Vem aí mais uma passagem

Aproxima-se mais uma passagem de ano. Muitos deverão estar a preparar a festa e muitos, também, estarão a preparar os seus rituais de passagem de ano.

Eu também costumo fazer alguns pequenos rituais, alguns por ter adoptado tradições, outros por os ter começado a criar por mim e para mim mesma.

Um dos rituais é uma auto-reflexão sobre o ano que passou, sobre o que aprendi e sobre como cresci enquanto pessoa, nos vários aspectos da vida. Também essas reflexões costumam vir acompanhadas de uma espécie de resoluções de ano novo, em que me propunha objectivos. Objectivos não apenas do mundo material, mas também objectivos emocionais e espirituais.

Suspeito que hei-de retomar estes rituais, mas agora, neste exacto momento em que escrevo estas palavras, não me apetece. Não me apetece fazer balanços, nem objectivos, nem contar badaladas.

Apetece-me apenas aproveitar este tempo de pausa, ver a lareira a crepitar e ouvir o vento do Inverno. Apetece-me apenas ficar a ver o ano 2018 a despedir-se com um sorriso e 2019 a chegar com outro sorriso.

“All is yet to come”. O futuro está sempre à espera de acontecer.

Vem.

© Isa Lisboa

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Carta do Pai Natal

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Este texto foi escrito originalmente para o blog Tubo de Ensaio, e descreve uma carta que o Pai Natal poderia escrever-nos!

Oh, Oh, Oh!
Olá, meninos adultos!!
Lembram-se de mim? Não, não estou a falar da figura no centro comercial, ou nos filmes de Hollywood ou impressa nos papéis de embrulho para o Natal…
Pergunto se se lembram de mim, o pai Natal, aquele a quem escreviam cartas a pedir um presente, o que estacionava o trenó no telhado e descia pela chaminé abaixo. O velhinho das barbas, eu mesmo!
Eu sei que alguns de vocês se lembram de mim. Vocês, que sorriem quando vêm as luzes de Natal a acenderem-se. E vocês, que voltam a ser crianças quando fazem a árvore de Natal e enquanto escolhem os enfeites. E vocês, que ao oferecerem presentes no Natal, sentem aquele calor no coração, igual ao que eu sinto na noite de Natal.
A vocês, eu poderia escrever, mas eu sei que vocês sabem que eu vos visito todos os Natais, e que vos deixo algo para afagar esse espírito que têm no coração. E vocês sabem também que estão dentro do meu coração.
Na realidade, esta carta é para os meninos adultos que já não se lembram de mim e, especialmente, para aqueles que nunca me escreveram.
Talvez alguns de vocês já se achem grandes demais para acreditar no Pai Natal e por isso não queiram perder tempo com todas essas coisas.
Bom, confesso-vos que isso me deixa um bocadinho triste… Porque o vosso lado criança é uma das melhores coisas que existem dentro de vocês. Não se lembram como eram felizes quando podiam ir brincar ou quando acreditavam que criaturas mágicas se escondiam no vosso jardim ou no vosso quarto? Lembram-se do que sentiam no Natal quando ouviam o “Oh, Oh, Oh”? Bem sei que agora há a azáfama toda, a correria para comprar todas as prendas antes do dia 24 – algumas no dia 24 – a preocupação a olhar para o extrato do Multibanco antes de ir comprar a seguinte. E depois, ainda falta comprar a comida para a ceia de Natal e preparar tudo. E, e, e…
E se parássemos só por um bocadinho? Pergunta-te: porquê toda essa preocupação? Não podes comprar o presente caro que querias? A pessoa a quem ias comprar vai ficar triste? Tu ficarás triste? Porquê? Já te perguntaste? Experimenta, pelo menos este ano, uma coisinha: compra o presente que podes comprar, mas compra algo que sabes que a outra pessoa vai gostar. Pode até ser algo simples. Se não puderes comprar, faz-lhe algo. Aposto que vai ser uma prenda ainda mais especial.
E, acima de tudo, não te esqueças do mais importante de tudo: ao ofereceres o presente, acompanha-o de um abraço sincero, sentido.
Se não puderes comprar ou fazer mais nada, esse pode até ser o único presente. Pode parecer-te pouco. À outra pessoa pode também parecer pouco a princípio. Mas… e se eu disser que esse presente irá deixar uma marca mais duradoura que qualquer um que possas embrulhar? Parece-te estranho, eu sei. Mas porque não tentas? Mas tenta de coração aberto, de outra forma não me darás oportunidade de mostrar que tenho razão.
Peço-te apenas um pequeno acto de fé. E nem é em mim, é em ti.
Depois me dirás… Ou não digas, se não o quiseres. Guarda o que sentires para ti. Mas depois não te esqueças desse pequeno fogo que te aqueceu o coração. E busca-o no resto do ano. Chama-o tantas vezes quantas as que quiseres e conseguires…!
Talvez no próximo ano já acreditem um pouco mais em mim. Ou talvez não. Mas eu ficarei feliz se já acreditarem um pouco mais em vocês!
Vou aproveitar ainda esta carta para falar também com outros meninos-adultos. Aqueles que não gostam das prendas que recebem e que, por isso, já desistiram de mim.
Entendo que às vezes seja frustrante pedir uma coisa e receber outra. Mas, sabem, eu gosto de dar prendas úteis. Úteis no sentido de ajudarem a conseguir algo – que devem sempre ser vocês a conseguir – ou no sentido de vos ensinarem algo.
Sei que não é assim que se entendem alguns presentes, à primeira vista. Mas agora que leram esta revelação, digam-me lá se, olhando para trás, não receberam presentes que traziam estas benesses atrás?
É esse o meu desafio: da próxima vez que receberem algo de que não gostem tanto, perguntem a vós mesmos o que pode aquele presente ensinar-vos ou trazer de bom, ao fim de um tempo!
E, finalmente, ainda há quem, por vezes, receba o famoso pedaço de carvão. Pois é, parece um presente pequeno, inútil e sem graça. Ainda por cima é associado aos meninos que se portam mal. Mas eu tenho a dizer-vos que não é essa a intenção. Eu não quero castigar-vos. O pedaço de carvão é apenas uma mensagem… Se um pedaço de carvão está apagado e sem vida, também é verdade que ainda não é cinza. E que com um pedaço de calor e um pouco de fogo, voltará finalmente à vida e ele próprio a produzir fogo e calor. E assim são também vocês. Assim somos todos nós, com o potencial de sermos chama viva. É esse o desafio que vos deixo, caso encontrem um pedaço de carvão no sapatinho: que o reavivem com a vossa luz. E não me digam que não a têm, porque têm! Pode até estar diminuída e mal se ver, mas não está extinta. E basta um pequeno sopro para que ela se reavive.
E isto vale para todos vocês, meninos-adultos. Mesmo para os que não receberam carvão. Nunca se esqueçam da vossa luz!
E para que ela se fortaleça, já acendi a luz do Natal e mando-a para todos, para que ilumine o vosso coração e lá viva durante todo o ano!
Feliz Natal!

