Dementors

Electus by Martinakis Adam (r)

Imagem: Electus, by Martinakis Adam

Gostam dos livros da saga “Harry Potter”? Bom, eu gosto. Uma escrita assim sabe bem, por vezes. Ser transportada a um mundo diferente, em que a magia ainda existe, imaginar que ela existe aqui mesmo ao meu lado, até na plataforma do comboio, naquela que eu não vejo – que a magia existe, só que eu não a consigo ver. Se assim fosse, era triste, talvez, mas a ideia não deixa de exercer algum fascínio.

Depois, temos o leque de personagens; identificamo-nos mais com uma ou com outra, e, apesar de serem personagens de um mundo mágico, não deixamos de as conhecer, aqui, no Mundo dos Muggles.

Hoje não vou falar sobre os heróis, mas antes sobre os vilões.

Fiz uma vez uma brincadeira, de encontrar personagens dos livros em algumas pessoas que conheço. E sim, havia quem pudesse ser o vilão mais óbvio, Aquele Cujo Nome Não Não Pode Ser Pronunciado. Mas havia outros vilões que surgiam, os Dementors.

Os Dementors são guardas de Azkaban, a prisão do mundo mágico. A sua arma é o seu dom de sugar a felicidade às pessoas que atacam. Literalmente. Aproximam-se da sua vítima e vemos a sua felicidade a vaporizar-se para dentro da boca horrenda e enorme dos Dementors, que, assim, roubam toda a felicidade a quem não se consegue proteger. A vítima fica oca, como ficará alguém a quem a felicidade foi roubada. Por outro lado, os Dementors não parecem ficar nem um pouco mais felizes, depois de absorvida uma boa dose de felicidade. Pelo menos a julgar pelo ar sombrio que mantêm e pela sua saída em busca de mais vítimas. É como roubar uma linda rosa de um jardim, e a seguir, deixá-la cair na valeta mais próxima. Matando a rosa e entristecendo o jardim. Para nada…

Acho que há, de facto, muitos Dementors por aí. Uma sala pode estar cheia de pessoas felizes, bem dispostas, animadas em conseguir algo. Quando entra um Dementor, a sala fica de imediato pesada, escura, a felicidade começa a escoar lentamente dos corpos de cada um. Da mesma forma, quando o Dementor sai, o sentimento de alívio é notório, ainda que ninguém o verbalize.

Todos já nos cruzámos com um destes Dementors, e talvez por isso às vezes dê por mim a acreditar no mundo de Harry Potter. Por isso e porque ainda procuro magia na vida.

No mundo mágico, o feiticeiro deve encontrar uma memória, aquela memória mesmo boa e feliz que tem, e essa memória produzirá um feitiço forte o suficiente para afastar o Dementor.

Na vida dos Muggles, deparo-me muitas vezes com dúvidas sobre a melhor forma de enfrentar estes vilões, porque esta memória ajuda, mas nem sempre funciona com a eficácia prometida nos livros.

E, há pouco tempo, encontrei uma resposta a esta pergunta numa prateleira de uma livraria, no livro “Os dias do avesso”, transcrição de algumas conversas de Isabel Stilwell e Eduardo Sá no programa de rádio homónimo.

E porque naquele dia precisava mesmo ler aquelas palavras, não resisto a aqui publicar algumas das palavras de Eduardo Sá, esperando que também a alguns de vocês dêm uma resposta:

“Mas fiquei a pensar que andam por aí muitos Dementors. Pessoas que parece que nos sugam a felicidade. No emprego, no autocarro, numa loja em que se entra, aos saltinhos, feliz, com a alma levezinha, e se sai pesado, cansado. Porque há pessoas que com uma frase, dois comentários, conseguem sugar-nos a felicidade.

(…)

Há muitas pessoas que ficam incomodadas com o facto de sentirem alguém com vida, com esperança, com capacidade de enamoramento com tudo o que está ao seu lado. E, de facto, essas pessoas não descansam sem as sugar naquilo que elas têm de melhor. Ás vezes, essas pessoas são professores e sugam a felicidade dos alunos. Às vezes, acontece ao contrário. Às vezes, são pais e sugam a felicidade dos filhos. Às vezes, são pessoas que se cruzam na nossa vida e não param de sugar aquilo que reconhecem de saudável em nós. Uma memória (tem que ser mágica!) ajuda. Mas mais importantes, ainda, são as nossas convicções. As pessoas que nos querem sugar ajudam-nos muito. Quando nos obrigam a olhar bem para dentro de nós, e a perguntar-nos em que é que acreditamos, dão-nos a mais preciosa de todas as ajudas.

(…)

Os guardas de Azkaban, que é uma prisão, estão presos. Mais presos do que eles imaginam. É claro que, enquanto prendem os outros, distraem-se de tudo aquilo que os suga, por dentro. Mas Azkaban fica mais perto das nossas casas ou dos nossos trabalhos do que parece. E, sendo assim, a forma de não ficarmos Dementors passa por lhes explicarmos que só nos suga quem se sente mortificado por dentro. E que, por mais que o desejem, o medo com que nos tentam impedir de perceber o que se passa dentro deles não nos impedirá de os compreender. Nunca vencemos o mal. Vencemos, isso sim, o medo que o mal nos impõe (mesmo depois de vacilarmos). E o medo do mal vence-se por agarramos o melhor de nós. Essa é a magia.

E atrevo-me a deixar uma ideia mais para além da que Eduardo Sá nos dá. Assim como os Dementors conseguem esvaziar uma sala de felicidade, também existem aqueles que, da mesma forma, enchem essa mesma sala de alegria e de um bem estar aconchegante, muitas vezes recorrendo a algo tão simples como um sorriso de compreensão, uma palavra de alento, ou um simples “como estás hoje?”. Essas pessoas são o outro lado dos Dementors, ajudam-nos a manter o equlíbrio. Nos livros de Harry Potter, são, talvez os Aurors, uma espécie de polícias, que protegem os feiticieiros contra os vilões do mundo mágico.

E porque tenho a sorte de ter algumas pessoas assim na minha vida, aqui lhes deixo o meu obrigada, obrigada por não deixarem que a felicidade na minha vida seja sugada. Não preciso dizer nomes, sabem quem são.

Um beijo, e um sorriso.

Imagem da web

Foto: Google

© Isa Lisboa

Publicado originalmente, em 2012, no blog Os dias em que olho o mundo

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6 thoughts on “Dementors

  1. Uma belíssima reflexão, e com a qual eu concordo plenamente. Eu conheço vários Dementors (demasiados direi eu) . Também conheço alguns Aurors, e são eles que fazem toda a diferença nas nossas vidas, na minha e nas de quem tocam. O bem e o mal são duas forças que se equilibram no mundo. Cabe-nos a nós, ao encontrar uns e outros, e decidirmos se queremos ser “sugados” ou “protegidos”.

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    • Sim, Ana, acredito que temos sempre o poder dessa decisão. Por vezes, pelas dificuldades que encontramos, pelas forças que perdemos, esquecemo-nos disso. Mas todos nós podemos ser Aurors! 😉 Obrigada pela visita. Um beijinho

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  2. Sabes que adoro os livros desta saga e nunca tinha pensado nisto. Fiquei-me no pormenor das cores das equipas que creio que denotam imenso a influência Tuga nas estórias em questão… Mas adorei, tens toda a razão e como o Harry Potter tento diariamente construir um Patrono mais forte cheio de memórias felizes e fortes!

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