Quebrar ou Superar

broken-1391025_1920Imagem: http://www.pixabay.com

Naquele momento, instante, segundo – sentimos. Naquela fração de tempo antes de a corda partir – nós sentimos. Sentimos que a corda vai partir.

E depois que o fio se rompeu, cabe a nós escolher. Escolher se vamos quebrar ou se vamos superar.

Pode parecer que nem sempre temos escolha. Às vezes é muito difícil. Tudo te empurra para quebrar. As emoções fervem, o corpo dói e o espírito sente-se fraco.

Como podem pedir-te que subas uma montanha, depois de fazeres uma maratona? É quase cruel.

Mas o que importa é aquela pergunta crucial: queres estar aí; és feliz aí onde estás, a sentir-te como te sentes?

Não?

Então tens que superar. Tens que subir a montanha. Por muito que aches que vai custar. E vai mesmo. Vão doer-te músculos que não sabias que tinhas. A tua mente vai querer parar, poupar-te. É esse o primeiro instinto.

Mas não te esqueças do teu instinto de viver. De seres feliz. De seres plen@.

Tu sabes que queres chegar ao cimo da montanha.

Então põe-te a caminho! Um passo de cada vez.

 

© Isa Lisboa

2020: Onde estão os carros voadores?

É certo: Não estamos a viver um filme futurista do século passado. Nem skates que flutuam, chips por debaixo da pele, nem carros voadores.

Ainda assim, dizem, o futuro está a chegar. Dizem-no as casas inteligentes, as assistentes pessoais do telemóvel e robots com nome próprio e os primeiros carros sem condutor.

Quando eu nasci, a TV era a preto e branco e, quando eu queria mudar de canal, não tinha controlo remoto – precisava levantar-me e mudar o canal no aparelho. Um dos canais. Alguns anos depois, quando a TV já era a cores, vieram mais dois.

Houve um tempo em que eu via na TV os Jogos sem Fronteiras. Hoje, após a explosão da internet, o mundo tem cada vez menos fronteiras. Talvez as pessoas tenham descoberto novas fronteiras, especialmente entre pessoas. Também descobriram algumas nelas próprias, mas encontraram formas novas de as ultrapassar.

Também nesse tempo das minhas memórias, o telefone estava preso à parede e discávamos o número para onde ligar. Hoje, nós e os telemóveis estamos menos presos aos mesmos lugares. E ainda bem: viajar é preciso. Especialmente, é preciso viajar para fora de nós.

E hoje podemos viajar sem sair do lugar. O mundo (quase) todo está à distância de um clique. Também o está a sala de cinema ou uma refeição levada a casa. Habilidades do nosso smartphone. Smarts são também alguns watches. E os novos carros, já ligados ao phone, o smartphone.

Estão mais inteligentes, os carros. Mas ainda não voam. E por acaso acho isso uma pena, especialmente quando estou no meio de uma qualquer fila de trânsito.

É provável que também as haja no ar, quando os carros voarem. Sim, porque os carros ainda não voam, mas tudo indica que estão a ganhar asas. E tudo indica que sempre iremos querer ir a algum lugar.

Foi essa vontade de ir, de descobrir, que nos trouxe aqui. A este futuro sem carros voadores, mas com tantas coisas fantásticas!

Também com bastantes e novos desafios, é certo. Mas o vento que travou algumas caravelas, também empurrou outras para lá do Cabo Bojador.

Por isso, talvez eu ainda veja auto-estradas no céu e conduza um carro alado!

© Isa Lisboa

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Imagem: pixabay.com

Amendoim, o Esquilo

Amendoim gostava muito de comer amendoins. Os seus amigos gostavam de nozes, avelãs, bolotas e alguns gostavam de procurar cogumelos e sumarentas frutas.

No entanto, o nosso esquilo gostava de amendoins e sempre que podia degustava uma bela dose desta iguaria.

Mas um dia, o Esquilo – Mor reuniu toda a comunidade de esquilos e anunciou que a forma como se alimentavam precisava ser redefinida. De forma a optimizar os recursos, os alimentos mais difíceis de encontrar deixariam de fazer parte da dieta. Nessa lista, incluíam-se os amendoins.

O Amendoim ficou desolado! Como ia deixar de comer amendoins, se eram o seu alimento favorito? Até era esse o seu nome, como lhe podiam de repente negar este repasto?

Uma vez que não podia deixar de comer, lá foi buscando as suas doses de bolotas e nozes. Apesar de não lhe saberem tão bem como os amendoins, deu por si a comer mais e cada vez mais. Sentia-se culpado, afinal porque tinha aquela necessidade de comer todas aquelas bolotas? Comia até sentir o seu estômago bem forrado. Estranhamente, isso dava-lhe uma certa sensação de segurança, que nem sequer sabia explicar.

