Adormecer a dor

“Se eu conseguisse adormecer, pelo menos não sentia a dor.”
Foi este o pensamento que trespassou pela minha cabeça durante uma dor de dentes particularmente insistente.
No entanto, este pensamento não teve o efeito de me adormecer, mas antes de me colocar alerta. Porque, subitamente, apercebi-me do quanto este é um pensamento perigoso.
Porque a dor, pode, efectivamente, ser um importante veículo para o adormecimento. Um veículo conduzido não só pelos outros, mas também por nós.
Quantas vezes, para não sentirmos a dor, não procuramos adormecer? Ao dormir, a dor continua lá, mas não se sente, por isso é como se ela já não existisse. Como se. Mas o problema é que continua a existir. E às vezes acorda-nos a meio da noite, provocando-nos um pouco de insónia agora. E, para além disso, o despertador irá tocar, iremos acordar. E aí, teremos que lidar com a dor. De forma mais dolorosa, talvez.
Por isso, podemos sempre tentar adormecer, mas a dor sempre voltará e sempre nos acordará. Os analgésicos só funcionarão durante algum tempo. Depois a dor torna-se imune a eles. Continua a manifestar-se para nos avisar de algo muito importante. O sítio onde dói precisa ser curado.
E é por isso que embora ninguém goste de uma dor de dentes, a verdade é que ela tem a sua função.
Se bem que… já perceberam que já há alguns parágrafos atrás que parei de falar de dores de dentes? Não foi?

© Isa Lisboa

Herb Ritts

Imagem: Herb Ritts

Deixar o bolo crescer e o leite ferver

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“Meu Deus, dai-me paciência e dai-ma já!” – esta é uma das frases que encontrei para, como um certo toque de humor, descrever o meu signo: os arianos.

Se é verdade que em algumas situações sempre fui descrita pelos meus amigos como sendo paciente, não é menos verdade que acabei por constatar que tenho o meu lado impaciente. Descobri em mim uma certa impaciência, da qual o principal alvo é, nada mais nada menos, do que eu própria!

Na minha actividade profissional diária, assumo uma margem de erro nas estimativas que faço, nas deadlines que assumo e nas expectativas que crio. Porque, com o tempo, entendi que não posso controlar todo o processo e que, por isso, devia aceitar plenamente e tranquilamente, a maior variável com a qual lido no meu trabalho: a incerteza.

A incerteza não quer dizer que tudo irá correr mal. Ou que devíamos permitir propositadamente ou com leveza que tudo corra mal. Mas a incerteza existe e, nas ciências actuariais e estatísticas, como na vida, temos que contar com ela e estar preparados para que ela nos surpreenda.

Mas, comigo mesma, comecei mais recentemente a aprendizagem da perfeita imperfeição. Permitirmo-nos a nós mesmos errar é algo que não é fácil. Pelo menos para mim não tem sido fácil.

No entanto, quando fiz a mim mesma a pergunta: “Se os outros podem errar, porque é que tu não podes?”, surgiram-me algumas respostas. Mas, ao nível racional, não faziam muito sentido. Ao nível emocional, faziam ainda menos. Foi aí que admiti que talvez, talvez, me fosse permitido errar de vez em quando.

E à medida que fui aprendendo a tolerância comigo própria, vi que, se já me permitia errar, ainda me era difícil permitir não conseguir fazer algo ou não o conseguir fazer com a rapidez com que eu achava que tinha que acontecer. Fosse nos meus projectos internos – de crescimento pessoal, emocional e espiritual – fosse nos meus projectos mais visíveis. Se algo precisava ser mudado, então vamos lá mudar isso e o mais rápido possível.

Mas não é bem assim.

Imaginemos que somos uma casa. Somos uma casa e queremos mudar a mobília de uma divisão. Ora, para isso, não basta sair e ir comprar a mobília nova.

Primeiro, há que retirar a mobília antiga. Decidir o que fazer com ela. Será que tem que ir toda embora, ou existem algumas que queremos ou ainda precisamos que fique? E algumas, não poderão ser renovadas ou ser-lhes dado novo uso ou uma cara nova? Esta separação, recomendo que seja feita com tempo e com olhos que reconhecem que aquela mobília foi nossa durante um tempo e que, a um outro nível, nos trouxe conforto. Talvez até não a tenhamos escolhido, mas foi nossa durante um tempo. E, por isso, encerra memórias e histórias.