S. Nicolau

© Isa Lisboa

Quem ganhou a discussão?

Há algum tempo, numa loja, presenciei uma discussão entre mãe e filha. Estava na caixa e no balcão elas tinham dois vasos de flores. Quando a funcionária da loja passou o código de barras, aperceberam-se de que o preço das plantas era diferente. De imediato, a mulher mais nova reclamou. A funcionária da loja explicou que uma das plantas era, efectivamente mais cara, e que até poderiam confirmar, pois as plantas estavam expostas na caixa ao lado.

“Então não levamos!” – respondeu logo a primeira. Mas a mãe reagiu de imediato, pegando logo no vaso e dizendo “Não, não, mas eu quero levar esta planta, porque gosto dela.”

A discussão teve mais algumas trocas de palavras, em que a filha opinava que era uma estupidez levar uma planta tão cara, e a mãe opinava que ia levar na mesma.

Fiquei um pouco a observar esta troca de palavras e a pensar o quanto aquela discussão não tinha nada a ver com a planta propriamente dita.

Pareceu-me antes ser uma disfarçada luta de poder, uma luta para ter razão e impor a sua própria opinião.

Talvez a mãe não gostasse assim tanto da planta e noutras circunstâncias não a levasse. Talvez a filha não achasse o preço assim tão elevado e noutras circunstâncias até a comprasse para a mãe.

Talvez. Não posso saber. Mas o que acredito é que, naquele momento, o Orgulho foi quem ganhou a discussão.

