fujamos daqui, pois somos os únicos pecadores.”

Nesta história, Jesus e Maria Madalena viveriam na era actual.

Ouvi esta história há alguns anos já, mas lembro-me dela muitas vezes, sempre que vejo alguém a pegar numa pedra, resoluto.

Com o aumento da velocidade da comunicação, novas formas de atirar pedras apareceram. Tenho observado algumas nos títulos das notícias do Facebook.

Parece-me que o fenómeno é o que se terá observado na moderna história de Jesus e Maria Madalena. Acredito que, na história original, algum dos homens teve a coragem de assumir os seus pecados para si mesmo. E esse homem foi o primeiro a largar a sua pedra. Outros o seguiram. Hoje em dia, vê-se alguém que atira a primeira pedra, seguindo-se a saraivada de pedras. Muitas vezes, alguém atira uma pedra da barricada contrária e as pedras antes atiradas são reaproveitadas para o novo inimigo.

Quando reaprenderemos a voltar a entender as palavras ditas por Jesus?

“Quem, de entre vós, que nunca pecou, que atire a primeira pedra.”

© Isa Lisboa

Apontar o dedo

Imagem: Autor não identificado

Labirinto

À entrada do labirinto, nunca sabemos bem o que nos espera. Apenas sabemos que nada será como é cá fora.

Vemos a porta de entrada à nossa frente, foi-nos dito que devemos atravessar um caminho desconhecido que, no final, levará a uma outra porta, a de saída. Não temos mapa, não sabemos se teremos indicações ao longo do caminho, se teremos luz no percurso ou se devemos tactear a parede.

E então algo em nós evoca a lenda do Minotauro, a criatura de pele de breu, chifres ameaçadores e olhos ensanguentados pelas vítimas do labirinto que habitava. O labirinto que era a sua prisão.

Mas e se o Minotauro formos nós mesmos? Uma parte de nós que está presa ao labirinto e que, por não conseguir sair, está condenado a não permitir que mais ninguém atravesse o labirinto, que mais ninguém encontre a porta de saída. Uma criatura surgida de humano e de besta, para desencorajar os aventureiros que querem saber mais, viver mais, sentir mais. Talvez o sacrifício que o Minotauro exigia, fosse que os humanos abdicassem dos seus sonhos, deixando-os devorar-se pela mitológica criatura. Devorados por aquela criatura cuja fome não se aplacava. E seremos nós Teseu? Poderemos ser. Podemos encontrar o centro do labirinto e matar o medo. E, agarrados ao fio invisível que nos prende uns aos outros e a tudo o que existe, voltaremos então à vida que queremos viver.

© Isa Lisboa

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O Caminho do Eu

Uma vez percorrido o Caminho do Eu, temos tendência a achar que a viagem foi cumprida.
Mas assim como o rio que atravessamos hoje não será amanhã o mesmo, também este Caminho muda após feita a primeira viagem.
É um Caminho que devemos atravessar uma e outra vez, libertando novas camadas de quem não somos. Ou descobrindo novas manifestações de quem somos.
Aceitar a jornada nem sempre é fácil, e mais difícil é perceber que só no silêncio interno podemos encontrar o percurso a seguir.
Habituados a tudo planear, custa aprender a deixar a Sabedoria da Vida fluir e tomar conta de nós.
Resistimos, queremos categorizar em certo e errado. Queremos categorizar-nos em certo e errado.
Mas só quando aceitamos que o que é É, É, só aí o Caminho se abre. Só aí nos conseguimos ver plenamente, sem julgamentos, esquecidos do pecado da imperfeição.
Despidos de expectativas, sobre nós e sobre o Mundo, estamos então leves o suficiente para percorrer o Caminho.
Para nos libertarmos das camadas protectoras, por debaixo das quais a nossa verdadeira voz se esconde, amordaçada.
E, passo a passo, a nossa Voz voltará a ouvir-se.
Nós voltaremos a ouvir-nos.

© Isa Lisboa

Swan song by Zena Holloway

Imagem: Swan song, by Zena Holoway

Luz e escuridão

Há quem só veja sombras, mais ou menos difusas. E há quem só veja luzes. Pelo menos assim parece.

Não acredito na tese sem a antítese, o que, trocado por miúdos, quer dizer que não acredito que a visa sempre nos sorria. Que tudo sempre corra bem. Que só exista Luz.

A Escuridão também existe. E pode ser tão poderosa quanto a Luz.

Mas como pode a Escuridão ser combatida com Escuridão? O que mais pode combatê-la senão a Luz?

E é nos dias em que a Escuridão nos visita que mais devemos procurar a Luz. E que mais nos devemos socorrer da Luz que temos dentro de nós.

© Isa Lisboa

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Imagem: Tumblr