Parábola dos Lobos Internos

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Imagem: Autor não identificado

“Um velho índio estava a falar com o seu neto e contava-lhe:

«Sinto-me como se tivesse dois lobos a lutar no meu coração. Um é um lobo irritado, violento e negativo. O outro está cheio de amor e compaixão.»

O neto perguntou:

«Avô, diga-me: qual dois dois ganhará a luta no seu coração?»

O avô respondeu:

«Aquele que eu alimente»”

Irmão-Fogo

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Imagem: Autor não identificado

Irmão-fogo

Vem, estou pronta para ti

Sei que a dor me espera

Assim é deixar ir

Mas sei também

Que abençoada é a tua cinza

É dela que a Fénix renasce

O que outrora foi lágrima

Agora será força

Dos joelhos caídos no chão

Guardo a humildade

A mão que se estendeu

Entrego-te de vez a cicatriz

Queima-a nas tuas brasas

Incandescentes e renovadoras;

Irmão-fogo

Entrego-me ao teu poder

De braços abertos

E de peito a querer ser livre

Não mais seguro o grito

Não mais escondo a cara

Entre mãos que não são minhas.

Aqui me tens, Irmão-Fogo,

Entro em tuas chamas

De violeta me inundas

Consumirás o que está a mais

Nada sobrará

Para alem do que Sou!

© Isa Lisboa

Irmã-Água

Kawika Singson, Men at sea

Foto: Kawika Singson, Men at Sea

Irmã-Água

Oiço-te

Sei-te plácida a correr nos regatos

E de voz poderosa

A descer das cascatas

Como me sabes cantar

A estas facetas da minha alma

Que em mim giram

Se cruzam

Se tropeçam por vezes

Por eu não as saber entender

Ver em toda a sua plenitude.

Oiço-te harmoniosa

Chamas-me.

Porquê resistir? Não sou livre

Mas quero ser

E tu, minha irmã

Hás-de ensinar-me a ser como tu

A correr ao longo das margens

A contornar os seixos

Mas a galgá-los decidida

Quando preciso for.

Hás-de ensinar-me

A ser rio a correr para o mar

Ser água que procura água

Doce que não tem medo do sal

Sabes que se completam

Que na essência serás sempre

Tu

Água pura, livre e cristalina

Liberta-me

E assim também serei eu!

© Isa Lisboa

Pai – Vento

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Imagem: Miguel Angel Recoba

Pai-Vento

Abraça-me com a tua força

Envolve-me com a tua brisa

Percorre a minha pele

E arranca as células mortas!

Já não as quero

Preciso de lugar

Para a minha nova pele

A que meu peito inquieto

Adivinha e anseia.

Sem querer ver

Tenho calado meus ouvidos

A esse teu murmúrio

Que em todo o meu corpo

Se vem tornando grito.

De braços abertos te peço

Leva!

Leva tudo, para longe

Para os confins da Terra

Liberto-me a ti, Pai-Vento

Descalça dos meus medos

Despida de passado e de futuro

Quero agora abrir os braços

Sei que o redemoinho

Que me ofereces

Já não é a tempestade que criei

Nela só poderei voar!

© Isa Lisboa

Mãe-Terra

Amalia Iuliana Chitulescu

Foto: Amalia Iuliana Chitulescu

Mãe-Terra

Em teu regaço me rendo

Ao teu abraço entrego

O que meu peito

Não mais precisa

Liberto

Estas emoções gastas

Estas recordações dolorosas

Que sem ver

De sal forte temperei.

Deixo-as sair, uma por uma

Peço-te, Mãe Terra

Leva-as

Até às tuas profundezas desconhecidas

Banha-as no teu calor

Dessa tua forja intemporal

Nova vida hão-de renascer

Para onde as levares

Sal da vida hão-de ser.

Mãe-Terra

De peito aberto sigo

Confio que teu abraço

Continuarei a sentir

E que por mais que voe

As minhas raízes estarão em ti

Até que me acolhas

Até que seja este o meu lugar

E quando enfim

O Universo souber

A tua centelha em mim

Continuará a brilhar.

© Isa Lisboa

Mudar a folha

Fonte imagem: 1,000,000 Pictures

Fonte imagem: 1,000,000 Pictures

Começou à pouco tempo a Primavera – aqui neste lado do mundo – e, a pouco e pouco, os dias começam a libertar-se dos ares invernosos. Também há dias se celebrou a Páscoa católica.

Por diversos motivos, este é um momento do ano que sempre me convida à reflexão e me trás ventos de renovação.