© Isa Lisboa

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“És feito daquilo que amas!”

“És feito daquilo que amas!”

Esta frase “entrou-me pelos olhos adentro” enquanto conduzia numa rua de Lisboa. Estava escrita num outdoor, era um slogan publicitário sobre a cidade.

À parte a publicidade, a frase chamou-me a atenção, pela sua verdade simples e abrangente.

Por um lado tudo aquilo que amamos, acaba por nos ajudar a definirmo-nos. Mas também, e principalmente, aquilo que amamos é o que nos faz viver uma vida plena, é o que nos faz levantar da cama e adormecer à noite em paz.

Ter na nossa vida algo que nos apaixona, algo que nos entusiasma, que faz sentir aquela pequena ou grande adrenalina, é algo que para mim é essencial.

Nem sempre conseguimos dedicar-nos a esse amor tanto quanto queremos, os desafios diários parecem uma constante interminável.

Mas se esquecermos essa parte de nós – a que se entusiasma, a que vibra, a que quer fazer, avançar, criar – aí criamos mais tempo. Mas criamos mais tempo para outros desafios diários, para mais stress. Stress não é apenas ter muitas coisas para fazer. É, acima de tudo, ter que as fazer sem prazer, por obrigação, porque alguém nos está a pressionar ou porque nós próprios nos estamos a pressionar. E tudo isso só nos suga a energia. Só nos vai subtraindo, um pouco a cada dia.

Por isso é tão importante que encontres – e faças – espaço para aquilo que mais amas.

Porque aquilo que amas é quem tu és.

© Isa Lisboa

O ciclo do grito

O ciclo do grito é algo de que ouvi falar numa série de comédia – “How I met your mother”.

Revi este episódio específico há pouco tempo e tive vontade de escrever sobre este fenómeno que já observei na vida real.

Diz-se que a ficção imita a vida real. Neste caso, em que o meio usado é a comédia, a mensagem, a meu ver, passa de forma mais eficaz… Mas desvio-me do assunto.

Neste episódio, umas das personagens lida, ou tenta lidar sem sucesso, com a prepotência do seu chefe que constantemente grita com ele. Outra das personagens, o seu amigo Barney, fala-lhe do ciclo do grito. Diz-lhe que quando uma pessoa grita com outra, a segunda pessoa deverá depois ir gritar com outra, como forma de se libertar da frustração e assim por diante.

E durante a maior parte do episódio, Barney tenta convencer o amigo Marshal a fazer parte desse ciclo do grito, o que o amigo não queria fazer. Quando o tenta – sendo uma comédia – os resultados são o oposto do esperado. Porque a pessoa com ele gritou, um empregado de restaurante onde jantam, já cansado de tantos clientes mal-humorados e prepotentes, grita com ele.

Na primeira vez em que vi este episódio, pensei em duas coisas: uma que o ciclo do grito é bem real, que muitas pessoas entram neste ciclo, de forma consciente ou inconsciente.

Ouvem gritos do patrão, engolem a injustiça. Ou ouvem gritos de uma pessoa próxima e preferem não levantar ondas. Mas depois ao chegarem a casa, gritam com a família, ou então chegam ao trabalho e descarregam em quem podem.

A outra coisa em que pensei é se o ciclo será sempre um círculo fechado ou se, como naquele episódio, há sempre alguém que escolhe não perpetuar este ciclo vicioso. Não gritando, mas também recebendo toda a frustração e raiva acumulada de quem gritou antes com a pessoa que gritou. E antes, e antes, e antes…

Bom, na verdade, pensei em três coisas. Também pensei que já me senti como o Marshal, a personagem que não queria fazer parte do ciclo do grito. Sabendo que não queria entrar nesse ciclo, mas, ao mesmo tempo, sem saber bem como lidar com os gritos.

E agora, na segunda vez que vi este episódio, percebi que como foi que, a pouco e pouco, fui fazendo essa aprendizagem.

Eu não queria gritar porque não queria dar a alguém algo que eu não gostava e que eu sentia que não fazia bem a ninguém. Mas, por outro lado, estava a aceitar que outras pessoas me dessem os seus gritos. E estava a aceitar parte do que esses gritos me diziam.

Foi por aí que comecei. A não aceitar, ou melhor, a declinar, as sensações que esses gritos meu causavam. A não deixar entrar na minha mente as coisas negativas que os gritos diziam sobre mim. A reconhecer o quanto daqueles gritos NÃO eram eu.

