Phobia

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Cobras, serpentes, jibóias. Tinha pavor desses bichos horripilantes. Nunca tinha estado frente a frente com um desses bichos. Mas aquelas imagens eram suficientes.

Bichos sem pernas, sem braços, por ali a rastejar, a arrastar a terra, as folhas mortas. Escondem-se entre os arbustos e aparecem tão repentinamente como desapareceram. Deixam só as marcas ondulantes na terra batida. E talvez uma ferida numa perna incauta.

Não, ainda bem que nunca se tinha cruzado com um daqueles bichos!

E havia quem os mantivesse como animais de estimação! Que horror!

Nunca se tinha cruzado com um deles. E não tinha vontade nenhuma de o fazer.

Mas desde que lhe entregaram os bilhetes, que não conseguia dormir decentemente. Mesmo na noite anterior, acordara tantas vezes durante a noite, que perdera a conta.

E agora, via cobras em todo o lado. Tatuada no braço do vizinho, na t-shirt do miúdo a passear no parque, no anúncio outdoor ao fundo da rua.
Cobras, cobras, cobras!

Já estava a antecipar, imaginou vezes sem conta se conseguia fugir. Se conseguiria ser rápida o suficiente. E se pisasse uma sem querer? E se ela se enrolasse à perna e não quisesse sair?

Asseguravam-lhe que estava segura, que as cobras andavam na sua vida, longe dos humanos.

Mas toda a gente sabe que no campo há cobras. Escondidas, mas estão lá.

Falta um dia e tem que ir fazer a mala.

Roupa, pijama, pasta de dentes, escova de cabelo, sapatos. Repelente? Será que resulta? Não, isso é para insetos.

Calças de ganga. Das mais grossas que há no armário. Botas. Sempre hão-de proteger melhor.

Não há volta a dar. Tem que ir. Fecha a mala, coloca-a perto da porta. Para se lembrar que tem que ir.

Veste o pijama e tenta dormir. Contar carneiros, talvez ajude. Puxa o cobertor até às orelhas e enrola-se sobre si mesma. Fecha os olhos, precisa de dormir, pede que o sonho venha.

Acorda entremunhada. A princípio não percebe que som é aquele. É o despertador. Parece que afinal adormeceu logo. Ainda bem, ao menos recuperou energia.

Levanta-se e dirige-se ao chuveiro. Um duche tem sempre o poder de a despertar e. ao mesmo tempo, relaxar.

Já vestida, pega na mala e puxa-a para a rua. Ainda bem que tem rodinhas, assim parece-lhe menos pesada.

O João já lhe ligou, estão à espera dela.

A coragem ainda quis faltar-lhe, mas aquele telefonema lembrou-a de que tinha que ir. Estavam à espera dela, e, se ela se atrasasse, todos perdiam a viagem.

A culpa era dela. Nunca falara aos amigos daquele medo. Como podiam eles adivinhar o que aquele presente de aniversário significava para ela? “Uma oportunidade para enfrentares o teu medo.” – sussurrou-lhe uma vozinha.

Oportunidade ou não, agora não importava. Ali estavam eles, os seus amigos. Todos sorridentes, cheios de energia e prontos para a viagem. A Carolina também tinha calçado botas pesadas. Estavam ambas preparadas para dar passos largos na caminhada. A viagem decorreu cheia de risadas, como era habitual com aquele grupo.

Só quando chegaram à estrada da casa que alugaram, se lembrou das cobras. Os arbustos na entrada pareciam ser um esconderijo prometedor.

À espera deles estava o caseiro, com as chaves da casa e as instruções sobre como aproveitarem a semana. Havia vários sítios onde podia ir e várias atividades que podiam fazer.

Toda a gente estava entusiasmada e todos tinham imensas perguntas. Mas ela só tinha uma: “Há cobras?”

Engoliu a pergunta, mas quando o caseiro saiu, foi atrás dele. Puxou-lhe pela manga e fez a pergunta, temendo a resposta: “Há, sim, há por aí algumas”. Sorriu. “Mas não se preocupe, menina, elas têm mais medo de si, do que a menina delas.”

Aquela frase pareceu-lhe irreal, como podia ser? Perguntou antes: “E como sei que há uma por perto?”

“Ouve-se o som dela a fugir pelo chão, não se preocupe!”

E, com o mesmo sorriso, o caseiro foi embora.

Voltou para casa. Como estavam todos cansados da viagem, estavam já todos a escolher as camas. Seria mais uma noite sem dormir?

Conseguiu dormir, mas dos sonhos, não se livrou. Cobras a rastejar e a aparecer inesperadamente.

Bem, pelo menos se encontrasse alguma, não estaria sozinha. Iam sair todos em grupo, alguém chamaria ajuda, caso ela fosse atacada.

Saiu com este estado de espírito, mas voltou relaxada. O dia tinha sido mesmo bom. E nem vestígios de cobras. E, sem encontros inesperados, foi como a semana decorreu.

Na manhã da partida, saiu para apanhar um pouco de sol e da brisa matinal. Aquela semana tinha sido mesmo muito boa. Havia de ali voltar.

E foi no meio daqueles pensamentos que ouviu um som. Um arrastar. Crshh, crshhhh.

Levantou-se, sobressaltada e olhou à volta. Lá estava ela: uma cobra. Sem pernas, sem braços, a arrastar-se, a ondular-se pelo chão, a arrastar as folhas, a levantar poeira. Uma cobra!

Abriu a boca para gritar e nessa altura, a cobra olhou para ela. O grito ficou preso, com o terror.

Mas esvaiu-se, ao ver a velocidade com que a cobra rastejou dali para fora, para longe dela.

Deitou fora o ar que estava a conter, e olhou à volta, a certyificar-se. Nem sinal da cobra.

Afinal, o caseiro tinha razão.

© Isa Lisboa

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