Mundo, o que fizeste tu?

Mundo, o que fizeste tu às tuas crianças? Devias ter-nos dado à luz, mas em vez disso pariste-nos à pressa, como se fôssemos todos iguais e devêssemos demorar todos o mesmo tempo a nascer.

Devias ter-nos amamentado, em vez de nos deixares à nossa sorte, contentados com o primeiro alimento que encontramos. Ensinaste-nos a sobreviver, é certo. A construir um barco salva vidas. Mas podíamos ter aprendido a nadar.

Atiraste-nos à vida, despreparados, sem nos teres ensinado a palavra coragem; o medo aprendemo-lo logo ao nascer. E então agarramo-nos ao galho da árvore, na margem, sem correr o risco de nos afogarmos, mas sem nunca conhecer o oceano.

E andamos tristes. Sim, Mundo, as tuas crianças andam tristes. Têm o sonho do mar, mas já nem sabem que o têm, esqueceram-no, ou preferem pensar que o esqueceram, presas à segurança, já não deixam a margem do rio.

Infelizes, com aquele seixo que lhes calhou para se sentarem, olham com inveja o seixo que está do outro lado, sem coragem para atravessar o leito. Com medo de se afogarem. E surdamente ali ficam, a afogarem-se no seu mar imaginado que se transforma em mágoas. Na sua muda infelicidade.

Mundo, que fizeste tu às tuas crianças? Ensinaste-nos a sobreviver, quando precisamos é de viver!

Crianças, que fazemos nós, que nos esquecemos do nosso querer, da nossa revolta, de lutar por ser?

© Isa Lisboa

Ettore Aldo del Vigo

Imagem: Ettore Aldo del Vigo

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