Mensagens do passado

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“No outro dia cruzei-me com o passado…”

Alguns completariam esta frase com algo como “e ele não me disse nada de novo!”. Outros talvez a completassem com palavras de saudade, outros de dor e outros com a nostalgia do bom e velho “Oh, tempo, volta para trás!”

Pessoalmente, já tive os meus momentos de debate com o passado, alguns foram debates acesos. Talvez deva chamar-lhes briga. A briga não era com o passado, era comigo mesma. Como se o passado fosse uma pessoa. E por vezes era. Uma pessoa. Pessoas. Momentos. Emoções complicadas, baralhadas, que eu ainda não conseguia ver em toda a sua profundidade. Que eu não sabia como sentir.

Aos poucos, comecei a substituir as brigas por conversas. Nem sempre chegavam ao fim. Nem sempre nos entendíamos, eu e essa pessoa que me falava em forma de passado. Mas lá nos fomos ouvindo uma à outra. Percebi quem ela era, o porquê das suas palavras, fui puxando um fio após o outro e com eles fiz uma nova tapeçaria.

Não são conversas que se esgotam, continuamos a conversar. Essa ela do passado ajuda-me ainda a compreender o meu presente. Ajuda-me a preparar um futuro diferente.

Mas também me lembra de todas as vitórias e de todas as alegrias. Porque também as tenho. Tantas. Cada uma tão especial. Um diamante que prendo à tal tapeçaria. Um diamante a reflectir a luz.

É uma tapeçaria redonda, esta do passado. Um círculo desenhado sem compasso, mas, para mim, perfeito. Os ciclos que se repetem, apenas para que deixemos por aquela curva quem já não somos, o que já não nos serve. Ou para percebermos que já deixámos. Apenas uma mensagem a lembrar-nos que somos capazes.

Mas nem sempre é fácil entender o que o passado tem para nos dizer. Pode ser um aviso. Para não repetirmos os mesmos erros. Ou pode ser um teste que colocamos a nós mesmos: será que deixei de vez o passado e consigo passar à frente sem olhar para ele?

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas a nós próprios, em cada nova situação da vida. Pelo menos enquanto procurarmos percorrer um caminho que nos faça avançar.

Talvez nunca deixemos de fazer estas perguntas, mas, certamente, começaremos a dar-lhes respostas cada vez mais seguras e rápidas.

Porque a resposta nunca é a mesma. Ela depende da aprendizagem que se nos apresenta. E é difícil, por vezes perceber a resposta certa. Mas ao mesmo tempo é muito simples. Perguntem ao coração. Ele sabe sempre.

© Isa Lisboa

Ampulheta

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Recebi há dias de presente uma ampulheta. É um objecto que acho particularmente simbólico.

Ao observar a areia da ampulheta a cair calmamente, no seu ritmo imutável, penso não só no que ela representa – o Tempo – mas também na nossa relação com ele.

Por vezes somos tentados a procurar controlar o tempo. Seja tentando atrasá-lo, para que algo dure mais tempo; seja tentando acelerá-lo, para que algo que desejamos muito chegue mais rápido.

Ora, se pegarmos numa ampulheta e tentarmos que a areia ande mais devagar, verificaremos que nada que possamos fazer daqui de fora a atrasa. Podemos apenas virá-la ao contrário. Nessa altura, a areia começará a cair de um outro ponto.

E então pensaremos talvez que conseguimos manipular o tempo. Mas se a areia cairá ao mesmo ritmo, não estaremos apenas a inverter o tempo, colocando-nos a nós mesmos numa ilusão de que o tempo agora é nosso?

Eu não tenho dúvidas de que o Tempo tem o seu Tempo e de que a areia cai no ritmo certo para cada um. Procurar alterar isso só nos aproxima da crisálida a quem alguém não deixou sair do casulo.

Essa é uma história que circula em vários sítios pela internet. Para que possa ganhar asas, a jovem crisálida precisa debater-se com o casulo. Só assim as suas asas crescem e se tornam fortes o suficiente para voar. Caso alguém ajude a pequena crisálida a sair, as suas asas ficarão fracas e ela jamais conseguirá voar.

A crisálida sabe que para ser borboleta tem que aguardar que a areia caia de um dos lados da ampulheta para o outro. E que quando ela se vira, é o momento de, ao ritmo dos grãos de areia, se fortificar e lentamente construir as suas asas. As que a farão voar, conhecer as flores e provar o polén. Voando alegremente no vento, o casulo uma recordação do útero que a fez nascer e ser.

