Sentimentos dos nossos dias

A solidão senta-se ao meu lado no banco do metro, escondida por baixo de olhos aparentemente apenas sonolentos.

Caminha na mesma rua que eu, transportada por pernas cansadas.

De onde vem, para onde se dirige, é por vezes difícil de entender. Quase tão difícil como reconhecê-la ali tão perto. Entre os transeuntes.

 © Isa Lisboa

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(In)certezas

Sempre fui diferente. Por várias razões que não irei hoje explorar.

Mas por ser diferente, também sentia, da parte de algumas pessoas, uma reacção diferente.

E isso, para mim, era difícil. De alguma forma, sentia que me estava a ser negado o direito de ser quem era.

Nada mais errado! As reacções exteriores a nós nunca nos impedem de sermos quem somos, apenas as interiores o fazem.

É verdade que todos queremos aceitação por parte dos nossos pares. E isso é humano. Mas também é certo que a aceitação parte de nós mesmos. A partir do momento em que tu te aceites, verdadeira e completamente, então a opinião dos outros sobre ti passa a ser aquilo que verdadeiramente é: uma visão alternativa sobre ti. Uma visão com a qual tu podes discordar completamente ou com a qual podes até concordar. E, se concordares, está nas tuas mãos mudares aquilo que em ti ainda não és tu.

Vou dizer-te uma coisa que é ao mesmo tempo fantástica e assustadora: a partir do momento em que te aceites completamente, sem julgamentos, apenas com a consciência do que em ti é bom e é mau; a partir desse momento, és livre!

E quando te souberes livre, verás que não és diferente, que és apenas e simplesmente tu. Diferente será apenas um adjectivo, que por vezes ouves aplicado a ti. Mas que já não será um não, um gesto de exclusão, uma mão que te empurra para fora da fronteira (que não existe).

O que antes ouvias como um grito dirigido a ti, passas a entender como um grito de defesa. Porque quem ataca quem é diferente, defende-se. Atacamos quem é diferente porque temos medo. Quem é diferente lança dúvidas sobre as nossas (in)certezas.

E das nossas dúvidas, achamos que devemos defender-nos. Até percebermos que a dúvida é apenas uma porta. Podemos abri-la e descobrir novos caminhos. A trilhar. Podemos abri-la e fechá-la definitivamente, agora sem incertezas. Seja como for, a pergunta trará uma resposta.

Depois de girares, então, a maçaneta de conheceres o que em ti é diferente… quem sabe, talvez percebas que, afinal, estás apenas a viver.

E a ser!

© Isa Lisboa

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Sítio estranho

Que sítio estranho este! E é tão desconfortável! No início ainda teve piada, podia correr, remexer na terra, descobrir o que há dentro dos arbustos…! Na minha casa não me deixavam fazer isso, mas eu gostava mais de lá. Não chovia, e não fazia frio quando fica escuro. Nem havia estes barulhos estranhos, não sei o que são, não são como os da caixa que de vez em quando tem cores.

Tenho medo, mas acho que se ficar aqui escondido, não vai haver problema.

E sinto-me sozinho aqui, já passava muito tempo sozinho, mas antes do escuro tinha sempre companhia. Menos agora… Já não brincavam comigo como antes. Não sei porquê. Quando fui viver lá para casa, todos me chamavam para brincar, faziam-me sempre festas. Agora menos, muito menos.

Mas sinto falta dos meus humanos. Será que demorarão muito a vir buscar-me de volta?

Espero que não, este sítio é estranho! E tenho fome, não sei onde está a comida aqui, só encontro alguma de vez em quando.

Porque terão os meus humanos vindo para aqui…?!? Também não devem gostar disto; é tão diferente de casa!

 

***

 

Dois humanos que não conheço… Hum… Oh, fazem-me festas, devem ser bons humanos!

“Deves estar aqui há dias, pequenote!” – dizem,. Dias? Os meus humanos também falavam disso, nunca entendi o que são. Mas estou aqui há muito tempo, respondi-lhes.

Pegam-me ao colo e levam-me para uma daquelas coisas que os humanos usam para andar mais depressa. “Não quero ir, tenho que esperar pelos meus humanos!!!” – Grito-lhes!

Mas eles não me ouvem, ou se calhar também não me entendem, os meus humanos também nunca me entendem!

Não quero ir, mas estou tão cansado…

 

***

 

Outro sítio estranho…! Mas onde estou eu agora?!? Oiço outros cães, pergunto a um se é uma prisão.

Diz-me que não, que é um sítio para onde os humanos levam cães que não têm casa, para cuidar deles. “Mas eu tenho casa!” – “Estes humanos trouxeram-te de lá, perguntou-me.

“Não, trouxeram-me de um sítio feio, estranho. Os meus humanos deixaram-me lá, eu estava à espera que me fossem buscar.”

Ele olhou para mim e eu entendi. Nós entendemos, às vezes só demoramos mais tempo que os humanos, porque acreditamos neles.

“Vais ficar bem aqui.”

 

***

 

Aqui há vários humanos, tratam-me bem, fazem-me festas, dão-me comida. Não é como a minha casa, mas gosto de estar aqui.

Ontem um dos humanos estava triste, percebi que dizia ao outro que o armazém estava a ficar vazio… O que será que é o armazém?

