Labirinto

À entrada do labirinto, nunca sabemos bem o que nos espera. Apenas sabemos que nada será como é cá fora.

Vemos a porta de entrada à nossa frente, foi-nos dito que devemos atravessar um caminho desconhecido que, no final, levará a uma outra porta, a de saída. Não temos mapa, não sabemos se teremos indicações ao longo do caminho, se teremos luz no percurso ou se devemos tactear a parede.

E então algo em nós evoca a lenda do Minotauro, a criatura de pele de breu, chifres ameaçadores e olhos ensanguentados pelas vítimas do labirinto que habitava. O labirinto que era a sua prisão.

Mas e se o Minotauro formos nós mesmos? Uma parte de nós que está presa ao labirinto e que, por não conseguir sair, está condenado a não permitir que mais ninguém atravesse o labirinto, que mais ninguém encontre a porta de saída. Uma criatura surgida de humano e de besta, para desencorajar os aventureiros que querem saber mais, viver mais, sentir mais. Talvez o sacrifício que o Minotauro exigia, fosse que os humanos abdicassem dos seus sonhos, deixando-os devorar-se pela mitológica criatura. Devorados por aquela criatura cuja fome não se aplacava. E seremos nós Teseu? Poderemos ser. Podemos encontrar o centro do labirinto e matar o medo. E, agarrados ao fio invisível que nos prende uns aos outros e a tudo o que existe, voltaremos então à vida que queremos viver.

© Isa Lisboa

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Inexplicável

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Imagem: Vladimir Kush

Sento-me

Naquela cadeira

Sento-me para descansar

 

Pessoas vêm

De todas as direcções

Cruzam-se

Inexplicável

Que não choquem

Que não se atrapalhem

 

Inexplicável

Que não se vejam

 

Inexplicável

Que eu não as veja

Ainda que reconheça

Em alguns rostos

Cansaço maior que o meu

 

Inexplicável

Eu aqui, nesta cadeira

Como se os muros nascessem connosco

Ao invés de serem construídos…

 

© Isa Lisboa

O Caminho do Eu

Uma vez percorrido o Caminho do Eu, temos tendência a achar que a viagem foi cumprida.
Mas assim como o rio que atravessamos hoje não será amanhã o mesmo, também este Caminho muda após feita a primeira viagem.
É um Caminho que devemos atravessar uma e outra vez, libertando novas camadas de quem não somos. Ou descobrindo novas manifestações de quem somos.
Aceitar a jornada nem sempre é fácil, e mais difícil é perceber que só no silêncio interno podemos encontrar o percurso a seguir.
Habituados a tudo planear, custa aprender a deixar a Sabedoria da Vida fluir e tomar conta de nós.
Resistimos, queremos categorizar em certo e errado. Queremos categorizar-nos em certo e errado.
Mas só quando aceitamos que o que é É, É, só aí o Caminho se abre. Só aí nos conseguimos ver plenamente, sem julgamentos, esquecidos do pecado da imperfeição.
Despidos de expectativas, sobre nós e sobre o Mundo, estamos então leves o suficiente para percorrer o Caminho.
Para nos libertarmos das camadas protectoras, por debaixo das quais a nossa verdadeira voz se esconde, amordaçada.
E, passo a passo, a nossa Voz voltará a ouvir-se.
Nós voltaremos a ouvir-nos.

© Isa Lisboa

Swan song by Zena Holloway

Imagem: Swan song, by Zena Holoway

Areias do Tempo


Como se as Areias do Tempo se tivessem soltado, o Instante se deu, congelando o Futuro, preso entre um e outro lado da Grande Ampulheta.

Momentos há em que é o Passado que escorre com dificuldade, mas também o Futuro pode passar em frente dos nossos olhos, grão a grão do que não mais será, grão a grão do que não mais sabemos.

