Limpeza de Primavera (Republicação)

Apesar de já ser Outono, estou agora a terminar a minha limpeza de Primavera e além de limpar a casa, limpei também as minhas gavetas. E por isso, lembrei-me de dois textos publicados no meu antigo blog “Os dias em que olho o mundo“. Foram textos escritos e publicados em momentos diferentes, mas ambos falam sobre elas, as gavetas.

Limpeza de Primavera 

Limpeza de Primavera. É um ritual que tendemos a seguir todos os anos, com mais ou menos profundidade. Por vezes apenas mudamos a roupa de Inverno para o fundo dos armários e gavetas e trazemos para mais perto a roupa mais fresca.

Outras vezes, precisamos ir mais além e libertar espaço. Algumas roupas, papéis, acúmulos diversos, vão sendo tirados do sítio onde os deixámos esquecidos. Percebemos, quando lhes pegamos, que são roupas que já não nos servem, ou que já não dão bem connosco. Papéis que já não nos dizem nada e que já nem sabemos bem porque guardámos. Decidir que é hora de os deitar fora, nem sempre é fácil. Aquele item já não nos serve, mas serviu durante tanto tempo, será que é boa ideia deitar fora? E se eu ainda vier a precisar dele? Agora não preciso, já não preciso há muito tempo, mas quem sabe, não é? E aquela camisola, é quentinha, já há muito tempo não a visto, mas é quentinha, aqueceu-me em alguns invernos, que desperdício parece deitá-la fora.

São dúvidas que assaltam as limpezas de primavera, mas quando decidimos deixar ir aquilo de que já não precisamos, descobrimos que os armários ficam mais leves. As gavetas já vão fechar mais facilmente e os armários já não nos parecerão atafulhados.

E, mais importante que isso, ficámos com espaço para coisas novas. Talvez agora possamos comprar um vestido novo, aquele que vimos na montra, mas que achámos “oh, já tenho tanta roupa!” E quando o formos experimentar, talvez até iremos descobrir que nos fica bem e que nos faz sentir ainda melhor vermo-nos com ele. Ou talvez decidamos apenas aproveitar por mais tempo o espaço agora livre.

Também assim é com o nosso coração, com a nossa alma. Quando percebemos que existem sentimentos, mágoas, hábitos, situações, enfim até pessoas, que nos prendem, demos o primeiro passo. Mas talvez alguns desses sentimentos ou situações sejam como aquela camisola que não sabíamos se devíamos deitar fora. Durante vários invernos vestiram-nos, aqueceram-nos, protegeram-nos até! Sentimos de alguma forma que estamos a ser ingratos, agora, querendo mandá-los embora. E eles parecem lembrar-nos de que precisámos tanto deles no passado. Agora não preciso, dizemos nós. Mas podes precisar de novo, és frágil, dizem eles.

Sejamos, no entanto, verdadeiros connosco: tal como a camisola, se já não somos felizes com eles, porquê mantê-los por perto? Seremos mesmo frágeis ou eram essas vozes que nos faziam frágeis? Não seriam essas vozes apenas analgésicos, que nos impediam de querermos arrumar o armário da nossa mente e do nosso coração?

Se reconhecemos que acumulámos “tralha” emocional, está agora na altura de a deixar ir. Sem amargura e sem olhar para trás. Não interessa a voz que diz que não conseguimos. Ela está apenas com medo. Por isso se debate. Porque sabe que agora estamos mais fortes, depois de a termos reconhecido e de termos percebido o quanto dela não somos nós.

Vamos deixar ir tudo o que já não precisamos. Ficaremos mais leves. Mais felizes. E pensem no espaço que ficará para o novo!

© Isa Lisboa

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Sem sequer pensar…… (Republicação)

Apesar de já ser Outono, estou agora a terminar a minha limpeza de Primavera e além de limpar a casa, limpei também as minhas gavetas. E por isso, lembrei-me de dois textos publicados no meu antigo blog “Os dias em que olho o mundo“. Foram textos escritos e publicados em momentos diferentes, mas ambos falam sobre elas, as gavetas.

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Sem sequer pensar……

Metade da minha vida estava dentro de uma gaveta. Vi quando ia guardar lá mais um pedaço e a gaveta já não fechou. Fui amontoando pequenos vestígios, um a um, sem tempo para os arrumar no local devido.

Obrigou-me a parar. A gaveta ficou vazia e tudo nos seus lugares.

Mas sei que a gaveta não vai ficar sempre vazia. Mesmo sem me aperceber, vou abri-la muito rapidamente, sem sequer pensar, e vou esconder lá dentro tudo o que não tenho tempo de guardar.

Até não conseguir fechá-la novamente.

Raízes

Há dias decidi mudar de vaso uma das plantas da minha varanda. Era uma tarefa que tinha vindo a adiar… O vaso estava já meio partido, já há algum tempo que a terra daquela planta não era trocada. Precisava mesmo do transplante. Mas a planta continuava a aparentar estar bem, continuava verde, parecia saudável. Não me parecia urgente.

