Gigantes

Que maior gigante haverá que aquele que pequeno se vê?

Pois que maior dádiva haverá, que sabendo correr, se abrande a marcha? Se pegue nas mãos que se abrem e se levem ao longo do caminho? O caminho que já se sabe ser belo, mas que outros precisam descobrir. Que maior dádiva, que ver alguém crescer?

Quem se tendo aproximado das nuvens, se volta de novo à Terra, nela finca raízes; porque será que vem, senão para distribuir a luz que descobriu? Que maior generosidade há, que partilhar a felicidade e a glória mostrando o caminho, o caminho ao alcance de todos.

Os gigantes não cabem na terra, e por tal, pequenos nascem, para a todos mostrar como podem crescer. Na escuridão acordam, para lembrar como acender a luz e a outros mostrar a lanterna acesa.

Que maior gigante haverá, que a criança que quer crescer?

 © Isa Lisboa

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Como aturar os outros?

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Há dias pedi a uma amiga sugestões sobre temas para escrever e este foi um dos temas que surgiu. Bom, na realidade, o tema original foi “Como aturar gente que merece uma paulada na tola?”

De alguma forma subverti o tema original, mas foi por uma razão perfeitamente identificada: “Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. Mas nós achamos que nós a merecemos. E muitas vezes até a damos a nós mesmos. Mas estou a adiantar-me!

“Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. “Eles”, as pessoas difíceis de lidar, aquelas que dizem sempre que tudo o que fazemos está mal, que parecem apostadas em nos estragar o dia, ou até – já para adiantar – o mês todo. “Esses”, “eles” não merecem uma paulada na tola. Às vezes apetece fazê-lo, sim. Às vezes apetece até muito.

Mas quando percebemos de onde vem essa atitude, o ímpeto acalma.

E de onde vem? Porque será que alguém nos agride, de forma tão gratuita, tão sem razão?

Bom, eu pergunto: essas pessoas, “eles”, “os outros”, quando olham nos olhos deles, vêm felicidade? Ou será que vêm antes a tristeza e todos aqueles sentimentos que exteriorizam e projectam em “Nós”, “os outros”?

Todos temos dificuldades em lidar com a dor, a frustração, a irritação. E mais dificuldade temos em lidar com ela dentro de nós próprios. Por isso, aquilo que não conseguimos dizer a nós mesmos, ou fica guardado em nós até não poder mais ou então “entregamos” aos “outros”, a “eles”.

Já todos o fizemos, em alguma altura da nossa vida. Talvez nesta parte da leitura estejam a sentir uma enorme rejeição pelo que “ela” está a dizer. Não, nunca o fizeram!

Já sim! Talvez não da mesma forma, não com a mesma violência de que se sentem alvos. Mas já alguma vez na vida nos apeteceu dar uma forte paulada a nós próprios. E, de tão irritados que estávamos, veio aquela vontade de dar uma paulada antes na primeira pessoa que se pôs a jeito.

“Ah, mas eu controlei essa vontade!” – Ainda bem, digo eu. Muitos de nós vão a tempo de controlar essa vontade desenfreada do ego. Mas há quem não o consiga.

Não é desculpa, não é justificação, concordo. “Eles”, “os outros”, não têm culpa do que nos faz sofrer. Mas “nós”, “os outros”, também temos que ter essa consciência. Não temos culpa das dores de quem nos trata mal, por isso não a aceitemos.

Porque sempre que nos irritamos com a atitude impensada e dorida de alguém, estamos a aceitar que essa pessoa transfira um pouco da sua dor para nós. Sempre que nos sentimos ofendidos, estamos a aceitar o julgamento que alguém fez de nós. Não aceitemos o que nos faz mal, o que não queremos na nossa vida, o que não somos nós.

E não aceitar é, antes de tudo, uma atitude psicológica. Antes das palavras que possamos dizer, do gesto de nos afastarmos, é uma atitude da nossa mente.

Se a nossa mente não aceitar o que o coração não reconhece como verdade, então começaremos a não precisar dizer não, a não precisar levantar a mão em gesto de “basta”. Tudo será ouvido sem palavras.

E acredito até que, quando nos aceitarmos e perdoarmos plenamente, então já não precisaremos não aceitar. O contrário de quem somos simplesmente não existirá.

“Os outros” também não. Apenas “Nós” existiremos.

 

© Isa Lisboa

Lugares…

“A gente pensa que está em Londres, Paris, Milão…
A gente pensa que está em um carro importado.
A gente pensa que está dentro de uma mansão. 
Mas na verdade a gente está dentro de um corpo, e se nós não estivermos bem com nosso íntimo, estaremos mal em qualquer lugar.”

Chico Xavier

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Foto: Luis Beltran, via Art Pics, no Facebook

Cicatrizes

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Foto: Autor não identificado

Vivemos numa sociedade que não gosta de cicatrizes. Cicatrizes nas suas variadas formas. Físicas e emocionais.

