
Excerto do conto “Mealheiro de sonhos”, do livro “Invernos, Sonhos e Andorinhas“

Excerto do conto “Mealheiro de sonhos”, do livro “Invernos, Sonhos e Andorinhas“
No dia 2 de Junho, às 21h, estarei na Feira do Livro de Lisboa, numa sessão de autógrafos. O meu livro Invernos, Sonhos e Andorinhas estará lá disponível, no stand da Chiado Editora, e poderei autografá-lo, para quem quiser.
Quem já leu, podem passar pelo stand e dizer-me o que acharam do meu livro! Terei todo o prazer em vos ouvir! 🙂
Até lá! 🙂

Olho-te
E toco-te:
Dentro de ti
Corre a seiva
Que transporta a vida
Protegida pelos aros
Seculares
Onde se guardam
Memórias
De quem viste dançar
Ouviste cantar e rir
De vislumbre de olhos
Que, sorrindo, se amaram
Também de lágrimas, talvez
De sangue derramado
Quem sabe;
Terás visto tantas paixões
Desta humanidade
Talvez não compreendas todas
Ou as vejas até
Com mais clareza.
Aceitaste tanto a água
Como o sol
O sangue como os afagos
Todos transmutaste.
Te fizeste Vida
Imponente
Impassível à tempestade
De braços abertos ao sol
Sorrindo
Aos homens que passam
Ainda que o não saibam
Ou o não queiram
Tu sabes
O ritmo do Céu, da Terra, do Mar
Sabes que é igual ao teu
Ao meu
Ao nosso
Indivisíveis.
Abraça-me, peço-te
Embala-me, o teu braço é forte
O teu canto suave
Sabe cantar-me
Tudo o que já fui
E o que serei
E diz-me apenas:
“Sê!”
© Isa Lisboa

“A infância e a velhice são muito semelhantes. Em ambos os casos, por motivos diferentes, é-se bastante inerme. Ainda não – ou já não – se toma parte activa na vida e isso permite que se viva com uma sensibilidade sem esquemas, aberta. É durante a adolescência que uma couraça invisível começa a formar-se em volta do nosso corpo. Forma-se durante a adolescência e continua a engrossar durante toda a idade adulta. O processo do seu crescimento parece-se um pouco com o das pérolas, quanto maior e mais profunda é a ferida, mais forte é a couraça que se desenvolve em torno dela.
Contudo, depois, à medida que o tempo vai passando, como um vestido que se usou durante muito tempo, essa couraça começa a gastar-se nas partes mais usadas, deixa ver a trama e, de repente, a um movimento mais brusco, rasga-se. De início não damos conta de nada, estamos convencidos de que a couraça ainda nos envolve totalmente, até que um dia, inesperadamente, por uma coisa estúpida, sem sabermos porquê, damos por nós a chorar como umas crianças.”
Susanna Tamaro, in Vai aonde te leva o coração

Foto: Google

Imagem: Autor não identificado
Era hora de lançar o salva-vidas à água.
Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.
Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.
E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.
Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.
Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.
E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.
A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.
Para todos há, algures, a Terra Prometida.
© Isa Lisboa
Publicado originalmente no Instantâneos a preto e branco

Foto: Autor não identificado
E calmamente
Aspiro a poeira
Essência fica
© Isa Lisboa

Imagem: Be still and know, by Melanie Crawford
Há algum tempo atrás, em conversa com uma amiga, falei do conhecido copo, aquele que uns vêm meio cheio e outros meio vazio.
De imediato, seguindo talvez o seu espírito matemático, ela atalhou a conversa, evidenciando que meio é meio, e isso basta.
Eu, que também sou matemática, sei que ela tem razão: se o copo tiver uma capacidade de 0.5l e tiver 0.25l de água dentro, então está meio. É matemático.
Mas, sugere a física quântica que o olhar do observador altera a realidade que é observada.
E todos nós temos, mais ou menos e, mais ou menos inconscientemente, a vontade de classificar aquilo que vemos. Por isso, quando olhamos para o copo meio de água, podemos concentrar a nossa atenção na metade que tem água ou na metade que tem ar – meio vazio.
Pessoalmente sempre procurei ver a metade cheia de água. Não por acreditar que sempre conseguirei encher o copo. Por vezes ele ficará sempre meio cheio apenas. Também pode acontecer que a água se evapore lentamente (especialmente quando não a aproveitamos para matar a sede). Ainda algumas vezes, havemos de derramar a água, num toque de mão impensado ou irreflectido. Não, o copo nem sempre se encherá.
Mas – é aqui que para mim reside a beleza da metáfora – se está meio, tanto pode esvaziar como encher. E poder encher é uma possibilidade que vale a pena olhar, sempre que ela existe.
Ora, se o copo está meio cheio, só me falta meio caminho para o encher. Se está meio vazio, então estou mais longe. E também estou mais perto do fundo do copo. E seja em que situação for, opto pelo caminho que mais facilmente me traga à tona para melhor respirar.
Mas não foi por isso que me recordei desta conversa. Subitamente pensei: E o copo?
O que será o copo no meio desta metáfora? Pode ser um objecto, uma situação específica da nossa vida, um momento…
Mas, e se o copo formos nós? Se o copo for eu? E se fores tu?
Eu já sei a resposta à pergunta. E tu? Estás meio cheio ou meio vazio?
© Isa Lisboa

“Só temos consciência dos receios que conseguimos resolver sozinhos quando somos tomados de assalto por novos medos.”
José Gameiro, in Até que possas voar

TERRA

FOGO

AR

ÁGUA

QUATRO ELEMENTOS
Haiku: Isa Lisboa
Desenhos: Luana Santos
Fio a fio
Com zelo
Sabedoria intemporal
A teia nasce
De fino fio
Mas forte nó;
Fio a fio
Como se uma história
Escrevesse
Palavra a palavra
Se forma uma frase;
Fio a fio
Talvez borde delicada tapeçaria
Não para parede de reis
Faz a sua casa
Feita de si,
Fio a fio
Tece a aranha
A teia do Destino
Só dela!
© Isa Lisboa

Foto: Josef Stuefer