Não olhes assim para mim! Estás a pensar que é impossível, mas não é! Ou, pelo menos, não podes afirmá-lo sem primeiro tentares. É incerto, é arriscado! Pois é! Mas e o risco de te renderes ao que não queres, ao que te esvazia, ao que é Nada? Não é esse risco maior? O risco de te perderes de ti, de te esqueceres de quem és e do que queres. Aceitar apenas o que te dão já feito. Confortável. Talvez. Não precisar decidir. Não precisar lutar. Lutar cansa. Cansa! Às vezes dói. Levamos umas bofetadas sem esperar. Se dói, é porque o sangue corre. Faz parte. Não vais ganhar sempre. E só a perder aprendes a ganhar. Não olhes assim para mim. Lá estou eu com as minhas maluquices, eu sei. Mas eu também sei: não é impossível.
Ao ver a palavra “Fim” naquela tela gigante, percebeu que algo de novo começava, Sempre vivera em Pequena Holanda, rodeada de flores. Começara cedo a profissão da família, cultivando aqueles pedaços de beleza. A maior beleza do mundo, como sempre lhe tinham dito. E sempre acreditara que o seu pequeno mundo era o mais belo. Agora, aos 16 anos, descobria que havia mais mundo, para além do campo de orquídeas. Hoje descobria que, noutros pontos do país, havia uma beleza imensa, maior do que a vista alcança. De um azul mais mágico que a cor de qualquer flor que algum dia tenha visto crescer. Hoje, Cristiana Pé Curto descobria que queria dar passos de gigante. Hoje, Cristiana Pé Curto descobria que havia um mundo chamado mar. Um mundo que havia de a levar a outros mundos. Hoje tornava-se amanhã.
“Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.”
O que quer dizer que de novo ponho em stand by os contactos. E de novo ponho a luz verde na casa da saudade.
Volto aos telefonemas, vídeo – chamadas, mensagens via chat.
A nova massa – mãe ainda não faz bolhas, mas o confinamento voltou ao início.
Agora já sei fazer massa-mãe e já sei que o sabor do pão não é o mesmo. Mas também já sei que consigo ter uma alternativa para fazer o pão de aveia em casa.
E também já sei que, como em todas as situações difíceis, o mais importante é manter acesa a luz da alma,
Enquanto a alma estiver com luz à sua frente, podemos continuar a ver o melhor dentro de nós mesmos. Mesmo quando não vemos o caminho à frente.
Mesmo quando o mundo parece feio.
É preciso paciência para fazer massa – mãe.
É preciso paciência para ultrapassarmos os tempos difíceis.
O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo foi o último livro que li em 2020. Ao começar a ler, reconheci o estilo original de Murakami, mas, ao mesmo tempo não o reconhecia totalmente. Duas histórias decorrem em simultâneo, ambas no estilo surrealista que marca a escrita deste autor. Sem ser óbvio como se entrecruzam, essa junção começa a mostrar-se a certa altura do livro, de uma forma inteligente e surpreendente. Um livro policial que nos apresenta, no entanto, mais que uma história de suspense e de mistério. Um livro que nos sugere que talvez o maior mistério seja a mente. Uma história que nos leva ao fim do mundo e nos pergunta se queremos ficar lá. Qual achas que seria a tua resposta? Lê o livro e depois responde 🙂
“Não há factos eternos, como não há verdades absolutas.” Friedrich Nietzche
Gosto muito desta frase e acho que é algo importante lembrar. Lembrar, mas não para a atirar a quem tem uma opinião diferente da nossa. É uma boa frase para atirarmos a nós mesmos. Vivemos um tempo de medos, que me parece estarem a fazer muitas verdades absolutas. E isso dá-me medo. Tenho medo dos efeitos do vírus na vida, na saúde, e nos sistema de saúde. Tenho medo dos efeitos do vírus no aumento da fome, na perda de condições de subsistência e condições de vida mínimas, na saúde mental. Mas também tenho cada vez mais medo da intolerância. Já no pré – covid a via muitas vezes. Mas as vagas de covid trouxeram novas vagas de verdades absolutas e ataques a quem tem opiniões diferentes. Como se essa opinião fosse também um vírus. Concedo que algumas ideias se possam assemelhar a vírus, incluindo as suas consequências nefastas. Mas pensemos em algo de inovador: e se a opinião do outro, for apenas uma visão de alguém que vive uma realidade diferente da nossa? Que também sofre, mas com dificuldades diferentes das nossas? E que talvez (vá, só um esforço de imaginação), talvez, por isso pense de forma diferente da nossa? Talvez o sacana egoísta do lado nos veja a nós como sacanas egoístas. Já pensaram nisso? Isto assusta-me. Assustam-me as verdades absolutas, fechadas sobre si próprias. Assusta-me que estejamos a tentar salvar uma sociedade que se esqueceu de que o outro não é apenas quem pensa igual a si. Uma sociedade que cada vez mais deixa de saber como se colocar no lugar do outro.