É verdade que tanto umas como outras representam uma dor vivida, e talvez por isso nos seja tão difícil encarar essa marca – em nós e nos outros.

Mas também é verdade que as nossas cicatrizes contêm a nossa história. E ainda que ela tenha sido dolorosa, faz parte de nós. Tudo o que nos acontece vem com o intuito de nos ensinar algo ou de nos fazer crescer e experienciar o potencial da vida. Aquilo que acredito ser o sentido da vida.

Por vezes estas cicatrizes são memórias que guardámos no sótão do nosso coração, memórias dolorosas. Não vale a pena remetê-las para um baú fechado no canto mais escuro desse sótão. As memórias não se calam nem se amordaçam. Devemos antes aceitá-las como parte de quem fomos. Deixando de fugir delas e de lhes resistir, poderemos entender o que elas nos ensinaram, e em que medida nos tornaram mais fortes. Aprendida a lição e, ultrapassado o obstáculo, estamos então prontos para o que vem a seguir.

Porque algo vem a seguir. Sempre.

Há alguns anos atrás, numa feira de rua, comprei um livro em segunda mão. Ao chegar a casa, quando ia arrumá-lo, um bilhete caiu. Tinha escrita à mão, uma simples frase: “Tudo ainda está para vir.” Sentia-me numa fase de recomeço de ciclo, tinha feito algumas mudanças na minha vida. Foi, para mim e naquele momento, uma mensagem de esperança e uma indicação de que estava no caminho certo.

E, agora que tudo muda de novo, sei que estava. Percorri o caminho que precisava percorrer, para entender em pleno as minhas cicatrizes e para poder afirmar que elas são apenas uma pequena parte da história; mas que a história que se escreverá daqui para a frente será pelo meu punho, com a minha caneta. Como deve sempre ser.

E tudo continua ainda por vir.

© Isa Lisboa

Inquiridor

“Passando pelo inquiridor enquanto ele rezava, vieram o aleijado, o pedinte e o exausto. Ao avistá-los, o Santo homem embrenhou-se ainda mais nas suas orações e exclamou:

«Meu Deus, como é que um criador tão misericordioso pode ver estas coisas e mesmo assim não fazer nada?»

E vindo de um grande silêncio, Deus disse: «Fiz qualquer coisa. Fiz-te a ti.»

Autor não identificado

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Foto: Suri

Para ler de coração aberto…

Esta história foi-me enviada por uma amiga, com a nota em título: “para ler de coração aberto”. E é apenas isso que vos peço também:

“Uma vez pediram a um peixe para falar do mar.

– Fala-nos do mar – disseram-lhe.

Dizem que é muito grande o mar, respondeu o peixe. Dizem que sem ele morreríamos.  Não sou o peixe mais indicado para vos falar do mar. Eu, do mar, o que conheço bem são só estes dez metros à superfície. É só deles que vos posso falar. É aqui que passo o meu tempo, quase sempre distraído. Ando de um lado para o outro, à procura de comida ou simplesmente às voltas com o meu cardume. No meu cardume não se fala do mar. Fala-se das algas, das rochas, das marés, dos peixes grandes e perigosos, dos peixes pequenos e saborosos e de que temperatura fará amanhã. O meu cardume é assim: eles vão e eu vou atrás deles.

.- Mas tu, que és peixe, nunca sentiste o mar?

.- Creio que o sinto, às vezes, ao passar-me nas guelras. Umas vezes sinto-o, outras não. Às vezes sinto-o, quando não me distraio com outras coisas. Fecho os olhos e fico a sentir o mar. Isto tudo de noite, claro, para que os outros não vejam. Diriam que sou louco por dar tempo ao mar.

.- Conheces o mar, portanto. Podes falar-nos do mar?

Sei que é grande e profundo, mas não vos quero enganar. Sei de peixes que já desceram ao fundo do mar. Quando os ouvi falar percebi que não conheço o mar. Perguntem-lhes a eles, que vos saberão falar do mar. Eu nunca desci muito fundo. Bem, talvez uma ou duas vezes… Um dia as ondas eram tão fortes que eu tive de me deixar levar muito fundo, para não morrer. Nunca lá tinha estado e nunca esquecerei que lá estive. Apenas vos sei falar bem da superfície do mar…

– Foi mau, quando desceste? Por que voltaste à superfície?

Não foi mau. Foi muito bom. Havia muita paz, muito silêncio. Era como se fosse lá a minha casa, como se ali eu estivesse inteiro.

– Por que não voltaste lá ao fundo? Por preguiça?

Às vezes acho que é preguiça, outras vezes acho que é medo.

– Medo? Mas tu não disseste que era bom? Medo de quê?

Medo do desconhecido, medo de me perder. Aqui à superfície já estou habituado. Adquiri um certo estatuto para mim mesmo. Controlo as coisas ou, pelo menos, tenho a sensação de as controlar. Lá em baixo não sei bem o que me pode acontecer. Estou todo nas mãos do mar.