Um dia comeu tanto que ficou com dores de estômago. Alguma coisa tinha que mudar.

Amendoim não queria comer todas aquelas bolotas; nem sequer lhe sabiam assim tão bem! Não sabiam tão bem quanto os amendoins. Suspirou ao lembrar-se dos seus amendoins, do seu sabor, da sua textura e de como o seu estômago ficava feliz a comê-los.

Pensou que não se importaria de comer menos amendoins que bolotas, porque eram amendoins e por isso valia a pena. E, deste pensamento, foi um raio até outro: não se importava nada de ter mais trabalho para encontrar amendoins. O Esquilo – Mor queria optimizar recursos, mas o Amendoim podia optimizar os seus próprios recursos, não podia?

Entusiasmado, foi a correr encontrar um amigo seu que estava numa dieta privada de castanhas e contou-lhe a sua ideia.

O amigo fez um ar assustado: “Não, não, se o Esquilo – Mor diz que é assim que temos que fazer, é assim que temos que fazer. Precisamos de comida, devemos fazer o que ele diz.”

Amendoim explicou a sua proposta: iriam continuar a reunir a comida proposta pelo Esquilo – Mor mas, no seu tempo, iriam procurar a comida de que mais gostavam.

O amigo deu-lhe uma longa lista de contras, mas o Amendoim preferiu focar-se nos prós, lembrando-se do sabor dos amendoins.

Durante semanas, seguiu o seu plano. Tinha dias em que se sentia mais cansado, e em que quase se esquecia do porquê da sua luta. Ainda por cima, todos lhe diziam que era uma tolice continuar com tudo aquilo. Já lhe tinham encontrado uma forma de viver, para quê complicar?

Mas quando chegava à sua toca e podia degustar os seus amendoins, o pequeno esquilo sentia uma paz e alegria que não sabia verbalizar.

Agarrando-se a essa sensação, Amendoim continuou.

Um dia, ao observar humanos ao longe viu que eles lançavam coisas à terra e esperavam que elas crescessem.

Curioso, Amendoim observou e aprendeu.

E de tudo o que aprendeu, foi testando, errando, testando…

E assim, Amendoim, o Esquilo, se tornou no primeiro esquilo plantador de amendoins.

© Isa Lisboa

História escrita para a Ana Margarida, num Workshop de “Histórias e Metáforas Terapeuticas”.

Se quiserem ouvir-me a contar esta história, podem fazê-lo no YouTube, Instagramou https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fisa.lisboa.escritora%2Fvideos%2F775549386294751%2F&show_text=0&width=560” target=”_blank” rel=”noopener”>Facebook.


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A pequena fada das flores

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Imagem: pixabay.com

Era uma vez uma pequena fada, que vivia no Jardim das Orquídeas. A sua função nesse jardim era cuidar das plantas, regá-las, e deixá-las bonitas.  Sentia-se muito feliz ali, no Jardim das Orquídeas.

Um dia, andava a voar por ali perto e encontrou uma fada amiga. Ela vivia no Jardim das Rosas. Começou a falar-lhe da vida por lá e convidou-a a dar um passeio por entre as rosas.

A nossa pequena fada aceitou o convite e seguiu-a. Achou as rosas muito bonitas. Mas não eram tão bonitas quanto as suas orquídeas – pensou. As orquídeas eram bem mais exóticas, apesar de lhe parecer que era mais difícil cuidar delas que das rosas.

Meio imersa nestes pensamentos, sobressaltou-se com um conjunto de risadas e vozes familiares. Eram amigas suas que já não via há muito tempo. Conversaram até ao final do dia e foi muito bom! Enquanto voltava para casa, percebeu que tinha muitas saudades daquelas três amigas. Seria bom trabalharem no mesmo jardim e estarem mais tempo juntas.

No outro dia, voltando ao trabalho, tinha as suas orquídeas com muitas saudades dela e a precisar dos seus cuidados. E foi a isso que se dedicou durante todo o dia.

Quando chegou ao final do dia, percebeu que estava dividida entre Orquídeas e Rosas.

Não queria deixar as suas lindas flores, mas sentia falta das suas amigas.

Precisava de um conselho e, para isso, ninguém melhor que a Fada Azul. Voou até ela, ansiosa!

“Acalma-te, pequena fada.” – disse-lhe logo a anciã – “A tua mente está dividida, mas não é aí que encontrarás as respostas que procuras. As tuas respostas só podem ser ouvidas dentro do teu coração. É o teu coração que sabe qual é o teu verdadeiro lar.”