Depois de feita esta separação, e liberta a divisão do que realmente já não queremos, podemos aproveitar para aquela limpeza mais profunda. Aquela que não temos tempo para fazer no lufa-lufa do dia-a-dia. Abrir as janelas, arejar a divisão e deixar entrar o sol. Deixá-la apreciar por um pouco a quietude do vazio.

E agora então podemos escolher a mobília nova e recomeçar a mobilar. Mas talvez não seja preciso mobilar tudo de uma vez só. Como da primeira vez, em que fomos comprando tudo aos poucos. Uma peça de cada vez.

Assim a divisão pode adaptar-se ao que vem de novo. E nós podemos apreciar o processo de procurar, desejar e apenas depois achar.

Numa sociedade cada vez mais instantânea, vamos, sem perceber, perdendo este sabor, de deixar fluir e de dar um passo de cada vez, confiando que o tempo certo é o que nos faz mover e não o que nos faz correr até à exaustão.

E a sabedoria de saber agir, mas de reconhecer também o momento em que é preciso esperar. Esperar que o leite ferva e que o bolo cresça.

Estes foram dois textos muito interessantes que li sobre o assunto. Num (aqui), a autora conta como, quando era menina observou que, se ficasse ao pé da cafeteira do leite, ele não fervia. Só quando ela se afastava do fogão, ele fervia e transbordava. No segundo (aqui), o tempo transforma-se num bolo, em que primeiro precisamos fazer a massa, untar a forma e colocar no forno. E aí, que já fizemos o que tínhamos a fazer, precisamos deixar que o forno coza o bolo, na temperatura certa. Aumentar o calor, estragaria o bolo. Retirá-lo antes do tempo, significaria comer o bolo cru.

Deixo-vos agora com as minhas divagações. Acho que ouvi um barulho vindo do fogão e também já cheira bem pela casa toda.

Acho que estou a ficar melhor nisto de fazer bolinhos com leite para o lanche.

© Isa Lisboa

Raízes

Há dias decidi mudar de vaso uma das plantas da minha varanda. Era uma tarefa que tinha vindo a adiar… O vaso estava já meio partido, já há algum tempo que a terra daquela planta não era trocada. Precisava mesmo do transplante. Mas a planta continuava a aparentar estar bem, continuava verde, parecia saudável. Não me parecia urgente.

Mas ao libertá-la finalmente daquele vaso, vi que que a sua base se tinha tornado num vaso de raízes. Pesadas. Apertando-se umas às outras. Pareciam sufocar a própria terra, a tal ponto que parecia não haver espaço para ela. E algumas das raízes estavam secas e sem vida. Puxei-as, e algumas cederam com facilidade. Assim encontrei também espaço para retirar a terra que envolviam.

Neste momento, a planta já está num vaso novo, com terra nova. E, parece-me a mim, mais feliz e mais saudável. Com as raízes que estavam saudáveis. Que parecem estar a fincar-se bem à terra. Pelo sim, pelo não, vou dando uma vista de olhos mais atenta nos próximos tempos.

E, enquanto isso, parti o meu próprio vaso e ando à procura das raízes que já não são minhas e que já não levam a seiva. Depois é só ter força para as arrancar.

 —

 Este texto foi escrito em Maio de 2014 e foi publicado originalmente no meu blog Os dias em que olho o mundo. A planta que na altura transplantei continua, feliz e viçosa, no seu novo vaso.

E eu, ao longo deste tempo encontrei algumas das tais raízes que já não eram minhas. Que já não me alimentavam. Que apenas me estavam a prender a lugares, pessoas, recordações e emoções que já não eram minhas. Algumas não tive dificuldade em cortar. Aceitei rapidamente que um dia tinha precisado delas, mas que já não faziam parte de mim.

