Intermitências

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Sou eu

Mas já não sou

Quanto mudou

Nas intermitências

De esquecer

E de deixar ir…

Leve,

Sei que ainda há

A libertar.

Decidida

Tranquila.

De mim

Não mais abdicarei.

O que a mais habita

Não ficará

Passo a passo, a seu tempo

Se irá

Quando olhar para trás

Será mais um degrau

Da história que quem fui

Da escada que subi

Para chegar a quem sou.

© Isa Lisboa

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Dúvidas

Ainda sobre o tema da (Des)Crença, pergunto-me o papel da descrença.

Sou uma grande adepta do positivismo, do andar para a frente, esperando o melhor; e também (talvez principalmente) do pensar fora da caixa.

Olhar para além do óbvio, acreditar para além do que é racional, seguir o que o coração sente.

No entanto, também me questiono. Também paro para pensar se tomei a atitude correta, se estou a fazer o caminho certo, ou se devo mudar de direcção.

E também duvido de mim própria. Digo, no sentido de me questionar a mim mesma, se as minhas crenças ainda são verdadeiras, se respeito todos os meus valores, sobre as razões que me puxam e sobre as que me empurram.

Duvidar de nós mesmos é uma expressão com carga negativa. E, num sentido, é-o. É-o quando não acreditamos em nós, quando não acreditamos que conseguimos fazer algo, sentir algo, chegar a algum lado.

Mas duvidar de nós mesmos, no sentido de nos questionarmos, de fazermos uma auto avaliação sobre o nosso mundo interior… Essa dúvida, que é, na realidade, um questionamento, é boa.

Porque dessa auto avaliação podem surgir novas perspectivas acerca de nós mesmas(os). Talvez nem todas boas, a princípio, mas todas necessárias ao nosso crescimento.

 © Isa Lisboa

 

Igor Morski

Imagem: Igor Morski

 

Expectativas, de quem são vocês?

Há alguns anos atrás, fiz algumas alterações de visual.

Primeiro, comecei por pintar o cabelo de acobreado, uma mudança às madeixas loiras. Depois cortei o cabelo a mais de metade do tamanho. Finalmente, decidi acrescentar ao acobreado algumas nuances de uma potente cor alaranjada.

Esta última foi a que me fez agora ter vontade de escrever. Porque, como imaginarão, nem toda a gente reagiu com naturalidade à mudança.

Uma das reações mais duras que tive, foi por parte de uma pessoa que me disse que ficava feia com o cabelo assim. Foi duro, não pelas palavras em si – que na altura já não tinham o peso de há alguns anos atrás – mas por essas palavras me terem sido ditas por uma pessoa próxima.

Entendi, ainda assim, que as palavras foram ditas a partir do mundo da pessoa. Um mundo em que as pessoas não nascem com reflexo alaranjado no cabelo. E, por isso, não faz sentido alterar o cabelo para essa cor.

Integrei essa observação, tendo ainda mantido o laranjinha durante um tempo, voltando ao “simples” acobreado.

O ano passado pintei o cabelo de um acobreado bastante escuro. Também este uma grande mudança.

Desta vez, a reação veio de uma outra pessoa, mas o seu conteúdo foi bastante semelhante: “Essa cor não te fica nada bem, nem posso olhar para ti!”

Esta observação foi feita por uma das pessoas que, anos antes, me encorajara a mudar de cor do cabelo. Mas, desta vez, eu não mudei para uma cor de que ela gostasse.

Neste momento, já há vários meses que não pinto o cabelo e estou a deixar que volte a aparecer a minha cor natural.

Adivinharam, também desta vez obtive já críticas, porque esta não é a cor que me fica bem.

O que todas estas observações têm em comum é que são baseadas naquilo que cada uma dessas pessoas gosta, ou que acredita que é o que me fica melhor.

Esta história que estou a contar ilustra a velha máxima de que não se pode agradar a gregos e a troianos. E, por vezes, lembro-me dela, para recordar a mim mesma que há uma pessoa a quem devo pedir opinião em primeiro lugar: a mim mesma. Depois, poderei ouvir todas as outras opiniões que valorizo e que acho que podem ajudar-me. Mas, no final, devo sempre voltar-me para mim mesma e para o meu espelho e decidir qual é a cor de cabelo que quero ter neste momento.

E assim vale para cada momento da vida.

© Isa Lisboa

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Egoísta!

“Hoje não posso. Eu sei que costumo fazê-lo sempre que o pedes. Amanhã talvez possa, mas hoje não posso mesmo.