Ao responder, comecei a deixar de levantar a voz para me fazer ouvir. Passei antes a aumentar a segurança na voz ao defender-me. Ao dizer a minha verdade.

E, a pouco e pouco, percebi que isso era mais forte. E que diminuía os gritos à minha volta, porque diminuía o eco que os gritos faziam na minha mente.

Por isso, hoje em dia, sinto-me confortável com o meu lugar fora do ciclo do grito.

Sei que o que não quero receber e também estou tranquila com a minha decisão do que não quero dar.

© Isa Lisboa

Colheita

Os ciclos da natureza são bem conhecidos. Existe a época de semear, de crescer, de amadurecer, de colher e, finalmente, de descansar e regenerar. As quatro estações retratam estes ciclos, ainda que não sigam à risca o calendário gregoriano.

As plantas e o seu cultivo são um bom exemplo destes ciclos. E, na agricultura, sabe-se que cada planta tem a sua época de plantio. Mas existem algumas plantas que podem ser plantadas em mais que uma estação do ano.

Também nós, humanos, somos assim, como as plantas. Algumas coisas na nossa vida precisam esperar pela altura certa para serem plantadas. Mas outras há que podemos ir plantando, quando a terra e a temperatura se afiguram boas, ou seja, quando a oportunidade o pede.

Mas certo é que não devemos plantar na época do descanso. Nessa altura, o frio não permitirá que a semente germine. E o nosso cansaço poderá levar-nos a lançar a semente à terra, sem ver. Sem ver aonde lançamos a semente. E sem respeitar o espaço entre uma semente e outra. O espaço que irá permitir às plantas do futuro respirar, crescer e alargar.

A época de descanso é a época em que fazemos uma pausa. Para recuperar forças, mas acima de tudo, para recuperar da época da colheita. E precisamos deste intervalo quer a colheita tenha sido má, quer a colheita tenha sido boa. Precisamos deste intervalo quer seja para saborear os frutos, quer seja para lamber as feridas.

Certo é também que tens que plantar. Se não plantares, não colherás. Ficarás limitada aos frutos que aparecerem. Frutos de alguma semente perdida no vento, ou de alguma semente que alguém deixou para trás. E esses frutos matam a fome, mas não alimentam. E tu queres alimentar-te, não é? Não te chega matar a fome, calar o estômago. Queres trincar um fruto doce e sumarento, queres lambuzar-te. Queres comer aquele fruto de que gostas mesmo, descobri-lo como uma criança desfruta de um gelado.

É isso que queres colher? Então tens que plantar. Mãos à obra. Arregaça as mangas e começa. Tens que cuidar da terra, escolher as melhores sementes, tens que ir buscar água fresca para regar e fertilizante para ajudar.

E depois… tens que ter paciência. Algumas espécies de plantas começam a brotar rapidamente, mas por outras tens que saber esperar. Esperar que brotem, que cresçam, que deem flor e, finalmente, o fruto. E quantas vezes os primeiros frutos não são pequeninos, e apenas um ou dois? Algumas demoram a carregar de frutos. Mas se provares esse primeiro fruto, sentirás já o doce sabor, o néctar que tanto procuras.

Tens que ter paciência. Continuar a cuidar da tua árvore, regá-la, fertilizá-la, tirar-lhe as folhas mortas. Tens que a mimar, falar-lhe, dizer-lhe o quão importante ela é para ti. O quanto queres provar do seu fruto. O quanto lhe estás grata(o) por ela estar, neste momento, a fabricar os frutos que vais colher. Tu não vês, mas a seiva que circula no caule dessa árvore, vai ser um pedaço do fruto no futuro. Vai ser um fruto grande, sumarento, doce. O fruto que vais colher.

Tem paciência. Fertiliza. Rega. Planta.

Já plantaste hoje?

© Isa Lisboa

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Limpeza de Primavera (Republicação)

Apesar de já ser Outono, estou agora a terminar a minha limpeza de Primavera e além de limpar a casa, limpei também as minhas gavetas. E por isso, lembrei-me de dois textos publicados no meu antigo blog “Os dias em que olho o mundo“. Foram textos escritos e publicados em momentos diferentes, mas ambos falam sobre elas, as gavetas.