Somos nós também um grão, entre os Tempos da Ampulheta. Julgamos saber para que lado cairemos de seguida, mas nada tomemos por certo. Apenas que a Vida nos foi dada por Dádiva e devemos fluir com ela, ouvir como os nossos passos fazem parte de uma caminhada maior que nós.

Diz-me a tua Voz que confie, que me deixe escorrer com as lágrimas, mas que não me deixe cegar por elas. Que permita que elas me purifiquem e que me abram mais os olhos.

Que eu não me permita esquecer de quem sou e de onde venho.

Que eu não me permita ensurdecer, deixar de ouvir a mim mesma.

Que eu não me permita duvidar da minha própria Voz.

E que eu não permita vacilar, no momento em que entender as Areias do Tempo, e a Ampulheta volte a andar, no centro da Bússola.

© Isa Lisboa

Beth Moon

Imagem: Beth Moon

Terramotos da alma

Talvez os terramotos da alma sejam bastante semelhantes aos da terra.

Num momento o chão está calmo e as flores crescem. Mas de repente, vem o inesperado abalo e a terra rasga-se, abrindo um buraco no caminho.

Se os terramotos que abrem a terra libertam energias contidas; será que os terramotos da alma servem para nos abrir o coração? Para o rasgar de tal forma que aquela Luz especial possa lá entrar?

A alma é sábia, a mente nem sempre o é. Pode, respondendo à dor, abrir fendas ainda maiores. Ou tapá-las com terra pouco nutrida, em pazadas apressadas.

A alma pede que se cicatrizem as feridas com Luz e Amor. E para ouvirmos a alma, por vezes precisamos sentar-nos à beira do epicentro do choque, deixar a terra tremer e tragar tudo o que tiver que ser.

E levantarmo-nos quando parar de tremer.

De entre as cinzas se verá que houve fogo renovador e que novos caminhos se abriram por entre as labaredas.

© Isa Lisboa

Lost in Madness

Imagem: Autor não identificado

 

Luz e escuridão

Há quem só veja sombras, mais ou menos difusas. E há quem só veja luzes. Pelo menos assim parece.

Não acredito na tese sem a antítese, o que, trocado por miúdos, quer dizer que não acredito que a visa sempre nos sorria. Que tudo sempre corra bem. Que só exista Luz.

A Escuridão também existe. E pode ser tão poderosa quanto a Luz.

Mas como pode a Escuridão ser combatida com Escuridão? O que mais pode combatê-la senão a Luz?

E é nos dias em que a Escuridão nos visita que mais devemos procurar a Luz. E que mais nos devemos socorrer da Luz que temos dentro de nós.

© Isa Lisboa

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Imagem: Tumblr

Nunca será fácil

Nunca será fácil”

Vi, há algum tempo, um filme sobre a vida de Maria, a mãe de Jesus. Para além da perspectiva bíblica e religiosa, este filme apresentava uma visão de Maria que muito me fascina e faz reflectir. A visão de Maria filha, mulher, esposa e mãe. Em suma, Maria, a humana.

Maria foi alguém como nós. Uma mulher, que cresceu numa comunidade, que criou expectativas e sobre quem foram criadas expectativas. Uma mulher que amou. Uma mulher a quem um dia foi proposta uma missão, a ela, mulher cheia de graça, escolhida pelo seu Deus para dar à luz e acompanhar o crescimento de uma criança especial. Uma criança com uma missão ainda maior que a sua: a de salvar a Humanidade.

Dizem-nos as escrituras que Maria aceitou a sua missão – “Eis aqui a serva do Senhor.” Mas pergunto-me eu os dilemas e dúvidas que esta mulher – jovem, e apenas com a sua fé como apoio – terá tido.

Pergunto-me quantas lágrimas terá chorado, a dor que sentiu ao ser rejeitada e acusada pela comunidade que a viu nascer. Ao ser rejeitada, em certa altura, pelo homem que amava, com quem sonhava uma vida em conjunto.

