O rio

As águas do rio correm violentas. Mas correm para a frente, não posso resistir-lhes. Não quero.

O tempo de estar sentada na margem do rio foi. Mas já não é mais. Há sempre um tempo. Um tempo para cada lugar.

As águas do rio assustam, sei que não as conseguirei controlar, talvez me atirem de uma margem à outra, ao longo do caminho. Talvez me atirem aos seixos do fundo. Mas seguirei. Estou decidida.

Vou chegar, não sei onde, o rio é que sabe. Ao mar, certamente, mas não sei a qual.

Só me interessa que poderei então provar o sal.

© Isa Lisboa

Alexey Zaycev

Imagem: Alexey Zaycev

 

Efémera

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Uma efémera nasceu (*). Espreguiçou-se e pôs-se logo a voar. Percorreu todo o céu que tinha ao dispor. Era feliz.

Aproximava-se a 24ª hora, olhou para baixo e observou os humanos: “Tantas vidas têm e andam sempre presos à terra, não voam” – pensou.

Como tinha já poucos minutos, esqueceu os homens e voou o mais alto que pôde. Até que, lentamente, e embalada pela brisa, caiu na terra, que só estava lá para acolher a despedida da efémera que foi feliz.”

© Isa Lisboa

(*) A efémera é o animal com vida mais curta no reino animal, durando, no máximo 24h.

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Publicado originalmente no blog Tubo de Ensaio: 

http://tubodeensaio-laboratorio.blogspot.pt

Orientação

Trazia sempre uma bússola consigo. No entanto, andava sempre perdido.

Um dia encontrou um livro de História. Sobre o tempo dos navegadores. De como encontravam terra usando uma bússola e seguindo as estrelas.

Então decidiu comprar um barco.

A partir daí nunca mais precisou de uma bússola para encontrar o caminho.

© Isa Lisboa

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