Luz e escuridão

Há quem só veja sombras, mais ou menos difusas. E há quem só veja luzes. Pelo menos assim parece.

Não acredito na tese sem a antítese, o que, trocado por miúdos, quer dizer que não acredito que a visa sempre nos sorria. Que tudo sempre corra bem. Que só exista Luz.

A Escuridão também existe. E pode ser tão poderosa quanto a Luz.

Mas como pode a Escuridão ser combatida com Escuridão? O que mais pode combatê-la senão a Luz?

E é nos dias em que a Escuridão nos visita que mais devemos procurar a Luz. E que mais nos devemos socorrer da Luz que temos dentro de nós.

© Isa Lisboa

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Imagem: Tumblr

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado

Nudez d’alma

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Jaume Plensa exhibition at the Yorkshire Sculpture Park, Tony Hisgett

As árvores de Inverno têm uma beleza especial.

Contra o frio do Inverno, as árvores mantêm-se de pé, com os galhos nus, despojados de flores, frutos e das folhas que poderiam servir de agasalho. É na estação mais fria que elas se despem de tudo, oferecendo a sua pele aos elementos. Totalmente exposta e sem protecção.

No entanto, nós, humanos, nem nos momentos de Primavera estamos muitas vezes dispostos a deixar os nossos casacos protectores. Protegemos tudo, com tudo o que podemos.

As árvores oferecem-nos a lição de que é necessário largar as folhas secas, que já serviram o seu propósito noutras estações. Se as árvores não deixassem ir as folhas secas, elas ficariam ali eternamente, e as folhas verdes que se escondem por debaixo não poderiam nunca nascer. Tão pouco haveria espaço para as flores e para os frutos. Não haveria espaço para nova vida.

Se em nós não deixarmos que os ventos, as chuvas e as outras (aparentes) intempéries levem as folhas secas, ficaremos apenas com folhas mortas a adornar-nos. Talvez nos sintamos seguros com elas. Estarão mortas, mas já as conhecemos. Ou então, apegámo-nos à história de cada uma daquelas folhas, a como as vimos crescer, a como crescemos com elas. Por vezes ainda, recusamo-nos a ver a sua cor acastanhada, recusamo-nos a ver até quando elas já começam a desfazer-se na nossa mão. Mas tal como as árvores, se folhas houver que insistam em agarrar-se, virá um vento mais forte que as levará definitivamente. Ou então, se nos agarrarmos demais a ela, acabaremos também nós por amarelecer, ficar de alma acastanhada e finalmente esboroarmo-nos nas mãos de quem poderíamos ser.

Mas se, pelo contrário, permitirmos que a vida flua em nós e através de nós, que o passado fique no passado e o futuro seja bem vindo, então teremos a oportunidade de ganhar novas folhas. De nos olharmos ao espelho e de nos reconhecermos de novo, àquele Eu feliz, forte, que luta, que sabe o que quer, alegre e de bem com a vida.

Custa largar, mas vale a pena. Pela leveza, pela alegria, por tudo o que vamos (re)descobrindo.

Despe-te das folhas secas. Dá a tua pele ao frio do Inverno. Dá medo, sim. Mas vai como medo na mesma. A Primavera espera-te do outro lado do medo.

© Isa Lisboa

Dar

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Diz-se que o mundo está cada vez mais cheio de pessoas que apenas desejam receber algo dos outros. Receber sem estar disposto a dar algo em troca.

No entanto, tenho verificado que, cada um à sua maneira, a maioria das pessoas com quem me tenho cruzado ao longo da vida, tem um sentimento de necessidade de Partilha com o outro. Necessidade de Dar. Essa necessidade pode ser de fazer a doação de bens materiais ou de ajuda (como no voluntariado).

Mas também pode ser a necessidade de Dar a nível emocional.

No entanto, nem sempre o manifestam da melhor forma, ou nem sempre o conseguem concretizar da melhor forma.

Por um lado, porque não conseguem Dar àquela pessoa que mais precisa de receber. E essa pessoa somos apenas Nós próprios. Embora possa parecer contraditório, temos dificuldade em Dar a nós mesmos. Em Dar um pouco de tempo, um pouco de atenção às nossas necessidades e sonhos. Em Dar um pouco de amor a nós mesmos.