Mas ao libertá-la finalmente daquele vaso, vi que que a sua base se tinha tornado num vaso de raízes. Pesadas. Apertando-se umas às outras. Pareciam sufocar a própria terra, a tal ponto que parecia não haver espaço para ela. E algumas das raízes estavam secas e sem vida. Puxei-as, e algumas cederam com facilidade. Assim encontrei também espaço para retirar a terra que envolviam.

Neste momento, a planta já está num vaso novo, com terra nova. E, parece-me a mim, mais feliz e mais saudável. Com as raízes que estavam saudáveis. Que parecem estar a fincar-se bem à terra. Pelo sim, pelo não, vou dando uma vista de olhos mais atenta nos próximos tempos.

E, enquanto isso, parti o meu próprio vaso e ando à procura das raízes que já não são minhas e que já não levam a seiva. Depois é só ter força para as arrancar.

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 Este texto foi escrito em Maio de 2014 e foi publicado originalmente no meu blog Os dias em que olho o mundo. A planta que na altura transplantei continua, feliz e viçosa, no seu novo vaso.

E eu, ao longo deste tempo encontrei algumas das tais raízes que já não eram minhas. Que já não me alimentavam. Que apenas me estavam a prender a lugares, pessoas, recordações e emoções que já não eram minhas. Algumas não tive dificuldade em cortar. Aceitei rapidamente que um dia tinha precisado delas, mas que já não faziam parte de mim.

Quanto a outras ainda, o processo foi doloroso. Realmente precisei de força para as arrancar. Foi preciso olhar bem para elas, entendê-las bem, perceber porque se tinham ali formado. Libertar-me da culpa de as ter deixado sufocar as outras raízes. Essas, as mais fundas, as que tinham deixado mais marcas, não queriam sair. Resistiram. E eu também resisti. Pode parecer contraditório dizer que tive dificuldade em me libertar de coisas de que já não precisava. Mas digo-vos mais: já não as queria. E ainda assim, não foi de um dia para o outro que as deixei ir.

Nesta jardinagem de mim mesma, entendi que as raízes gastas se estendem a locais que julgamos inacessíveis. E, aí presas, sussurram-nos palavras – umas vezes doces, outras vezes duras – que procuram prender-nos lá com elas. Aprendi que a dor tem medo da solidão. Por isso nos alicia a ficarmos abraçados a ela, a nos deixarmos abraçar por ela. Mas que quando a olhamos nos olhos, sem medo, e entendemos porque ela está ali; é aí que ela perde toda a sua força.

Aprendi que precisamos ver algumas das nossas raízes cortadas, para crescer como realmente somos.

E que, tal como as plantas da minha varanda, precisamos jardinar a nossa alma com frequência. Alimentá-la, deixá-la ver a luz e não deixar que a terra sob os nossos pés não nos deixe abrir os ramos até onde queiramos ir.

 © Isa Lisboa

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Imagem: Pintrest

Para ler de coração aberto…

Esta história foi-me enviada por uma amiga, com a nota em título: “para ler de coração aberto”. E é apenas isso que vos peço também:

“Uma vez pediram a um peixe para falar do mar.

– Fala-nos do mar – disseram-lhe.

Dizem que é muito grande o mar, respondeu o peixe. Dizem que sem ele morreríamos.  Não sou o peixe mais indicado para vos falar do mar. Eu, do mar, o que conheço bem são só estes dez metros à superfície. É só deles que vos posso falar. É aqui que passo o meu tempo, quase sempre distraído. Ando de um lado para o outro, à procura de comida ou simplesmente às voltas com o meu cardume. No meu cardume não se fala do mar. Fala-se das algas, das rochas, das marés, dos peixes grandes e perigosos, dos peixes pequenos e saborosos e de que temperatura fará amanhã. O meu cardume é assim: eles vão e eu vou atrás deles.

.- Mas tu, que és peixe, nunca sentiste o mar?

.- Creio que o sinto, às vezes, ao passar-me nas guelras. Umas vezes sinto-o, outras não. Às vezes sinto-o, quando não me distraio com outras coisas. Fecho os olhos e fico a sentir o mar. Isto tudo de noite, claro, para que os outros não vejam. Diriam que sou louco por dar tempo ao mar.

.- Conheces o mar, portanto. Podes falar-nos do mar?

Sei que é grande e profundo, mas não vos quero enganar. Sei de peixes que já desceram ao fundo do mar. Quando os ouvi falar percebi que não conheço o mar. Perguntem-lhes a eles, que vos saberão falar do mar. Eu nunca desci muito fundo. Bem, talvez uma ou duas vezes… Um dia as ondas eram tão fortes que eu tive de me deixar levar muito fundo, para não morrer. Nunca lá tinha estado e nunca esquecerei que lá estive. Apenas vos sei falar bem da superfície do mar…

– Foi mau, quando desceste? Por que voltaste à superfície?

