Num redemoinho de ondas

Um dia, quase me afoguei.

Estava na água com uma amiga e, sem que nos apercebêssemos, as ondas em redemoinho foram-nos empurrando para longe da costa e de onde tínhamos pé.

Quando me apercebi disso e visto que as ondas eram fortes, o meu primeiro pensamento foi nadar para a margem. Apesar de as ondas estarem fortes, eu sabia que o conseguia fazer.

Mas a minha amiga não sabia nadar e, por isso, a primeira reacção dela foi bem diferente. Com medo das ondas e não sabendo nadar, agarrou-se às minhas mãos, pedindo-me que não a largasse.

Eu nunca tinha tentado tirar da água uma pessoa que não soubesse nadar. Mas tive a forte certeza de que daquela forma não o conseguiria fazer. Porque tinha, literalmente, as mãos amarradas e precisava dos braços para nadar.

Creio que por uns segundos, tudo parou à minha volta. Percebi que assim nenhuma de nós duas sairia daquele redemoinho.

Então simplesmente disse-lhe isso e disse que ela tinha que largar as minhas mãos e agarrar-se aos meus ombros, sem fazer força. E que dessa forma, eu conseguiria nadar e levar-nos às duas para a margem.

E foi mesmo assim que ambas conseguimos voltar.

Entretanto uma outra amiga já se tinha apercebido do que se passava e tinha ido chamar o nadador-salvador. Portanto, de alguma forma, o perigo não era tão grande assim, ou, pelo menos, tínhamos mais uma hipótese de ajuda.

Lembrei-me desta história porque um dos ensinamentos que posso tirar dela é o de que, se nós deixarmos, o medo de outra pessoa pode paralisar-nos e afogar-nos.

Neste caso, era um medo perfeitamente justificado, visto que ela não sabia nadar.

Mas também era um medo que nos poderia ter levado a não lutar contra as ondas. Agarrar-se às minhas mãos era algo, que, para ela, naquele momento, fazia sentido; e era isso que estava a mantê-la salva. Mas também era isso que poderia ter-nos impedido de sair dali.

E uma parte de mim, ouvindo o apelo aflito de “Não me largues!”, uma parte de mim achava “Não posso largar!”.

Também na vida isso nos acontece: Temos medo do medo de outra pessoa. Sabemos que temos que agir de outra forma, mas temos medo. Medo que o medo da outra pessoa esteja certo. Medo de lhe falharmos.

Mas se esse medo nos faz ficar parados num redemoinho de ondas, em vez de nada com força para um lugar seguro… Será esse medo útil…?

© Isa Lisboa

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Imagem: http://www.pixabay.com
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Os meus cabelos brancos

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Imagem: Google

Sonhei que, de repente, ficava com os meus cabelos todos brancos. Brancos não, cinza. Cinza como os da minha avó. E bonitos como os dela.

De repente, olhei-me ao espelho, na rua, numa montra, e tinha os cabelos brancos.

De repente, até as feições pareciam diferentes. Mas não me demorei nos traços, porque a minha atenção ficou presa no olhar e na serenidade que vinha de dentro.

Acordei e pensei: “será que vou ser assim?”

Essa serenidade, que consigo encontrar, que fica algum tempo, mas não sempre!

Ela demora-se cada vez mais, fica, senta-se, falamos, ou ficamos apenas em silêncio. E sorri, sobretudo sorri.

A mulher dos cabelos brancos também sorria. Mas não era um sorriso que se via ao espelho, era um sorriso de dentro. Um sorriso que se sabia, sabes?

Eu sei. Às vezes sei. Nem sempre. Às vezes também choro. Mas já sei sorrir aquele sorriso.

Apetece-me passar as mãos por aquele cabelo, fazer um afago no rosto daquela mulher.

Mas é ela que me afaga a mim. É ela que me encoraja, não desistas, tu sabes. E eu sei.

Eu sei que um dia vou ter cabelos cinza, olhar-me no espelho e sorrir. Com um sorriso que vem de dentro.

Sabes?

© Isa Lisboa

Post Scriptum:

Bem vindo, Setembro!

