Estranhezas

Há alguns anos atrás, estava a falar no chat do Facebook com uma pessoa amiga. A certa altura, despedi-me, dizendo que era hora de ir jantar.

A resposta que recebi foi mais ou menos a seguinte: “És mesmo estranha, a maior parte das pessoas trás o prato para o pé do computador e come enquanto está no chat!”

Na altura senti um certo desconforto com esta observação.

Não só porque na altura ainda me incomodava ser chamada de estranha – especialmente vindo essa expressão de uma pessoa amiga – mas também pela razão da “acusação”. Como se, por algum motivo, aquela observação me fosse privar do prazer de aproveitar uma refeição calmamente.

Não me recordo ao certo se foi esse o efeito que teve, mas é bem possível que sim.

Agora que olho para trás, fiquei incomodada com a crítica. Na altura, terei achado que fiquei incomodada com o conteúdo da crítica. Mas na realidade, fiquei incomodada porque aquela observação tinha uma frase escondida e que, na minha mente, eu ouvi: “Agora que eu queria falar, desligas para fazer algo tão banal como comer.”

Foi isso que o meu inconsciente ouviu. E reagiu com a tradicional mágoa e raiva: “E eu, não posso tirar um bocado de tempo para mim, não?”. Por isso, enquanto mastigava a comida, devo também ter mastigado essa sensação. Possivelmente, nesse dia, a comida não teve o sabor do costume.

Mas deveria ter sabido como de costume. Porque sim, eu tinha direito àquele tempo para mim. Até teria direito a simplesmente ter desligado a net e ter ido sentar-me no sofá sem fazer nada.

Todos temos direito a tempo para nós mesmos, para estarmos sozinhos, para fazer algo de que gostamos.

Parece simples. Mas inconscientemente, ao longo do tempo, fomos aprendendo a sentir culpa por querermos esse tempo. Fomos aprendendo a explicarmo-nos por isso.

No trabalho, sentimos obrigação de explicar porque não (podemos) fazer horas extraordinárias; se alguém nos telefona e não podemos atender, sentimos obrigação de explicar a chamada perdida… Outros exemplos haveria.

Mas porque precisamos justificar que precisamos de tempo para nós? Porque temos sempre que ter tanto tempo para os outros, e o tempo para nós pode sempre vir depois?

Não defendo com esta reflexão que nos ponhamos sempre acima dos outros e sempre em primeiro lugar. Mas não nos esqueçamos de nós mesmos. Quando o fazemos, começamos lentamente a perder a capacidade de ajudar os outros. E a capacidade de nos ajudarmos a nós mesmos e de nos mantermos resilientes.

Existe uma analogia muito conhecida sobre este instinto de sobrevivência – vou chamar-lhe assim.

Quando embarcamos num avião, ditam-nos as regras de segurança que, caso seja acendido o sinal para colocarmos a máscara de oxigénio, devemos começar por colocar a máscara em nós mesmos, antes de ajudar outros passageiros com dificuldade em colocá-la. Se não o fizermos, podemos nós ficar com falta de ar e desmaiar. E aí, já não poderemos ajudar os outros passageiros em dificuldades.

Assim também é na nossa vida. Se estivermos sempre a correr para ajudar a todos, excepto a nós mesmos, vamos perdendo essa força anímica que poderia ajudar alguém a voltar a respirar.

O que nos pode parecer egoísmo é auto-preservação. Se eu não conseguir cuidar de mim, como posso cuidar de ti?

© Isa Lisboa

Lorenzo Quinn

Foto: Lorenzo Quinn

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