Não foi mau. Foi muito bom. Havia muita paz, muito silêncio. Era como se fosse lá a minha casa, como se ali eu estivesse inteiro.

– Por que não voltaste lá ao fundo? Por preguiça?

Às vezes acho que é preguiça, outras vezes acho que é medo.

– Medo? Mas tu não disseste que era bom? Medo de quê?

Medo do desconhecido, medo de me perder. Aqui à superfície já estou habituado. Adquiri um certo estatuto para mim mesmo. Controlo as coisas ou, pelo menos, tenho a sensação de as controlar. Lá em baixo não sei bem o que me pode acontecer. Estou todo nas mãos do mar.

– Tiveste medo, quando chegaste ao fundo do mar?

Não tive medo algum. Era tudo muito simples… E no entanto agora tenho medo… Mas eu não cheguei ao fundo do mar! Apenas estive menos à superfície.

– E que dizem os outros, os que lá estiveram?

Dizem coisas que eu não entendo. Dizem que é preciso ir para perceber. E dizem que nada há de mais importante na vida de um peixe.

– E explicaram como se vai?

Aí é que está. Explicam que não se chega lá por esforço, que só podemos fazer esforço em deixar-nos ir. Que é só o mar que nos leva ao mar.

Então veio uma corrente mais forte que o fazia descer. O peixe tentou lutar contra ela com quantas forças tinha, à medida que vida distanciarem-se as coisas da superfície. Talvez para sempre… Mas depois fechou os olhos, confiou e já sem medo deixou-se ir.”

in “O Principe e a Lavadeira”

Pe. Nuno Tovar de Lemos

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Mudar a folha

Fonte imagem: 1,000,000 Pictures

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Começou à pouco tempo a Primavera – aqui neste lado do mundo – e, a pouco e pouco, os dias começam a libertar-se dos ares invernosos. Também há dias se celebrou a Páscoa católica.

Por diversos motivos, este é um momento do ano que sempre me convida à reflexão e me trás ventos de renovação.

A renovação é uma palavra que, no primeiro momento, nos parece muito bonita. Associamos-lhe uma aura de esperança, de melhorias a acontecer na nossa vida. E isso, todos queremos, portanto, facilmente abrimos o sorriso perante a palavra.

Depois, lembramo-nos de que, para que haja renovação, tem que existir também mudança. E a mudança é uma palavra mais complicada, que já assusta um pouco. Podemos pensar que não, até quando conscientemente desejamos que alguma mudança aconteça.

Mas, lá bem atrás na nossa mente, o medo sempre reage. Mais ou menos intensamente, pelo menos naquele primeiro momento. É um medo natural, que nos faz questionar se a mudança é mesmo necessária e o porquê de querermos mudar.

Mas se quisermos a mudança pelas razões certas, há que vencer esse medo. E o que por vezes vem a seguir.

O medo do desconhecido. Quero mudar, mas, e se encontrar algo pior? E o que vou perder? Sim, porque ainda que haja razões para mudar, encontramos 8quase) sempre também razões para ficar. Nem que seja o conforto do que conhecemos. Do que podemos controlar.

É um conflito que pode parecer paradoxal. E talvez até o seja. Mas é um conflito real e que todos nós, mais ou menos vezes, já sentimos. É também um conflito que precisamos assumir e encarar.

Em todas as situações “escolha” iremos, inevitavelmente, perder algo. E algumas das coisas que perderemos são boas. Muito raramente na nossa vida uma situação tem apenas aspectos maus (assim como o contrário também é verdade). Precisamos pesar. Pesar o bom que podemos perder com o bom que podemos ganhar. E o mau que podemos encontrar versus aquele que já conhecemos.

A vida é feita de escolhas e consequências. Fazer umas e assumir as outras dá-nos Força. Ainda que venhamos a perceber que, afinal, a decisão foi errada, podemos sempre recomeçar. Quem sabe nos reinventemos no processo, e a tal má decisão nos mostre um caminho inesperado, mas tão certo?

Se ouvirmos o nosso silêncio, para lá do som das dúvidas e dos medos, sabemos que assim é. E também os nossos olhos saberão ver que à frente se abre caminho.

Mas este não é um caminho fácil de percorrer. Dar o primeiro passo sem ver o fim da estrada não é fácil.

Mas não é isso que as árvores fazem na Primavera? As novas folhas começam a surgir lenta e espontaneamente, confiando que irão surgir as flores e, mais tarde, os frutos. Talvez confiem até que o frio voltará e as fará cair de novo ao chão, como as suas antepassadas.

No entanto, a natureza sabe que os ciclos não podem parar, pois só assim ela vive. Deixando-se morrer, para renascer, em todo o seu esplendor.

E nós, vamos deixar cair aquela folha, aquela que está tanto a querer desprender-se do galho?

© Isa Lisboa