Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Terramotos da alma

Talvez os terramotos da alma sejam bastante semelhantes aos da terra.

Num momento o chão está calmo e as flores crescem. Mas de repente, vem o inesperado abalo e a terra rasga-se, abrindo um buraco no caminho.

Se os terramotos que abrem a terra libertam energias contidas; será que os terramotos da alma servem para nos abrir o coração? Para o rasgar de tal forma que aquela Luz especial possa lá entrar?

A alma é sábia, a mente nem sempre o é. Pode, respondendo à dor, abrir fendas ainda maiores. Ou tapá-las com terra pouco nutrida, em pazadas apressadas.

A alma pede que se cicatrizem as feridas com Luz e Amor. E para ouvirmos a alma, por vezes precisamos sentar-nos à beira do epicentro do choque, deixar a terra tremer e tragar tudo o que tiver que ser.

E levantarmo-nos quando parar de tremer.

De entre as cinzas se verá que houve fogo renovador e que novos caminhos se abriram por entre as labaredas.

© Isa Lisboa

Lost in Madness

 

Luz e escuridão

Há quem só veja sombras, mais ou menos difusas. E há quem só veja luzes. Pelo menos assim parece.

Não acredito na tese sem a antítese, o que, trocado por miúdos, quer dizer que não acredito que a visa sempre nos sorria. Que tudo sempre corra bem. Que só exista Luz.

A Escuridão também existe. E pode ser tão poderosa quanto a Luz.

Mas como pode a Escuridão ser combatida com Escuridão? O que mais pode combatê-la senão a Luz?

E é nos dias em que a Escuridão nos visita que mais devemos procurar a Luz. E que mais nos devemos socorrer da Luz que temos dentro de nós.

© Isa Lisboa

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Imagem: Tumblr

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado

Rosto Anónimo

Rosto Anónimo. Rostos.

Sonho. Sonhos.

Um perdido. Um por cumprir. Um fechado na mão.

Para não fugir.

O passado nas costas.

O futuro à frente dos olhos.

O relógio grita: Tic Tac Tic Tac!

As costas pesam.

Os olhos correm.

O dia espera. A noite é curta. Já foi.

O passado corre atrás.

Corre atrás do futuro.

E o presente, Rosto Anónimo?

© Isa Lisboa

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Para reflectirmos – O Anel do rei

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“Houve certa vez um rei sábio e bom que já se encontrava no fim da vida.

Um dia, pressentindo a iminência da morte, chamou o seu único filho, que o sucederia no trono, e tirou um anel do dedo.

– Meu filho, quando fores rei, leva sempre contigo este anel. Nele há uma inscrição. Quando viveres situações extremas de glória ou de dor, tira-o e lê o que está escrito.

O rei morreu e o filho passou a reinar no seu lugar, usando sempre o anel que o pai lhe deixara.

Passado algum tempo, surgiram conflitos com um reino vizinho que desencadearam uma terrível guerra.

À frente do seu exército, o jovem rei partiu para enfrentar o inimigo. No auge da batalha, vendo os companheiros lutarem e morrerem bravamente, num cenário de intensa dor e tristeza, mortos e feridos agonizantes, o rei lembrou-se do anel. Tirou-o e aí leu a inscrição:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ

E ele continuou a luta. Venceu batalhas, perdeu outras tantas, e no fim saiu vitorioso.

Retornou então ao seu reino e, coberto de glórias, entrou em triunfo na cidade. O povo o aclamava.

