Sem sequer pensar…… (Republicação)

Apesar de já ser Outono, estou agora a terminar a minha limpeza de Primavera e além de limpar a casa, limpei também as minhas gavetas. E por isso, lembrei-me de dois textos publicados no meu antigo blog “Os dias em que olho o mundo“. Foram textos escritos e publicados em momentos diferentes, mas ambos falam sobre elas, as gavetas.

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Sem sequer pensar……

Metade da minha vida estava dentro de uma gaveta. Vi quando ia guardar lá mais um pedaço e a gaveta já não fechou. Fui amontoando pequenos vestígios, um a um, sem tempo para os arrumar no local devido.

Obrigou-me a parar. A gaveta ficou vazia e tudo nos seus lugares.

Mas sei que a gaveta não vai ficar sempre vazia. Mesmo sem me aperceber, vou abri-la muito rapidamente, sem sequer pensar, e vou esconder lá dentro tudo o que não tenho tempo de guardar.

Até não conseguir fechá-la novamente.

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Observando formigas

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Imagem: http://www.pixabay.com

Vi duas formigas na parede da minha cozinha. Uma subia e outra descia. Exactamente na mesma linha recta. A meio do percurso encontraram-se frente a frente. Pararam brevemente, talvez nem por um segundo.

Quase automaticamente, uma desviou-se ligeiramente para a esquerda e a outra ligeiramente para a direita.

E seguiram o seu caminho.

Estas duas formigas fizeram-me pensar nos humanos.

Quantos estariam dispostos a mudar ligeiramente a sua rota? E quantos insistiriam, frente a frente, que aquela estrada era sua, sem se moverem um milímetro? Parados, cada vez mais longe do seu destino?

Como seres humanos, temos esta dificuldade em ajustar a rota. Mas tal como na história dos dois barcos, por vezes a vida prova-nos que essa insistência é na realidade, obstinação, e que não estamos a querer ver todos os aspectos do que nos rodeia.

O obstácuilo à frente pode na verdade não ser um obstáculo. Pode estar lá apenas para iluminar melhor a rota e nos ajudar a ver que o caminho em que nos movemos não é na realidade o caminho. Não é o nosso caminho.

E, nesse momento, precisamos parar na nossa corrida para o nosso destino e ajustar a rota.

Precisamos parar para chegar mais depressa.

© Isa Lisboa

O grande navio de guerra

Deixo-vos hoje uma pequena história, que podem encontrar em locais da internet, e sobre a qual vos convido a reflectir!

«Durante uma noite escura e nublada, um grande navio de guerra navegava nas águas do mar. O marinheiro observou um feixe de luz que vinha em direção ao poderoso navio. Percebendo que os dois iriam chocar, caso um deles não mudasse sua rota, o marinheiro avisou o seu capitão sobre a perigosa situação.

O capitão do grande navio confirmou que a colisão era certa e mandou a seguinte mensagem para o navio que estava à sua frente: “Altere o seu curso 10 graus à sua esquerda.”.

Logo depois chegou a resposta: “Você vire à sua esquerda por 10 graus.”.

Isso deixou o capitão bastante irritado e, apesar de os dois navios estar cada vez mais próximos, ele mandou outra mensagem: “Eu sou Almirante! Vire 10 graus à sua esquerda.”.

Uma nova resposta chegou quase que imediatamente: “Eu sou um simples marinheiro. Vire 10 graus à sua esquerda!”.

Aquela resposta foi demais. Completamente indignado, o capitão resolveu mandar a sua última ordem com uma ameaça: “Eu sou um navio de guerra de 200.000 toneladas. Vire 10 graus à sua esquerda ou eu vou passar por cima de si!”.

A resposta chegou de imediato: “Eu sou um farol. Vire 10 graus à sua esquerda!”.»

Num redemoinho de ondas

Um dia, quase me afoguei.

Estava na água com uma amiga e, sem que nos apercebêssemos, as ondas em redemoinho foram-nos empurrando para longe da costa e de onde tínhamos pé.

Quando me apercebi disso e visto que as ondas eram fortes, o meu primeiro pensamento foi nadar para a margem. Apesar de as ondas estarem fortes, eu sabia que o conseguia fazer.

Mas a minha amiga não sabia nadar e, por isso, a primeira reacção dela foi bem diferente. Com medo das ondas e não sabendo nadar, agarrou-se às minhas mãos, pedindo-me que não a largasse.

Eu nunca tinha tentado tirar da água uma pessoa que não soubesse nadar. Mas tive a forte certeza de que daquela forma não o conseguiria fazer. Porque tinha, literalmente, as mãos amarradas e precisava dos braços para nadar.