E a mim parece-me que a borboleta é feliz.

Procuremos nós ouvir a sabedoria dos grãos de areia que caem na nossa ampulheta. Deixemo-nos ir, confiemos na sabedoria sagrada que nos guia e nos rodeia. Ela fala connosco, baixinho, mas podemos ouvi-la. Basta fechar os olhos e ouvir o som de um grão de areia a cair.

“É por aqui” – Dir-te-á ela. E quando te levantares e seguires o teu caminho, será a própria mão do Tempo a virar a ampulheta. E tudo recomeçará, no tempo que é teu.

© Isa Lisboa

Inferno e céu colectivos

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Imagem: Google

“Mestre e discípulo foram até uma região onde havia fartura de arroz mas os habitantes daquele lugar possuíam talas em seus braços, o que os impedia de levarem o alimento à própria boca. No meio daquela fartura, passavam fome e eram fracos e subnutridos!
– Veja! – Disse o Mestre – Isto, é o inferno colectivo.
Em seguida, o Mestre guiou o Discípulo para uma região próxima e mostrou que nela também havia fartura de arroz e as pessoas também tinham os braços atados a talas mas eram saudáveis e bem nutridas pois uma levava o arroz à boca do outro, em um processo de interdependência e cooperação mútua.
– E isto é o Céu colectivo. “

Adormecer a dor

“Se eu conseguisse adormecer, pelo menos não sentia a dor.”
Foi este o pensamento que trespassou pela minha cabeça durante uma dor de dentes particularmente insistente.
No entanto, este pensamento não teve o efeito de me adormecer, mas antes de me colocar alerta. Porque, subitamente, apercebi-me do quanto este é um pensamento perigoso.
Porque a dor, pode, efectivamente, ser um importante veículo para o adormecimento. Um veículo conduzido não só pelos outros, mas também por nós.
Quantas vezes, para não sentirmos a dor, não procuramos adormecer? Ao dormir, a dor continua lá, mas não se sente, por isso é como se ela já não existisse. Como se. Mas o problema é que continua a existir. E às vezes acorda-nos a meio da noite, provocando-nos um pouco de insónia agora. E, para além disso, o despertador irá tocar, iremos acordar. E aí, teremos que lidar com a dor. De forma mais dolorosa, talvez.
Por isso, podemos sempre tentar adormecer, mas a dor sempre voltará e sempre nos acordará. Os analgésicos só funcionarão durante algum tempo. Depois a dor torna-se imune a eles. Continua a manifestar-se para nos avisar de algo muito importante. O sítio onde dói precisa ser curado.
E é por isso que embora ninguém goste de uma dor de dentes, a verdade é que ela tem a sua função.
Se bem que… já perceberam que já há alguns parágrafos atrás que parei de falar de dores de dentes? Não foi?

© Isa Lisboa

Herb Ritts

Imagem: Herb Ritts

Ouvir a Voz Interior

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Imagem: Autor não identificado

Não preste atenção ao que os outros dizem, ao que eles lhe dizem para ser. Escute sempre a sua voz interior, aquilo que gostaria de ser; de outro modo desperdiçará toda a sua vida. A sua mãe quer que seja engenheiro, o seu pai quer que seja médico e você quer ser poeta. Que fazer? É evidente que a mãe tem razão, porque ser engenheiro é mais interessante do ponto de vista económico e financeiro. O pai também tem razão; ser médico é uma boa mercadoria, tem um valor de mercado. Um poeta? Enlouqueceste? És doido? Os poetas são uma raça maldita. Ninguém os quer. Não há necessidade nenhuma deles; o mundo pode existir sem poesia — não haverá qualquer problema lá por não haver poesia. O mundo não pode existir sem engenheiros; o mundo precisa de engenheiros. Quando se é necessário, tem-se um valor. Quando não se é necessário, não se tem qualquer valor.