Por exemplo, com mais facilidade nos censuramos sobre um qualquer pequeno erro que cometemos, que nos felicitamos a nós mesmos por uma grande conquista. Como se nada mais nos fosse permitido do que a perfeição. Por isso, em nada podemos errar. E, por isso, tudo o que façamos bem feito é apenas aquilo que temos obrigação de fazer. É apenas o mínimo que podemos esperar de nós próprios.

Esta forma de auto-boicote foi-nos sendo passada, de forma mais ou menos inconsciente. E, de forma mais ou menos inconsciente, acabamos por agir assim também com os outros. Apanhados num ciclo e prolongando-o.

Pois como podes dar amor a alguém se não o sentires por ti própria(o)? Como podes entender e aceitar alguém com todos os defeitos e qualidades, se não aceitas os teus próprios? Se não aceitas os teus próprios defeitos e as tuas próprias qualidades.

Por outro lado, quantas vezes tentamos Dar de forma menos correcta? Não damos à pessoa certa, nas circunstâncias certas, no tempo certo…

Falo pela minha própria experiência. Durante muito tempo procurei dar a quem não queria o que eu tinha para Dar. Ou até talvez não precisasse do que eu tinha para oferecer.

Partindo de um exemplo prático: se eu tiver muitos casacos de inverno para dar e os enviar como dádiva para as pessoas desfavorecidas de um país de temperaturas tropicais, é fácil perceber que estarei a cometer dois erros. Por um lado, as pessoas que receberão os casacos não terão uso para lhes dar num país quente. Os casacos acabarão por ficar esquecidos algures. Por outro lado, haverá alguém num país frio que poderia usar um desses casacos e que continuará a apanhar frio. A intenção não deixou de ser boa. Mas, no final das contas, não conseguimos atingir o nosso propósito de Dar. Porque, na realidade, ninguém Recebeu.

E, na nossa dor de não ter conseguido Dar, achamos que a nossa dádiva não chegou porque não foi aceite pela pessoa que esperávamos que a recebesse.

Mas como podemos Dar amor a quem não se ama e não quer amar-se? E como podemos Dar calma a quem apenas concebe o mundo vivido ao segundo? Como podemos Dar paz a quem só conhece a guerra (muitas vezes consigo próprio)? Como podemos Dar esperança a quem procura apenas razões para desistir?

Podemos dar ao Outro a vela e o fósforo, mas apenas cada um, por si, pode acender a sua própria Luz. Não podemos forçar a Luz por entre a escuridão daqueles que a escolheram. Sob pena de ficarmos nós próprios presos nessa escuridão, perdendo a memória e a força de como acender de novo a nossa própria vela, para nos iluminar o caminho de volta.

É difícil aceitar que assim é. Quando comecei a perceber tudo isto, senti que estava, eu própria, a desistir. A desistir de algumas pessoas. A desistir de uma parte de mim. Ao mesmo tempo, uma voz sussurrava-me que não podia desistir de mim. E estas vozes ainda convivem em mim.

Não consigo parar de segurar a vela e os fósforos e de os oferecer a quem acho que precisa delas. Mas esforço-me por me lembrar que assim como eu estou a fazer o meu caminho, também cada pessoa à minha volta tem que fazer o seu. Talvez algumas pessoas tenham que o fazer sem uma vela a alumiar o seu caminho. Ou precisem de encontrar uma vela por si próprios. Uma vela diferente da que eu conheço e que eu não sei como moldar.

Por isso, por vezes, tudo o que podemos fazer é apenas segurar a vela e fazer saber que ela pode iluminar o caminho. Por vezes, tudo o que podemos fazer é acender a nossa própria Luz e esperar que ela ilumine mais que o nosso caminho.

© Isa Lisboa

Grata, Ano Velho. Aqui estou, Ano Novo.

Aproxima-se o final do ano e, como tal, marca-se o final de um ciclo. A ideia de final de ciclo é comum numa passagem de ano. Geralmente temos tendência para fazer uma retrospectiva do ano que passou e tomar as famosas resoluções para o ano seguinte. Para melhorar tudo aquilo que correu menos bem.