Creio que por uns segundos, tudo parou à minha volta. Percebi que assim nenhuma de nós duas sairia daquele redemoinho.

Então simplesmente disse-lhe isso e disse que ela tinha que largar as minhas mãos e agarrar-se aos meus ombros, sem fazer força. E que dessa forma, eu conseguiria nadar e levar-nos às duas para a margem.

E foi mesmo assim que ambas conseguimos voltar.

Entretanto uma outra amiga já se tinha apercebido do que se passava e tinha ido chamar o nadador-salvador. Portanto, de alguma forma, o perigo não era tão grande assim, ou, pelo menos, tínhamos mais uma hipótese de ajuda.

Lembrei-me desta história porque um dos ensinamentos que posso tirar dela é o de que, se nós deixarmos, o medo de outra pessoa pode paralisar-nos e afogar-nos.

Neste caso, era um medo perfeitamente justificado, visto que ela não sabia nadar.

Mas também era um medo que nos poderia ter levado a não lutar contra as ondas. Agarrar-se às minhas mãos era algo, que, para ela, naquele momento, fazia sentido; e era isso que estava a mantê-la salva. Mas também era isso que poderia ter-nos impedido de sair dali.

E uma parte de mim, ouvindo o apelo aflito de “Não me largues!”, uma parte de mim achava “Não posso largar!”.

Também na vida isso nos acontece: Temos medo do medo de outra pessoa. Sabemos que temos que agir de outra forma, mas temos medo. Medo que o medo da outra pessoa esteja certo. Medo de lhe falharmos.

Mas se esse medo nos faz ficar parados num redemoinho de ondas, em vez de nada com força para um lugar seguro… Será esse medo útil…?

© Isa Lisboa

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Imagem: http://www.pixabay.com

Os meus cabelos brancos

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Imagem: Google

Sonhei que, de repente, ficava com os meus cabelos todos brancos. Brancos não, cinza. Cinza como os da minha avó. E bonitos como os dela.

De repente, olhei-me ao espelho, na rua, numa montra, e tinha os cabelos brancos.

De repente, até as feições pareciam diferentes. Mas não me demorei nos traços, porque a minha atenção ficou presa no olhar e na serenidade que vinha de dentro.

Acordei e pensei: “será que vou ser assim?”

Essa serenidade, que consigo encontrar, que fica algum tempo, mas não sempre!

Ela demora-se cada vez mais, fica, senta-se, falamos, ou ficamos apenas em silêncio. E sorri, sobretudo sorri.

A mulher dos cabelos brancos também sorria. Mas não era um sorriso que se via ao espelho, era um sorriso de dentro. Um sorriso que se sabia, sabes?

Eu sei. Às vezes sei. Nem sempre. Às vezes também choro. Mas já sei sorrir aquele sorriso.

Apetece-me passar as mãos por aquele cabelo, fazer um afago no rosto daquela mulher.

Mas é ela que me afaga a mim. É ela que me encoraja, não desistas, tu sabes. E eu sei.

Eu sei que um dia vou ter cabelos cinza, olhar-me no espelho e sorrir. Com um sorriso que vem de dentro.

Sabes?

© Isa Lisboa

Post Scriptum:

Bem vindo, Setembro!

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Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

Árvores, ervas e tempestades

Esta semana recordaram-me a palavra “resiliência”.

Resiliência é diferente de Resistência. Embora nalgumas circunstâncias, seja necessário apelarmos à nossa capacidade de resistência, na maioria das vezes é a resiliência quem nos pode ajudar a chegar ao final do dia, uma dia de cada vez.

Foneticamente, a diferença entre estas duas palavras é subtil.

Na prática, é-o menos; mas, por outro lado, é uma diferença nem sempre fácil de entender. Gosto da analogia das árvores e das ervas para perceber esta diferença.

É uma analogia que li em artigos relacionados com a filosofia oriental.

Ela fala das árvores, de como são robustas, com os seus fortes e largos troncos. Por oposição, as ervas possuem caules finos, menos fortes.

No entanto, perante uma forte tempestade de vento, as árvores podem acabar por ser arrancadas pela raiz ou até o seu tronco ser quebrado a meio. Por outro lado, ao acabar a tempestade, encontraremos as ervas curvadas em direcção ao chão, mas intactas. E, ao terminar a tempestade elas levantam-se lentamente.

É esta a diferença entre Resistência e Resiliência. As árvores mostram-nos a resistência e as ervas a resiliência.