Quanto a outras ainda, o processo foi doloroso. Realmente precisei de força para as arrancar. Foi preciso olhar bem para elas, entendê-las bem, perceber porque se tinham ali formado. Libertar-me da culpa de as ter deixado sufocar as outras raízes. Essas, as mais fundas, as que tinham deixado mais marcas, não queriam sair. Resistiram. E eu também resisti. Pode parecer contraditório dizer que tive dificuldade em me libertar de coisas de que já não precisava. Mas digo-vos mais: já não as queria. E ainda assim, não foi de um dia para o outro que as deixei ir.

Nesta jardinagem de mim mesma, entendi que as raízes gastas se estendem a locais que julgamos inacessíveis. E, aí presas, sussurram-nos palavras – umas vezes doces, outras vezes duras – que procuram prender-nos lá com elas. Aprendi que a dor tem medo da solidão. Por isso nos alicia a ficarmos abraçados a ela, a nos deixarmos abraçar por ela. Mas que quando a olhamos nos olhos, sem medo, e entendemos porque ela está ali; é aí que ela perde toda a sua força.

Aprendi que precisamos ver algumas das nossas raízes cortadas, para crescer como realmente somos.

E que, tal como as plantas da minha varanda, precisamos jardinar a nossa alma com frequência. Alimentá-la, deixá-la ver a luz e não deixar que a terra sob os nossos pés não nos deixe abrir os ramos até onde queiramos ir.

 © Isa Lisboa

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Imagem: Pintrest

Dementors

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Imagem: Electus, by Martinakis Adam

Gostam dos livros da saga “Harry Potter”? Bom, eu gosto. Uma escrita assim sabe bem, por vezes. Ser transportada a um mundo diferente, em que a magia ainda existe, imaginar que ela existe aqui mesmo ao meu lado, até na plataforma do comboio, naquela que eu não vejo – que a magia existe, só que eu não a consigo ver. Se assim fosse, era triste, talvez, mas a ideia não deixa de exercer algum fascínio.

Depois, temos o leque de personagens; identificamo-nos mais com uma ou com outra, e, apesar de serem personagens de um mundo mágico, não deixamos de as conhecer, aqui, no Mundo dos Muggles.

Hoje não vou falar sobre os heróis, mas antes sobre os vilões.

Fiz uma vez uma brincadeira, de encontrar personagens dos livros em algumas pessoas que conheço. E sim, havia quem pudesse ser o vilão mais óbvio, Aquele Cujo Nome Não Não Pode Ser Pronunciado. Mas havia outros vilões que surgiam, os Dementors.

Os Dementors são guardas de Azkaban, a prisão do mundo mágico. A sua arma é o seu dom de sugar a felicidade às pessoas que atacam. Literalmente. Aproximam-se da sua vítima e vemos a sua felicidade a vaporizar-se para dentro da boca horrenda e enorme dos Dementors, que, assim, roubam toda a felicidade a quem não se consegue proteger. A vítima fica oca, como ficará alguém a quem a felicidade foi roubada. Por outro lado, os Dementors não parecem ficar nem um pouco mais felizes, depois de absorvida uma boa dose de felicidade. Pelo menos a julgar pelo ar sombrio que mantêm e pela sua saída em busca de mais vítimas. É como roubar uma linda rosa de um jardim, e a seguir, deixá-la cair na valeta mais próxima. Matando a rosa e entristecendo o jardim. Para nada…

Acho que há, de facto, muitos Dementors por aí. Uma sala pode estar cheia de pessoas felizes, bem dispostas, animadas em conseguir algo. Quando entra um Dementor, a sala fica de imediato pesada, escura, a felicidade começa a escoar lentamente dos corpos de cada um. Da mesma forma, quando o Dementor sai, o sentimento de alívio é notório, ainda que ninguém o verbalize.

Todos já nos cruzámos com um destes Dementors, e talvez por isso às vezes dê por mim a acreditar no mundo de Harry Potter. Por isso e porque ainda procuro magia na vida.

No mundo mágico, o feiticeiro deve encontrar uma memória, aquela memória mesmo boa e feliz que tem, e essa memória produzirá um feitiço forte o suficiente para afastar o Dementor.

Na vida dos Muggles, deparo-me muitas vezes com dúvidas sobre a melhor forma de enfrentar estes vilões, porque esta memória ajuda, mas nem sempre funciona com a eficácia prometida nos livros.