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Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

Árvores, ervas e tempestades

Esta semana recordaram-me a palavra “resiliência”.

Resiliência é diferente de Resistência. Embora nalgumas circunstâncias, seja necessário apelarmos à nossa capacidade de resistência, na maioria das vezes é a resiliência quem nos pode ajudar a chegar ao final do dia, uma dia de cada vez.

Foneticamente, a diferença entre estas duas palavras é subtil.

Na prática, é-o menos; mas, por outro lado, é uma diferença nem sempre fácil de entender. Gosto da analogia das árvores e das ervas para perceber esta diferença.

É uma analogia que li em artigos relacionados com a filosofia oriental.

Ela fala das árvores, de como são robustas, com os seus fortes e largos troncos. Por oposição, as ervas possuem caules finos, menos fortes.

No entanto, perante uma forte tempestade de vento, as árvores podem acabar por ser arrancadas pela raiz ou até o seu tronco ser quebrado a meio. Por outro lado, ao acabar a tempestade, encontraremos as ervas curvadas em direcção ao chão, mas intactas. E, ao terminar a tempestade elas levantam-se lentamente.

É esta a diferença entre Resistência e Resiliência. As árvores mostram-nos a resistência e as ervas a resiliência.

As árvores, ao usarem toda a sua força e pujança para lutar contra o vento resistindo-lhes, acabam por se ir deixando desgastar pelas investidas do vento. E quando o vento ataca durante mais tempo do que aquele que elas conseguem aguentar, elas perecem.

Por outro lado, as ervas usam a flexibilidade do seu caule para se curvarem. Este verbo tem uma conotação negativa, mas neste caso vejo-o de outra forma. As ervas inclinam-se ao sabor do vento, aceitando a tempestade, sabendo que nada podem fazer contra ela, que o vento só parará de soprar quando assim o quiser. Ao aceitarem a adversidade, não gastam as suas energias numa luta que não poderiam ganhar – pois se até algumas das fortes árvores são ao chão! Ao curvarem-se, deixam que o vento passe por cima de si. Talvez o vento as magoe, ainda assim. Mas através da paciência e da sua capacidade de se manterem flexíveis (flexíveis, não moles), elas conseguem sobreviver ao vento.

Também nas tempestades da vida precisamos escolher se somos árvores ou ervas. Se decidimos lutar, sem direcção, sem saber a força daquele inesperado inimigo. Se lutamos apenas porque sempre nos ensinaram a ficar de pé, firmes, fortalezas inexpugnáveis.

Ou se somos, naquele momento, ervas. Se nos agarramos a quem somos, à nossa força interior. Se usamos a nossa força interior para suportar as investidas do vento. Deixar que ele nos faça baixar, mas não que nos quebre. Sentir a dor do vento a tentar passar por nós, a magoar-nos a pele. Sentir a força do vento, mas agarrarmo-nos à nossa vontade. Lembrarmo-nos de que a tempestade não dura sempre. E que esta também não vai durar.

Sermos erva, protegendo o essencial de nós, sentarmo-nos a aprender a força do vento, a aprender a nossa própria força e a recuperá-la, a aumentá-la. Tocando o chão, sentindo não que caímos, mas que tocamos novamente no pó de que fomos feitos. Tocando o chão que nos dá a vida e sustenta. Resiliência.

Neste momento, é hora de seres árvore ou de seres erva?

© Isa Lisboa

Heavy Winter by Mikael Sundberg
Foto: Heavy winter, by Mikael Sundberg

Construíndo aviões

“A Madre Teresa de Calcultá estava a visitar uma fábrica na Índia quando viu, num canto, um homem a cantorolar alegremente enquanto juntava parafusos.

«O que está a fazer?» – perguntou. «Estou a construir aviões» – respondeu ele – «Aviões» – perguntou ela – «Sim.» – disse o homem – «sem estes minúsculos parafusos o avião não pode voar.»

 

“Não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com amor.”

Madre Teresa de Calcutá

 

Retirado do livro “O poder da paciência”, M. J. Ryan

Descobri esta pequena história no livro “Canja de galinha para a alma”, de Jack Canfield Mark Victor Hansen e Amy Newark.