Este ano, dizem as correntes místicas, encerra vários ciclos. Um de 9 anos, segundo a numerologia (2+0+1+6=9). Um novo ciclo, 1, um novo início, espera-nos em 2017. Um de 36 anos, segundo a astrologia, em que o astro regente deixará de ser o sol e passará a ser Saturno. Passaremos de um ciclo regido pela individualidade, eu sou o centro (tal como o sol o é do sistema solar) para um ciclo regido por um planeta que nos pedirá mais amadurecimento e mais trabalho interior.

Em ano de tão grandes fins de ciclo, parecem soprar ventos favoráveis a que encerremos capítulos da nossa vida, para que outros comecem.

Temos facilidade em comer as doze passas pedindo um desejo por cada uma. Um desejo de algo novo. Mas assim como a memória não é elástica e, para que novas memórias se instalem, outras terão que ser substituídas, assim também acontece na nossa vida a outros níveis. Para que coisas novas entrem na nossa vida, precisamos arranjar espaço para elas. E só o conseguiremos se libertarmos o que já não necessitamos mais na nossa vida. Pensem numa gaveta que abrem e encontram cheia. Na outra mão, seguram algo que querem guardar lá dentro. Se tentarem colocar, não vai caber. Ou talvez até ainda caiba, mesmo mesmo à justa. Mas aí tanto esse novo item como os anteriores, ficam sem espaço, demasiado juntos uns aos outros. De cada vez que tentarem abrir a gaveta, travarão uma luta com os objectos que querem sair. E uma luta ainda maior travarão ao tentar fechar de novo a gaveta. Como se aqueles objectos – que estavam tão juntinhos e cabiam à justa – tivessem aumentado de tamanho e quisessem sair.

Também a minha vida já teve momentos em que se encontrava como essa gaveta. Atafulhada. Agarrada àquilo de que já não precisava, mas a querer coisas novas. É fácil perceber que, um dia, não se consegue arrumar mais nada. Felizmente, consegui arrumar a tal gaveta antes que o espaço fosse irrespirável.

E não pensem que agora está sempre tudo arrumado, impecável. Não está. Mas é tão mais fácil respirar, agora que o espaço é maior, agora que aprendi a libertar.

Neste fim de ciclos, dou por mim a pensar no que preciso agora libertar. Algumas coisas são mais difíceis de deixar ir. Por vezes não sabemos como o fazer. Se deixamos ir, dói. Se deixamos ficar, dói.

Então olhei para trás e percebi que um dos pilares que me ajudou a libertar-me de situações dolorosas foi a gratidão.

A gratidão é uma palavra que contém muita beleza. E, quando a sentimos enchemo-nos de paz e de leveza. Diz um outro princípio místico, da filosofia reiki, “Só por hoje, sou grata(o)”.

Se pensarmos bem, com a mente sem “pré-conceitos”, todos os dias conseguimos encontrar um motivo pelo qual sermos gratas(os). Talvez seja um detalhe “apenas”. Mas no nosso dia são-nos oferecidos pequenos momentos de felicidade. Um sorriso. O sol que desponta e nos traz um pouco de luz. Uma palavra simpática. Um gesto inesperado de alguém. Uma palavra de força. Na confusão do dia-a-dia, nem sempre prestamos atenção a esses pequenos, mas grandes, motivos de gratidão. Principalmente quando estamos focados na fila de trânsito, no metro que parou, na chuva, no ar carrancudo da pessoa que passou, etc, etc, etc…. Mas esses momentos existem, e podemos vê-los quando começamos a ver.

Encontrados estes pequenos momentos de gratidão, chega o mais difícil. Porque descobertos estes momentos, é fácil ser grata(o) por eles.

Mas e ser grata(o) aos maus momentos, às dificuldades, àquelas alturas em que parece que a vida nos atira para o chão e nos dá uma valente paulada… Por esses momentos, e pelas pessoas que os possam ter protagonizado, é muito difícil sentir gratidão. Não é, de todo, esse o primeiro sentimento que assalta quando as recordações vêm.

Mas porquê sentir gratidão pelo que de mau nos acontece? Porque “aquilo” nos ensinou algo. Por vezes é difícil perceber o que foi, mas se formos ao fundo do tema, conseguimos perceber. Conseguimos perceber quem éramos naquela altura e quem somos depois que ultrapassámos aquele mau momento. E na diferença entre essas duas “pessoas”, percebemos no que foi que evoluímos e no que foi que mudámos e o que aprendemos. Em quê somos melhores pessoas e mais leves e mais felizes.