Não, hoje eu não posso. Hoje eu não posso ficar. Hoje eu não posso parar e ficar aqui e ouvir-te.

Hoje tenho um compromisso com alguém muito importante: eu mesma!”

Talvez estas palavras vos tenham chocado. Talvez estejam a chamar-me de egoísta, revoltados ao imaginar-me a dizer estas palavras a alguém. E ainda mais revoltados ao imaginarem-se a vocês mesmos a dizer estas palavras a alguém.

Claro que precisamos estar lá para os outros, ajudá-los naquilo que nos for possível. E muitas vezes a única coisa que é possível é isso mesmo: ouvir. Estamos cada vez menos disponíveis para ouvir o outro, para realmente ouvir. Ouvir a dor, a mágoa, até para ouvir as alegrias. Quando alguém não diz aquilo que esperamos (ou queremos) ouvir, então ouvimos pouco. Fechamos os ouvidos e ainda mais o coração.

Mas estamos também cada vez menos disponíveis para nos ouvir a nós mesmos. Para ouvir as nossas próprias dores e mágoas e os nossos próprios anseios e sonhos. Abafamos tudo isso por detrás de tudo o que temos que fazer. Amordaçado por detrás de tudo o que temos que fazer, fica tudo o que precisamos fazer. O que precisamos fazer por nós.

E então deixamo-nos esquecer, e deixamos que o ruído se sobreponha. E deixamos que os nossos ouvidos oiçam apenas os outros. Ouvimos até que as palavras se acabem.

E deixamos de dizer não, porque é egoísta dizer não. É egoísta não ter tempo para todos os que nos procuram. É egoísta não ter uma palavra de conforto. E lá dentro de nós mesmos, há uma parte que grita também: és egoísta, és egoísta porque não me ouves. És egoísta porque não tens tempo para mim. És egoísta porque exiges tudo de mim. És egoísta porque não me confortas.

E assim muitas vezes deixamos que a nossa mente encha até ao limite, absorvidos pelos vários problemas que nos surgem. Absorvidos pelas queixas, exigências e solicitações. E esquecemo-nos da pessoa que talvez naquele momento precise de mais ajuda: nós mesmos.

E ajudar a nós mesmos não é um acto de egoísmo, é um acto de amor-próprio. Um acto de auto-ajuda. E de amor aos outros. E de ajuda aos outros.

Porque como poderemos confortar os outros, se não nos sentimos confortados? Como poderemos ser um ponto de apoio, se nos sentimos sempre sem forças? Como poderemos puxar alguém para cima, se nos deixarmos cair?

Como poderemos dar aquilo que não temos? Só ganhando-o por nós mesmos.

© Isa Lisboa

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(In)certezas

Sempre fui diferente. Por várias razões que não irei hoje explorar.

Mas por ser diferente, também sentia, da parte de algumas pessoas, uma reacção diferente.

E isso, para mim, era difícil. De alguma forma, sentia que me estava a ser negado o direito de ser quem era.

Nada mais errado! As reacções exteriores a nós nunca nos impedem de sermos quem somos, apenas as interiores o fazem.

É verdade que todos queremos aceitação por parte dos nossos pares. E isso é humano. Mas também é certo que a aceitação parte de nós mesmos. A partir do momento em que tu te aceites, verdadeira e completamente, então a opinião dos outros sobre ti passa a ser aquilo que verdadeiramente é: uma visão alternativa sobre ti. Uma visão com a qual tu podes discordar completamente ou com a qual podes até concordar. E, se concordares, está nas tuas mãos mudares aquilo que em ti ainda não és tu.

Vou dizer-te uma coisa que é ao mesmo tempo fantástica e assustadora: a partir do momento em que te aceites completamente, sem julgamentos, apenas com a consciência do que em ti é bom e é mau; a partir desse momento, és livre!

E quando te souberes livre, verás que não és diferente, que és apenas e simplesmente tu. Diferente será apenas um adjectivo, que por vezes ouves aplicado a ti. Mas que já não será um não, um gesto de exclusão, uma mão que te empurra para fora da fronteira (que não existe).

O que antes ouvias como um grito dirigido a ti, passas a entender como um grito de defesa. Porque quem ataca quem é diferente, defende-se. Atacamos quem é diferente porque temos medo. Quem é diferente lança dúvidas sobre as nossas (in)certezas.

E das nossas dúvidas, achamos que devemos defender-nos. Até percebermos que a dúvida é apenas uma porta. Podemos abri-la e descobrir novos caminhos. A trilhar. Podemos abri-la e fechá-la definitivamente, agora sem incertezas. Seja como for, a pergunta trará uma resposta.