Termino como comecei, com uma citação:
“Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até à morte o seu direito de dizê-las.” Voltaire
Era um vendedor de sonhos. Tinha um pregão chamativo. Dispunha-os de forma inteligente na sua bancada, de forma a que os maiores ficassem em destaque e chamassem também a atenção dos potenciais clientes. Alugara aquele espaço, sem saber ainda bem o que queria vender. Queria vender algo que as pessoas precisassem, mas não só. Queria vender algo que as pessoas quisessem. Matutou, matutou, e viu o quanto os sonhos andavam na mó de baixo, ultimamente. As pessoas contentavam-se com o que era normal, habitual, banal. Era um risco, sabia. Oferecer algo diferente tanto podia ser um grande êxito, como um gigantesco flop. Mas ser vendedor de sonhos era profissão que lhe assentava como uma luva. Dedicou-se a escolher a melhor matéria-prima e a estudar a melhor forma de os moldar, de maneira a que fossem especiais. Cada um saía diferente, como devia ser, para que cada cliente pudesse comprar o seu próprio sonho, adaptado ao gosto de cada um. Distribuiu flyers por vários locais e, no dia marcado, inaugurou a sua banca de sonhos. O efeito surpresa resultou, vieram muitos curiosos e, naturalmente, outros tantos cépticos. Nem todos compraram, mas o primeiro dia encerrou com saldo positivo. A curiosidade passou palavra e outros curiosos foram passando e comprando. Negócio de vento em popa, era agora, oficialmente um vendedor de sonhos. Sentia-se feliz de cada vez que via a bancada a esvaziar. Mais feliz quando, por acaso, se cruzava com alguém na rua, que, feliz, lhe vinha dizer como gostava dos sonhos que vendia. Alguns clientes eram mais exigentes. Ao chegar, não encontravam exposto aquilo que procuravam. Deixavam encomendados os seus requisitos, aquilo que queriam de especial. Isto constituía um desafio para o vendedor, que também era um fazedor. Alguns sonhos podiam demorar semanas a aperfeiçoar. Desde descobrir tudo o que era preciso, até encontrar as quantidades certas e o ponto ideal de os misturar. O nosso vendedor sentia-se um artesão. E, na verdade, era arte o que saía das suas mãos. Por vezes sentia uma ponta de nostalgia quando vendia um novo tipo de sonho… Afinal era uma criação sua e seria outra pessoa a usufruir dela… Mas algo maior se sobrepunha, como se não estivesse apenas a vender, mas também a construir. No entanto, quando recebeu a sua primeira reclamação, apercebeu-se de que as pessoas se esqueciam rapidamente da única instrução que dava quando vendia um sonho: “Alimentar diariamente!”
A meia noite não trará, magicamente, um novo ano em que tudo mudará de um segundo para o outro. As resoluções de ano novo não vão cumprir-se só porque comemos uma passa a acompanhá-las.
Tal como nos outros anos, as mudanças que procuramos vão precisar de tempo e, sobretudo, de acção da nossa parte.
Mas o momento em que o ano passa continua a ser um símbolo.
Desejo que não seja um simbolo de “vamos esquecer o ano que passou”. Mas que seja um simbolo de aprendizagem com os momentos difíceis. E que nos lembre das pessoas e de tudo mais que de bom o ano anterior nos trouxe e nos mostrou.