E porque precisámos passar por uma situação má para aprender, perguntam vocês?

E conseguiriam ter mudado e aprendido se a vida não vos tivesse dado esse apertão, pergunto eu?

Por outro lado, se não vêm diferença alguma, pode acontecer que realmente nada tenha mudado. Também pode acontecer que a mudança vos tenha tornado pessoas mais fechadas, mais amargas e mais infelizes. Quando uma dessas coisas acontece – acredito eu – a vida volta e volta, e continua a dar-nos a mesma paulada até que tenhamos aprendido o que precisamos. A vida é um professor que nunca desiste dos seus alunos.

E com estes pensamentos, aqui estou, à beira deste fim de ciclo(s). Pronta para cometer novos erros e levar novas lições da vida, certamente. Mas também pronta e decidida a deixar para trás os antigos erros e para guardar as lições aprendidas.

E expectante quanto ao que os novos inícios me reservam.

E venham bons feelings! 😉

© Isa Lisboa

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Memórias de Natal

Costumava ir com a minha mãe cortar um pinheirinho para o Natal, e depois apanhar musgo para fazer o presépio. Inevitavelmente voltava destas aventuras com a roupa um pouco molhada e com as mãos impregnadas de terra e resina. Mas com o meu sorriso de criança bem aberto.

Seguia-se a colocação da árvore no sítio mais bem escolhido. As luzes, as fitas de Natal com muitas cores, bolas e sinos brilhantes, uma estrela de papelão colorido.

Depois, espalhava o musgo pelo chão, juntava os pedaços num puzzle perfeito. Precisava de um manto verde extenso, o espaço parecia ser sempre curto para colocar todos os participantes do presépio. A cabana onde colocava o berço, com uma estrutura improvisada cada ano, e coberta com os pedaços de musgo mais bonito. Aos Reis Magos, juntavam-se o pastor, com as suas ovelhas brancas, o pescador ao lado de uma ponte… e se existia uma ponte, era preciso retirar um pedaço de musgo para transformar um simples plástico azul ou um velho espelho num rio. Ao fundo, o castelo, que estava num monte, também ele construído com o que existia à mão, e coberto por musgo, mantendo o efeito. A ligar estas personagens, umas mais improváveis que outras, um caminho de neve, inventado com produtos da despensa lá de casa.

As prendas aconchegavam-se ao lado da árvore. Sentia uma imensa curiosidade infantil que me levava a pegar nas prendas, sentir o formato, abaná-las. Tentava perceber o que se escondia dentro do papel de fantasia, mas nunca abria as prendas antes do tempo. Gostava da antecipação, deste pequeno jogo de adivinhação.

Lembro-me bem deste pequeno combate que travava com a minha curiosidade, com a vontade de descobrir o mistério. E do cheiro a terra molhada, não o cheiro a terra molhada do verão, a terra molhada que vinha agarrado ao musgo e o cheiro a pinhal que ficava na minha sala. Tudo isso dava mais brilho ao conjunto.

Lembro-me do aroma dos fritos de abóbora, a minha missão em criança era a de adoçá-los com canela e açúcar, que misturava meticulosamente, procurando a dose certa de cada um. E lembro-me do cheiro do café,  que ainda não podia provar. Anos depois, apenas gostava daquele café com os doces de Natal.

São estas recordações que ainda me fazem gostar tanto do Natal, ainda que já use menos fitas e que o meu presépio seja agora mais pequeno. Mas só os acessórios de Natal diminuíram. Continuo a enfeitar o cantinho da minha sala – agora no meu apartamento da cidade – com o mesmo sorriso de antes, com a mesma ansiedade para ligar as luzes e vê-las a piscar, a mostrar que o Natal vem aí. Continuo a misturar a canela com o açúcar…

É talvez a lembrança da Felicidade pura de quando somos crianças. Mas também a Felicidade que ainda consigo ver nos adultos nesta altura.

É uma altura em que as pessoas são mais solidárias, mais disponíveis para estar um pouco com os outros. Dizem alguns que nesta altura todos fazem num mês o que deviam fazer durante todo o ano, e que é uma época de consumismo. Sim, isso também é verdade, mas ainda vejo o espírito verdadeiro de Natal em algumas pessoas. Ainda existem pessoas que sabem que um abraço, um sorriso, uma mão, um ombro, uma palavra simpática, valem infinitamente mais que um presente embrulhado. E é isso que faz o Natal e é por isso que gosto genuinamente desta altura do ano.

