Irmã-Água

Kawika Singson, Men at sea

Foto: Kawika Singson, Men at Sea

Irmã-Água

Oiço-te

Sei-te plácida a correr nos regatos

E de voz poderosa

A descer das cascatas

Como me sabes cantar

A estas facetas da minha alma

Que em mim giram

Se cruzam

Se tropeçam por vezes

Por eu não as saber entender

Ver em toda a sua plenitude.

Oiço-te harmoniosa

Chamas-me.

Porquê resistir? Não sou livre

Mas quero ser

E tu, minha irmã

Hás-de ensinar-me a ser como tu

A correr ao longo das margens

A contornar os seixos

Mas a galgá-los decidida

Quando preciso for.

Hás-de ensinar-me

A ser rio a correr para o mar

Ser água que procura água

Doce que não tem medo do sal

Sabes que se completam

Que na essência serás sempre

Tu

Água pura, livre e cristalina

Liberta-me

E assim também serei eu!

© Isa Lisboa

Pai – Vento

miguel angel recoba

Imagem: Miguel Angel Recoba

Pai-Vento

Abraça-me com a tua força

Envolve-me com a tua brisa

Percorre a minha pele

E arranca as células mortas!

Já não as quero

Preciso de lugar

Para a minha nova pele

A que meu peito inquieto

Adivinha e anseia.

Sem querer ver

Tenho calado meus ouvidos

A esse teu murmúrio

Que em todo o meu corpo

Se vem tornando grito.

De braços abertos te peço

Leva!

Leva tudo, para longe

Para os confins da Terra

Liberto-me a ti, Pai-Vento

Descalça dos meus medos

Despida de passado e de futuro

Quero agora abrir os braços

Sei que o redemoinho

Que me ofereces

Já não é a tempestade que criei

Nela só poderei voar!

© Isa Lisboa

Mãe-Terra

Amalia Iuliana Chitulescu

Foto: Amalia Iuliana Chitulescu

Mãe-Terra

Em teu regaço me rendo

Ao teu abraço entrego

O que meu peito

Não mais precisa

Liberto

Estas emoções gastas

Estas recordações dolorosas

Que sem ver

De sal forte temperei.

Deixo-as sair, uma por uma

Peço-te, Mãe Terra

Leva-as

Até às tuas profundezas desconhecidas

Banha-as no teu calor

Dessa tua forja intemporal

Nova vida hão-de renascer

Para onde as levares

Sal da vida hão-de ser.

Mãe-Terra

De peito aberto sigo

Confio que teu abraço

Continuarei a sentir

E que por mais que voe

As minhas raízes estarão em ti

Até que me acolhas

Até que seja este o meu lugar

E quando enfim

O Universo souber

A tua centelha em mim

Continuará a brilhar.

© Isa Lisboa