Mas se você quiser ser poeta, seja poeta. Poderá ser um pedinte – óptimo. Poderá não vir a ser muito rico, mas não se preocupe – porque de outro modo poderá vir a ser um grande engenheiro e poderá ganhar muito dinheiro, mas nunca se sentirá realizado. Será sempre um insatisfeito; o seu ser interior ansiará por ser poeta. Ouvi contar que perguntaram a um grande cientista, um cirurgião que obteve um Prémio Nobel: «Quando o Prémio Nobel lhe foi atribuído, o Senhor não parecia muito feliz. Porquê?» O cirurgião respondeu: «Sempre quis ser dançarino. Para começar, nunca quis ser cirurgião, e agora não só me tornei cirurgião, como também me tornei um cirurgião de grande sucesso e isso é um fardo. Só queria ser dançarino e continuo a ser um mau dançarino — é esse o meu desgosto, a minha angústia. Sempre que vejo alguém dançar, sinto-me muito infeliz, num verdadeiro inferno. Que vou eu fazer com este Prémio Nobel? Para mim, ele não pode transformar-se numa dança, não pode dar-me uma dança.»

Lembre-se: seja fiel à sua voz interior. Ela poderá conduzi-lo ao perigo, pois então vá ao perigo. Porém, olhe sempre: a coisa mais importante é o seu ser. Não permita que os outros o manipulem ou o controlem – e eles são muitos; toda a gente está pronta para o reprimir, toda a gente está pronta para o mudar, toda a gente está pronta para lhe dar uma direcção que você não pediu. Toda a gente lhe dá um guia para a sua vida. O guia existe dentro de si, você transporta a sua marca de água. Ser autêntico significa ser fiel a si próprio. É um fenómeno muitíssimo perigoso; são raras as pessoas que o fazem. Mas sempre que as pessoas o fazem, elas conseguem. Elas conseguem uma beleza tal, uma graça tal, um contentamento tal que não pode ser imaginado.

Osho, in ‘Intimidade’

Deixar o bolo crescer e o leite ferver

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“Meu Deus, dai-me paciência e dai-ma já!” – esta é uma das frases que encontrei para, como um certo toque de humor, descrever o meu signo: os arianos.

Se é verdade que em algumas situações sempre fui descrita pelos meus amigos como sendo paciente, não é menos verdade que acabei por constatar que tenho o meu lado impaciente. Descobri em mim uma certa impaciência, da qual o principal alvo é, nada mais nada menos, do que eu própria!

Na minha actividade profissional diária, assumo uma margem de erro nas estimativas que faço, nas deadlines que assumo e nas expectativas que crio. Porque, com o tempo, entendi que não posso controlar todo o processo e que, por isso, devia aceitar plenamente e tranquilamente, a maior variável com a qual lido no meu trabalho: a incerteza.

A incerteza não quer dizer que tudo irá correr mal. Ou que devíamos permitir propositadamente ou com leveza que tudo corra mal. Mas a incerteza existe e, nas ciências actuariais e estatísticas, como na vida, temos que contar com ela e estar preparados para que ela nos surpreenda.

Mas, comigo mesma, comecei mais recentemente a aprendizagem da perfeita imperfeição. Permitirmo-nos a nós mesmos errar é algo que não é fácil. Pelo menos para mim não tem sido fácil.

No entanto, quando fiz a mim mesma a pergunta: “Se os outros podem errar, porque é que tu não podes?”, surgiram-me algumas respostas. Mas, ao nível racional, não faziam muito sentido. Ao nível emocional, faziam ainda menos. Foi aí que admiti que talvez, talvez, me fosse permitido errar de vez em quando.

E à medida que fui aprendendo a tolerância comigo própria, vi que, se já me permitia errar, ainda me era difícil permitir não conseguir fazer algo ou não o conseguir fazer com a rapidez com que eu achava que tinha que acontecer. Fosse nos meus projectos internos – de crescimento pessoal, emocional e espiritual – fosse nos meus projectos mais visíveis. Se algo precisava ser mudado, então vamos lá mudar isso e o mais rápido possível.

Mas não é bem assim.

Imaginemos que somos uma casa. Somos uma casa e queremos mudar a mobília de uma divisão. Ora, para isso, não basta sair e ir comprar a mobília nova.

Primeiro, há que retirar a mobília antiga. Decidir o que fazer com ela. Será que tem que ir toda embora, ou existem algumas que queremos ou ainda precisamos que fique? E algumas, não poderão ser renovadas ou ser-lhes dado novo uso ou uma cara nova? Esta separação, recomendo que seja feita com tempo e com olhos que reconhecem que aquela mobília foi nossa durante um tempo e que, a um outro nível, nos trouxe conforto. Talvez até não a tenhamos escolhido, mas foi nossa durante um tempo. E, por isso, encerra memórias e histórias.