A renovação é uma palavra que, no primeiro momento, nos parece muito bonita. Associamos-lhe uma aura de esperança, de melhorias a acontecer na nossa vida. E isso, todos queremos, portanto, facilmente abrimos o sorriso perante a palavra.

Depois, lembramo-nos de que, para que haja renovação, tem que existir também mudança. E a mudança é uma palavra mais complicada, que já assusta um pouco. Podemos pensar que não, até quando conscientemente desejamos que alguma mudança aconteça.

Mas, lá bem atrás na nossa mente, o medo sempre reage. Mais ou menos intensamente, pelo menos naquele primeiro momento. É um medo natural, que nos faz questionar se a mudança é mesmo necessária e o porquê de querermos mudar.

Mas se quisermos a mudança pelas razões certas, há que vencer esse medo. E o que por vezes vem a seguir.

O medo do desconhecido. Quero mudar, mas, e se encontrar algo pior? E o que vou perder? Sim, porque ainda que haja razões para mudar, encontramos 8quase) sempre também razões para ficar. Nem que seja o conforto do que conhecemos. Do que podemos controlar.

É um conflito que pode parecer paradoxal. E talvez até o seja. Mas é um conflito real e que todos nós, mais ou menos vezes, já sentimos. É também um conflito que precisamos assumir e encarar.

Em todas as situações “escolha” iremos, inevitavelmente, perder algo. E algumas das coisas que perderemos são boas. Muito raramente na nossa vida uma situação tem apenas aspectos maus (assim como o contrário também é verdade). Precisamos pesar. Pesar o bom que podemos perder com o bom que podemos ganhar. E o mau que podemos encontrar versus aquele que já conhecemos.

A vida é feita de escolhas e consequências. Fazer umas e assumir as outras dá-nos Força. Ainda que venhamos a perceber que, afinal, a decisão foi errada, podemos sempre recomeçar. Quem sabe nos reinventemos no processo, e a tal má decisão nos mostre um caminho inesperado, mas tão certo?

Se ouvirmos o nosso silêncio, para lá do som das dúvidas e dos medos, sabemos que assim é. E também os nossos olhos saberão ver que à frente se abre caminho.

Mas este não é um caminho fácil de percorrer. Dar o primeiro passo sem ver o fim da estrada não é fácil.

Mas não é isso que as árvores fazem na Primavera? As novas folhas começam a surgir lenta e espontaneamente, confiando que irão surgir as flores e, mais tarde, os frutos. Talvez confiem até que o frio voltará e as fará cair de novo ao chão, como as suas antepassadas.

No entanto, a natureza sabe que os ciclos não podem parar, pois só assim ela vive. Deixando-se morrer, para renascer, em todo o seu esplendor.

E nós, vamos deixar cair aquela folha, aquela que está tanto a querer desprender-se do galho?

© Isa Lisboa

Rodo a chave…

… devagar, apreciando o momento. Quando ela alivia a resistência, rodo-a de uma vez e entro, um pé a seguir ao outro, de peito aberto ao sol que entra pelas janelas e à brisa fresca que espalha boas energias à volta.

Olhando mais à frente, vejo como a vida flui lá fora, se renova e se reinventa ao sabor das estações, ao sabor do fio invisível que as conduz.

Se este espaço fosse uma casa, seria assim, gosto de pensar; sinto que sim.

Sentada no meio da sala, então viajo até 5 anos atrás. Quando nasceu o Instantâneos a preto e branco. Depois o Dias em que olho o mundo. Tantas descobertas em formas de palavras, tanto que os dois espaços me deram.

Recordo tudo com um sorriso, sei que aqueles eram os lugares das palvras de então.

As de agora pertencem aqui. A casa está quase vazia ainda. Pronta para receber e guardar os meus novos passos. Aqueles que dou na descoberta do (Eu)nigma que sou.

Num dos contos do meu primeiro livro, imaginei uma Menina de Plasticina que, um dia, se atreve a fazer uma pergunta aparentemente simples. Mas uma pergunta que acaba por se revelar enorme. E de tão grande que é, é a pergunta que todos devemos fazer, pois a resposta será o que mais nos preencherá e insuflará de vida.

A grande pergunta que se coloca é “Quem sou eu?” É uma pergunta à qual venho respondendo todos os dias, pois a cada dia que passa me completo e me reencontro de novo. Talvez na verdade sejamos todos um (Eu)nigma toda a vida. Ou talvez, antes, já tenhamos desvendado o mistério há muito, muito tempo. E apenas precisemos de lembrar.

Esta casa é apenas uma parte da minha busca e das minhas descobertas.

Querem conversar comigo? Entrem e sentem-se.

 © Isa Lisboa

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Fonte imagem: www.pixabay.com