A pequena fada saiu a pensar naquelas palavras. Como ouvir o coração?

Decidiu ir até um lugar silencioso, onde estivesse sozinho, sem ninguém à volta, sem ninguém a opinar.

No início foi difícil ouvir-se, porque mesmo longe de tudo, continuava a ouvir barulho.

Mas depois de um tempo dedicada apenas a ela própria, a resposta ao seu dilema apareceu; clara como água, dentro de si.

© Isa Lisboa

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Imagem:pixabay.com

História escrita para a Ana Catarina, num Workshop de “Histórias e Metáforas Terapeuticas”.

E vocês, já passaram por um dilema semelhante? Em que têm dois caminhos à frente e, seja qual for que seguirem, há sempre algo a ganhar, mas também a perder? Conseguiram encontrar a solução dentro de vocês mesmos?

Se quiserem ouvir-me a contar esta história, podem fazê-lo no YouTube, Instagram ou Facebook.

Acendermo-nos uns aos outros

Pessoas-luz. Uma expressão que de vez em quando encontro, nos textos que leio.

É fácil perceber o que quer dizer. As pessoas que têm uma luz própria e que a partilham connosco, mesmo sem nós pedirmos. Pessoas que nos fazem sentir um pouco mais leves, que nos lembram de respirar e de largar por um pouco aquele momento carregado que lembramos.

Pessoas que sabem que uma vela não se gasta mais depressa por acender outra.

Desengane-se quem pensa que as pessoas-luz não têm escuridão dentro de si. Têm. São humanas também.

Também têm frustrações, pensamentos negativos. Também sentem raiva, também se sentem derrotadas. Por vezes. Todos sentimos isso, em algum momento da nossa vida. Em momentos. A escuridão também existe, a escuridão também é normal.

O que não é normal, o que não é saudável para nós, é que nos apeguemos a essa escuridão. Que nos agarremos a ela como se fosse a única forma de viver.

As pessoas luz procuram a luz. Porque sabem que não é fácil mantê-la. E que a escuridão tem um lado sedutor, que nos quer agarrar a ela quando a encontramos.

As pessoas luz não são iluminadas. Procuram manter-se iluminadas. Procuram repetidamente o que as acenda. Procuram acender os outros, e também quem as acenda.

Acendamo-nos uns nos outros e sejamos todos, cada um à sua maneira, pessoas-luz.

© Isa Lisboa

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Acender uma vela na escuridão

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Em tempos que falta a luz, resta-nos acender uma vela, para cortar um pouco da escuridão.  Para nos permitir ver que ainda há um caminho, mesmo que não seja tempo de caminhar.

Acender uma vela em nós mesmos pode revelar-se a tarefa mais difícil que encontramos. Mas só assim saberemos o tamanho da escuridão.

E a escuridão dá medo, lembrando quando éramos crianças e os monstros se escondiam, à noite, nos cantos mais escuros da casa.

Crescemos, e a escuridão passa para aqueles momentos da vida em que tudo parece impossível, irreal e surreal.

Mas na verdade, a escuridão é a perda da esperança e a perda da fé em nós mesmos.

E a escuridão é também a cegueira de não querermos olhar para nós mesmos e ver. Ver os passos que demos e nos levaram ali. Ou os passos que não demos agora para sair.

Porque é preciso muito mais coragem para aceitarmos a nossa quota-parte no nosso destino, do que o é para amaldiçoarmos a escuridão.

Aquele canto escuro, onde nos escondemos, enrolados sobre nós próprios, com pena de nós mesmos… Esse canto, é a verdadeira escuridão, a que escondemos dentro de nós.

E se nos apegarmos demasiado a esse canto, facilmente nos esquecemos de que a escuridão não existe sem a luz: antíteses complementares que se completam.

Basta um passo, basta lembrar, acreditar. Acreditar na luz que nunca se extingue. Mas também acreditar na escuridão que sempre a acompanha.

E, sobretudo, acreditar, lembrar, assumir, que a escolha entre uma e outra, é sempre e só, apenas tua. Em cada momento, em todos os momentos. Não escolhes só uma vez, porque a vida está sempre a pôr-te à prova.

A vida põe-te à prova para que possas reclamar um prémio: a tua essência, o teu ser mais puro, quem tu és. A vida põe-te à prova para que te descubras. E para que quando te encontres te possas reinventar. Hoje, amanhã, quando for.

O que vais escolher, agora?