E hoje lembrei-me dela por causa de uma pergunta que me tem surgido ultimamente, nas entrelinhas de alguns textos que leio. A pergunta é:

“E se o teu propósito de vida for viver uma vida com propósito?”

Esta pergunta, formulada mais ou menos desta forma, ouvi-a num dos podcasts de Pedro Vieira e Micaela Oven.

É uma pergunta pertinente.

Todos nós procuramos um sentido para a nossa vida, mais ou menos intensamente.

Algumas pessoas sonham com fama, outras com grandes feitos, algumas com uma grande carreira; muitas são as formas.

E tudo isso está bem.

Mas também penso na quantidade de pessoas, presentes na minha vida actualmente ou que por ela já passaram, e que me mostram constantemente como pequenas coisas são grandes.

Desde crianças, aprendemos a chamar de heróis todos aqueles que têm super poderes e usam uma capa e um símbolo ao peito.

Mas fui aprendendo que, apesar de não conhecer ninguém que saiba voar, tenha força sobre humana, consiga ficar invisível ou tenha outro super poder, ainda assim, conheço muitos heróis.

São heróis todos aqueles que fazem a vida de quem os rodeia um pouco melhor. E, para o fazer, por vezes o único acto heróico de que precisam é um sorriso. Algo tão simples como um sorriso. Ou como dar a mão. Ou sentar-se a ouvir por 5m. Parar e dar atenção ao outro.

Todos aqueles que têm a capacidade de ter um gesto incondicional em relação a alguém todos esses, são heróis. 

E todos eles estão a construir aviões, a partir de parafusos. 

Porque, ao agirem de acordo com aquilo que a humanidade tem de melhor, estão a contribuir para um mundo melhor.

E isso, para mim, é cumprir um propósito de vida.

© Isa Lisboa

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Dores de crescimento

Cresci

Com a velocidade

De um foguetão

Prestes a implodir

E das cinzas que

Restaram

Me fiz explosão.

Do fogo

Me acendi a mim mesma

Calor

Luz

Dor.

Também dor.

Da dor cresci.

É sempre assim.

Se soubermos

Entender

Aceitar

Abraçar.

Abraçar a vida.

Abraçar a mim mesma.

Aprendi a ser por mim.

Cresci.

Abraçada a mim mesma

Cresci

E me fiz coragem.

De segurar o coração

Na própria mão

E deixá-lo doer.

Doer para bater.

O sangue flui

E a vida retoma

As lágrimas secam

E tudo muda

Muda num segundo

Ou numa vida

Tudo é eternidade

Para sempre

Cresci.

© Isa Lisboa

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Imagem: Autor não identificado

Preciso ganhar o Euromilhões

 

 

Costumo dizer em tom de brincadeira:

 “Concluí que preciso ganhar o euromilhões. O único problema é… que eu não jogo!”

 De há uns tempos para cá, começo a ouvir a minha vozinha interior a responder a esta minha piada. E ela responde: “Bela desculpa!”

Como tenho uma descrença algo vincada nos jogos de apostas, imaginei que a minha vozinha estaria a tentar dizer-me algo menos literal que “Joga no euromilhões!”

E realmente, tenho na minha vida um ou outro euromilhões, que quero ganhar, mas… Mas tenho dúvidas e tenho medos.

E depois ganho coragem e decido que é hora de começar a jogar no euromilhões.

Geralmente, é quando mais estou decidida na minha tarefa, que as coisas começam a complicar.

Porque é aí que acontece algo que faz retornar as dúvidas e o medo.

Pode ser alguém que encontramos, que já tentou ganhar o euromilhões e não conseguiu. Pode ser alguém que nunca tentou e que tem uma lista preparada e estruturada com todas as razões pela qual não é bom, seguro, saudável ou talvez politicamente correcto, jogar no euromilhões.

Pode ser ainda – e é aí que tudo fica mais difícil – alguém de quem gostamos. Alguém de quem gostamos que nos diz que não, que não é um bom caminho para nós jogarmos no euromilhões. E aí fica tudo mais difícil. Porque é mais difícil contrariarmos alguém de quem gostamos.