Depois de feita esta separação, e liberta a divisão do que realmente já não queremos, podemos aproveitar para aquela limpeza mais profunda. Aquela que não temos tempo para fazer no lufa-lufa do dia-a-dia. Abrir as janelas, arejar a divisão e deixar entrar o sol. Deixá-la apreciar por um pouco a quietude do vazio.

E agora então podemos escolher a mobília nova e recomeçar a mobilar. Mas talvez não seja preciso mobilar tudo de uma vez só. Como da primeira vez, em que fomos comprando tudo aos poucos. Uma peça de cada vez.

Assim a divisão pode adaptar-se ao que vem de novo. E nós podemos apreciar o processo de procurar, desejar e apenas depois achar.

Numa sociedade cada vez mais instantânea, vamos, sem perceber, perdendo este sabor, de deixar fluir e de dar um passo de cada vez, confiando que o tempo certo é o que nos faz mover e não o que nos faz correr até à exaustão.

E a sabedoria de saber agir, mas de reconhecer também o momento em que é preciso esperar. Esperar que o leite ferva e que o bolo cresça.

Estes foram dois textos muito interessantes que li sobre o assunto. Num (aqui), a autora conta como, quando era menina observou que, se ficasse ao pé da cafeteira do leite, ele não fervia. Só quando ela se afastava do fogão, ele fervia e transbordava. No segundo (aqui), o tempo transforma-se num bolo, em que primeiro precisamos fazer a massa, untar a forma e colocar no forno. E aí, que já fizemos o que tínhamos a fazer, precisamos deixar que o forno coza o bolo, na temperatura certa. Aumentar o calor, estragaria o bolo. Retirá-lo antes do tempo, significaria comer o bolo cru.

Deixo-vos agora com as minhas divagações. Acho que ouvi um barulho vindo do fogão e também já cheira bem pela casa toda.

Acho que estou a ficar melhor nisto de fazer bolinhos com leite para o lanche.

© Isa Lisboa

Safira

 

Kawica Singson, Lava and water on camera

Foto: Kawica Singson

Lúcio observa a estranha mulher que, descalça e de calças arregaçadas se aproxima da água. Estava ali parada, apenas parada. Parece enterrar os pés na areia molhada, um de cada vez.

Antes de descer, percorreu o rochedo que ali se ergue, parando de tempos a tempos e também ali permanecendo imóvel por uns tempos. Parecia procurar alguma coisa, mas nada havia ali para achar. À frente, só o mar e, ocasionalmente, um pequeno barco à vela.

Move-se, segue em frente. Acaba por voltar atrás, talvez surpreendida pela onda mais forte que agora veio. Imóvel, continua imóvel, apenas olhando agora para a água, em baixo.

 

Safira olha a água do mar a ir e vir e a forma como os grãos de areia deslizam lentamente ao seu sabor. Nunca antes tinha reparado: parecem grãos de ouro a desfazerem-se e refazerem-se na água.

 

© Isa Lisboa

Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio

As asas de uma borboleta


As asas de uma borboleta

“Sabias que é fisicamente impossível a uma borboleta ver as suas próprias asas?

Sabias também que as asas de uma borboleta são consideradas como uma das mais belas criações da natureza?

Elas não conseguem ver o quão belas são. Mas todos os outros conseguem… Sinto que também é assim com as pessoas.”

Autor não identificado

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Raízes

Há dias decidi mudar de vaso uma das plantas da minha varanda. Era uma tarefa que tinha vindo a adiar… O vaso estava já meio partido, já há algum tempo que a terra daquela planta não era trocada. Precisava mesmo do transplante. Mas a planta continuava a aparentar estar bem, continuava verde, parecia saudável. Não me parecia urgente.

Mas ao libertá-la finalmente daquele vaso, vi que que a sua base se tinha tornado num vaso de raízes. Pesadas. Apertando-se umas às outras. Pareciam sufocar a própria terra, a tal ponto que parecia não haver espaço para ela. E algumas das raízes estavam secas e sem vida. Puxei-as, e algumas cederam com facilidade. Assim encontrei também espaço para retirar a terra que envolviam.

Neste momento, a planta já está num vaso novo, com terra nova. E, parece-me a mim, mais feliz e mais saudável. Com as raízes que estavam saudáveis. Que parecem estar a fincar-se bem à terra. Pelo sim, pelo não, vou dando uma vista de olhos mais atenta nos próximos tempos.