– Tiveste medo, quando chegaste ao fundo do mar?

Não tive medo algum. Era tudo muito simples… E no entanto agora tenho medo… Mas eu não cheguei ao fundo do mar! Apenas estive menos à superfície.

– E que dizem os outros, os que lá estiveram?

Dizem coisas que eu não entendo. Dizem que é preciso ir para perceber. E dizem que nada há de mais importante na vida de um peixe.

– E explicaram como se vai?

Aí é que está. Explicam que não se chega lá por esforço, que só podemos fazer esforço em deixar-nos ir. Que é só o mar que nos leva ao mar.

Então veio uma corrente mais forte que o fazia descer. O peixe tentou lutar contra ela com quantas forças tinha, à medida que vida distanciarem-se as coisas da superfície. Talvez para sempre… Mas depois fechou os olhos, confiou e já sem medo deixou-se ir.”

in “O Principe e a Lavadeira”

Pe. Nuno Tovar de Lemos

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Decisões, ah, as decisões!

Decisões: são tão difíceis de tomar, não é?

São difíceis de tomar porque, de uma forma geral, implicam uma escolha. E quando escolhemos virar à direita em vez de à esquerda, sabemos que não escolhemos apenas o que vamos encontrar no caminho da direita. Também escolhemos abdicar do que poderíamos encontrar à esquerda.

E é quando pensamos demasiado nisso que a dúvida entra e começa a instalar-se; segredando-nos razões para a direita num ouvido e razões para a esquerda noutro.

Em ambos os ouvidos fica a ideia de algo que pode ser perdido. E a verdade é que a ideia de perder algo sempre nos causa – no mínimo – um certo desconforto.

Não está errado. A verdade é que ninguém gosta de perder – nem a feijões, como se diz. Mas em certas circunstâncias temos que aceitar que a perda é necessária e o melhor para nós, em muitas (se não todas) as situações. Neste caso, do outro lado da perda está o troféu com o que temos a ganhar com a escolha feita.

É verdade que podemos ter feito antes más escolhas e, portanto, ao ter que tomar uma nova decisão, é o medo que agora se instala. E se fizermos tudo de novo?

Poderá ter sido errado no passado, mas teve certamente um efeito; o de nos ensinar algo. Algo que nos tornou diferentes. A cada lição aprendida tornamo-nos mais aptos e mais fortes. Por isso, quem decidiu ontem, já não caminha hoje com as mesmas botas e, mesmo que o Caminho pareça igual, não o é. A pedra já antes levantada com sucesso, não será agora obstáculo, e a poeira já sacudida, atrás ficou.

Ainda que o caminho pareça igual, descobriremos que não é mais do que uma oportunidade de, com as pernas ora mais fortes, desta vez sermos nós a fazer o Caminho e a traçar o trilho.

Ainda assim, sabendo tudo isto, a questão continuará a existir: “O que decidir?”.

Acredito que há uma parte de nós que sabe sempre a resposta: o nosso coração!

Sentir o que ele nos diz abrirá todas as portas certas. Sejam elas apenas duas ou mais, o coração pergunta: “O que te realizaria mais? O que vai de encontro ao que sentes ser a tua missão?”

Nunca nos esqueçamos de focar no que alimenta a nossa alma. Isso levar-nos-á ao caminho certo.

Foi isto que o meu coração disse.

 © Isa Lisboa

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Foto: http://www.pixabay.com

A infância e a velhice são muito semelhantes

“A infância e a velhice são muito semelhantes. Em ambos os casos, por motivos diferentes, é-se bastante inerme. Ainda não – ou já não – se toma parte activa na vida e isso permite que se viva com uma sensibilidade sem esquemas, aberta. É durante a adolescência que uma couraça invisível começa a formar-se em volta do nosso corpo. Forma-se durante a adolescência e continua a engrossar durante toda a idade adulta. O processo do seu crescimento parece-se um pouco com o das pérolas, quanto maior e mais profunda é a ferida, mais forte é a couraça que se desenvolve em torno dela. 

Contudo, depois, à medida que o tempo vai passando, como um vestido que se usou durante muito tempo, essa couraça começa a gastar-se nas partes mais usadas, deixa ver a trama e, de repente, a um movimento mais brusco, rasga-se. De início não damos conta de nada, estamos convencidos de que a couraça ainda nos envolve totalmente, até que um dia, inesperadamente, por uma coisa estúpida, sem sabermos porquê, damos por nós a chorar como umas crianças.”

Susanna Tamaro, in Vai aonde te leva o coração

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Foto: Google

Barco salva vidas

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Imagem: Autor não identificado

Era hora de lançar o salva-vidas à água.

Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.

Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.

E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.

Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.

Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.

E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.

A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.

Para todos há, algures, a Terra Prometida.

© Isa Lisboa

Publicado originalmente no Instantâneos a preto e branco