Sessão de autógrafos 02-06-16

No dia 2 de Junho, às 21h, estarei na Feira do Livro de Lisboa, numa sessão de autógrafos. O meu livro Invernos, Sonhos e Andorinhas estará lá disponível, no stand da Chiado Editora, e poderei autografá-lo, para quem quiser.

Quem já leu, podem passar pelo stand e dizer-me o que acharam do meu livro! Terei todo o prazer em vos ouvir! 🙂

Até lá! 🙂

Sessão autógrafos Feita Livro

Árvore da Vida

Olho-te

E toco-te:

Dentro de ti

Corre a seiva

Que transporta a vida

Protegida pelos aros

Seculares

Onde se guardam

Memórias

De quem viste dançar

Ouviste cantar e rir

De vislumbre de olhos

Que, sorrindo, se amaram

Também de lágrimas, talvez

De sangue derramado

Quem sabe;

Terás visto tantas paixões

Desta humanidade

Talvez não compreendas todas

Ou as vejas até

Com mais clareza.

Aceitaste tanto a água

Como o sol

O sangue como os afagos

Todos transmutaste.

Te fizeste Vida

Imponente

Impassível à tempestade

De braços abertos ao sol

Sorrindo

Aos homens que passam

Ainda que o não saibam

Ou o não queiram

Tu sabes

O ritmo do Céu, da Terra, do Mar

Sabes que é igual ao teu

Ao meu

Ao nosso

Indivisíveis.

Abraça-me, peço-te

Embala-me, o teu braço é forte

O teu canto suave

Sabe cantar-me

Tudo o que já fui

E o que serei

E diz-me apenas:

“Sê!”

© Isa Lisboa

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A infância e a velhice são muito semelhantes

“A infância e a velhice são muito semelhantes. Em ambos os casos, por motivos diferentes, é-se bastante inerme. Ainda não – ou já não – se toma parte activa na vida e isso permite que se viva com uma sensibilidade sem esquemas, aberta. É durante a adolescência que uma couraça invisível começa a formar-se em volta do nosso corpo. Forma-se durante a adolescência e continua a engrossar durante toda a idade adulta. O processo do seu crescimento parece-se um pouco com o das pérolas, quanto maior e mais profunda é a ferida, mais forte é a couraça que se desenvolve em torno dela. 

Contudo, depois, à medida que o tempo vai passando, como um vestido que se usou durante muito tempo, essa couraça começa a gastar-se nas partes mais usadas, deixa ver a trama e, de repente, a um movimento mais brusco, rasga-se. De início não damos conta de nada, estamos convencidos de que a couraça ainda nos envolve totalmente, até que um dia, inesperadamente, por uma coisa estúpida, sem sabermos porquê, damos por nós a chorar como umas crianças.”

Susanna Tamaro, in Vai aonde te leva o coração

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Foto: Google

Barco salva vidas

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Imagem: Autor não identificado

Era hora de lançar o salva-vidas à água.

Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.

Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.

E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.

Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.

Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.

E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.

A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.

Para todos há, algures, a Terra Prometida.

© Isa Lisboa

Publicado originalmente no Instantâneos a preto e branco

E o copo?

Be Still And Know by Melanie Crawford

Imagem: Be still and know, by Melanie Crawford

Há algum tempo atrás, em conversa com uma amiga, falei do conhecido copo, aquele que uns vêm meio cheio e outros meio vazio.

De imediato, seguindo talvez o seu espírito matemático, ela atalhou a conversa, evidenciando que meio é meio, e isso basta.

Eu, que também sou matemática, sei que ela tem razão: se o copo tiver uma capacidade de 0.5l e tiver 0.25l de água dentro, então está meio. É matemático.

Mas, sugere a física quântica que o olhar do observador altera a realidade que é observada.

E todos nós temos, mais ou menos e, mais ou menos inconscientemente, a vontade de classificar aquilo que vemos. Por isso, quando olhamos para o copo meio de água, podemos concentrar a nossa atenção na metade que tem água ou na metade que tem ar – meio vazio.

Pessoalmente sempre procurei ver a metade cheia de água. Não por acreditar que sempre conseguirei encher o copo. Por vezes ele ficará sempre meio cheio apenas. Também pode acontecer que a água se evapore lentamente (especialmente quando não a aproveitamos para matar a sede). Ainda algumas vezes, havemos de derramar a água, num toque de mão impensado ou irreflectido. Não, o copo nem sempre se encherá.

Mas – é aqui que para mim reside a beleza da metáfora – se está meio, tanto pode esvaziar como encher. E poder encher é uma possibilidade que vale a pena olhar, sempre que ela existe.

Ora, se o copo está meio cheio, só me falta meio caminho para o encher. Se está meio vazio, então estou mais longe. E também estou mais perto do fundo do copo. E seja em que situação for, opto pelo caminho que mais facilmente me traga à tona para melhor respirar.

Mas não foi por isso que me recordei desta conversa. Subitamente pensei: E o copo?

O que será o copo no meio desta metáfora? Pode ser um objecto, uma situação específica da nossa vida, um momento…

Mas, e se o copo formos nós? Se o copo for eu? E se fores tu?

Eu já sei a resposta à pergunta. E tu? Estás meio cheio ou meio vazio?

© Isa Lisboa

Fio a fio

Fio a fio

Com zelo

Sabedoria intemporal

A teia nasce

De fino fio

Mas forte nó;

Fio a fio

Como se uma história

Escrevesse

Palavra a palavra

Se forma uma frase;

Fio a fio

Talvez borde delicada tapeçaria

Não para parede de reis

Faz a sua casa

Feita de si,

Fio a fio

Tece a aranha

A teia do Destino

Só dela!

© Isa Lisboa

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Foto: Josef Stuefer