© Isa Lisboa

Bookshelf – meu gato, meu guru

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Quem tem ou já teve gatos, vai identificar-se com cada um dos conselhos deste livro. Vocês, como eu, sabem que os gatos são grandes mestres, não é?

Quem nunca partilhou a casa com um gato, pode retirar também conselhos sábios deste livro. E, quem sabe, ficar com vontade de adoptar um gato! 

© Isa Lisboa

 

Para quem ficar com vontade de adoptar um gato, deixo o link para algumas instituições que cuidam de gatos abandonados e onde podem encontrar um animal.

Abrigo do gato

União Zoofila

Gatos da vila

O que ouves no silêncio?

“O silêncio é uma qualidade divina, que só é apreciada e compartilhada quando é tão real que você não precisa falar muito.”

Horácio Graça

Imagem: Horácio Graça

Talvez seja por isso que tememos tanto o silêncio, especialmente nestes tempos de comunicação instantânea. Talvez seja por isso também que tanto procuramos o silêncio.

Estamos cercados de várias formas de comunicação e cada vez comunicamos menos. É um cliché que convém ser repetido e repetido. Para que a comunicação não se torne uma recordação.

Algumas pessoas não conseguem estar ao pé de outra em silêncio. Sentem uma espécie de obrigação de dizer algo. Preencher os espaços vazios. Preencher o espaço de voz, assim como preenchemos um post de uma rede social com “likes” ou com comentários.

Mas se numa rede social a ausência de “som” é suspeita de que não és ouvido(a); quando estamos frente a frente, isso nem sempre é verdade.

Porque por vezes só precisamos ser ouvidos. Não precisamos necessariamente ouvir. Por vezes, o silêncio diz tudo. Diz “Estou aqui”. Diz “Eu compreendo”. Diz “Eu aceito”. Diz “Desabafa”.

É por isso que encontrar alguém com quem podemos compartilhar o silêncio é algo poderoso. Indeed, divino, até!

© Isa Lisboa

Poesia Dissolvida

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Imagem: http://www.pixabay.com

Caminho lentamente

Por esta casa,

Estas quatro paredes

Caminho lentamente

Conto os passos que ficaram

Me trouxeram aqui

Vejo como se desvanecem

No passado

Que já não sou

Já não quero

Não escrevo mais.

Deito-me no silêncio

O cansaço apodera-se

Calo os ecos, os gritos

As lágrimas.

As lágrimas voltam.

Às vezes voltam.

O chão está frio

E pergunta-me do presente

Que presente é este?

Escapo à realidade

Mas volto sempre

Finjo-me

Apenas.

Por momentos. Finjo-me.

Podia ser.

Mas agora estou aqui.

Não posso fingir sempre.

Também tem que doer.

O chão está frio

Mas é Aqui.

É Agora.

Sou. Sinto. Estou.

Levanto-me.

Caminho lentamente.

Para lá da porta que abri.

Caminho.

© Isa Lisboa

Imaginação de Einstein (E outras divagações)

“É mais importante ter imaginação do que conhecimento.”

Albert Einstein

Sem dúvida que o conhecimento é importante. Sem ele, o mundo não conheceria o progresso, as revoluções científicas.

Alguns argumentarão que, sem o conhecimento, ainda viveríamos em cavernas.

Mas também me parece que foi a imaginação que nos tirou de lá.

Devem ter existido mentes que imaginaram uma vida diferente da de sobrevivência diária. Uma vida diferente de caçar ou ser caçado.

E deve ter havido quem se atreveu a testar essa imagem imaginada. Essa vida utópica, que a tantos parecia impossível.

Essa coisa de “ser feliz” devia parecer ainda mais estranha no tempo das cavernas. Mais estranha do que é hoje.

Sim, porque ainda hoje nos sentimos tentados a acreditar que, ou caçamos ou somos caçados. Que ganhamos ou perdemos.

Mas ganhamos o quê? Que prémio é esse? Sabes qual é esse prémio pelo qual tanto lutas? Esse prémio em nome do qual te esqueces de ti, dos teus valores, dos teus desejos? Esse prémio em nome do qual passas por cima de todos os que são fracos (ou assim os julgas tu)? Sabes?

Quando corres, sabes para onde? Sabes se realmente vale a pena correr e se queres até correr? E se estiveres a correr só por habituação? Ou porque julgas que tens uma meta a cortar?

Pois é, essa coisa de ser feliz ainda parece meio estranha. E custa pôr o nariz de fora da caverna, não é?

Divago? Ah, imaginação a mais.

Dirão alguns. Dirão alguns, de lá de dentro da caverna.

© Isa Lisboa