Depois de girares, então, a maçaneta de conheceres o que em ti é diferente… quem sabe, talvez percebas que, afinal, estás apenas a viver.

E a ser!

© Isa Lisboa

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Estranhezas

Há alguns anos atrás, estava a falar no chat do Facebook com uma pessoa amiga. A certa altura, despedi-me, dizendo que era hora de ir jantar.

A resposta que recebi foi mais ou menos a seguinte: “És mesmo estranha, a maior parte das pessoas trás o prato para o pé do computador e come enquanto está no chat!”

Na altura senti um certo desconforto com esta observação.

Não só porque na altura ainda me incomodava ser chamada de estranha – especialmente vindo essa expressão de uma pessoa amiga – mas também pela razão da “acusação”. Como se, por algum motivo, aquela observação me fosse privar do prazer de aproveitar uma refeição calmamente.

Não me recordo ao certo se foi esse o efeito que teve, mas é bem possível que sim.

Agora que olho para trás, fiquei incomodada com a crítica. Na altura, terei achado que fiquei incomodada com o conteúdo da crítica. Mas na realidade, fiquei incomodada porque aquela observação tinha uma frase escondida e que, na minha mente, eu ouvi: “Agora que eu queria falar, desligas para fazer algo tão banal como comer.”

Foi isso que o meu inconsciente ouviu. E reagiu com a tradicional mágoa e raiva: “E eu, não posso tirar um bocado de tempo para mim, não?”. Por isso, enquanto mastigava a comida, devo também ter mastigado essa sensação. Possivelmente, nesse dia, a comida não teve o sabor do costume.

Mas deveria ter sabido como de costume. Porque sim, eu tinha direito àquele tempo para mim. Até teria direito a simplesmente ter desligado a net e ter ido sentar-me no sofá sem fazer nada.

Todos temos direito a tempo para nós mesmos, para estarmos sozinhos, para fazer algo de que gostamos.

Parece simples. Mas inconscientemente, ao longo do tempo, fomos aprendendo a sentir culpa por querermos esse tempo. Fomos aprendendo a explicarmo-nos por isso.

No trabalho, sentimos obrigação de explicar porque não (podemos) fazer horas extraordinárias; se alguém nos telefona e não podemos atender, sentimos obrigação de explicar a chamada perdida… Outros exemplos haveria.

Mas porque precisamos justificar que precisamos de tempo para nós? Porque temos sempre que ter tanto tempo para os outros, e o tempo para nós pode sempre vir depois?

Não defendo com esta reflexão que nos ponhamos sempre acima dos outros e sempre em primeiro lugar. Mas não nos esqueçamos de nós mesmos. Quando o fazemos, começamos lentamente a perder a capacidade de ajudar os outros. E a capacidade de nos ajudarmos a nós mesmos e de nos mantermos resilientes.

Existe uma analogia muito conhecida sobre este instinto de sobrevivência – vou chamar-lhe assim.

Quando embarcamos num avião, ditam-nos as regras de segurança que, caso seja acendido o sinal para colocarmos a máscara de oxigénio, devemos começar por colocar a máscara em nós mesmos, antes de ajudar outros passageiros com dificuldade em colocá-la. Se não o fizermos, podemos nós ficar com falta de ar e desmaiar. E aí, já não poderemos ajudar os outros passageiros em dificuldades.

Assim também é na nossa vida. Se estivermos sempre a correr para ajudar a todos, excepto a nós mesmos, vamos perdendo essa força anímica que poderia ajudar alguém a voltar a respirar.

O que nos pode parecer egoísmo é auto-preservação. Se eu não conseguir cuidar de mim, como posso cuidar de ti?

© Isa Lisboa

Lorenzo Quinn

Foto: Lorenzo Quinn

Um café e um pastel de nata, por favor!

Vamos a um café, e dizemos “Queria um pastel de nata e um café.” – E o empregado responde-nos com a típica “Queria, então já não quer?”

Já aconteceu a muitas pessoas, certamente. E também, certamente, já tiveram como reacção aquela ligeira irritação pela “piada seca”. Também eu já tive muitas vezes essa reacção.

Mas dei por mim a pensar: realmente porque não digo “QUERO um pastel de nata e um café!”? Porque nos incomoda tanto dizermos directamente o que queremos, com um seguro “QUERO!”? Porque temos que amenizar a nossa vontade com aquele “queria” que fica ali a meio do “quero” e do “mas se não puder ser, não faz mal?”