E em cada noite de Natal, mesmo agora já crescida, consigo por um momento lembrar-me daquela criança loira, sentada no chão, a olhar para as luzes de Natal a piscar, simplesmente e apenas feliz.

Deixo aqui o meu simples desejo de Natal: que nos lembremos de como uma pequena luzinha nos pode fazer felizes, nem que seja apenas por uma noite.

© Isa Lisboa

Texto publicado originalmente no blog “Os dias em que olho o mundo”

Larga a pedra

“São horas de largar a pedra.” – li logo pela manhã.

De imediato me lembrei de um exercício proposto no “Livro do Perdão”, de Desdmond Tutu. Esse exercício propunha-nos que durante um certo período de tempo (talvez um mês, não sei precisar) fechássemos uma pedra na mão e andássemos com ela para todo o lado e fizéssemos o que fizéssemos.

Não levei efectivamente o exercício da teoria à prática, mas imaginei-me a pegar na tal pedra e andar com ela por aí. Para tomar banho, vestir, tomar o pequeno-almoço. Conduzir, apanhar o metro, ligar o computador no trabalho, trabalhar, atender o telefone, voltar para casa, fazer o jantar, continuar a segurar a pedra nas horas de lazer e, finalmente, adormecer com ela.

Não seria mesma nada agradável! E, para além disso, certamente que os nossos movimentos habituais ficariam bastante condicionados; não seriam, certamente, executados com a mesma eficiência, com a mesma rapidez ou com o mesmo prazer. E tudo por causa de uma pequena pedra.

Como talvez já tenham percebido, neste exercício, a pedra representa as nossas mágoas e ressentimentos. Aquelas que carregamos todos os dias connosco, até aonde quer que vamos. E que carregamos no nosso coração. Todos os dias, já sem questionarmos a presença delas ali. Ou o seu efeito.

E tal como a pedra, esses sentimentos pesados condicionam o nosso dia-a-dia, o que fazemos, o que dizemos, como o fazemos e dizemos. Acima de tudo, condicionam a nossa felicidade. E quanto maior a pedra, mais pesada também a nossa vida se torna. Como se, constantemente, empurrássemos um enorme pedregulho encosta acima.

E quanto mais nos agarramos à pedra, maior ela se torna, alimentada pelos nossos próprios pensamentos. E mais íngreme se torna a caminhada.

Não tenho dúvidas sobre os benefícios do exercício do perdão. E também não tenho dúvidas sobre a dificuldade do exercício.

Mesmo quando queremos largar a pedra e sabemos que podemos ser muito mais felizes sem aquele peso; a verdade é que não é fácil deixar ir.

A parte de nós que foi magoada sente-se traída. Sente que, ao perdoar, está a dizer que tudo o que se passou estava bem.

Pois eu digo: não estava bem. Sentiste-te magoada(o) com uma palavra, uma atitude, uma situação? Então olha essa memória de frente e reconhece cada uma das emoções que sentiste. Chama-as pelos nomes, sem brandura, tudo nu e cru. Humilhação, vergonha, diminuição, desilusão. Todos esses e outros palavrões são permitidos. Olha. De frente. Tudo. O que sentiste.

Vou dar-te um aviso justo: este exercício é ainda mais difícil do que o da pedra na mão. Porque vais reviver tudo. E vais reviver com todas as camadas que já puseste em cima para tentares encarar tudo de forma diferente. Tudo o que puseste em cima para tentares esquecer, vai começar a cair. E já não vais mais conseguir disfarçar a mágoa, a raiva. Já não vais conseguir dizer “Não foi nada, já passou!”

Vai ser duro.

E vai ficar mais duro ainda: vais olhar para ti mesma(o) e vais perceber que tu também estavas lá. Vais perguntar-te como pudeste permitir que alguém te tratasse daquela forma. É nessa altura que vais perceber que carregas duas pedras na mão. E que uma delas és tu. Vais perceber que precisas perdoar-te a ti mesma(o).

Essa é a pedra mais difícil de largar.

Talvez nessa altura já terás começado a entender que as atitudes do “outro” tiveram uma causa, que foram o reflexo daquilo que a pessoa sentia em relação a si própria. Mas e então as minhas acções? O que a minha própria atitude diz de mim?

