Safira

 

Kawica Singson, Lava and water on camera

Foto: Kawica Singson

Lúcio observa a estranha mulher que, descalça e de calças arregaçadas se aproxima da água. Estava ali parada, apenas parada. Parece enterrar os pés na areia molhada, um de cada vez.

Antes de descer, percorreu o rochedo que ali se ergue, parando de tempos a tempos e também ali permanecendo imóvel por uns tempos. Parecia procurar alguma coisa, mas nada havia ali para achar. À frente, só o mar e, ocasionalmente, um pequeno barco à vela.

Move-se, segue em frente. Acaba por voltar atrás, talvez surpreendida pela onda mais forte que agora veio. Imóvel, continua imóvel, apenas olhando agora para a água, em baixo.

 

Safira olha a água do mar a ir e vir e a forma como os grãos de areia deslizam lentamente ao seu sabor. Nunca antes tinha reparado: parecem grãos de ouro a desfazerem-se e refazerem-se na água.

 

© Isa Lisboa

Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio

Efémera

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Uma efémera nasceu (*). Espreguiçou-se e pôs-se logo a voar. Percorreu todo o céu que tinha ao dispor. Era feliz.

Aproximava-se a 24ª hora, olhou para baixo e observou os humanos: “Tantas vidas têm e andam sempre presos à terra, não voam” – pensou.

Como tinha já poucos minutos, esqueceu os homens e voou o mais alto que pôde. Até que, lentamente, e embalada pela brisa, caiu na terra, que só estava lá para acolher a despedida da efémera que foi feliz.”

© Isa Lisboa

(*) A efémera é o animal com vida mais curta no reino animal, durando, no máximo 24h.

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Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio: 

http://tubodeensaio-laboratorio.blogspot.pt

Orientação

Trazia sempre uma bússola consigo. No entanto, andava sempre perdido.

Um dia encontrou um livro de História. Sobre o tempo dos navegadores. De como encontravam terra usando uma bússola e seguindo as estrelas.

Então decidiu comprar um barco.

A partir daí nunca mais precisou de uma bússola para encontrar o caminho.

© Isa Lisboa

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