Quando somos crianças, não temos problemas em expressar o que queremos: “Quero ir ver os desenhos animados.”

Aprendemos depois a acrescentar as palavras “Por favor”. O que é bom. Essas palavras ensinam-nos a respeitar a vontade, o “quero” do outro.

Mas quando foi que aprendemos a querer mais ou menos e só se não for muito incómodo? Quando foi que aprendemos a deixar de dizer com segurança o que queremos?

E, mais importante ainda, quando foi que aprendemos a deixar de dizer o que não queremos?

© Isa Lisboa

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Imagem: Patrice Murciano

 

Um gesto

Há alguns anos atrás, num momento difícil da minha vida, sentei-me num banco de uma carruagem de metro acompanhada de todos os pensamentos negativos que na altura me povoavam a mente.

A certa altura, esses pensamentos começaram a querer transformar-se em lágrimas e, como a maioria das pessoas faria, tentei contê-las a todo o custo.

Mas não consegui.

Agora, olhando para trás, acho que deixei de resistir em parte porque o metro estava quase vazio e achei que ninguém ia sequer reparar. Nessa altura, as pessoas ainda não viajavam com os olhos fixos no telemóvel. Mas viajavam com o olhar fixo num ponto perdido. Por isso, parte de mim deve ter achado que ninguém iria reparar. E a outra parte de mim, naquele momento, não queria saber se alguém reparava ou não.

Na verdade, alguém reparou.

A certa altura, uma senhora veio ter comigo e ofereceu-me um lenço de papel.

Talvez esta história fosse muito mais bonita se eu dissesse que naquele momento todos os meus problemas se dissolveram. Mas não foi assim. Foi preciso mais algum tempo para isso.

No entanto, aquele pequeno gesto foi um sinal de que podemos ter fé nas pessoas. E por isso, foi um sinal para ter também fé em mim mesma.

Olhando agora para trás, a esta distância, vejo que essas lágrimas também me ensinaram que não faz mal deixar as lágrimas cair. Desde que não nos afoguemos nelas.

As lágrimas podem ajudar-nos a lavar o coração. Mas se nos agarrarmos demais a elas, podem antes cristalizá-lo.

Cristalizá-lo não com o sal, mas com a dor.

Por essa razão, quando me oferecem um lenço de papel, eu aceito.

         © Isa Lisboa

Art 388© Benoit Courti (ArtPics)

És um patinho, um cisne, ou…?

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É bem conhecida a história do patinho feio. Um patinho bem diferente dos outros, de quem os irmãos se riam e que cresceu triste e a sentir-se sozinho. Até que um dia vê no lago um conjunto de belas e majestosas aves. No final da história, percebe- se que o patinho feio é, afinal, um cisne. Um belo cisne!

Muitas pessoas já se identificaram com esta história em algum momento das suas vidas. Ou seja, já muitas pessoas se sentiram patinhos feios, diferentes, deslocadas, não aceites.
E, lembrando-se da história do patinho feio, anseiam pelo dia em que se tornarão um cisne. Um belo cisne.

Também foi assim que interpretei esta história durante algum tempo. Como a história de um patinho que era feio e se tornou belo.

Mas com o tempo entendi que o patinho só era feio porque não era um patinho. Sentia-se diferente e deslocado porque não estava onde pertencia. Não estava no seu lar e estava a tentar ser alguém que não era. E não se tornou num cisne – apenas percebeu que sempre tinha sido um cisne e decidiu seguir o seu bando verdadeiro.

Não se tornou mais belo. A sua beleza revelou-se e veio ao de cima quando ele descobriu quem era. E quando decidiu aceitar quem sempre tinha sido.

E tu, pronta(o) para descobrires quem és?

© Isa Lisboa

Mas vale a pena…

«Ernest Hemingway disse: “O mundo é um lugar maravilhoso e vale a pena lutar por ele.” Concordo com a segunda parte.»
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“Seven” é um filme sobre o lado cru e feio da vida, no filme simbolizado pelos sete pecados mortais.

Sim, o mundo nem sempre é um lugar maravilhoso. Sim, o mundo tem pessoas que cometem erros, pessoas que lucram de forma indevida, pessoas que agem com agenda própria, lucrando à custa dos outros. Sim.

Mas sim, o mundo também tem pessoas que são solidárias, pessoas que se preocupam. Mas sim, o mundo também tem heróis anónimos.

Por isso, sim, o mundo é um local pelo qual vale a pena lutar.

© Isa Lisboa

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