E, há pouco tempo, encontrei uma resposta a esta pergunta numa prateleira de uma livraria, no livro “Os dias do avesso”, transcrição de algumas conversas de Isabel Stilwell e Eduardo Sá no programa de rádio homónimo.

E porque naquele dia precisava mesmo ler aquelas palavras, não resisto a aqui publicar algumas das palavras de Eduardo Sá, esperando que também a alguns de vocês dêm uma resposta:

“Mas fiquei a pensar que andam por aí muitos Dementors. Pessoas que parece que nos sugam a felicidade. No emprego, no autocarro, numa loja em que se entra, aos saltinhos, feliz, com a alma levezinha, e se sai pesado, cansado. Porque há pessoas que com uma frase, dois comentários, conseguem sugar-nos a felicidade.

(…)

Há muitas pessoas que ficam incomodadas com o facto de sentirem alguém com vida, com esperança, com capacidade de enamoramento com tudo o que está ao seu lado. E, de facto, essas pessoas não descansam sem as sugar naquilo que elas têm de melhor. Ás vezes, essas pessoas são professores e sugam a felicidade dos alunos. Às vezes, acontece ao contrário. Às vezes, são pais e sugam a felicidade dos filhos. Às vezes, são pessoas que se cruzam na nossa vida e não param de sugar aquilo que reconhecem de saudável em nós. Uma memória (tem que ser mágica!) ajuda. Mas mais importantes, ainda, são as nossas convicções. As pessoas que nos querem sugar ajudam-nos muito. Quando nos obrigam a olhar bem para dentro de nós, e a perguntar-nos em que é que acreditamos, dão-nos a mais preciosa de todas as ajudas.

(…)

Os guardas de Azkaban, que é uma prisão, estão presos. Mais presos do que eles imaginam. É claro que, enquanto prendem os outros, distraem-se de tudo aquilo que os suga, por dentro. Mas Azkaban fica mais perto das nossas casas ou dos nossos trabalhos do que parece. E, sendo assim, a forma de não ficarmos Dementors passa por lhes explicarmos que só nos suga quem se sente mortificado por dentro. E que, por mais que o desejem, o medo com que nos tentam impedir de perceber o que se passa dentro deles não nos impedirá de os compreender. Nunca vencemos o mal. Vencemos, isso sim, o medo que o mal nos impõe (mesmo depois de vacilarmos). E o medo do mal vence-se por agarramos o melhor de nós. Essa é a magia.

E atrevo-me a deixar uma ideia mais para além da que Eduardo Sá nos dá. Assim como os Dementors conseguem esvaziar uma sala de felicidade, também existem aqueles que, da mesma forma, enchem essa mesma sala de alegria e de um bem estar aconchegante, muitas vezes recorrendo a algo tão simples como um sorriso de compreensão, uma palavra de alento, ou um simples “como estás hoje?”. Essas pessoas são o outro lado dos Dementors, ajudam-nos a manter o equlíbrio. Nos livros de Harry Potter, são, talvez os Aurors, uma espécie de polícias, que protegem os feiticieiros contra os vilões do mundo mágico.

E porque tenho a sorte de ter algumas pessoas assim na minha vida, aqui lhes deixo o meu obrigada, obrigada por não deixarem que a felicidade na minha vida seja sugada. Não preciso dizer nomes, sabem quem são.

Um beijo, e um sorriso.

Imagem da web

Foto: Google

© Isa Lisboa

Publicado originalmente, em 2012, no blog Os dias em que olho o mundo

Como aturar os outros?

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Há dias pedi a uma amiga sugestões sobre temas para escrever e este foi um dos temas que surgiu. Bom, na realidade, o tema original foi “Como aturar gente que merece uma paulada na tola?”

De alguma forma subverti o tema original, mas foi por uma razão perfeitamente identificada: “Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. Mas nós achamos que nós a merecemos. E muitas vezes até a damos a nós mesmos. Mas estou a adiantar-me!

“Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. “Eles”, as pessoas difíceis de lidar, aquelas que dizem sempre que tudo o que fazemos está mal, que parecem apostadas em nos estragar o dia, ou até – já para adiantar – o mês todo. “Esses”, “eles” não merecem uma paulada na tola. Às vezes apetece fazê-lo, sim. Às vezes apetece até muito.

