Mensagens do passado

1453378_695796877098041_232362499_n

“No outro dia cruzei-me com o passado…”

Alguns completariam esta frase com algo como “e ele não me disse nada de novo!”. Outros talvez a completassem com palavras de saudade, outros de dor e outros com a nostalgia do bom e velho “Oh, tempo, volta para trás!”

Pessoalmente, já tive os meus momentos de debate com o passado, alguns foram debates acesos. Talvez deva chamar-lhes briga. A briga não era com o passado, era comigo mesma. Como se o passado fosse uma pessoa. E por vezes era. Uma pessoa. Pessoas. Momentos. Emoções complicadas, baralhadas, que eu ainda não conseguia ver em toda a sua profundidade. Que eu não sabia como sentir.

Aos poucos, comecei a substituir as brigas por conversas. Nem sempre chegavam ao fim. Nem sempre nos entendíamos, eu e essa pessoa que me falava em forma de passado. Mas lá nos fomos ouvindo uma à outra. Percebi quem ela era, o porquê das suas palavras, fui puxando um fio após o outro e com eles fiz uma nova tapeçaria.

Não são conversas que se esgotam, continuamos a conversar. Essa ela do passado ajuda-me ainda a compreender o meu presente. Ajuda-me a preparar um futuro diferente.

Mas também me lembra de todas as vitórias e de todas as alegrias. Porque também as tenho. Tantas. Cada uma tão especial. Um diamante que prendo à tal tapeçaria. Um diamante a reflectir a luz.

É uma tapeçaria redonda, esta do passado. Um círculo desenhado sem compasso, mas, para mim, perfeito. Os ciclos que se repetem, apenas para que deixemos por aquela curva quem já não somos, o que já não nos serve. Ou para percebermos que já deixámos. Apenas uma mensagem a lembrar-nos que somos capazes.

Mas nem sempre é fácil entender o que o passado tem para nos dizer. Pode ser um aviso. Para não repetirmos os mesmos erros. Ou pode ser um teste que colocamos a nós mesmos: será que deixei de vez o passado e consigo passar à frente sem olhar para ele?

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas a nós próprios, em cada nova situação da vida. Pelo menos enquanto procurarmos percorrer um caminho que nos faça avançar.

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas, mas, certamente, começaremos a dar-lhes respostas cada vez mais seguras e rápidas.

Porque a resposta nunca é a mesma. Ela depende da aprendizagem que se nos apresenta. E é difícil, por vezes perceber a resposta certa. Mas ao mesmo tempo é muito simples. Perguntem ao coração. Ele sabe sempre.

© Isa Lisboa

Inferno e céu colectivos

11402738_488941617938905_7084865789411131959_n

Imagem: Google

“Mestre e discípulo foram até uma região onde havia fartura de arroz mas os habitantes daquele lugar possuíam talas em seus braços, o que os impedia de levarem o alimento à própria boca. No meio daquela fartura, passavam fome e eram fracos e subnutridos!
– Veja! – Disse o Mestre – Isto, é o inferno colectivo.
Em seguida, o Mestre guiou o Discípulo para uma região próxima e mostrou que nela também havia fartura de arroz e as pessoas também tinham os braços atados a talas mas eram saudáveis e bem nutridas pois uma levava o arroz à boca do outro, em um processo de interdependência e cooperação mútua.
– E isto é o Céu colectivo. “

Adormecer a dor

“Se eu conseguisse adormecer, pelo menos não sentia a dor.”
Foi este o pensamento que trespassou pela minha cabeça durante uma dor de dentes particularmente insistente.
No entanto, este pensamento não teve o efeito de me adormecer, mas antes de me colocar alerta. Porque, subitamente, apercebi-me do quanto este é um pensamento perigoso.
Porque a dor, pode, efectivamente, ser um importante veículo para o adormecimento. Um veículo conduzido não só pelos outros, mas também por nós.
Quantas vezes, para não sentirmos a dor, não procuramos adormecer? Ao dormir, a dor continua lá, mas não se sente, por isso é como se ela já não existisse. Como se. Mas o problema é que continua a existir. E às vezes acorda-nos a meio da noite, provocando-nos um pouco de insónia agora. E, para além disso, o despertador irá tocar, iremos acordar. E aí, teremos que lidar com a dor. De forma mais dolorosa, talvez.
Por isso, podemos sempre tentar adormecer, mas a dor sempre voltará e sempre nos acordará. Os analgésicos só funcionarão durante algum tempo. Depois a dor torna-se imune a eles. Continua a manifestar-se para nos avisar de algo muito importante. O sítio onde dói precisa ser curado.
E é por isso que embora ninguém goste de uma dor de dentes, a verdade é que ela tem a sua função.
Se bem que… já perceberam que já há alguns parágrafos atrás que parei de falar de dores de dentes? Não foi?

