Quem ganhou a discussão?

Há algum tempo, numa loja, presenciei uma discussão entre mãe e filha. Estava na caixa e no balcão elas tinham dois vasos de flores. Quando a funcionária da loja passou o código de barras, aperceberam-se de que o preço das plantas era diferente. De imediato, a mulher mais nova reclamou. A funcionária da loja explicou que uma das plantas era, efectivamente mais cara, e que até poderiam confirmar, pois as plantas estavam expostas na caixa ao lado.

“Então não levamos!” – respondeu logo a primeira. Mas a mãe reagiu de imediato, pegando logo no vaso e dizendo “Não, não, mas eu quero levar esta planta, porque gosto dela.”

A discussão teve mais algumas trocas de palavras, em que a filha opinava que era uma estupidez levar uma planta tão cara, e a mãe opinava que ia levar na mesma.

Fiquei um pouco a observar esta troca de palavras e a pensar o quanto aquela discussão não tinha nada a ver com a planta propriamente dita.

Pareceu-me antes ser uma disfarçada luta de poder, uma luta para ter razão e impor a sua própria opinião.

Talvez a mãe não gostasse assim tanto da planta e noutras circunstâncias não a levasse. Talvez a filha não achasse o preço assim tão elevado e noutras circunstâncias até a comprasse para a mãe.

Talvez. Não posso saber. Mas o que acredito é que, naquele momento, o Orgulho foi quem ganhou a discussão.

© Isa Lisboa

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“És feito daquilo que amas!”

“És feito daquilo que amas!”

Esta frase “entrou-me pelos olhos adentro” enquanto conduzia numa rua de Lisboa. Estava escrita num outdoor, era um slogan publicitário sobre a cidade.

À parte a publicidade, a frase chamou-me a atenção, pela sua verdade simples e abrangente.

Por um lado tudo aquilo que amamos, acaba por nos ajudar a definirmo-nos. Mas também, e principalmente, aquilo que amamos é o que nos faz viver uma vida plena, é o que nos faz levantar da cama e adormecer à noite em paz.

Ter na nossa vida algo que nos apaixona, algo que nos entusiasma, que faz sentir aquela pequena ou grande adrenalina, é algo que para mim é essencial.

Nem sempre conseguimos dedicar-nos a esse amor tanto quanto queremos, os desafios diários parecem uma constante interminável.

Mas se esquecermos essa parte de nós – a que se entusiasma, a que vibra, a que quer fazer, avançar, criar – aí criamos mais tempo. Mas criamos mais tempo para outros desafios diários, para mais stress. Stress não é apenas ter muitas coisas para fazer. É, acima de tudo, ter que as fazer sem prazer, por obrigação, porque alguém nos está a pressionar ou porque nós próprios nos estamos a pressionar. E tudo isso só nos suga a energia. Só nos vai subtraindo, um pouco a cada dia.

Por isso é tão importante que encontres – e faças – espaço para aquilo que mais amas.

Porque aquilo que amas é quem tu és.

© Isa Lisboa

Bookshelf – The minotaur takes a cigarette break

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Continuando a partilhar um pouco das minhas leituras, deixo-vos hoje um livro que posso classificar como intrigante. Esta é uma edição em inglês, e, traduzindo o título à letra, venho falar de “O Minotauro faz uma pausa para fumar”. 

A personagem principal é ele mesmo: o Minotauro. O temível. O que guardava o labirinto e se banqueteava com sacrifícios humanos.

Vive agora uma vida comum, num trabalho normal, imerso na humanidade contemporânea. Tentando deixar o passado para trás, procura manter os chifres baixos e a cauda escondida. 

Será mesmo este livro sobre uma criatura mítica? Ou sobre tantas e tantas pessoas reias?

Se já leram, deixem os vossos comentários sobre a obra 🙂

Isa Lisboa

O ciclo do grito

O ciclo do grito é algo de que ouvi falar numa série de comédia – “How I met your mother”.

Revi este episódio específico há pouco tempo e tive vontade de escrever sobre este fenómeno que já observei na vida real.

Diz-se que a ficção imita a vida real. Neste caso, em que o meio usado é a comédia, a mensagem, a meu ver, passa de forma mais eficaz… Mas desvio-me do assunto.

Neste episódio, umas das personagens lida, ou tenta lidar sem sucesso, com a prepotência do seu chefe que constantemente grita com ele. Outra das personagens, o seu amigo Barney, fala-lhe do ciclo do grito. Diz-lhe que quando uma pessoa grita com outra, a segunda pessoa deverá depois ir gritar com outra, como forma de se libertar da frustração e assim por diante.

E durante a maior parte do episódio, Barney tenta convencer o amigo Marshal a fazer parte desse ciclo do grito, o que o amigo não queria fazer. Quando o tenta – sendo uma comédia – os resultados são o oposto do esperado. Porque a pessoa com ele gritou, um empregado de restaurante onde jantam, já cansado de tantos clientes mal-humorados e prepotentes, grita com ele.

Na primeira vez em que vi este episódio, pensei em duas coisas: uma que o ciclo do grito é bem real, que muitas pessoas entram neste ciclo, de forma consciente ou inconsciente.

Ouvem gritos do patrão, engolem a injustiça. Ou ouvem gritos de uma pessoa próxima e preferem não levantar ondas. Mas depois ao chegarem a casa, gritam com a família, ou então chegam ao trabalho e descarregam em quem podem.

A outra coisa em que pensei é se o ciclo será sempre um círculo fechado ou se, como naquele episódio, há sempre alguém que escolhe não perpetuar este ciclo vicioso. Não gritando, mas também recebendo toda a frustração e raiva acumulada de quem gritou antes com a pessoa que gritou. E antes, e antes, e antes…

Bom, na verdade, pensei em três coisas. Também pensei que já me senti como o Marshal, a personagem que não queria fazer parte do ciclo do grito. Sabendo que não queria entrar nesse ciclo, mas, ao mesmo tempo, sem saber bem como lidar com os gritos.

E agora, na segunda vez que vi este episódio, percebi que como foi que, a pouco e pouco, fui fazendo essa aprendizagem.

Eu não queria gritar porque não queria dar a alguém algo que eu não gostava e que eu sentia que não fazia bem a ninguém. Mas, por outro lado, estava a aceitar que outras pessoas me dessem os seus gritos. E estava a aceitar parte do que esses gritos me diziam.

Foi por aí que comecei. A não aceitar, ou melhor, a declinar, as sensações que esses gritos meu causavam. A não deixar entrar na minha mente as coisas negativas que os gritos diziam sobre mim. A reconhecer o quanto daqueles gritos NÃO eram eu.

Ao responder, comecei a deixar de levantar a voz para me fazer ouvir. Passei antes a aumentar a segurança na voz ao defender-me. Ao dizer a minha verdade.

E, a pouco e pouco, percebi que isso era mais forte. E que diminuía os gritos à minha volta, porque diminuía o eco que os gritos faziam na minha mente.

Por isso, hoje em dia, sinto-me confortável com o meu lugar fora do ciclo do grito.

Sei que o que não quero receber e também estou tranquila com a minha decisão do que não quero dar.

© Isa Lisboa