Nesse momento de êxito, ele se lembrou de novo de seu velho e sábio pai. Tirou o anel e leu:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ”

 

Para reflectirmos – Oásis

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Foto: Zé Suassuna Oliveira

“Conta uma popular lenda do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:
– Que tipo de pessoa vive neste lugar?
– Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem? – perguntou por sua vez o ancião.
– Oh, um grupo de egoístas e malvados – replicou o rapaz – estou satisfeito de haver saído de lá.
– A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui – replicou o velho.
No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:
– Que tipo de pessoa vive por aqui?
O velho respondeu com a mesma pergunta: – Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?
O rapaz respondeu: – Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las.
– O mesmo encontrará por aqui – respondeu o ancião.
Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:
– Como é possível dar respostas tão diferente à mesma pergunta?
Ao que o velho respondeu :
– Cada um carrega no seu coração o ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.”
Autor desconhecido

Nudez d’alma

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Jaume Plensa exhibition at the Yorkshire Sculpture Park, Tony Hisgett

As árvores de Inverno têm uma beleza especial.

Contra o frio do Inverno, as árvores mantêm-se de pé, com os galhos nus, despojados de flores, frutos e das folhas que poderiam servir de agasalho. É na estação mais fria que elas se despem de tudo, oferecendo a sua pele aos elementos. Totalmente exposta e sem protecção.

No entanto, nós, humanos, nem nos momentos de Primavera estamos muitas vezes dispostos a deixar os nossos casacos protectores. Protegemos tudo, com tudo o que podemos.

As árvores oferecem-nos a lição de que é necessário largar as folhas secas, que já serviram o seu propósito noutras estações. Se as árvores não deixassem ir as folhas secas, elas ficariam ali eternamente, e as folhas verdes que se escondem por debaixo não poderiam nunca nascer. Tão pouco haveria espaço para as flores e para os frutos. Não haveria espaço para nova vida.

Se em nós não deixarmos que os ventos, as chuvas e as outras (aparentes) intempéries levem as folhas secas, ficaremos apenas com folhas mortas a adornar-nos. Talvez nos sintamos seguros com elas. Estarão mortas, mas já as conhecemos. Ou então, apegámo-nos à história de cada uma daquelas folhas, a como as vimos crescer, a como crescemos com elas. Por vezes ainda, recusamo-nos a ver a sua cor acastanhada, recusamo-nos a ver até quando elas já começam a desfazer-se na nossa mão. Mas tal como as árvores, se folhas houver que insistam em agarrar-se, virá um vento mais forte que as levará definitivamente. Ou então, se nos agarrarmos demais a ela, acabaremos também nós por amarelecer, ficar de alma acastanhada e finalmente esboroarmo-nos nas mãos de quem poderíamos ser.

Mas se, pelo contrário, permitirmos que a vida flua em nós e através de nós, que o passado fique no passado e o futuro seja bem vindo, então teremos a oportunidade de ganhar novas folhas. De nos olharmos ao espelho e de nos reconhecermos de novo, àquele Eu feliz, forte, que luta, que sabe o que quer, alegre e de bem com a vida.

Custa largar, mas vale a pena. Pela leveza, pela alegria, por tudo o que vamos (re)descobrindo.

Despe-te das folhas secas. Dá a tua pele ao frio do Inverno. Dá medo, sim. Mas vai como medo na mesma. A Primavera espera-te do outro lado do medo.

© Isa Lisboa

Dar

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Diz-se que o mundo está cada vez mais cheio de pessoas que apenas desejam receber algo dos outros. Receber sem estar disposto a dar algo em troca.

No entanto, tenho verificado que, cada um à sua maneira, a maioria das pessoas com quem me tenho cruzado ao longo da vida, tem um sentimento de necessidade de Partilha com o outro. Necessidade de Dar. Essa necessidade pode ser de fazer a doação de bens materiais ou de ajuda (como no voluntariado).

Mas também pode ser a necessidade de Dar a nível emocional.

No entanto, nem sempre o manifestam da melhor forma, ou nem sempre o conseguem concretizar da melhor forma.

Por um lado, porque não conseguem Dar àquela pessoa que mais precisa de receber. E essa pessoa somos apenas Nós próprios. Embora possa parecer contraditório, temos dificuldade em Dar a nós mesmos. Em Dar um pouco de tempo, um pouco de atenção às nossas necessidades e sonhos. Em Dar um pouco de amor a nós mesmos.