© Isa Lisboa

Herb Ritts

Imagem: Herb Ritts

Raízes

Há dias decidi mudar de vaso uma das plantas da minha varanda. Era uma tarefa que tinha vindo a adiar… O vaso estava já meio partido, já há algum tempo que a terra daquela planta não era trocada. Precisava mesmo do transplante. Mas a planta continuava a aparentar estar bem, continuava verde, parecia saudável. Não me parecia urgente.

Mas ao libertá-la finalmente daquele vaso, vi que que a sua base se tinha tornado num vaso de raízes. Pesadas. Apertando-se umas às outras. Pareciam sufocar a própria terra, a tal ponto que parecia não haver espaço para ela. E algumas das raízes estavam secas e sem vida. Puxei-as, e algumas cederam com facilidade. Assim encontrei também espaço para retirar a terra que envolviam.

Neste momento, a planta já está num vaso novo, com terra nova. E, parece-me a mim, mais feliz e mais saudável. Com as raízes que estavam saudáveis. Que parecem estar a fincar-se bem à terra. Pelo sim, pelo não, vou dando uma vista de olhos mais atenta nos próximos tempos.

E, enquanto isso, parti o meu próprio vaso e ando à procura das raízes que já não são minhas e que já não levam a seiva. Depois é só ter força para as arrancar.

 —

 Este texto foi escrito em Maio de 2014 e foi publicado originalmente no meu blog Os dias em que olho o mundo. A planta que na altura transplantei continua, feliz e viçosa, no seu novo vaso.

E eu, ao longo deste tempo encontrei algumas das tais raízes que já não eram minhas. Que já não me alimentavam. Que apenas me estavam a prender a lugares, pessoas, recordações e emoções que já não eram minhas. Algumas não tive dificuldade em cortar. Aceitei rapidamente que um dia tinha precisado delas, mas que já não faziam parte de mim.

Quanto a outras ainda, o processo foi doloroso. Realmente precisei de força para as arrancar. Foi preciso olhar bem para elas, entendê-las bem, perceber porque se tinham ali formado. Libertar-me da culpa de as ter deixado sufocar as outras raízes. Essas, as mais fundas, as que tinham deixado mais marcas, não queriam sair. Resistiram. E eu também resisti. Pode parecer contraditório dizer que tive dificuldade em me libertar de coisas de que já não precisava. Mas digo-vos mais: já não as queria. E ainda assim, não foi de um dia para o outro que as deixei ir.

Nesta jardinagem de mim mesma, entendi que as raízes gastas se estendem a locais que julgamos inacessíveis. E, aí presas, sussurram-nos palavras – umas vezes doces, outras vezes duras – que procuram prender-nos lá com elas. Aprendi que a dor tem medo da solidão. Por isso nos alicia a ficarmos abraçados a ela, a nos deixarmos abraçar por ela. Mas que quando a olhamos nos olhos, sem medo, e entendemos porque ela está ali; é aí que ela perde toda a sua força.

Aprendi que precisamos ver algumas das nossas raízes cortadas, para crescer como realmente somos.

E que, tal como as plantas da minha varanda, precisamos jardinar a nossa alma com frequência. Alimentá-la, deixá-la ver a luz e não deixar que a terra sob os nossos pés não nos deixe abrir os ramos até onde queiramos ir.

 © Isa Lisboa

646546c47191b13effcd3c7efdeff83e  (pintres)

Imagem: Pintrest

Gigantes

Que maior gigante haverá que aquele que pequeno se vê?

Pois que maior dádiva haverá, que sabendo correr, se abrande a marcha? Se pegue nas mãos que se abrem e se levem ao longo do caminho? O caminho que já se sabe ser belo, mas que outros precisam descobrir. Que maior dádiva, que ver alguém crescer?

