Conto sem nome

Uma cara de idade indefinida saudou-me. Os seus olhos pareciam indolentes pela inexpressividade. Uma ruga despontava na testa, levando a supor ser um homem de meia idade. Pálpebras encovadas, mas de cansaço, pareceu-me. Sim, eram olheiras de uma noite mal dormida. Ou talvez de uma vida mal dormida, ocorreu-me. A cabeleira farta caía sobre a testa, também ela lhe parecendo exausta, assim, ali. Reparando nesses cabelos desavindos, puxou-os para o lado. Preguiçosos, não queriam ir. À segunda tentativa, desistiu de se ajeitar. Parecia que tanto fazia.
Estranhei esta atitude. Andava a antecipar este encontro já há alguns dias. Esperava um homem enérgico, talvez com algum distanciamento, mas não com esta indiferença. À sua maneira, construíra um pequeno império. O seu nome era conhecido por toda a cidade. As empresas em que participava e fizera crescer, eram mais do que se imaginava. Um polvo no mundo empresarial daquela cidade do interior.
Normalmente discreto, não gostava de dar entrevistas. Fora uma surpresa enorme quando o chefe lhe entregara aquele trabalho.
“Foi o Presidente da Câmara que me convenceu. Ele acha que esta entrevista será boa para divulgar a cidade.” – Disse o empresário, como que respondendo-lhe. – “Não tenho jeito para isto, só sou bom com números!”
Fazendo uma pausa, acrescentou: “E também não tenho muito tempo!”
Ali estava, afinal, o feitio pelo qual era conhecido.
Endireitei-me e respondi: “Claro, não lhe tomo muito tempo!”
Agarrei-me ao meu bloco de notas e sentei-me na cadeira que me indicou.
“Em primeiro lugar, agradecemos muito a sua disponibilidade para esta entrevista.”
Levantou-me o sobrolho e tamborilou os dedos no tampo da mesa.
“Certo” – pensei eu – “Vamos direto ao assunto!”
Fui percorrendo cada uma das perguntas que tinha preparado e tirei notas com a mesma precisão clínica com que me eram respondidas.
Cheguei àquela parte do meu bloco de notas marcada com um ponto de interrogação. Enquanto preparava a entrevista, fiquei com dúvidas sobre se devia fazer aquelas perguntas. E agora tinha ainda mais.
“É tudo?” – Cortou.
Engoli em seco, respirei fundo e pus o meu melhor sorriso. “Só mais duas perguntinhas.”
Ficou calado, aguardando.
“Gostaria de saber o que o levou a escolher o curso de gestão quando foi para a faculdade. Esperava nessa altura construir tudo o que construiu?”
De novo o sobrolho levantado. De novo, o meu melhor sorriso, a tentar ser encorajadora.
“Era um curso com boas saídas, e era um trabalho digno, foi uma escolha óbvia. Claro que na altura não imaginava ainda onde podia chegar, mas imaginei que podia fazer muitas coisas. E parece ter sido um bom investimento, de facto.”
Esta resposta quase respondia à minha última pergunta. Mesmo assim, arrisquei:
“E qual era o seu sonho de criança? Ser bombeiro, piloto de aviões?”
A sua expressão ficou parada e o meu coração também parou, com a possibilidade de ter estragado a entrevista naquele momento.
Olhou para o lado, respirou fundo.
“Nessa altura, eu queria ser pintor. Gostava muito de desenhar o que via. E dar até formas diferentes à realidade. Cheguei a pintar algumas telas!”
“E essas telas ainda existem?” – Arrisquei de novo.
“Talvez, no sótão dos meus pais!”
“E porque parou? Talvez pudesse ter mantido essa paixão como hobby…”
“Porque a paixão não cabe na realidade. Não se mede. Não vale a pena inventar, no final das contas, o que podemos descrever vale sempre mais!”
Pareceu ir até outro mundo enquanto dizia estas palavras, mas voltou a si. Olhou para o relógio e perguntou: “Creio que já terminámos as suas duas perguntas!”
Vi que tinha perdido o momento e acenei. Agradeci mais uma vez a entrevista e preparei-me para ir embora.
Fez-me sinal para esperar. “Estas duas últimas perguntas não farão parte da entrevista! Off the record, é como dizem?”
“Claro, se assim o deseja.”
Ia insistir, mas a sua expressão retornara à do início da entrevista.
Parecia que, por um momento, tinha voltado a ser menino. Mas o adulto voltara. Voltara o adulto cansado. Cansado de uma vida inteira.
Agora tenho a certeza que era isso.

 

© Isa Lisboa

 

Foto: pixabay.com

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