A nossa voz interior diz “sim”, e a voz dessa pessoa diz “não”. E entã, a somar às dúvidas e aos medos, vem o conflito. O conflito interior. Como o resolver?

Uma das chaves é entender a motivação. A motivação da outra pessoa. É certo que algumas das pessoas que nos desencorajam não o fazem pelo mais nobre dos motivos. Mas quando falamos daquelas pessoas próximas, daquelas pessoas que gostam de nós, a situação geralmente é diferente.

Acontece que essas pessoas também têm medo. E têm medo não só por elas, mas também por nós. E querem proteger-nos. E é por isso que tentam demover-nos e, é preciso dizê-lo, desmotivar-nos de fazer certas coisas. Tentam desmotivar-nos de apostar.

A questão ligada a este verbo – apostar – é tanto podemos ganhar, como perder.

Quem gosta de ti, não quer que tu percas. Por isso, não quer que tu apostes.

Mas aí entras tu. És sempre tu a chave.

És tu quem tem que responder a um conjunto de perguntas:

 – “Vale a pena o risco?”

– “O que é o pior que pode acontecer?”

– “Se o pior acontecer, conseguirei lidar com as consequências?”

Se as respostas a estas perguntas te trouxerem tranquilidade e segurança, então… está na altura de fazeres a tua aposta; o que te parece?

Eu quero ganhar o meu Euromilhões e não vou desistir de encontrar a minha chave vencedora.

 

 

E tu, qual é o teu Euromilhões?

© Isa Lisboa

 

 

A este propósito, partilho uma pequena anedota, sobre jogos e sobre algo mais:

“Um homem rezava a Deus: “Meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria! Eu gostava tanto, mas tanto, de ganhar a lotaria! Por favor, meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria!”

O homem rezou a Deus desta forma, durante dias, vários dias seguidos.

Até que Deus decidiu responder ao homem: “Meu filho, se queres mesmo ganhar a lotaria… ao menos joga!”

 

Cegueira emocional

 

Para quem não sabe falar inglês, deixo um pequeno resumo do vídeo acima:

Trata-se da história de um casal, em que o homem pergunta à mulher se pensou no seu pedido de casamento. Ela responde-lhe que não pode casar com ele, porque é cega, e porque quer ver o futuro de ambos juntos. Ela diz que precisa ter os olhos dela.

Na cena seguinte, é a mulher quem vai ter com ele, e muito feliz, diz-lhe que poder ver é a sensação mais fantástica do mundo. Ele pergunta-lhe se agora ela já pode casar com ele e abraça-a, desajeitadamente. Nessa altura, ela percebe que ele não vê e, revoltada, diz-lhe que não pode casar com alguém que é cego e sai.

Numa terceira cena, ela encontra por acaso um envelope, ao arrumar as coisas da mesa. Dizia na parte de fora “Para quando tiveres os teus olhos.”. Ela abre o envelope e dentro tem, assinado pelo ex-namorado, um bilhete que diz: “toma bem conta dos meus olhos”.

Como o comentador, Jay Shetty, explica de seguida, este vídeo não é sobre cegueira física, mas sim sobre cegueira emocional. Sobre a forma quando julgamos as pessoas, especialmente quando a nossa situação muda para melhor e não conseguimos ver o outro lado, o lado do outro.

Este enquadramento fez-me sentido, mas não consegui deixar de ficar a pensar um pouco naquilo que o homem fez. E não consegui deixar de sentir que também ele errou. Talvez vos pareça estranho, visto que, afinal, é ele a vítima desta história, o injustiçado…

Mas, olhando mais de perto, vejo que ele abdicou de uma parte essencial dele mesmo para que outra pessoa se sentisse completa. Abdicou de uma parte essencial dele próprio, para a dar a uma pessoa que não se amava a ela própria da maneira que era.  Por isso, pergunto-me, não seria ele também cego emocionalmente? Pois como poderemos fazer os outros inteiros, se nós próprios estamos despedaçados?

© Isa Lisboa