Numa das cenas iniciais do filme, José volta, dirige-se a Maria, dizendo que acredita nela, que cumprirão a missão juntos e que daí em diante, tudo será mais fácil.

Maria responde-lhe, com certeza na voz, mas serena: “Nunca será fácil. Nunca nada na nossa vida será fácil.” Aquela jovem mulher, com um filho no ventre, tinha uma única certeza: a de que a sua vida não seria fácil. De que a esperavam provações. Perguntas às quais não sabia se iria dar resposta. Sabia que teria que preparar o seu filho para uma missão que ela própria não entendia. Sabia, talvez no seu âmago, que um dia ele partiria para sempre. Primeiro para o Mundo. Depois para a morte. Não o saberia em termos concretos, mas todo o seu ser lhe dizia “Nunca será fácil”.

Ao ouvir essa frase, e ao imaginar Maria a dizê-la, olhei-a sob uma nova luz e passei a admirá-la mais. Maria era mulher como eu.

Talvez esta frase choque alguns, mas a verdade é que eu acredito que Maria era uma mulher como eu. Jesus foi uma criança como eu fui, e um adulto como eu sou. Ambos foram humanos, e conheceram sentimentos como o medo e a dúvida.

Existiam, claro, grandes diferenças entre nós. As missões de Maria e de Jesus eram maiores que as minhas. A sua fé em algo que a todos Une e Maior que cada um de nós isoladamente – era maior. Não era uma fé, eles sabiam. A sua fé não era fé, era certeza.

E por isso souberam abraçar a sua vida e as suas missões. Missões que a maioria de nós acharia impossível ou, no mínimo, demasiado grande para suportar.

E essa é uma das dádivas que Maria, José, Jesus e outros nos deixaram. Também eu sei que nunca será fácil.

“Nunca será fácil”. Eu sei. Mas também sei que viver vai sempre valer a pena. Por isso me esforço por aproveitar como posso esta oportunidade que me foi dada.

Nunca será fácil, mas será sempre belo!

© Isa Lisboa

Mãe Maria

Imagem: Autor não identificado

Rosto Anónimo

Rosto Anónimo. Rostos.

Sonho. Sonhos.

Um perdido. Um por cumprir. Um fechado na mão.

Para não fugir.

O passado nas costas.

O futuro à frente dos olhos.

O relógio grita: Tic Tac Tic Tac!

As costas pesam.

Os olhos correm.

O dia espera. A noite é curta. Já foi.

O passado corre atrás.

Corre atrás do futuro.

E o presente, Rosto Anónimo?

© Isa Lisboa

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Para reflectirmos – O Anel do rei

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“Houve certa vez um rei sábio e bom que já se encontrava no fim da vida.

Um dia, pressentindo a iminência da morte, chamou o seu único filho, que o sucederia no trono, e tirou um anel do dedo.

– Meu filho, quando fores rei, leva sempre contigo este anel. Nele há uma inscrição. Quando viveres situações extremas de glória ou de dor, tira-o e lê o que está escrito.

O rei morreu e o filho passou a reinar no seu lugar, usando sempre o anel que o pai lhe deixara.

Passado algum tempo, surgiram conflitos com um reino vizinho que desencadearam uma terrível guerra.

À frente do seu exército, o jovem rei partiu para enfrentar o inimigo. No auge da batalha, vendo os companheiros lutarem e morrerem bravamente, num cenário de intensa dor e tristeza, mortos e feridos agonizantes, o rei lembrou-se do anel. Tirou-o e aí leu a inscrição:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ

E ele continuou a luta. Venceu batalhas, perdeu outras tantas, e no fim saiu vitorioso.

Retornou então ao seu reino e, coberto de glórias, entrou em triunfo na cidade. O povo o aclamava.

Nesse momento de êxito, ele se lembrou de novo de seu velho e sábio pai. Tirou o anel e leu:

ISTO TAMBÉM PASSARÁ”