Mas quando percebemos de onde vem essa atitude, o ímpeto acalma.

E de onde vem? Porque será que alguém nos agride, de forma tão gratuita, tão sem razão?

Bom, eu pergunto: essas pessoas, “eles”, “os outros”, quando olham nos olhos deles, vêm felicidade? Ou será que vêm antes a tristeza e todos aqueles sentimentos que exteriorizam e projectam em “Nós”, “os outros”?

Todos temos dificuldades em lidar com a dor, a frustração, a irritação. E mais dificuldade temos em lidar com ela dentro de nós próprios. Por isso, aquilo que não conseguimos dizer a nós mesmos, ou fica guardado em nós até não poder mais ou então “entregamos” aos “outros”, a “eles”.

Já todos o fizemos, em alguma altura da nossa vida. Talvez nesta parte da leitura estejam a sentir uma enorme rejeição pelo que “ela” está a dizer. Não, nunca o fizeram!

Já sim! Talvez não da mesma forma, não com a mesma violência de que se sentem alvos. Mas já alguma vez na vida nos apeteceu dar uma forte paulada a nós próprios. E, de tão irritados que estávamos, veio aquela vontade de dar uma paulada antes na primeira pessoa que se pôs a jeito.

“Ah, mas eu controlei essa vontade!” – Ainda bem, digo eu. Muitos de nós vão a tempo de controlar essa vontade desenfreada do ego. Mas há quem não o consiga.

Não é desculpa, não é justificação, concordo. “Eles”, “os outros”, não têm culpa do que nos faz sofrer. Mas “nós”, “os outros”, também temos que ter essa consciência. Não temos culpa das dores de quem nos trata mal, por isso não a aceitemos.

Porque sempre que nos irritamos com a atitude impensada e dorida de alguém, estamos a aceitar que essa pessoa transfira um pouco da sua dor para nós. Sempre que nos sentimos ofendidos, estamos a aceitar o julgamento que alguém fez de nós. Não aceitemos o que nos faz mal, o que não queremos na nossa vida, o que não somos nós.

E não aceitar é, antes de tudo, uma atitude psicológica. Antes das palavras que possamos dizer, do gesto de nos afastarmos, é uma atitude da nossa mente.

Se a nossa mente não aceitar o que o coração não reconhece como verdade, então começaremos a não precisar dizer não, a não precisar levantar a mão em gesto de “basta”. Tudo será ouvido sem palavras.

E acredito até que, quando nos aceitarmos e perdoarmos plenamente, então já não precisaremos não aceitar. O contrário de quem somos simplesmente não existirá.

“Os outros” também não. Apenas “Nós” existiremos.

 

© Isa Lisboa

Cicatrizes

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Foto: Autor não identificado

Vivemos numa sociedade que não gosta de cicatrizes. Cicatrizes nas suas variadas formas. Físicas e emocionais.

É verdade que tanto umas como outras representam uma dor vivida, e talvez por isso nos seja tão difícil encarar essa marca – em nós e nos outros.

Mas também é verdade que as nossas cicatrizes contêm a nossa história. E ainda que ela tenha sido dolorosa, faz parte de nós. Tudo o que nos acontece vem com o intuito de nos ensinar algo ou de nos fazer crescer e experienciar o potencial da vida. Aquilo que acredito ser o sentido da vida.

Por vezes estas cicatrizes são memórias que guardámos no sótão do nosso coração, memórias dolorosas. Não vale a pena remetê-las para um baú fechado no canto mais escuro desse sótão. As memórias não se calam nem se amordaçam. Devemos antes aceitá-las como parte de quem fomos. Deixando de fugir delas e de lhes resistir, poderemos entender o que elas nos ensinaram, e em que medida nos tornaram mais fortes. Aprendida a lição e, ultrapassado o obstáculo, estamos então prontos para o que vem a seguir.

Porque algo vem a seguir. Sempre.

Há alguns anos atrás, numa feira de rua, comprei um livro em segunda mão. Ao chegar a casa, quando ia arrumá-lo, um bilhete caiu. Tinha escrita à mão, uma simples frase: “Tudo ainda está para vir.” Sentia-me numa fase de recomeço de ciclo, tinha feito algumas mudanças na minha vida. Foi, para mim e naquele momento, uma mensagem de esperança e uma indicação de que estava no caminho certo.

