Nudez d’alma

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Jaume Plensa exhibition at the Yorkshire Sculpture Park, Tony Hisgett

As árvores de Inverno têm uma beleza especial.

Contra o frio do Inverno, as árvores mantêm-se de pé, com os galhos nus, despojados de flores, frutos e das folhas que poderiam servir de agasalho. É na estação mais fria que elas se despem de tudo, oferecendo a sua pele aos elementos. Totalmente exposta e sem protecção.

No entanto, nós, humanos, nem nos momentos de Primavera estamos muitas vezes dispostos a deixar os nossos casacos protectores. Protegemos tudo, com tudo o que podemos.

As árvores oferecem-nos a lição de que é necessário largar as folhas secas, que já serviram o seu propósito noutras estações. Se as árvores não deixassem ir as folhas secas, elas ficariam ali eternamente, e as folhas verdes que se escondem por debaixo não poderiam nunca nascer. Tão pouco haveria espaço para as flores e para os frutos. Não haveria espaço para nova vida.

Se em nós não deixarmos que os ventos, as chuvas e as outras (aparentes) intempéries levem as folhas secas, ficaremos apenas com folhas mortas a adornar-nos. Talvez nos sintamos seguros com elas. Estarão mortas, mas já as conhecemos. Ou então, apegámo-nos à história de cada uma daquelas folhas, a como as vimos crescer, a como crescemos com elas. Por vezes ainda, recusamo-nos a ver a sua cor acastanhada, recusamo-nos a ver até quando elas já começam a desfazer-se na nossa mão. Mas tal como as árvores, se folhas houver que insistam em agarrar-se, virá um vento mais forte que as levará definitivamente. Ou então, se nos agarrarmos demais a ela, acabaremos também nós por amarelecer, ficar de alma acastanhada e finalmente esboroarmo-nos nas mãos de quem poderíamos ser.

Mas se, pelo contrário, permitirmos que a vida flua em nós e através de nós, que o passado fique no passado e o futuro seja bem vindo, então teremos a oportunidade de ganhar novas folhas. De nos olharmos ao espelho e de nos reconhecermos de novo, àquele Eu feliz, forte, que luta, que sabe o que quer, alegre e de bem com a vida.

Custa largar, mas vale a pena. Pela leveza, pela alegria, por tudo o que vamos (re)descobrindo.

Despe-te das folhas secas. Dá a tua pele ao frio do Inverno. Dá medo, sim. Mas vai como medo na mesma. A Primavera espera-te do outro lado do medo.

© Isa Lisboa

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3 thoughts on “Nudez d’alma

  1. Entendi…
    Mas sempre é mais fácil falar do que executar a beleza da teoria. Pior é mantê-la!
    Difícil é aceitá-la um dia e noutro sentir falta do que nos revestia e deixamos ir.

    Deixar ir o que tinha de ir! Libertar o que te fazia mal, esquecer o que foi… Absorver o que é o agora, o já!
    Pior do hoje é o que já pouco tem, o ontem teve demais… Comparado ao que um dia foi, nada se assemelhará, mas nessas árvores onde não existe mais espaço para novas folhas, é melhor mesmo deixar ir…
    Melhor foi ter feito a escolha, sabendo de antemão que ninguém entenderia algum dia a razão, mas que hoje está claro que o caminho não poderia ser mais aquele, a estação teria de mudar, as vestes, as flores…
    Do inverno depressa chega a peimavera… Não a vejo… Mas dizem que vem lá, o verdinho, o quentinho, os verdes ramos 🙂

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  2. Entendi…
    Mas sempre é mais fácil falar do que executar a beleza da teoria. Pior é mantê-la!
    Difícil é aceitá-la um dia e noutro sentir falta do que nos revestia e deixamos ir.

    Deixar ir o que tinha de ir! Libertar o que te fazia mal, esquecer o que foi… Absorver o que é o agora, o já!
    Pior do hoje é o que já pouco tem, o ontem teve demais… Comparado ao que um dia foi, nada se assemelhará, mas nessas árvores onde não existe mais espaço para novas folhas, é melhor mesmo deixar ir…
    Melhor foi ter feito a escolha, sabendo de antemão que ninguém entenderia algum dia a razão, mas que hoje está claro que o caminho não poderia ser mais aquele, a estação teria de mudar, as vestes, as flores…
    Do inverno depressa chega a primavera… Não a vejo… Mas dizem que vem lá, o verdinho, o quentinho, os verdes ramos 🙂

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