Posso dizer-vos que já fiz este caminho, que ainda o estou a fazer relativamente a algumas situações. E não posso garantir que não tenha que o fazer novamente. Também vos posso dizer – como já disse – que não é fácil. Mas tenho feito este caminho. Como consegui perdoar-me a mim mesma? Repetindo várias vezes a máxima “Apenas podes fazer o melhor que consegues, com aquilo que tens no momento e com aquilo que sabes.”

Se ainda não consegui livrar-me de todos os pesos, é apenas porque ainda estou no processo. Estou a trabalhar. E vou largar a pedra. E vou ficar mais leve.

E tu, que estás a ler, e entendeste cada palavra do que escrevi – tu também vais ficar mais leve.

 © Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado

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A vida é feita, todos os dias, de escolhas e decisões. Todos os dias escolhemos a roupa que vestimos, o caminho a tomar para o trabalho, o que tomar às refeições, etc, etc

Se a um nível tão curriqueiro, muitas são as escolhas que se nos apresentam, mais são as decisões que temos que tomar ao longo da vida.

Em cada ciclo em que nos vemos, somos convidados a reavaliar o nosso caminho, se há que nos mantermos  neste ou arrancar para outro.

E ainda, quando temos um Caminho à frente e sabemos que é o certo, ainda há que escolher os sapatos certos para a caminhada.

E esses são sempre os que sejam o nosso número, confortáveis, que nos possam levar na caminhada com um andar leve, sem apertões e sem mais cansaços além das pernas.

E, se possível, um par de sapatos com aquele toque, aquele diferente, que reflecte a nossa personalidade. Como os sapatos vermelhos da Dorothy, por exemplo!

© Isa Lisboa

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Mensagens do passado

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“No outro dia cruzei-me com o passado…”

Alguns completariam esta frase com algo como “e ele não me disse nada de novo!”. Outros talvez a completassem com palavras de saudade, outros de dor e outros com a nostalgia do bom e velho “Oh, tempo, volta para trás!”

Pessoalmente, já tive os meus momentos de debate com o passado, alguns foram debates acesos. Talvez deva chamar-lhes briga. A briga não era com o passado, era comigo mesma. Como se o passado fosse uma pessoa. E por vezes era. Uma pessoa. Pessoas. Momentos. Emoções complicadas, baralhadas, que eu ainda não conseguia ver em toda a sua profundidade. Que eu não sabia como sentir.

Aos poucos, comecei a substituir as brigas por conversas. Nem sempre chegavam ao fim. Nem sempre nos entendíamos, eu e essa pessoa que me falava em forma de passado. Mas lá nos fomos ouvindo uma à outra. Percebi quem ela era, o porquê das suas palavras, fui puxando um fio após o outro e com eles fiz uma nova tapeçaria.

Não são conversas que se esgotam, continuamos a conversar. Essa ela do passado ajuda-me ainda a compreender o meu presente. Ajuda-me a preparar um futuro diferente.

Mas também me lembra de todas as vitórias e de todas as alegrias. Porque também as tenho. Tantas. Cada uma tão especial. Um diamante que prendo à tal tapeçaria. Um diamante a reflectir a luz.

É uma tapeçaria redonda, esta do passado. Um círculo desenhado sem compasso, mas, para mim, perfeito. Os ciclos que se repetem, apenas para que deixemos por aquela curva quem já não somos, o que já não nos serve. Ou para percebermos que já deixámos. Apenas uma mensagem a lembrar-nos que somos capazes.

Mas nem sempre é fácil entender o que o passado tem para nos dizer. Pode ser um aviso. Para não repetirmos os mesmos erros. Ou pode ser um teste que colocamos a nós mesmos: será que deixei de vez o passado e consigo passar à frente sem olhar para ele?

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas a nós próprios, em cada nova situação da vida. Pelo menos enquanto procurarmos percorrer um caminho que nos faça avançar.

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas, mas, certamente, começaremos a dar-lhes respostas cada vez mais seguras e rápidas.

Porque a resposta nunca é a mesma. Ela depende da aprendizagem que se nos apresenta. E é difícil, por vezes perceber a resposta certa. Mas ao mesmo tempo é muito simples. Perguntem ao coração. Ele sabe sempre.

© Isa Lisboa