E, agora que tudo muda de novo, sei que estava. Percorri o caminho que precisava percorrer, para entender em pleno as minhas cicatrizes e para poder afirmar que elas são apenas uma pequena parte da história; mas que a história que se escreverá daqui para a frente será pelo meu punho, com a minha caneta. Como deve sempre ser.

E tudo continua ainda por vir.

© Isa Lisboa

Decisões, ah, as decisões!

Decisões: são tão difíceis de tomar, não é?

São difíceis de tomar porque, de uma forma geral, implicam uma escolha. E quando escolhemos virar à direita em vez de à esquerda, sabemos que não escolhemos apenas o que vamos encontrar no caminho da direita. Também escolhemos abdicar do que poderíamos encontrar à esquerda.

E é quando pensamos demasiado nisso que a dúvida entra e começa a instalar-se; segredando-nos razões para a direita num ouvido e razões para a esquerda noutro.

Em ambos os ouvidos fica a ideia de algo que pode ser perdido. E a verdade é que a ideia de perder algo sempre nos causa – no mínimo – um certo desconforto.

Não está errado. A verdade é que ninguém gosta de perder – nem a feijões, como se diz. Mas em certas circunstâncias temos que aceitar que a perda é necessária e o melhor para nós, em muitas (se não todas) as situações. Neste caso, do outro lado da perda está o troféu com o que temos a ganhar com a escolha feita.

É verdade que podemos ter feito antes más escolhas e, portanto, ao ter que tomar uma nova decisão, é o medo que agora se instala. E se fizermos tudo de novo?

Poderá ter sido errado no passado, mas teve certamente um efeito; o de nos ensinar algo. Algo que nos tornou diferentes. A cada lição aprendida tornamo-nos mais aptos e mais fortes. Por isso, quem decidiu ontem, já não caminha hoje com as mesmas botas e, mesmo que o Caminho pareça igual, não o é. A pedra já antes levantada com sucesso, não será agora obstáculo, e a poeira já sacudida, atrás ficou.

Ainda que o caminho pareça igual, descobriremos que não é mais do que uma oportunidade de, com as pernas ora mais fortes, desta vez sermos nós a fazer o Caminho e a traçar o trilho.

Ainda assim, sabendo tudo isto, a questão continuará a existir: “O que decidir?”.

Acredito que há uma parte de nós que sabe sempre a resposta: o nosso coração!

Sentir o que ele nos diz abrirá todas as portas certas. Sejam elas apenas duas ou mais, o coração pergunta: “O que te realizaria mais? O que vai de encontro ao que sentes ser a tua missão?”

Nunca nos esqueçamos de focar no que alimenta a nossa alma. Isso levar-nos-á ao caminho certo.

Foi isto que o meu coração disse.

 © Isa Lisboa

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Foto: http://www.pixabay.com

E o copo?

Be Still And Know by Melanie Crawford

Imagem: Be still and know, by Melanie Crawford

Há algum tempo atrás, em conversa com uma amiga, falei do conhecido copo, aquele que uns vêm meio cheio e outros meio vazio.

De imediato, seguindo talvez o seu espírito matemático, ela atalhou a conversa, evidenciando que meio é meio, e isso basta.

Eu, que também sou matemática, sei que ela tem razão: se o copo tiver uma capacidade de 0.5l e tiver 0.25l de água dentro, então está meio. É matemático.

Mas, sugere a física quântica que o olhar do observador altera a realidade que é observada.

E todos nós temos, mais ou menos e, mais ou menos inconscientemente, a vontade de classificar aquilo que vemos. Por isso, quando olhamos para o copo meio de água, podemos concentrar a nossa atenção na metade que tem água ou na metade que tem ar – meio vazio.

Pessoalmente sempre procurei ver a metade cheia de água. Não por acreditar que sempre conseguirei encher o copo. Por vezes ele ficará sempre meio cheio apenas. Também pode acontecer que a água se evapore lentamente (especialmente quando não a aproveitamos para matar a sede). Ainda algumas vezes, havemos de derramar a água, num toque de mão impensado ou irreflectido. Não, o copo nem sempre se encherá.