E, enquanto isso, parti o meu próprio vaso e ando à procura das raízes que já não são minhas e que já não levam a seiva. Depois é só ter força para as arrancar.

 —

 Este texto foi escrito em Maio de 2014 e foi publicado originalmente no meu blog Os dias em que olho o mundo. A planta que na altura transplantei continua, feliz e viçosa, no seu novo vaso.

E eu, ao longo deste tempo encontrei algumas das tais raízes que já não eram minhas. Que já não me alimentavam. Que apenas me estavam a prender a lugares, pessoas, recordações e emoções que já não eram minhas. Algumas não tive dificuldade em cortar. Aceitei rapidamente que um dia tinha precisado delas, mas que já não faziam parte de mim.

Quanto a outras ainda, o processo foi doloroso. Realmente precisei de força para as arrancar. Foi preciso olhar bem para elas, entendê-las bem, perceber porque se tinham ali formado. Libertar-me da culpa de as ter deixado sufocar as outras raízes. Essas, as mais fundas, as que tinham deixado mais marcas, não queriam sair. Resistiram. E eu também resisti. Pode parecer contraditório dizer que tive dificuldade em me libertar de coisas de que já não precisava. Mas digo-vos mais: já não as queria. E ainda assim, não foi de um dia para o outro que as deixei ir.

Nesta jardinagem de mim mesma, entendi que as raízes gastas se estendem a locais que julgamos inacessíveis. E, aí presas, sussurram-nos palavras – umas vezes doces, outras vezes duras – que procuram prender-nos lá com elas. Aprendi que a dor tem medo da solidão. Por isso nos alicia a ficarmos abraçados a ela, a nos deixarmos abraçar por ela. Mas que quando a olhamos nos olhos, sem medo, e entendemos porque ela está ali; é aí que ela perde toda a sua força.

Aprendi que precisamos ver algumas das nossas raízes cortadas, para crescer como realmente somos.

E que, tal como as plantas da minha varanda, precisamos jardinar a nossa alma com frequência. Alimentá-la, deixá-la ver a luz e não deixar que a terra sob os nossos pés não nos deixe abrir os ramos até onde queiramos ir.

 © Isa Lisboa

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Imagem: Pintrest

Dementors

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Imagem: Electus, by Martinakis Adam

Gostam dos livros da saga “Harry Potter”? Bom, eu gosto. Uma escrita assim sabe bem, por vezes. Ser transportada a um mundo diferente, em que a magia ainda existe, imaginar que ela existe aqui mesmo ao meu lado, até na plataforma do comboio, naquela que eu não vejo – que a magia existe, só que eu não a consigo ver. Se assim fosse, era triste, talvez, mas a ideia não deixa de exercer algum fascínio.

Depois, temos o leque de personagens; identificamo-nos mais com uma ou com outra, e, apesar de serem personagens de um mundo mágico, não deixamos de as conhecer, aqui, no Mundo dos Muggles.

Hoje não vou falar sobre os heróis, mas antes sobre os vilões.

Fiz uma vez uma brincadeira, de encontrar personagens dos livros em algumas pessoas que conheço. E sim, havia quem pudesse ser o vilão mais óbvio, Aquele Cujo Nome Não Não Pode Ser Pronunciado. Mas havia outros vilões que surgiam, os Dementors.

Os Dementors são guardas de Azkaban, a prisão do mundo mágico. A sua arma é o seu dom de sugar a felicidade às pessoas que atacam. Literalmente. Aproximam-se da sua vítima e vemos a sua felicidade a vaporizar-se para dentro da boca horrenda e enorme dos Dementors, que, assim, roubam toda a felicidade a quem não se consegue proteger. A vítima fica oca, como ficará alguém a quem a felicidade foi roubada. Por outro lado, os Dementors não parecem ficar nem um pouco mais felizes, depois de absorvida uma boa dose de felicidade. Pelo menos a julgar pelo ar sombrio que mantêm e pela sua saída em busca de mais vítimas. É como roubar uma linda rosa de um jardim, e a seguir, deixá-la cair na valeta mais próxima. Matando a rosa e entristecendo o jardim. Para nada…

Acho que há, de facto, muitos Dementors por aí. Uma sala pode estar cheia de pessoas felizes, bem dispostas, animadas em conseguir algo. Quando entra um Dementor, a sala fica de imediato pesada, escura, a felicidade começa a escoar lentamente dos corpos de cada um. Da mesma forma, quando o Dementor sai, o sentimento de alívio é notório, ainda que ninguém o verbalize.

