E o copo?

Be Still And Know by Melanie Crawford

Imagem: Be still and know, by Melanie Crawford

Há algum tempo atrás, em conversa com uma amiga, falei do conhecido copo, aquele que uns vêm meio cheio e outros meio vazio.

De imediato, seguindo talvez o seu espírito matemático, ela atalhou a conversa, evidenciando que meio é meio, e isso basta.

Eu, que também sou matemática, sei que ela tem razão: se o copo tiver uma capacidade de 0.5l e tiver 0.25l de água dentro, então está meio. É matemático.

Mas, sugere a física quântica que o olhar do observador altera a realidade que é observada.

E todos nós temos, mais ou menos e, mais ou menos inconscientemente, a vontade de classificar aquilo que vemos. Por isso, quando olhamos para o copo meio de água, podemos concentrar a nossa atenção na metade que tem água ou na metade que tem ar – meio vazio.

Pessoalmente sempre procurei ver a metade cheia de água. Não por acreditar que sempre conseguirei encher o copo. Por vezes ele ficará sempre meio cheio apenas. Também pode acontecer que a água se evapore lentamente (especialmente quando não a aproveitamos para matar a sede). Ainda algumas vezes, havemos de derramar a água, num toque de mão impensado ou irreflectido. Não, o copo nem sempre se encherá.

Mas – é aqui que para mim reside a beleza da metáfora – se está meio, tanto pode esvaziar como encher. E poder encher é uma possibilidade que vale a pena olhar, sempre que ela existe.

Ora, se o copo está meio cheio, só me falta meio caminho para o encher. Se está meio vazio, então estou mais longe. E também estou mais perto do fundo do copo. E seja em que situação for, opto pelo caminho que mais facilmente me traga à tona para melhor respirar.

Mas não foi por isso que me recordei desta conversa. Subitamente pensei: E o copo?

O que será o copo no meio desta metáfora? Pode ser um objecto, uma situação específica da nossa vida, um momento…

Mas, e se o copo formos nós? Se o copo for eu? E se fores tu?

Eu já sei a resposta à pergunta. E tu? Estás meio cheio ou meio vazio?

© Isa Lisboa

Fio a fio

Fio a fio

Com zelo

Sabedoria intemporal

A teia nasce

De fino fio

Mas forte nó;

Fio a fio

Como se uma história

Escrevesse

Palavra a palavra

Se forma uma frase;

Fio a fio

Talvez borde delicada tapeçaria

Não para parede de reis

Faz a sua casa

Feita de si,

Fio a fio

Tece a aranha

A teia do Destino

Só dela!

© Isa Lisboa

josef.stuefer

Foto: Josef Stuefer

“O Louco” (Gibran Khalil Gibran)

Accept and Deny by Martinakis Adam (r)

O louco, por Kahlil Gibran

“Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz no cimo do telhado de uma casa gritou:

“É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo.

O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.

E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.

E encontrei tanta liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.”

O rio

As águas do rio correm violentas. Mas correm para a frente, não posso resistir-lhes. Não quero.

O tempo de estar sentada na margem do rio foi. Mas já não é mais. Há sempre um tempo. Um tempo para cada lugar.

As águas do rio assustam, sei que não as conseguirei controlar, talvez me atirem de uma margem à outra, ao longo do caminho. Talvez me atirem aos seixos do fundo. Mas seguirei. Estou decidida.

Vou chegar, não sei onde, o rio é que sabe. Ao mar, certamente, mas não sei a qual.

Só me interessa que poderei então provar o sal.

© Isa Lisboa

Alexey Zaycev

Imagem: Alexey Zaycev

 

Fate

Vortex_tumblr

Imagem: Tumblr

Your fate

Is written in a language

You have long forgotten

The key

Is meant only for you

The path

Was laid down

For your feet only.

You must claim it.

But first

You need to understand

There’s nothing

To learn of new

Only to remember

Your feet know

Where to walk

And your hands

Where to touch

Your lips

Can speak the words

Your heart wants to give

Let go of your shoes

And walk freely

Along the way

That’s where

Your fate lies!

© Isa Lisboa

O caminho, por Osho

“O caminho é: observe os seus pensamentos e não se identifique com eles.

Simplesmente permaneça um observador, completamente indiferente, nem contra nem a favor. Não julgue, porque qualquer julgamento traz identificação.

Não diga, ‘Estes pensamentos são errados’ e não diga, ‘Estes pensamentos são bons’. Não faça comentários sobre os pensamentos. Deixe que eles passem, como se eles fossem apenas a passagem do tráfego e você está de pé ali ao lado da estrada despreocupado, olhando o tráfego. Não interessa o que está a passar, um autocarro, um camião ou uma bicicleta. Se puder observar o processo de pensamentos da sua mente com tal despreocupação, com tal desapego, não estará longe o dia em que todo o tráfego desaparece… porque o tráfego somente pode existir se você continuar a dar-lhe energia. Se você parar de lhe dar energia…

E isso é o observar: parar de dar energia para isso, parar a energia que se move dentro do tráfego. É a sua energia que faz aqueles pensamentos moverem-se. Quando a sua energia não os está a alimentar, eles começam a cair, eles não conseguem manter-se em pé por si mesmos.

E quando a auto-estrada da mente estiver completamente vazia, você está dentro.

Isso é o que eu quero dizer quando eu digo ‘Vá para dentro’.
E isso é o que Buda quer dizer quando ele diz: ‘Siga a sua natureza’.”

OSHO

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Efémera

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Uma efémera nasceu (*). Espreguiçou-se e pôs-se logo a voar. Percorreu todo o céu que tinha ao dispor. Era feliz.

Aproximava-se a 24ª hora, olhou para baixo e observou os humanos: “Tantas vidas têm e andam sempre presos à terra, não voam” – pensou.

Como tinha já poucos minutos, esqueceu os homens e voou o mais alto que pôde. Até que, lentamente, e embalada pela brisa, caiu na terra, que só estava lá para acolher a despedida da efémera que foi feliz.”

© Isa Lisboa

(*) A efémera é o animal com vida mais curta no reino animal, durando, no máximo 24h.

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Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio: 

http://tubodeensaio-laboratorio.blogspot.pt