Mas – é aqui que para mim reside a beleza da metáfora – se está meio, tanto pode esvaziar como encher. E poder encher é uma possibilidade que vale a pena olhar, sempre que ela existe.

Ora, se o copo está meio cheio, só me falta meio caminho para o encher. Se está meio vazio, então estou mais longe. E também estou mais perto do fundo do copo. E seja em que situação for, opto pelo caminho que mais facilmente me traga à tona para melhor respirar.

Mas não foi por isso que me recordei desta conversa. Subitamente pensei: E o copo?

O que será o copo no meio desta metáfora? Pode ser um objecto, uma situação específica da nossa vida, um momento…

Mas, e se o copo formos nós? Se o copo for eu? E se fores tu?

Eu já sei a resposta à pergunta. E tu? Estás meio cheio ou meio vazio?

© Isa Lisboa

Mudar a folha

Fonte imagem: 1,000,000 Pictures

Fonte imagem: 1,000,000 Pictures

Começou à pouco tempo a Primavera – aqui neste lado do mundo – e, a pouco e pouco, os dias começam a libertar-se dos ares invernosos. Também há dias se celebrou a Páscoa católica.

Por diversos motivos, este é um momento do ano que sempre me convida à reflexão e me trás ventos de renovação.

A renovação é uma palavra que, no primeiro momento, nos parece muito bonita. Associamos-lhe uma aura de esperança, de melhorias a acontecer na nossa vida. E isso, todos queremos, portanto, facilmente abrimos o sorriso perante a palavra.

Depois, lembramo-nos de que, para que haja renovação, tem que existir também mudança. E a mudança é uma palavra mais complicada, que já assusta um pouco. Podemos pensar que não, até quando conscientemente desejamos que alguma mudança aconteça.

Mas, lá bem atrás na nossa mente, o medo sempre reage. Mais ou menos intensamente, pelo menos naquele primeiro momento. É um medo natural, que nos faz questionar se a mudança é mesmo necessária e o porquê de querermos mudar.

Mas se quisermos a mudança pelas razões certas, há que vencer esse medo. E o que por vezes vem a seguir.

O medo do desconhecido. Quero mudar, mas, e se encontrar algo pior? E o que vou perder? Sim, porque ainda que haja razões para mudar, encontramos 8quase) sempre também razões para ficar. Nem que seja o conforto do que conhecemos. Do que podemos controlar.

É um conflito que pode parecer paradoxal. E talvez até o seja. Mas é um conflito real e que todos nós, mais ou menos vezes, já sentimos. É também um conflito que precisamos assumir e encarar.

Em todas as situações “escolha” iremos, inevitavelmente, perder algo. E algumas das coisas que perderemos são boas. Muito raramente na nossa vida uma situação tem apenas aspectos maus (assim como o contrário também é verdade). Precisamos pesar. Pesar o bom que podemos perder com o bom que podemos ganhar. E o mau que podemos encontrar versus aquele que já conhecemos.

A vida é feita de escolhas e consequências. Fazer umas e assumir as outras dá-nos Força. Ainda que venhamos a perceber que, afinal, a decisão foi errada, podemos sempre recomeçar. Quem sabe nos reinventemos no processo, e a tal má decisão nos mostre um caminho inesperado, mas tão certo?

Se ouvirmos o nosso silêncio, para lá do som das dúvidas e dos medos, sabemos que assim é. E também os nossos olhos saberão ver que à frente se abre caminho.

Mas este não é um caminho fácil de percorrer. Dar o primeiro passo sem ver o fim da estrada não é fácil.

Mas não é isso que as árvores fazem na Primavera? As novas folhas começam a surgir lenta e espontaneamente, confiando que irão surgir as flores e, mais tarde, os frutos. Talvez confiem até que o frio voltará e as fará cair de novo ao chão, como as suas antepassadas.

No entanto, a natureza sabe que os ciclos não podem parar, pois só assim ela vive. Deixando-se morrer, para renascer, em todo o seu esplendor.

E nós, vamos deixar cair aquela folha, aquela que está tanto a querer desprender-se do galho?

© Isa Lisboa