Quem se tendo aproximado das nuvens, se volta de novo à Terra, nela finca raízes; porque será que vem, senão para distribuir a luz que descobriu? Que maior generosidade há, que partilhar a felicidade e a glória mostrando o caminho, o caminho ao alcance de todos.

Os gigantes não cabem na terra, e por tal, pequenos nascem, para a todos mostrar como podem crescer. Na escuridão acordam, para lembrar como acender a luz e a outros mostrar a lanterna acesa.

Que maior gigante haverá, que a criança que quer crescer?

 © Isa Lisboa

12801488_964485866976200_2946977475649065757_n

Cicatrizes

unnamed (2)

Foto: Autor não identificado

Vivemos numa sociedade que não gosta de cicatrizes. Cicatrizes nas suas variadas formas. Físicas e emocionais.

É verdade que tanto umas como outras representam uma dor vivida, e talvez por isso nos seja tão difícil encarar essa marca – em nós e nos outros.

Mas também é verdade que as nossas cicatrizes contêm a nossa história. E ainda que ela tenha sido dolorosa, faz parte de nós. Tudo o que nos acontece vem com o intuito de nos ensinar algo ou de nos fazer crescer e experienciar o potencial da vida. Aquilo que acredito ser o sentido da vida.

Por vezes estas cicatrizes são memórias que guardámos no sótão do nosso coração, memórias dolorosas. Não vale a pena remetê-las para um baú fechado no canto mais escuro desse sótão. As memórias não se calam nem se amordaçam. Devemos antes aceitá-las como parte de quem fomos. Deixando de fugir delas e de lhes resistir, poderemos entender o que elas nos ensinaram, e em que medida nos tornaram mais fortes. Aprendida a lição e, ultrapassado o obstáculo, estamos então prontos para o que vem a seguir.

Porque algo vem a seguir. Sempre.

Há alguns anos atrás, numa feira de rua, comprei um livro em segunda mão. Ao chegar a casa, quando ia arrumá-lo, um bilhete caiu. Tinha escrita à mão, uma simples frase: “Tudo ainda está para vir.” Sentia-me numa fase de recomeço de ciclo, tinha feito algumas mudanças na minha vida. Foi, para mim e naquele momento, uma mensagem de esperança e uma indicação de que estava no caminho certo.

E, agora que tudo muda de novo, sei que estava. Percorri o caminho que precisava percorrer, para entender em pleno as minhas cicatrizes e para poder afirmar que elas são apenas uma pequena parte da história; mas que a história que se escreverá daqui para a frente será pelo meu punho, com a minha caneta. Como deve sempre ser.

E tudo continua ainda por vir.

© Isa Lisboa

Árvore da Vida

Olho-te

E toco-te:

Dentro de ti

Corre a seiva

Que transporta a vida

Protegida pelos aros

Seculares

Onde se guardam

Memórias

De quem viste dançar

Ouviste cantar e rir

De vislumbre de olhos

Que, sorrindo, se amaram

Também de lágrimas, talvez

De sangue derramado

Quem sabe;

Terás visto tantas paixões

Desta humanidade

Talvez não compreendas todas

Ou as vejas até

Com mais clareza.

Aceitaste tanto a água

Como o sol

O sangue como os afagos

Todos transmutaste.

Te fizeste Vida

Imponente

Impassível à tempestade

De braços abertos ao sol

Sorrindo

Aos homens que passam

Ainda que o não saibam

Ou o não queiram

Tu sabes

O ritmo do Céu, da Terra, do Mar

Sabes que é igual ao teu

Ao meu

Ao nosso

Indivisíveis.

Abraça-me, peço-te

Embala-me, o teu braço é forte

O teu canto suave

Sabe cantar-me

Tudo o que já fui

E o que serei

E diz-me apenas:

“Sê!”

© Isa Lisboa

IMG_0820

Barco salva vidas

há-um-juiz-chamado4

Imagem: Autor não identificado

Era hora de lançar o salva-vidas à água.

Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.

Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.

E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.

Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.

Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.

E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.

A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.

Para todos há, algures, a Terra Prometida.

© Isa Lisboa

Publicado originalmente no Instantâneos a preto e branco