Limpeza de Primavera 

Limpeza de Primavera. É um ritual que tendemos a seguir todos os anos, com mais ou menos profundidade. Por vezes apenas mudamos a roupa de Inverno para o fundo dos armários e gavetas e trazemos para mais perto a roupa mais fresca.

Outras vezes, precisamos ir mais além e libertar espaço. Algumas roupas, papéis, acúmulos diversos, vão sendo tirados do sítio onde os deixámos esquecidos. Percebemos, quando lhes pegamos, que são roupas que já não nos servem, ou que já não dão bem connosco. Papéis que já não nos dizem nada e que já nem sabemos bem porque guardámos. Decidir que é hora de os deitar fora, nem sempre é fácil. Aquele item já não nos serve, mas serviu durante tanto tempo, será que é boa ideia deitar fora? E se eu ainda vier a precisar dele? Agora não preciso, já não preciso há muito tempo, mas quem sabe, não é? E aquela camisola, é quentinha, já há muito tempo não a visto, mas é quentinha, aqueceu-me em alguns invernos, que desperdício parece deitá-la fora.

São dúvidas que assaltam as limpezas de primavera, mas quando decidimos deixar ir aquilo de que já não precisamos, descobrimos que os armários ficam mais leves. As gavetas já vão fechar mais facilmente e os armários já não nos parecerão atafulhados.

E, mais importante que isso, ficámos com espaço para coisas novas. Talvez agora possamos comprar um vestido novo, aquele que vimos na montra, mas que achámos “oh, já tenho tanta roupa!” E quando o formos experimentar, talvez até iremos descobrir que nos fica bem e que nos faz sentir ainda melhor vermo-nos com ele. Ou talvez decidamos apenas aproveitar por mais tempo o espaço agora livre.

Também assim é com o nosso coração, com a nossa alma. Quando percebemos que existem sentimentos, mágoas, hábitos, situações, enfim até pessoas, que nos prendem, demos o primeiro passo. Mas talvez alguns desses sentimentos ou situações sejam como aquela camisola que não sabíamos se devíamos deitar fora. Durante vários invernos vestiram-nos, aqueceram-nos, protegeram-nos até! Sentimos de alguma forma que estamos a ser ingratos, agora, querendo mandá-los embora. E eles parecem lembrar-nos de que precisámos tanto deles no passado. Agora não preciso, dizemos nós. Mas podes precisar de novo, és frágil, dizem eles.

Sejamos, no entanto, verdadeiros connosco: tal como a camisola, se já não somos felizes com eles, porquê mantê-los por perto? Seremos mesmo frágeis ou eram essas vozes que nos faziam frágeis? Não seriam essas vozes apenas analgésicos, que nos impediam de querermos arrumar o armário da nossa mente e do nosso coração?

Se reconhecemos que acumulámos “tralha” emocional, está agora na altura de a deixar ir. Sem amargura e sem olhar para trás. Não interessa a voz que diz que não conseguimos. Ela está apenas com medo. Por isso se debate. Porque sabe que agora estamos mais fortes, depois de a termos reconhecido e de termos percebido o quanto dela não somos nós.

Vamos deixar ir tudo o que já não precisamos. Ficaremos mais leves. Mais felizes. E pensem no espaço que ficará para o novo!

© Isa Lisboa

Sem sequer pensar…… (Republicação)

Apesar de já ser Outono, estou agora a terminar a minha limpeza de Primavera e além de limpar a casa, limpei também as minhas gavetas. E por isso, lembrei-me de dois textos publicados no meu antigo blog “Os dias em que olho o mundo“. Foram textos escritos e publicados em momentos diferentes, mas ambos falam sobre elas, as gavetas.

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Sem sequer pensar……

Metade da minha vida estava dentro de uma gaveta. Vi quando ia guardar lá mais um pedaço e a gaveta já não fechou. Fui amontoando pequenos vestígios, um a um, sem tempo para os arrumar no local devido.

Obrigou-me a parar. A gaveta ficou vazia e tudo nos seus lugares.

Mas sei que a gaveta não vai ficar sempre vazia. Mesmo sem me aperceber, vou abri-la muito rapidamente, sem sequer pensar, e vou esconder lá dentro tudo o que não tenho tempo de guardar.

Até não conseguir fechá-la novamente.