
Há dias pedi a uma amiga sugestões sobre temas para escrever e este foi um dos temas que surgiu. Bom, na realidade, o tema original foi “Como aturar gente que merece uma paulada na tola?”
De alguma forma subverti o tema original, mas foi por uma razão perfeitamente identificada: “Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. Mas nós achamos que nós a merecemos. E muitas vezes até a damos a nós mesmos. Mas estou a adiantar-me!
“Eles”, “os outros”, não merecem uma paulada na tola. “Eles”, as pessoas difíceis de lidar, aquelas que dizem sempre que tudo o que fazemos está mal, que parecem apostadas em nos estragar o dia, ou até – já para adiantar – o mês todo. “Esses”, “eles” não merecem uma paulada na tola. Às vezes apetece fazê-lo, sim. Às vezes apetece até muito.
Mas quando percebemos de onde vem essa atitude, o ímpeto acalma.
E de onde vem? Porque será que alguém nos agride, de forma tão gratuita, tão sem razão?
Bom, eu pergunto: essas pessoas, “eles”, “os outros”, quando olham nos olhos deles, vêm felicidade? Ou será que vêm antes a tristeza e todos aqueles sentimentos que exteriorizam e projectam em “Nós”, “os outros”?
Todos temos dificuldades em lidar com a dor, a frustração, a irritação. E mais dificuldade temos em lidar com ela dentro de nós próprios. Por isso, aquilo que não conseguimos dizer a nós mesmos, ou fica guardado em nós até não poder mais ou então “entregamos” aos “outros”, a “eles”.
Já todos o fizemos, em alguma altura da nossa vida. Talvez nesta parte da leitura estejam a sentir uma enorme rejeição pelo que “ela” está a dizer. Não, nunca o fizeram!
Já sim! Talvez não da mesma forma, não com a mesma violência de que se sentem alvos. Mas já alguma vez na vida nos apeteceu dar uma forte paulada a nós próprios. E, de tão irritados que estávamos, veio aquela vontade de dar uma paulada antes na primeira pessoa que se pôs a jeito.
“Ah, mas eu controlei essa vontade!” – Ainda bem, digo eu. Muitos de nós vão a tempo de controlar essa vontade desenfreada do ego. Mas há quem não o consiga.
Não é desculpa, não é justificação, concordo. “Eles”, “os outros”, não têm culpa do que nos faz sofrer. Mas “nós”, “os outros”, também temos que ter essa consciência. Não temos culpa das dores de quem nos trata mal, por isso não a aceitemos.
Porque sempre que nos irritamos com a atitude impensada e dorida de alguém, estamos a aceitar que essa pessoa transfira um pouco da sua dor para nós. Sempre que nos sentimos ofendidos, estamos a aceitar o julgamento que alguém fez de nós. Não aceitemos o que nos faz mal, o que não queremos na nossa vida, o que não somos nós.
E não aceitar é, antes de tudo, uma atitude psicológica. Antes das palavras que possamos dizer, do gesto de nos afastarmos, é uma atitude da nossa mente.
Se a nossa mente não aceitar o que o coração não reconhece como verdade, então começaremos a não precisar dizer não, a não precisar levantar a mão em gesto de “basta”. Tudo será ouvido sem palavras.
E acredito até que, quando nos aceitarmos e perdoarmos plenamente, então já não precisaremos não aceitar. O contrário de quem somos simplesmente não existirá.
“Os outros” também não. Apenas “Nós” existiremos.
© Isa Lisboa