© Isa Lisboa

 

Este texto foi publicado há alguns anos num dos meus primeiros blogs, Os dias em que olho o Mundo. Infelizmente, ainda é muito actual, e por isso, o republico.

 

Obrigada aos meus animais de estimação, os que me acompanham diariamente e os que já partiram. Obrigada por me ensinarem essa forma tão pura de amar, que praticam com tanta naturalidade: o amor incondicional!

 

 

Estranhezas

Há alguns anos atrás, estava a falar no chat do Facebook com uma pessoa amiga. A certa altura, despedi-me, dizendo que era hora de ir jantar.

A resposta que recebi foi mais ou menos a seguinte: “És mesmo estranha, a maior parte das pessoas trás o prato para o pé do computador e come enquanto está no chat!”

Na altura senti um certo desconforto com esta observação.

Não só porque na altura ainda me incomodava ser chamada de estranha – especialmente vindo essa expressão de uma pessoa amiga – mas também pela razão da “acusação”. Como se, por algum motivo, aquela observação me fosse privar do prazer de aproveitar uma refeição calmamente.

Não me recordo ao certo se foi esse o efeito que teve, mas é bem possível que sim.

Agora que olho para trás, fiquei incomodada com a crítica. Na altura, terei achado que fiquei incomodada com o conteúdo da crítica. Mas na realidade, fiquei incomodada porque aquela observação tinha uma frase escondida e que, na minha mente, eu ouvi: “Agora que eu queria falar, desligas para fazer algo tão banal como comer.”

Foi isso que o meu inconsciente ouviu. E reagiu com a tradicional mágoa e raiva: “E eu, não posso tirar um bocado de tempo para mim, não?”. Por isso, enquanto mastigava a comida, devo também ter mastigado essa sensação. Possivelmente, nesse dia, a comida não teve o sabor do costume.

Mas deveria ter sabido como de costume. Porque sim, eu tinha direito àquele tempo para mim. Até teria direito a simplesmente ter desligado a net e ter ido sentar-me no sofá sem fazer nada.

Todos temos direito a tempo para nós mesmos, para estarmos sozinhos, para fazer algo de que gostamos.

Parece simples. Mas inconscientemente, ao longo do tempo, fomos aprendendo a sentir culpa por querermos esse tempo. Fomos aprendendo a explicarmo-nos por isso.

No trabalho, sentimos obrigação de explicar porque não (podemos) fazer horas extraordinárias; se alguém nos telefona e não podemos atender, sentimos obrigação de explicar a chamada perdida… Outros exemplos haveria.

Mas porque precisamos justificar que precisamos de tempo para nós? Porque temos sempre que ter tanto tempo para os outros, e o tempo para nós pode sempre vir depois?

Não defendo com esta reflexão que nos ponhamos sempre acima dos outros e sempre em primeiro lugar. Mas não nos esqueçamos de nós mesmos. Quando o fazemos, começamos lentamente a perder a capacidade de ajudar os outros. E a capacidade de nos ajudarmos a nós mesmos e de nos mantermos resilientes.

Existe uma analogia muito conhecida sobre este instinto de sobrevivência – vou chamar-lhe assim.

Quando embarcamos num avião, ditam-nos as regras de segurança que, caso seja acendido o sinal para colocarmos a máscara de oxigénio, devemos começar por colocar a máscara em nós mesmos, antes de ajudar outros passageiros com dificuldade em colocá-la. Se não o fizermos, podemos nós ficar com falta de ar e desmaiar. E aí, já não poderemos ajudar os outros passageiros em dificuldades.

Assim também é na nossa vida. Se estivermos sempre a correr para ajudar a todos, excepto a nós mesmos, vamos perdendo essa força anímica que poderia ajudar alguém a voltar a respirar.

O que nos pode parecer egoísmo é auto-preservação. Se eu não conseguir cuidar de mim, como posso cuidar de ti?

© Isa Lisboa

Lorenzo Quinn

Foto: Lorenzo Quinn

Um café e um pastel de nata, por favor!

Vamos a um café, e dizemos “Queria um pastel de nata e um café.” – E o empregado responde-nos com a típica “Queria, então já não quer?”

Já aconteceu a muitas pessoas, certamente. E também, certamente, já tiveram como reacção aquela ligeira irritação pela “piada seca”. Também eu já tive muitas vezes essa reacção.

Mas dei por mim a pensar: realmente porque não digo “QUERO um pastel de nata e um café!”? Porque nos incomoda tanto dizermos directamente o que queremos, com um seguro “QUERO!”? Porque temos que amenizar a nossa vontade com aquele “queria” que fica ali a meio do “quero” e do “mas se não puder ser, não faz mal?”

Quando somos crianças, não temos problemas em expressar o que queremos: “Quero ir ver os desenhos animados.”

Aprendemos depois a acrescentar as palavras “Por favor”. O que é bom. Essas palavras ensinam-nos a respeitar a vontade, o “quero” do outro.

Mas quando foi que aprendemos a querer mais ou menos e só se não for muito incómodo? Quando foi que aprendemos a deixar de dizer com segurança o que queremos?

E, mais importante ainda, quando foi que aprendemos a deixar de dizer o que não queremos?

© Isa Lisboa

Patrice Murciano _

Imagem: Patrice Murciano