Por exemplo, com mais facilidade nos censuramos sobre um qualquer pequeno erro que cometemos, que nos felicitamos a nós mesmos por uma grande conquista. Como se nada mais nos fosse permitido do que a perfeição. Por isso, em nada podemos errar. E, por isso, tudo o que façamos bem feito é apenas aquilo que temos obrigação de fazer. É apenas o mínimo que podemos esperar de nós próprios.

Esta forma de auto-boicote foi-nos sendo passada, de forma mais ou menos inconsciente. E, de forma mais ou menos inconsciente, acabamos por agir assim também com os outros. Apanhados num ciclo e prolongando-o.

Pois como podes dar amor a alguém se não o sentires por ti própria(o)? Como podes entender e aceitar alguém com todos os defeitos e qualidades, se não aceitas os teus próprios? Se não aceitas os teus próprios defeitos e as tuas próprias qualidades.

Por outro lado, quantas vezes tentamos Dar de forma menos correcta? Não damos à pessoa certa, nas circunstâncias certas, no tempo certo…

Falo pela minha própria experiência. Durante muito tempo procurei dar a quem não queria o que eu tinha para Dar. Ou até talvez não precisasse do que eu tinha para oferecer.

Partindo de um exemplo prático: se eu tiver muitos casacos de inverno para dar e os enviar como dádiva para as pessoas desfavorecidas de um país de temperaturas tropicais, é fácil perceber que estarei a cometer dois erros. Por um lado, as pessoas que receberão os casacos não terão uso para lhes dar num país quente. Os casacos acabarão por ficar esquecidos algures. Por outro lado, haverá alguém num país frio que poderia usar um desses casacos e que continuará a apanhar frio. A intenção não deixou de ser boa. Mas, no final das contas, não conseguimos atingir o nosso propósito de Dar. Porque, na realidade, ninguém Recebeu.

E, na nossa dor de não ter conseguido Dar, achamos que a nossa dádiva não chegou porque não foi aceite pela pessoa que esperávamos que a recebesse.

Mas como podemos Dar amor a quem não se ama e não quer amar-se? E como podemos Dar calma a quem apenas concebe o mundo vivido ao segundo? Como podemos Dar paz a quem só conhece a guerra (muitas vezes consigo próprio)? Como podemos Dar esperança a quem procura apenas razões para desistir?

Podemos dar ao Outro a vela e o fósforo, mas apenas cada um, por si, pode acender a sua própria Luz. Não podemos forçar a Luz por entre a escuridão daqueles que a escolheram. Sob pena de ficarmos nós próprios presos nessa escuridão, perdendo a memória e a força de como acender de novo a nossa própria vela, para nos iluminar o caminho de volta.

É difícil aceitar que assim é. Quando comecei a perceber tudo isto, senti que estava, eu própria, a desistir. A desistir de algumas pessoas. A desistir de uma parte de mim. Ao mesmo tempo, uma voz sussurrava-me que não podia desistir de mim. E estas vozes ainda convivem em mim.

Não consigo parar de segurar a vela e os fósforos e de os oferecer a quem acho que precisa delas. Mas esforço-me por me lembrar que assim como eu estou a fazer o meu caminho, também cada pessoa à minha volta tem que fazer o seu. Talvez algumas pessoas tenham que o fazer sem uma vela a alumiar o seu caminho. Ou precisem de encontrar uma vela por si próprios. Uma vela diferente da que eu conheço e que eu não sei como moldar.

Por isso, por vezes, tudo o que podemos fazer é apenas segurar a vela e fazer saber que ela pode iluminar o caminho. Por vezes, tudo o que podemos fazer é acender a nossa própria Luz e esperar que ela ilumine mais que o nosso caminho.

© Isa Lisboa