As árvores, ao usarem toda a sua força e pujança para lutar contra o vento resistindo-lhes, acabam por se ir deixando desgastar pelas investidas do vento. E quando o vento ataca durante mais tempo do que aquele que elas conseguem aguentar, elas perecem.

Por outro lado, as ervas usam a flexibilidade do seu caule para se curvarem. Este verbo tem uma conotação negativa, mas neste caso vejo-o de outra forma. As ervas inclinam-se ao sabor do vento, aceitando a tempestade, sabendo que nada podem fazer contra ela, que o vento só parará de soprar quando assim o quiser. Ao aceitarem a adversidade, não gastam as suas energias numa luta que não poderiam ganhar – pois se até algumas das fortes árvores são ao chão! Ao curvarem-se, deixam que o vento passe por cima de si. Talvez o vento as magoe, ainda assim. Mas através da paciência e da sua capacidade de se manterem flexíveis (flexíveis, não moles), elas conseguem sobreviver ao vento.

Também nas tempestades da vida precisamos escolher se somos árvores ou ervas. Se decidimos lutar, sem direcção, sem saber a força daquele inesperado inimigo. Se lutamos apenas porque sempre nos ensinaram a ficar de pé, firmes, fortalezas inexpugnáveis.

Ou se somos, naquele momento, ervas. Se nos agarramos a quem somos, à nossa força interior. Se usamos a nossa força interior para suportar as investidas do vento. Deixar que ele nos faça baixar, mas não que nos quebre. Sentir a dor do vento a tentar passar por nós, a magoar-nos a pele. Sentir a força do vento, mas agarrarmo-nos à nossa vontade. Lembrarmo-nos de que a tempestade não dura sempre. E que esta também não vai durar.

Sermos erva, protegendo o essencial de nós, sentarmo-nos a aprender a força do vento, a aprender a nossa própria força e a recuperá-la, a aumentá-la. Tocando o chão, sentindo não que caímos, mas que tocamos novamente no pó de que fomos feitos. Tocando o chão que nos dá a vida e sustenta. Resiliência.

Neste momento, é hora de seres árvore ou de seres erva?

© Isa Lisboa

Heavy Winter by Mikael Sundberg
Foto: Heavy winter, by Mikael Sundberg

Construíndo aviões

“A Madre Teresa de Calcultá estava a visitar uma fábrica na Índia quando viu, num canto, um homem a cantorolar alegremente enquanto juntava parafusos.

«O que está a fazer?» – perguntou. «Estou a construir aviões» – respondeu ele – «Aviões» – perguntou ela – «Sim.» – disse o homem – «sem estes minúsculos parafusos o avião não pode voar.»

 

“Não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com amor.”

Madre Teresa de Calcutá

 

Retirado do livro “O poder da paciência”, M. J. Ryan

Descobri esta pequena história no livro “Canja de galinha para a alma”, de Jack Canfield Mark Victor Hansen e Amy Newark.

E hoje lembrei-me dela por causa de uma pergunta que me tem surgido ultimamente, nas entrelinhas de alguns textos que leio. A pergunta é:

“E se o teu propósito de vida for viver uma vida com propósito?”

Esta pergunta, formulada mais ou menos desta forma, ouvi-a num dos podcasts de Pedro Vieira e Micaela Oven.

É uma pergunta pertinente.

Todos nós procuramos um sentido para a nossa vida, mais ou menos intensamente.

Algumas pessoas sonham com fama, outras com grandes feitos, algumas com uma grande carreira; muitas são as formas.

E tudo isso está bem.

Mas também penso na quantidade de pessoas, presentes na minha vida actualmente ou que por ela já passaram, e que me mostram constantemente como pequenas coisas são grandes.

Desde crianças, aprendemos a chamar de heróis todos aqueles que têm super poderes e usam uma capa e um símbolo ao peito.

Mas fui aprendendo que, apesar de não conhecer ninguém que saiba voar, tenha força sobre humana, consiga ficar invisível ou tenha outro super poder, ainda assim, conheço muitos heróis.

São heróis todos aqueles que fazem a vida de quem os rodeia um pouco melhor. E, para o fazer, por vezes o único acto heróico de que precisam é um sorriso. Algo tão simples como um sorriso. Ou como dar a mão. Ou sentar-se a ouvir por 5m. Parar e dar atenção ao outro.

Todos aqueles que têm a capacidade de ter um gesto incondicional em relação a alguém todos esses, são heróis. 

E todos eles estão a construir aviões, a partir de parafusos. 

Porque, ao agirem de acordo com aquilo que a humanidade tem de melhor, estão a contribuir para um mundo melhor.

E isso, para mim, é cumprir um propósito de vida.

© Isa Lisboa

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