Todos já nos cruzámos com um destes Dementors, e talvez por isso às vezes dê por mim a acreditar no mundo de Harry Potter. Por isso e porque ainda procuro magia na vida.

No mundo mágico, o feiticeiro deve encontrar uma memória, aquela memória mesmo boa e feliz que tem, e essa memória produzirá um feitiço forte o suficiente para afastar o Dementor.

Na vida dos Muggles, deparo-me muitas vezes com dúvidas sobre a melhor forma de enfrentar estes vilões, porque esta memória ajuda, mas nem sempre funciona com a eficácia prometida nos livros.

E, há pouco tempo, encontrei uma resposta a esta pergunta numa prateleira de uma livraria, no livro “Os dias do avesso”, transcrição de algumas conversas de Isabel Stilwell e Eduardo Sá no programa de rádio homónimo.

E porque naquele dia precisava mesmo ler aquelas palavras, não resisto a aqui publicar algumas das palavras de Eduardo Sá, esperando que também a alguns de vocês dêm uma resposta:

“Mas fiquei a pensar que andam por aí muitos Dementors. Pessoas que parece que nos sugam a felicidade. No emprego, no autocarro, numa loja em que se entra, aos saltinhos, feliz, com a alma levezinha, e se sai pesado, cansado. Porque há pessoas que com uma frase, dois comentários, conseguem sugar-nos a felicidade.

(…)

Há muitas pessoas que ficam incomodadas com o facto de sentirem alguém com vida, com esperança, com capacidade de enamoramento com tudo o que está ao seu lado. E, de facto, essas pessoas não descansam sem as sugar naquilo que elas têm de melhor. Ás vezes, essas pessoas são professores e sugam a felicidade dos alunos. Às vezes, acontece ao contrário. Às vezes, são pais e sugam a felicidade dos filhos. Às vezes, são pessoas que se cruzam na nossa vida e não param de sugar aquilo que reconhecem de saudável em nós. Uma memória (tem que ser mágica!) ajuda. Mas mais importantes, ainda, são as nossas convicções. As pessoas que nos querem sugar ajudam-nos muito. Quando nos obrigam a olhar bem para dentro de nós, e a perguntar-nos em que é que acreditamos, dão-nos a mais preciosa de todas as ajudas.

(…)

Os guardas de Azkaban, que é uma prisão, estão presos. Mais presos do que eles imaginam. É claro que, enquanto prendem os outros, distraem-se de tudo aquilo que os suga, por dentro. Mas Azkaban fica mais perto das nossas casas ou dos nossos trabalhos do que parece. E, sendo assim, a forma de não ficarmos Dementors passa por lhes explicarmos que só nos suga quem se sente mortificado por dentro. E que, por mais que o desejem, o medo com que nos tentam impedir de perceber o que se passa dentro deles não nos impedirá de os compreender. Nunca vencemos o mal. Vencemos, isso sim, o medo que o mal nos impõe (mesmo depois de vacilarmos). E o medo do mal vence-se por agarramos o melhor de nós. Essa é a magia.

E atrevo-me a deixar uma ideia mais para além da que Eduardo Sá nos dá. Assim como os Dementors conseguem esvaziar uma sala de felicidade, também existem aqueles que, da mesma forma, enchem essa mesma sala de alegria e de um bem estar aconchegante, muitas vezes recorrendo a algo tão simples como um sorriso de compreensão, uma palavra de alento, ou um simples “como estás hoje?”. Essas pessoas são o outro lado dos Dementors, ajudam-nos a manter o equlíbrio. Nos livros de Harry Potter, são, talvez os Aurors, uma espécie de polícias, que protegem os feiticieiros contra os vilões do mundo mágico.

E porque tenho a sorte de ter algumas pessoas assim na minha vida, aqui lhes deixo o meu obrigada, obrigada por não deixarem que a felicidade na minha vida seja sugada. Não preciso dizer nomes, sabem quem são.

Um beijo, e um sorriso.

Imagem da web

Foto: Google

© Isa Lisboa

Publicado originalmente, em 2012, no blog Os dias em que olho o mundo